Medo e Ansiedade

Poemas neste tema

Izabel Bellini Zielinsky

Izabel Bellini Zielinsky

Terror

Dominado, atado,
finalmente guardado
para existir
em outro pecado.

Vozes, murmúrios,
tin-tins,
gizos
de um arlequim.

Não são meus...
Meus, os terrores,
o peito que dói
em arritmia.

Terror de não estar
dentro de minha
sintonia,
querendo ganhar

a tranqüilidade
dos fantasmas.

426 1
Goulart Gomes

Goulart Gomes

Semi-ótica

esteiras de linho
tenho cruzado adagas
e cegado meus caminhos

o vento toca seu alaúde
estão trancados nossos sonhos
bem guardados no escuro

vermelhidão de mar
mortovivo, plasma de segredos
e os medos nossos

não sei bem se posso seguir
estes desígnios ou
minguar à fome

destes signos.

959 1
Adriana Lustosa

Adriana Lustosa

Ontem

Ontem
saí por aí
navegando...
Hoje
tenho medo de voltar
à terra estranha
a ter terra nos pés.
Quando a noite caiu
achei que tinha algo a dizer
do silêncio (dele)
mas antes de dizer
caio também
no absurdo
antes de dizer
escuto...

831 1
José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

Mercado velho, Machico

Uma paisagem muito ao longe
quando se regressa
continuamos a vê-la no escuro
fechamos os olhos,sentimo-nos vivos
na sucessão dos séculos
falamos de súbito
daquilo que nos assusta
um segredo demasiado intenso
o malogro dos códigos
qualquer ideia extrema
que destrói o mundo e não queríamos
mas estamos tão pouco
onde estamos
1 935 1
David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Blocos

É isto vivemos dentro

de grandes blocos de gelo

sem aquecermos ao menos

com os dedos outros dedos

No fundo de nós temendo

que um dia se quebre o gelo

3 779 1
Ronaldo Cunha Lima

Ronaldo Cunha Lima

O medo e a falta

Você me faz medo,
mas você me faz falta.

A diferença entre o medo e a falta
é que o medo você sabe quando tem,
e na falta você sente que não tem.

A falta, com o medo, sobressalta.
Entre o medo que você me traz
e a falta que você me faz,

você é o medo que me falta.

1 910 1
Rui Costa

Rui Costa

Medo

Furo-te os olhos com os dedos magoados
como-te
torpor de medo as luas verdes
mordem-me a boca
do teu peito sobe o halo nacarado
a essência fútil das flores mortas
e novamente o medo
de nunca mais voltar a ser perfeito

578
Amália Bautista

Amália Bautista

A tentação

E se naquele momento nos tivesse
surgido de repente uma serpente?
Que terias feito face ao meu medo?
Como é que me terias convencido
para que abrisse os olhos e contemplasse
na boca desse réptil a maçã?

527
Rui Costa

Rui Costa

breve ensaio sobre a potência 2

água sobre a mão quando o
sono se deita, um vértice de
pedra subindo entre o caule
da sombra e a propagação do
medo. a luz provoca a primeira
nostalgia, o íncubo que dispara
como um halo que espera.

557
Reynaldo Bessa

Reynaldo Bessa

uma noite

uma noite
minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa
disso lembro-me bem
enquanto os três conversavam
eu pregava os olhos nos olhos tristes das casas e
me dava uma tremenda vontade de perguntar
"mamãe, o que elas têm?"
1 237
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Obscuridade

Esperamos na obscuridade.
Vinde, vós que escutais, vinde
saudar-nos na viagem nocturna:
nenhum sol agora brilha,
nem luz agora nenhuma estrela.
Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:
que a noite secreta é inimiga,
a noite que fecha as próprias pálpebras.
E eis como a noite inteiramente nos esqueceu.
E esperamos, esperamos, na obscuridade.
937
Herberto Helder

Herberto Helder

Ii H

Uma colher a transbordar de mel:
a mão treme quando
se transpõe o fio que divide o mundo:
colheres do fogo:
o seu clarão calcina pálpebras e pupilas
— colheres rasas de áscuas em equilíbrio
sobre os abismos atómicos
dos dias.
1 022
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

A noite toda a selva

A noite toda a selva
dissolvendo-se em sândalo
e esquecimento.

Casas, degraus a prumo, águas
despedaçadas. Equilíbrio precário
num fio de luz.

Sob uma lâmina de mica
um veneno espera por nós
em Trieste.
528
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

Noite

O menino viu
sair da boca

da mulher, talvez
sua mãe, uma voz

estrídula e lábil, que
logo desandou,

em cadência
de sonho, a quê?

– A enumerar desas-
tres já ocorridos

e por ocorrer,
a fecundar

harpias, a frisar
as marcas

da passagem
da pantera pelo quarto,

a aturdir relógios,
a enegrecer o sol

e outras mais
de tais proezas.
392
Mailson Furtado Viana

Mailson Furtado Viana

crônica de um homem de fé

não era de frequentar igrejas
mas era crente nalguma coisa

na volta do trabalho
na barraca de cachorro-quente
um senhor discursava
preâmbulos do fim do mundo
o juízo final se aproxima

sentiu medo

ao chegar em casa
perguntou à mulher
como se rezava o pai-nosso
586
Luís Quintais

Luís Quintais

Ave

Uma ave agonizante
entrou-te no quarto,

apenas uma sombra
que se enlaça
noutra:

assim definiste
a memória,

a cidade
que se mineraliza
quando
rodeias
essa sombra-ave

com os dedos
apavorados.
772
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

VIAGEM NOCTURNA

Fervilha sob os nossos pés. Os comboios partem.
O hotel “ Astoria “estremece.
Um copo de água ao lado da cama
brilha nos Túneis.

Ele sonhou que estava preso em Salvbard.
O planeta girou com rancor.
Olhos brilhantes caminhavam sobre o gelo.
A beleza da ferida estava ali.
318
Carlito Azevedo

Carlito Azevedo

RÓI

Rói qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama

imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido

se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes
682
Joaquim Manuel Magalhães

Joaquim Manuel Magalhães

O balneário

O balneário,
toalha revolta.
Tensa na súplica.

Eco, fivela, gume.
1 090
Ademir Assunção

Ademir Assunção

MONTANHAS SÃO FRIAS QUANTO A NOITE CAI

numa noite sem nome
a severa senhora de olhos escuros
toca-nos a face
com seus dedos de pelica
e vai arrancando, uma a uma,
todas as máscaras
que vestimos

e nessa hora sem hora
até o mais valente dos valentes
sente um tremor,
ainda que leve,
na mão que empunha o revólver
1 208
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Como Uma Violeta Na Neve

na primeira ocasião possível
na tarde de um supremo azul
telegrafarei para você
uma
mão ossuda
decorada com
pele de tubarão
um
menino grande com
dentes amarelos e um pai
epilético
vai trazê-lo
até sua
porta
sorria
e
aceite
isto é melhor do que
a outra
alternativa
1 095
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Tão clara a água

Naquele verão
um homem afogou-se
no meu mar de criança.
Disseram que uma câimbra
que um mal súbito
que um peixe
uma água-viva.
Procuraram desculpas
para morte
em tão límpidas águas.
Eu não me perguntei por que
mas onde,
procurando no claro
a escuridão.
E até o fim do verão
não mergulhei no mar
adentrei numa tumba.
952
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Mesmo se

Corredores do dia
umbral da noite
e o pensamento em fuga
entre as arcadas
mesmo se o corpo deita
e finge estar dormindo
mesmo se nas campinas
os dentes-de-leão afiam
as garras amarelas
de suas flores.
1 076
Marina Colasanti

Marina Colasanti

E TINHA O NARIZ EM PONTA

Para Michelle Bourjea

A alma daquela mulher
era como água de copo
em casa antiga.
Que estremece se alguém
desce as escadas
se um carro passa
ou quando um gato salta
de um armário.
1 033