Cultura e Tradição

Poemas neste tema

Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

NANÃ

Mãe sem marido,
avó do universo.
Senhora da alvura.
Nanã, a de rosto
sempre coberto.
Ó poderosa
dona dos cauris,
filha do grande pássaro Atioró.
Água.
Lama.
Morte.
Mãe do segredo
do mundo.
O úmido.
O que flui.
Água.
Lama.
Filhos.
Teus gestos
lentos
no fundo
da água escura.
763
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

Homens

Leonilson
pintava
e
bordava.

Bispo do Rosário
colecionava
delírios
e bordava.

Lampião
tocava o terror
no sertão
e bordava.

João Cândido
punha a República
no curé
e bordava.
900
Hélia Correia

Hélia Correia

7.

Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
1 096
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

CHIRAPA

Em Pampa Hermosa, só a velha Natalia Sangana
ainda falava chamicuro. Filhos, netos, seu povo,
tudo o que era novo até os pássaros
falavam espanhol.

Nenhuma solidão era maior que a de Natalia Sangana, viúva
de tudo. Filhos, netos, gente que chegava,
criaram mesmo outros deuses, a que deram um só nome:
Dios.
631
José Paulo Paes

José Paulo Paes

À MODA DA CASA

feijoada
marmelada
goleada
quartelada
633
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Sapo-cururu

Sapo-cururu
Da beira do rio.
Oh que sapo gordo!
Oh que sapo feio!

Sapo-cururu
Da beira do rio.
Quando o sapo coaxa,
Povoléu tem frio.

Que sapo mais danado,
Ó maninha, ó maninha!
Sapo-cururu é o bicho
Pra comer de sobreposse.

Sapo-cururu
Da barriga inchada.
Vóte! Brinca com ele...
Sapo-cururu é senador da República.
1 550
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Macumba de Pai Zusé

Na macumba do Encantado
Nego véio pai de santo fez mandinga
No palacete de Botafogo
Sangue de branca virou água
Foram vê estava morta!
1 515
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

D. Janaína

D. Janaína
Sereia do mar
D. Janaína
De maiô encarnado
D. Janaína
Vai se banhar.

D. Janaína
Princesa do mar
D. Janaína
Tem muitos amores
É o rei do Congo
É o rei de Aloanda
É o sultão-dos-matos
É S. Salavá!

Saravá saravá
D. Janaína
Rainha do mar!

D. Janaína
Princesa do mar
Dai-me licença
Pra eu também brincar
No vosso reinado.
1 520
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Sera d'estate a Roma

Accanto a Palazzo Altemps
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,
e con gli stessi occhiali tondi
che appaiono in tanti quadri.
La luna
il montone
e il leone
antichi come le lische del pesce
osservano sopra al frontone.
1 220
Marina Colasanti

Marina Colasanti

PORQUINHOS-DA-INDIA

O porquinho-da-india
foi a primeira namorada
do poeta

No Equador
as indias octavaleñas
criam porquinhos-da-india
na cozinha
para tê-los mais perto
da panela.
1 020
Marina Colasanti

Marina Colasanti

MADRUGADA EM CARDEIROS

Para Stella Marinho

Atados ao alto do mastro
peixes japoneses ondeiam
nadando contra a corrente do vento.

Lutam as escamas pintadas
para defender
seu vermelho na escuridão.

Quando a manhã chegar
- bocas abertas -
depositarão ovos de seda
nas nascentes do Sudoeste.
864
Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Atrás das almas mortas

Para onde Oh América
é que guias o teu
glorioso automóvel,
a que acidentes te inclinas
rodovia abaixo,
nos profundos canyons
das Montanhas do Oeste,
acelerando ao sol-se-pondo
sobre o Golden Gate
no rastro de que rusga
atiras o teu jazz
sobre o oceano Pacífico!

Primavera, 1951
580
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

O Que Sei Dos Etruscos

Quase tudo o que se sabe dos etruscos
é o que deixaram inscrito em seus sarcófagos:
imagem de danças
música
esportes
banquetes
desenhos de demônios
enfim
o conhecimento do dia a dia
feito arte funerária:
espécie de jornal
enciclopédia
essência
daquilo que da morte sempre resta, poesia.
519
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

O Olho do Jaguar

No Castelo de Chavin, no Peru
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
943
Martha Medeiros

Martha Medeiros

uma nissei não sabe

uma nissei não sabe
tudo que sei
meus olhos arregalados
não piscam pra qualquer um
nem fecham pra qualquer medo
uma nissei
não sabe todo o segredo
periga guardar bilhetes
mas quieta comete enganos
decifra letras do mal
mal sabe meus vinte anos


uma nissei dança muito bem
mas sei que ela dorme cedo
1 103
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Teu Passo Não Enraizou Nas Areias de Seda

Embora te iniciasse Ártemis
Quando atravessaste a roxa
Respiração da aurora tropical

Tomaste em tua mão o sopro
Como um fruto ou como um rosto

Nas palavras tupi procuraste o segredo
Extremo do lugar
Uma névoa velou o azul dos morros
As praias como braços se estendiam
No mar corriam todas as quadrigas
Atreladas em mão azul
1 388
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Veneza

(Prólogo de uma peça de teatro)

Esta história aconteceu
Num país chamado Itália
Na cidade de Veneza
Que é sobre água construída
E noite e dia se mira
Sobre a água reflectida

Suas ruas são canais
Onde sempre gondoleiros
Vão guiando barcas negras
Em Veneza tudo é belo
Tudo rebrilha e cintila

Há quatro cavalos gregos
Sobre o frontão de S. Marcos
E a ponte do Rialto
Desenha aéreo o seu arco
Em Veneza tudo existe
Pois é senhora do mar

Dos quatro cantos do mundo
Os navios carregados
Desembarcam no seu cais
Sedas tapetes brocados
Pérolas rubis corais
Colares anéis e pulseiras
E perfumes orientais

Cidade é de mercadores
E também de apaixonados
Sempre perdidos de amores
E cada dia ali chegam
Persas judeus e romanos
Franceses e florentinos
Artistas e bailarinos
E ladrões e cavaleiros

Aqui só há uma sombra
As prisões da Signoria
E os esbirros do doge
Que espiam a noite e o dia
De resto em Veneza há só
Dança canções fantasia

Cada ano aqui se tecem
Histórias tão variadas
Que às vezes até parecem
Aventuras inventadas

Por isso aqui sempre digo
Que Veneza é como aquela
Cidade de Alexandria
Onde há sol à meia-noite
E há lua ao meio-dia**
** Os últimos 3 versos são da tradição popular.
1 293
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

V. Dos Homens Nus E Negros Contarei

Dos homens nus e negros contarei
E de como não havendo já connosco
Quem de seu falar algo entendesse
Juntos dançámos pra nos entendermos
1982
1 243
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Roma

à memória de meu irmão Thomaz

O belo rosto dos deuses impassível e quebrado
A noite-loba rondando nas ruínas
A veemência a musa
Colunas e colinas
O bronze a pedra e o contínuo
Tijolo sobre tijolo
A arte difícil e bela da pintura
A música veemente que assedia a alma
O corpo a corpo do espaço e da escultura
Os múltiplos espelhos do visível
A selvagem e misteriosa paixão de Catilina

As altas naves as enormes colunas
Os enormes palácios as pequenas ruas
A lenta sombra atenta e muito antiga
O sucessivo surgir de fontes e de praças
Vermelho cor-de-rosa muita pressa
Gesticular de gentes e de estátuas
Azáfama clamor e gasolina
Do guarda-sol castanho a penumbra fina
1 038
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vi. Eu Vos Direi a Grande Praia Branca

Eu vos direi a grande praia branca
E os homens nus e negros que dançavam
Pra sustentar o céu com suas lanças
1982
1 098
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Oriente

Este lugar amou perdidamente
Quem o cabo rondou do extremo Sul
E a costa indo seguindo para Oriente
Viu as ilhas azuis do mar azul
………………………………………
Viu pérolas safiras e corais
E a grande noite parada e transparente
Viu cidades nações viu passar gente
De leve passo e gestos musicais

Perfumes e tempero descobriu
E danças moduladas por vestidos
Sedosos flutuantes e compridos
E outro nasceu de tudo quanto viu
………………………………………
1988
1 239
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Xvii. Estilo Manuelino

Estilo manuelino:
Não a nave românica onde a regra
Da semente sobe da terra
Nem o fuste de espiga
Da coluna grega
Mas a flor dos encontros que a errância
Em sua deriva agrega
1982
959
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Koré

Alta e solene mais alta do que a luz
A pesada palidez sagrada do Pártenon
Reina sobre o dia

Folhagens dançam movidas pelo vento

Na mesa ao lado a Koré de nariz direito e cabelo entrançado
Serve de intérprete e erguendo a sua taça
Brinda com os comerciantes tedescos que saquearam
A Grécia e a Europa quase toda
Mas que após a derrota de seus generais
Ganharam a guerra

O café tem pó — relíquia dos turcos

Porém no vinho resinado no frescor da vinha
Na fina suave brisa nas pálidas colunas
Algo dos deuses súbito visita
A luz do instante
569
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Notas

AS ILHAS
1. Os poemas I e III são invocações da voz de Camões.
2. O poema VII é um poema sobre Dom Sebastião.
DERIVA
3. O poema IV é uma invocação de Bartolomeu Dias, o maior de todos os navegadores.
4. O poema V é uma glosa livre da Carta de Pêro Vaz de Caminha.
5. O poema XIII é uma invocação de Pessoa, que disse pertencer ao número daqueles portugueses que depois da descoberta da Índia ficaram sem emprego.
6. O poema XIV é uma invocação de Jorge de Sena.
7. O poema XV é um poema sobre as diversas Reboleiras de Lisboa, atro-zes e sem Tejo.
1 172