Serenidade e Paz Interior
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Fontes
Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
8 151
2
Hélio Pellegrino
Mar Alto
Esta água é todas as águas,
sem porto, nome ou naufrágio.
Rendada de espuma ao vento,
sem dor nem contentamento.
Esta água — lugar nenhum —
é perdição sem loucura.
Nela se dissolvem mágoa,
memória, tempo, aventura.
Sem lei nem rei, sem fronteiras,
além de verbo e silêncio,
esta é a pátria procurada:
incêndio de tudo — nada.
sem porto, nome ou naufrágio.
Rendada de espuma ao vento,
sem dor nem contentamento.
Esta água — lugar nenhum —
é perdição sem loucura.
Nela se dissolvem mágoa,
memória, tempo, aventura.
Sem lei nem rei, sem fronteiras,
além de verbo e silêncio,
esta é a pátria procurada:
incêndio de tudo — nada.
1 332
2
Fernando Pessoa
Aos deuses peço só que me concedam
Aos deuses peço só que me concedam
O nada lhes pedir. A dita é um jugo
E o ser feliz oprime
Porque é um certo estado.
Não quieto nem inquieto meu ser calmo
Quero erguer alto acima de onde os homens
Têm prazer ou dores.
O nada lhes pedir. A dita é um jugo
E o ser feliz oprime
Porque é um certo estado.
Não quieto nem inquieto meu ser calmo
Quero erguer alto acima de onde os homens
Têm prazer ou dores.
2 801
2
Fernando Pessoa
Quero dos deuses só que me não lembrem.
Quero dos deuses só que me não lembrem.
Serei livre — sem dita nem desdita,
Como o vento que é a vida
Do ar que não é nada.
O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,
Cada um com seu modo, nos oprimem.
A quem deuses concedem
Nada, tem liberdade.
Serei livre — sem dita nem desdita,
Como o vento que é a vida
Do ar que não é nada.
O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,
Cada um com seu modo, nos oprimem.
A quem deuses concedem
Nada, tem liberdade.
2 864
2
Clicie Pontes
Inverno
De braços abertos
Enfrentando a geada
Um espantalho
A árvore no inverno
Não consegue mais
Esconder a lua...
Ao pé da lareira
Uma pausa na conversa:
Lua na vidraça!
Enfrentando a geada
Um espantalho
A árvore no inverno
Não consegue mais
Esconder a lua...
Ao pé da lareira
Uma pausa na conversa:
Lua na vidraça!
1 009
2
David Mourão-Ferreira
O silêncio
Dos corpos esgotados que silêncio
tão apaziguador se levantava!
(Tinha uma rosa triste nos cabelos,
uma sombra na túnica de luz...)
Para o fundo das almas caminhava,
devagar, o sonâmbulo silêncio.
(Que apertados anéis nos braços nus!)
Mas o silêncio vinha desprendê-los.
tão apaziguador se levantava!
(Tinha uma rosa triste nos cabelos,
uma sombra na túnica de luz...)
Para o fundo das almas caminhava,
devagar, o sonâmbulo silêncio.
(Que apertados anéis nos braços nus!)
Mas o silêncio vinha desprendê-los.
4 323
2
Celina Holanda
Passeio no Parque
(Óleo sobre tela, de Seurat)
Neste parque imutável
até hoje passeiam
estes homens de escuro
e estas frágeis mulheres
Até hoje as flores, os cristais
e as toalhas
são sem mácula
nas salas de esperar
o amigo, o amado
ou a chuva passar. Nada
de apocalipse
a terrível Besta e poços
insondáveis. Nada
a relembrar o abismo
que somos.
Neste parque imutável
até hoje passeiam
estes homens de escuro
e estas frágeis mulheres
Até hoje as flores, os cristais
e as toalhas
são sem mácula
nas salas de esperar
o amigo, o amado
ou a chuva passar. Nada
de apocalipse
a terrível Besta e poços
insondáveis. Nada
a relembrar o abismo
que somos.
1 093
2
António Ramos Rosa
Semelhante à imóvel
Semelhante à imóvel
transparência
à inesgotável face
à pedra larga onde o olhar repousa
Água sombra e a figura
azul quase um jardim por sob a sombra
a iminência viva aérea
de uma palavra suspensa
na folhagem
Semelhante ao disperso ao ínfimo
chama-se agora aqui o sono da erva
a ligeireza livre
a nuvem sobre a página
transparência
à inesgotável face
à pedra larga onde o olhar repousa
Água sombra e a figura
azul quase um jardim por sob a sombra
a iminência viva aérea
de uma palavra suspensa
na folhagem
Semelhante ao disperso ao ínfimo
chama-se agora aqui o sono da erva
a ligeireza livre
a nuvem sobre a página
4 017
2
Fernando Pessoa
Sim, tudo é certo logo que o não seja,
Sim, tudo é certo logo que o não seja,
Amar, teimar, verificar, descrer –.
Quem me dera um sossego à beira-ser
Como o que à beira-mar o olhar deseja.
20/01/1929
Amar, teimar, verificar, descrer –.
Quem me dera um sossego à beira-ser
Como o que à beira-mar o olhar deseja.
20/01/1929
4 847
2
Fernando Pessoa
Que coisa distante
Que coisa distante
Está perto de mim?
Que brisa fragrante
Me vem neste instante
De ignoto jardim?
Se alguém mo dissesse,
Não quisera crer.
Mas sinto-o, e é esse
O ar bom que me tece
Visões sem as ver.
Não sei se é dormindo
Ou alheado que estou:
Sei que estou sentindo
A boca sorrindo
Aos sonhos que sou.
02/10/1933
Está perto de mim?
Que brisa fragrante
Me vem neste instante
De ignoto jardim?
Se alguém mo dissesse,
Não quisera crer.
Mas sinto-o, e é esse
O ar bom que me tece
Visões sem as ver.
Não sei se é dormindo
Ou alheado que estou:
Sei que estou sentindo
A boca sorrindo
Aos sonhos que sou.
02/10/1933
4 612
2
Fernando Pessoa
Pouco importa de onde a brisa
Pouco importa de onde a brisa
Traz o olor que nela vem.
O coração não precisa
De saber o que é o bem.
A mim me basta nesta hora
A melodia que embala.
Que importa se, sedutora,
As forças da alma cala?
Quem sou, pra que o mundo perca
Com o que penso a sonhar?
Se a melodia me cerca
Vivo só o me cercar...
29/09/1926
Traz o olor que nela vem.
O coração não precisa
De saber o que é o bem.
A mim me basta nesta hora
A melodia que embala.
Que importa se, sedutora,
As forças da alma cala?
Quem sou, pra que o mundo perca
Com o que penso a sonhar?
Se a melodia me cerca
Vivo só o me cercar...
29/09/1926
5 524
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Bach Segóvia Guitarra
A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia
Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra
A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada
Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa
Por companheira tenho
A voz da guitarra
E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada
E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia
Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra
A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada
Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa
Por companheira tenho
A voz da guitarra
E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada
E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada
1 851
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Nereides
Pudesse eu reter o teu fluir, ó quarto
Reter para sempre o teu quadrado branco
Denso de silêncio puro
E vida atenta
Reter o brilho
Da Cassiopeia em frente da janela
Reter a queda
Das ondas sobre a areia
E habitar para sempre o teu espelho
Que dos meus ombros jamais tombasse o tempo
Marinho misterioso e antigo
Assim como as nereides
Não perderão jamais seu manto de água
Reter para sempre o teu quadrado branco
Denso de silêncio puro
E vida atenta
Reter o brilho
Da Cassiopeia em frente da janela
Reter a queda
Das ondas sobre a areia
E habitar para sempre o teu espelho
Que dos meus ombros jamais tombasse o tempo
Marinho misterioso e antigo
Assim como as nereides
Não perderão jamais seu manto de água
1 162
1
Wisława Szymborska
Vermeer
Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum
atenta no silêncio pintado
dia após dia derrama
o leite da jarra na tijela,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
“Um Amor Feliz”, Companhia das Letras, 2011
atenta no silêncio pintado
dia após dia derrama
o leite da jarra na tijela,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
“Um Amor Feliz”, Companhia das Letras, 2011
953
1
Ruy Belo
Fundação de Roma
Grande te chamo cidade. Ainda há
o espaço em ti de um domingo
para as folhas caírem
Talvez até
com o gládio do espírito eu possa
rasgar à tua volta um areal de silêncio
onde o sol ilumine os cristais dos meus dias
Jerusalém é o teu nome de cidade
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 49 | Editorial Presença Lda., 1984
o espaço em ti de um domingo
para as folhas caírem
Talvez até
com o gládio do espírito eu possa
rasgar à tua volta um areal de silêncio
onde o sol ilumine os cristais dos meus dias
Jerusalém é o teu nome de cidade
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 49 | Editorial Presença Lda., 1984
1 897
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ali, Então
Ali então em pleno mundo antigo
À sombra do cipreste e da videira
Olhando o longo tremular do mar
Num silêncio de luas e de trigo
(Como se a morte a dor o tempo e a sorte
Não nos tivessem nunca acontecido)
Em nossas mãos a pausa há-de poisar
Como o luar que poisa nas videiras
E em frente ao longo tremular do mar
Num perfume de vinho e de roseiras
A sombra da videira há-de poisar
Em nossas mãos e havemos de habitar
O silêncio das luas e do trigo
No instante ameaçado e prometido
E os poemas serão o próprio ar
— Canto do ser inteiro e reunido —
Tudo será tão próximo do mar
Como o primeiro dia conhecido
À sombra do cipreste e da videira
Olhando o longo tremular do mar
Num silêncio de luas e de trigo
(Como se a morte a dor o tempo e a sorte
Não nos tivessem nunca acontecido)
Em nossas mãos a pausa há-de poisar
Como o luar que poisa nas videiras
E em frente ao longo tremular do mar
Num perfume de vinho e de roseiras
A sombra da videira há-de poisar
Em nossas mãos e havemos de habitar
O silêncio das luas e do trigo
No instante ameaçado e prometido
E os poemas serão o próprio ar
— Canto do ser inteiro e reunido —
Tudo será tão próximo do mar
Como o primeiro dia conhecido
2 513
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iremos Juntos Sozinhos Pela Areia
Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.
As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.
O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.
As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.
O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.
2 685
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dia
Como um oásis branco era o meu dia
Nele secretamente eu navegava
Unicamente o vento me seguia.
Nele secretamente eu navegava
Unicamente o vento me seguia.
2 003
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Intervalo Ii
Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.
Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.
Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.
Um dia em que se possa não saber.
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.
Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.
Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.
Um dia em que se possa não saber.
2 660
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Evadir-Me, Esquecer-Me, Regressar
Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
2 086
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Luar
Toma-me ó noite em teus jardins suspensos
Em teus pátios de luar e de silêncio
Em teus adros de vento e de vazio.
Noite
Bagdad debruçada no teu rio
País dos brilhos e do esquecimento
Com teu rumor de cedros e teu lento
Círculo azul do tempo.
Em teus pátios de luar e de silêncio
Em teus adros de vento e de vazio.
Noite
Bagdad debruçada no teu rio
País dos brilhos e do esquecimento
Com teu rumor de cedros e teu lento
Círculo azul do tempo.
2 859
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Manhã
Na manhã recta e branca do terraço
Em vão busquei meu pranto e minha sombra
*
O perfume do orégão habita rente ao muro
Conivente da seda e da serpente
*
No meio-dia da praia o sol dá-me
Pupilas de água mãos de areia pura
*
A luz me liga ao mar como a meu rosto
Nem a linha das águas me divide
*
Mergulho até meu coração de gruta
Rouco de silêncio e roxa treva
*
O promontório sagra a claridade
A luz deserta e limpa me reúne
Em vão busquei meu pranto e minha sombra
*
O perfume do orégão habita rente ao muro
Conivente da seda e da serpente
*
No meio-dia da praia o sol dá-me
Pupilas de água mãos de areia pura
*
A luz me liga ao mar como a meu rosto
Nem a linha das águas me divide
*
Mergulho até meu coração de gruta
Rouco de silêncio e roxa treva
*
O promontório sagra a claridade
A luz deserta e limpa me reúne
3 358
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dia
Mergulho no dia como em mar ou seda
Dia passado comigo e com a casa
Perpassa pelo ar um gesto de asa
Apesar de tanta dor e tanta perda
Dia passado comigo e com a casa
Perpassa pelo ar um gesto de asa
Apesar de tanta dor e tanta perda
2 108
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Instante
Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio
2 328
1
Português
English
Español