Vento e Ar

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entre Mar E Sombra a Delícia

Entre mar e sombra a delícia
de um vento que abre um espaço original.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ei-La Despida Ou

Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada

A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde

O vento é a inteligência libertada

E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Superfície da Água Móvel

A superfície da água móvel
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca

O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
1 054
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Ar

O ar

um sulco

os dedos

o círculo de água     ou cal
1 038
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Vento Sopra Sobre As Ervas

O vento sopra sobre as ervas

e os cabelos

sopra

sobre as ervas

as árvores     os cabelos
1 036
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Movimento do Repouso

O movimento do repouso
a trama do sol sem figura
o vento ou o sol
ou talvez
o sopro do sol
um sopro quente perdido
tão rápido no silêncio sob as árvores
1 105
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Água E o Vento

A água e o vento

palavras vivas

a água     o vento
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Ar Passa

O ar                 passa

a t r a v é s d a s p a l a v r a s
496
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

É Quase Um Rosto

É quase     um rosto

no vento

é o rosto no vento
497
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Sombra do Vento

A sombra do vento

a sombra e o vento

para respirar

no vento     na sombra
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Tronco a Corda Branca

O tronco     a corda branca

e alta

na boca

ao vento
1 011
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Raízes do Sono

As raízes do sono

e da terra

sob o vento do sono
1 151
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nudez de Frase

Nudez de frase

branca

na cor do vento
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Suporte Livre Inicial

O suporte livre inicial
no avanço imediato no silêncio do ar
aqui e mais à frente ainda sempre
o excesso novo de cada vez ser ar
no extremo do corpo e no limite insondável
o caminho e uma pergunta a que responde o ar
o avanço e um regresso às origens da língua
a língua toda ela língua de ar
1 036
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Abandono Límpido Sem Sinais

No abandono límpido sem sinais
só com o ar no ar
antes ainda que a palavra diga o ar
para olhar de frente essa força branca
de um vasto silêncio na distância
num puro assombro de plenitude alegre
no abrir inteiro do olhar do ar
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Com a Cabeça Vibrante Ao Largo

Com a cabeça vibrante ao largo
com a cabeça tocando os limites largos
com o vento soprando no vazio da cabeça
com a língua ávida respirando o sol do ar
antes ainda do depois
aqui na avidez perene do ar do mar
o eterno efémero a respirar
sem mais com todo o mais
sulcado todo pelo ar
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sol de Inverno

Os joelhos gelam ao vento alto das ervas.
Caminho soprado, sôfrego, a boca rasa.
Nós agudos, montanha viva, acesa face.
Estrito o sol se apura a fio.
Pedras com sabor de terra nua.
O caminho arrefece já sob as sombras.
Sede de vento alto que se desfaz.
Límpido e frio, a nula fronte do ar me investe.
1 009
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sunion

Na nudez da luz (cujo exterior é o interior)
Na nudez do vento (que a si próprio se rodeia)
Na nudez marinha (duplicada pelo sal)

Uma a uma são ditas as colunas de Sunion
2 327
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Divaga Entre a Folhagem Perfumada

Divaga entre a folhagem perfumada
E adormece nas brisas embalada.

Aos lagos mostra a sua face nua,
E vai dançar nos palcos vazios da Lua.

Pálida, de reflexo em reflexo desliza,
Não se curvam sequer as ervas que ela pisa.

É ela quem baloiça os lânguidos pinheiros,
Quem enrola em luar as suas mãos
E depois as espalha brancas nos canteiros.
1 862
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Deixa passar o vento

Deixa passar o vento
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…

Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.
1 631
Xue Tao

Xue Tao

Lavadas em orvalho notas puras

Lavadas em orvalho notas puras
levadas pelo vento folhas juntas
somam chilro mais chilro em uníssono
e cada qual a um galho solitária
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Paulo Leminski

Paulo Leminski

Haicai

a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença

3 109
Cândido Rolim

Cândido Rolim

Minúcia

o vento
arranca sussurros da erva

livre de sombra
e ritmo
a gota
cárcere de luz
parte-se ao meio

1 008
Roberto Saito

Roberto Saito

Outono

Milharal ao vento.
E súbito um seco estalo —
milhares de pássaros.

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