Silêncio
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nos Últimos Terraços Dos Espaços
Sobre os ventos imóveis e calados
Dorme.
Nem a Primavera derramada
Nem o terror e o caos que a terra gera
Nem a sombra vermelha dos corpos mutilados
Atravessam
As barreiras de silêncio que o separam.
Tem o rosto voltado ao infinito
Um rosto perfeito de traços imutáveis.
Nem frio, nem calor, nem ar, nem água
O alimentam.
Respiram unicamente o seu segredo
O seu segredo secreto para sempre
E duas fontes correm dos seus olhos fechados.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noite
Branca de mil silêncios, negra de astros,
Com desertos de sombra e luar, dança
Imperceptível em gestos quietos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Não Te Ofenderei Com Poemas
Param os meus olhos quando penso em ti
Não farei do meu remorso um canto
Com árvores e céus mas sem poemas
Demasiado humano para poder ser dito
O teu mundo era simples e difícil
Quotidiano e límpido.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Instante
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio
Vasco Graça Moura
No obscuro desejo
no incerto silêncio,
nos vagares repetidos,
na súbita canção
que nasce como a sombra
do dia agonizante,
quando empalidece
o exterior das coisas,
e quando não se sabe
se por dentro adormecem
ou vacilam, e quando
se prefere não chegar
a sabê-lo, a não ser,
pressentindo-as, ainda
um momento, na aresta
indizível do lusco-fusco.
Maria Azenha
as palavras
as palavras são como folhas
não sabem quanto estão fora do real
por exemplo a palavra silêncio
começa por um s e quer dizer outono
é a menos mortal
outras
por vezes atravessam as folhas da noite
e apuram o ouvido no mar
que se escreve com três letras
como
três degraus
sagrados
esta quer dizer eternidade
Eudoro Augusto
41 [um grito apenas não basta
para abolir todo o silêncio que cultivamos
In: AUGUSTO, Eudoro. Cabeças: 88 poemas. Rio de Janeiro: s.n., 1981 (Capricho).
NOTA: Referência ao poema "Tecendo a Manhã", do livro A EDUCAÇÃO PELA PEDRA (1966), de João Cabral de Melo Net
Paulo Leminski
LÁPIDE 1
Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.
Ferreira Gullar
Infinito Silêncio
(há)
um enorme silencio
anterior ao nascimento das estrelas
antes da luz
a matéria da matéria
de onde tudo vem incessante e onde
tudo se apaga
eternamente
esse silencio
grita sob a nossa vida
e de ponta a ponta
a atravessa
estridente.
Reinaldo Ferreira
Um sossego mais largo
Que o esquecimento dos homens
Me seja a morte
Como um veleiro abandonado
No silêncio do mar;
Como, antes do Tempo,
Como, depois do Tempo,
O não haver ninguém para o contar
Como não ter existido
Me seja a morte!
Mas não já
Orides Fontela
A Estrela da Tarde
madura
e sem nenhum perfume
A estrela da tarde é
infecunda
e altíssima
Depois da estrela da tarde
so há:
o silêncio.
Marly Vasconcelos
Silêncio
o caminhar de passos harmoniosos,
pálpebras que baixam lentamente.
Tudo prenuncia o silêncio.
Marta Gonçalves
Escurecer o Quarto
esconder o sol em anéis de nuvens cinza
escurecer paredes onde mora o corpo.
Anoitecer a respiração dos móveis
guardar os relógios no mar.
- Meu espírito precisa de silêncio -
Lisa Lago
Beijo
na porta da noite escura
de bares fechados
e mesas vazias
As mesas falam, sabia?
As cadeiras dançam
e os copos se beijam
quando brindam
O seu olhar fala
mudo, discreto e sensível
dentro de minha boca fechada
por medo de sorrir
Helena Parente Cunha
Bloqueio
que levava o que eu dizia?
onde se perderam os nomes
que tantas coisas tiveram?
onde ficaram as coisas
chamadas em minha voz?
e minha voz
como assim subtraída?
gosto de pedra
na saliva em minha língua
as palavras me emparedam
onde houvera minha boca
Adriana Lustosa
Ontem
saí por aí
navegando...
Hoje
tenho medo de voltar
à terra estranha
a ter terra nos pés.
Quando a noite caiu
achei que tinha algo a dizer
do silêncio (dele)
mas antes de dizer
caio também
no absurdo
antes de dizer
escuto...
Alejandra Pizarnik
Poema
Tú eliges el lugar de la herida
en donde hablamos nuestro silencio
Tú haces de mi vida
esta ceremonia demasiado pura.
Alberto Marsicano Rodrigues
Haicai
Harpa sem cordas
Portal sem portas.
Freme frágil folhas
fléxil flana flui
facho fléxil flutua
Rui Costa
Madrugada
podes querer e podes não querer.
podes fugir. ficar ou não ficar
assim. quieto. esse travo na boca
por dizer. esse gozo secreto
das coisas a gemer lá para o fim
Amália Bautista
Dizes que me amas
Dizes que me amas de uma tal forma,
que não consigo deixar de corar;
que me amas de um modo primitivo,
sem razão aparente e sem desculpas
e que me amas porque me desejas,
porque sabes que eu também te amo
e como o monstro deste amor nos devora
a alma, a paciência e as maneiras.
É uma pena que todas estas coisas
morram em nós afogadas de silêncio.
Herberto Helder
Ele Que Tinha Ouvido Absoluto Para As Músicas
livre
ouvia a cada nó de sílaba
um silêncio de morte
Herberto Helder
E Eis Súbito Ouço Num Transporte Público
as luzes todas acesas e ninguém dentro da casa.
sete ou nove metros de labaredas,
e nem um grito, um sussurro, uma palavra:
só a casa ocupada pela grandeza da estrela,
a grandeza primeira
Fernando Fitas
Mais do que o rumor
das folhas rente ao chão
é o pressentido som
das nossas vozes
solidariamente obrigadas
ao silêncio
E mais do que a nudez
pousada nos teus olhos
é esta certeza
de não saber as palavras
do teu corpo
amanhecendo no frio
de todas as esperas
Gélidos desertos
nos braços do poema
Fernando Fitas
Os inquisidores silêncios
emergem
do mais fundo
como duas lâminas
dilacerando o tempo
Limitando o espaço
só o sonho
resta.
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