Trabalho e Profissão

Poemas neste tema

Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

5 602543 0300515

Por mim, pagava-lhe a água
e a sandes (duvidosa, como
tudo o que aqui se faz). Mas não
posso ser despedida agora.
Ao dar-me o dinheiro, quase
pede desculpa dessa vida também
em forma de navalha romba.
até, de certeza, amanhã – pois
nem a morte quer ir com a nossa cara
963
José Paulo Paes

José Paulo Paes

Epitáfio para um banqueiro

negócio
ego
ócio
cio
0
1 031
José Paulo Paes

José Paulo Paes

À TINTA DE ESCREVER

Ao teu azul fidalgo mortifica
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhos
583
Charles Bukowski

Charles Bukowski

8 de Contagem

da minha cama
observo
3 passarinhos
sobre o fio do
telefone.
um deles
voa.
depois mais
outro.
resta um,
que
logo também
se vai.
minha máquina de escrever está
imóvel como uma
lápide.
e estou
reduzido a um observador de
pássaros.
apenas para
mantê-lo
informado,
otário.
968
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sem Bobagem

Faulkner adorava seu uísque
e com o uísque mais a
escrita
ele não tinha
tempo
para grande coisa além
disso.

ele não abria
a maioria de suas
cartas

só as levantava
contra a luz

e se não houvesse
dentro um
cheque

ele as jogava no
lixo.
1 040
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Cuidando de comida

Na sala de cima
meu marido escreve.
Embaixo
na cozinha
faço tinir as louças.
Ponho-me em seu lugar
ouvindo sem ouvir
este bater de prato
contra prato
acalanto que encobre o ronronar macio
do laptop.
Ponho-me em meu lugar
nesta cozinha
e escorro
e enxugo
e pico sobre a tábua
palavras e verduras
com que depois
à mesa
darei comida
à alma.
1 107
Marina Colasanti

Marina Colasanti

A todos igualmente

Aquele homem tinha um zoológico
no armário.
Um dia
no almoço
trouxe elefantes no peito
até a cintura,
no outro
girafas rodeavam-lhe o pescoço.
Houve joaninhas
gatos e macacos.
A todos ignorava
embora os escolhesse
com cuidado.
E sem olhar-lhes pelo
ou pena
sem deter-se em seus nomes
a todos igualmente chamava
gravatas.
1 058
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Sera d'estate a Roma

Accanto a Palazzo Altemps
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,
e con gli stessi occhiali tondi
che appaiono in tanti quadri.
La luna
il montone
e il leone
antichi come le lische del pesce
osservano sopra al frontone.
1 220
José Saramago

José Saramago

Sancho

Capaz de medos, sim, mas não de assombros.
Para assombros outra alma se precisa
Mais nua e desarmada.
Mas dessa bruta mão cai a semente
Que a teu amo sustenta, e sem o pão,
Até assombro é nada.
925
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Torso

Torcendo o torso virava o volante da escavadora
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas

Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo

Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
1 190
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Esteira E Cesto

No entrançar de cestos ou de esteira
Há um saber que vive e não desterra
Como se o tecedor a si próprio se tecesse
E não entrançasse unicamente esteira e cesto

Mas seu humano casamento com a terra
1 155
Adélia Prado

Adélia Prado

A Diva

Vamos ao teatro, Maria José?
Quem me dera,
desmanchei em rosca quinze quilos de farinha,
tou podre. Outro dia a gente vamos.
Falou meio triste, culpada,
e um pouco alegre por recusar com orgulho.
TEATRO! Disse no espelho.
TEATRO! Mais alto, desgrenhada.
TEATRO! E os cacos voaram
sem nenhum aplauso.
Perfeita.
2 656
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Sinal de Apito

Um silvo breve: Atenção, siga.
Dois silvos breves: Pare.
Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna.
Um silvo longo: Diminua a marcha.
Um silvo longo e breve: Motoristas a postos.

(A este sinal todos os motoristas tomam
lugar nos seus veículos para movimentá-los
imediatamente.)
2 862
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Escravo Em Papelópolis

Ó burocratas!
Que ódio vos tenho, e se fosse apenas ódio...
É ainda o sentimento
da vida que perdi sendo um dos vossos.
1 187
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Rancho

Carga
e cangalhas
dormem solidariamente com os tropeiros.

Homens arreios mercadorias
não se distinguem uns dos outros, confluídos
no bloco noturno sem estrelas:
viagem dormindo.
1 127
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ferreiro

Filho do ferro e da fagulha
fulgurando na forja formidável
o seu fole afrouxou e sua força
em face do fiscal e da folhinha
de papel.
1 488
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Abismo

Tenho o coração a cair sobre os cadáveres dos maus e dos vadios. O meu abismo ilumina uma explosão de trabalho humano.



Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", pág. 347 (texto que encerra o livro) | Quetzal Editores, 1999

971
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fazes renda de manhã

Fazes renda de manhã
E fazes renda ao serão.
Se não fazes senão renda,
Que fazes do coração?
2 367
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lavadeira a bater roupa

Lavadeira a bater roupa
Na pedra que está na água,
Achas a minha mágoa pouca?
É muito tudo o que é mágoa.
1 449
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, quem me dera ser desempregado!

Ah, quem me dera ser desempregado!
Não ter que fazer a valer, mas de dentro!
Ter (...)
1 547
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cuidas tu, louro Flacco, que cansando [2]

In Flaccum

Cuidas tu, louro Flacco, que cansando
Os teus estéreis trabalhosos dias
        Darás mais sorrisos ao campo
E serão mais altos os peitos de Ceres
Põe mais vista em notares que tens flores
        No teu jardim (...)
1 235
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

WORK

Thou wast not put on earth to ask
If there be God, or life or death.
Seize then thy tools and to thy task
And give to toil each panting breath.

Thy tools thou hast, nor needst to seek
Thy health or faith or useful art,
The strength to toil, the power to speak,
A mighty mind or kindly heart.
1 204
Leónidas Lamborghini

Leónidas Lamborghini

O sabotador arrependido

No meu rosto está escrita a aceita
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita

Eu era o braço direito agora não sou nada

Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.

739
Nelson Ascher

Nelson Ascher

No Centenário da Av Paulista

Enquanto após o rush,
na happy hour, o stress
das horas de brain storming
dissolve-se on the rocks,
estende-se, através
das fendas da camada
de ozônio, a contra-céu,
um arco-íris negro.


In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p. 33
994