Sucesso e Fracasso

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Poema Perdido

Porque eu trazia rios de frescura
E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão

E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão.
1 276
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Príncipe Bastardo

O príncipe bastardo António Prior do Crato
Morreu no exílio não conquistou seu reino
E aqueles que invocou não o coroaram

Entre ele e seu destino havia um outro
Perdido em batalha tão confusa
Que ninguém sabe se está vivo ou morto
984
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Projecto Ii

Esta foi sua empresa: reencontrar o limpo
Do dia primordial. Reencontrar a inteireza
Reencontrar o acordo livre e justo
E recomeçar cada coisa a partir do princípio

Em sua empresa falharam e o relato
De sua errância erros e derrotas
De seus desencontros e desencontradas lutas
É moroso e confuso

Porém restam
Do quebrado projecto de sua empresa em ruína
Canto e pranto clamor palavras harpas
Que de geração em geração ecoam
Em contínua memória de um projecto
Que sem cessar de novo tentaremos
1 020
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Sacrifício

— Otávio, Otávio, que negócio é este?
Vadias ano inteiro e te despedes
com o peito faiscando de medalhas.

— É, troquei-as por bombas e brioches
semana após semana, mês a mês,
e muito me custou esta grandeza.
Passei fome… e alimento-me de glória.
1 102
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Estela Funerária

Era um rapaz sem vocação para o caminho,
um arco sem arqueiro.
Chama-se Elpenor.

Mais do que a palavra preocupava-o a lama
na sandália do poeta,
a mancha no tapete.

Movia-o a coragem de estar só,
divisão dos que celebram
o massacre da esperança.

Caiu a sua casa, vendeu as suas veias,
partiu para o desastre,
chegou à nossa frente.
994
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não há verdade na vida

Não há verdade na vida
Que se não diga a mentir.
Há quem apresse a subida
Para descer a sorrir.
1 767
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MOMENTS - I

I

The hen said «I can fly».
        Do you know why?
Over a fence she flew.

The eagle said «Can I fly?»
        Can you tell why?
Unto the stars she could not go.
1 223
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MEANINGLESS LlNES

I became good, and was despised.
I became bad; I hated was.
If good or bad I was not prized,
In good or evil, equal loss.

I became bad and good by turns,
And thus did but unite two ills.
The spleen that now within me burns
Therefrom, nor good nor evil stills.
1 300
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SAUDAÇÃO [d]

SAUDAÇÃO

A minha universalite —
A ânsia vaga, a alegria absurda, a dor indecifrável
Síndroma da doença da Incongruência Final.

Curso do êmbolo do dinamismo abstracto
Do vácuo dinâmico do mundo!

A minha aspiração consubstanciada com fórmulas
Matemática de mim falido
1 331
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Outrora

Outrora
No crepúsculo do Império,
Eu, Julião o Apóstata, mandei
Os templos dos meus Deuses reerguer.
Não é era minha a Hora.
Tua era, ó Cristo, e (…)
1 996
Yu Xuanji

Yu Xuanji

Olhando-os jogar polo

Desliza a bola, um cometa, macia roda
Batem-se os tacos, luas crescentes às pontas
Correm os homens, atiram-se uns contra os outros
Vejo-os por trás; do cercado, jogo meu olho
À frente a bola salta-lhes, cortam-se em círculos
Como se nem desejassem marcar, parecem
Mas iniciado este jogo, irão até o fim
E vença o melhor: a este, espera uma prenda
997
Abul ʿAla Al-Maʿarri

Abul ʿAla Al-Maʿarri

teus sonhos de grande empresa

Vãos, teus sonhos de grande empresa,
De forma vã, tu velejas espaços novos,
Vão, ancorar nesse mundo só de rostos
Se é outro fim que o mundo te reserva.

595
Paulo Leminski

Paulo Leminski

a gente ia ser homero

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores

3 668
Leónidas Lamborghini

Leónidas Lamborghini

O sabotador arrependido

No meu rosto está escrita a aceita
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita

Eu era o braço direito agora não sou nada

Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.

739
Donizete Galvão

Donizete Galvão

Fachada

Logo vai terminar o prazo
para o homem construir sua fachada.
Ele continua em andaimes.
Provisório.
Exibe máscaras cambiantes.
Sua face inconclusa,
sustentada por ferragens,
parece esconder que,
em todos esses anos de obra,
ergueram-se inúteis plataformas
para edificar um escombro.
1 483
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quarta: D. JOÃO, INFANTE DE PORTUGAL

Não fui alguém. Minha alma estava estreita
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;

Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
O todo, ou o seu nada.

5 408
Paulo Leminski

Paulo Leminski

quatro dias sem te ver

quatro dias sem te ver
e não mudaste nada

falta açúcar na limonada

me perdi da minha namorada

nadei nadei e não dei em nada

sempre o mesmo poeta de bosta
perdendo tempo com a humanidade

3 087
Paulo Leminski

Paulo Leminski

quero a vitória

quero a vitória
do time de várzea

valente
covarde

a derrota
do campeão

5 X 0
em seu próprio chão

circo
dentro
do pão

2 272
Alfonsina Storni

Alfonsina Storni

Sabeis algo

Subi, subi, subi. Já estava bem em cima
quando senti um murmuro, era desafio, diatribe?
Escutei: gargalhadas, ironias, insultos.
o que vos pareço uma símia? Oh meus bons estultos:
sabeis de coisas belas?
Eu, fazem séculos que vivo trança que trança estrelas.

1 069
Hugo Pires

Hugo Pires

Milénio

Por dois mil calhaus subi,
Tropeçando nas suas arestas áridas.

Dois mil socalcos escavei,
Rasgando a terra com as minhas mãos.

Duas mil videiras plantei,
Regando seus pés com a minha esperança.

Dois mil frutos colhi,
E de seu sumo vinho fiz,
E em dois mil litros de desilusão,
Mergulhei enfim sem salvação.

1 023
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Retrato do Poeta

Companheiro do vento, rosto de sal.
Ontem existia energia nos olhos.
O pórtico do tempo aberto ao silêncio
da alma.
Nossos fracassos nossos fracassos
desenhados na imaginação.

994
Marcelo Almeida de Oliveira

Marcelo Almeida de Oliveira

Podem tentar, mas o homem não cabe

Dr. Hermínio?
O melhor mindinhologista que conheço.
Francisco?
O melhor mecânico de corcel 73.
Afonso?
A melhor feijoada da cidade.
Manuel?
Campeão estadual de pinball.
Alfredo?
Pintava peixes como ninguém.
Ford?
Último modelo.
Da Vinci?
Desculpa, tô sem dinheiro.

Vida, competição.
Vence a menor alma.

673
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

Infortunística

A tragédia dos vôos
dos Dédalos e Ícaros improvisados
sob a fria fantasia das estrelas
para a soalheira dos dias causticantes...

860
Horácio Dídimo

Horácio Dídimo

As Casas

após longa espera
nada aconteceu

as casas continuaram baixas

tão baixas
que muitos de seus habitantes rastejavam
enquanto outros desistiam de antigas reivindicações

1 276