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Poemas neste tema

Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

The Coliseum

Lone ampitheatre ! Grey Coliseum !
Type of the antique Rome ! Rich reliquary
Of lofty contemplation left to Time
By buried centuries of pomp and power !
At length, at length — after so many days
Of weary pilgrimage, and burning thirst,
(Thirst for the springs of love [lore] that in thee lie,)
I kneel, an altered, and an humble man,
Amid thy shadows, and so drink within
My very soul thy grandeur, gloom, and glory.

Vastness ! and Age ! and Memories of Eld !
Silence and Desolation! and dim Night!
Gaunt vestibules! and phantom-peopled aisles !
I feel ye now: I feel ye in your strength!
O spells more sure then [than] e'er Judæan king
Taught in the gardens of Gethsemane !
O charms more potent than the rapt Chaldee
Ever drew down from out the quiet stars !

Here, where a hero fell, a column falls :
Here, where the mimic eagle glared in gold,
A midnight vigil holds the swarthy bat:
Here, where the dames of Rome their yellow hair
Wav'd to the wind, now wave the reed and thistle :
Here, where on ivory couch the Cæsar sate,
On bed of moss lies gloating the foul adder :

Here, where on golden throne the monarch loll'd,
Glides spectre-like unto his marble home,
Lit by the wan light of the horned moon,
The swift and silent lizard of the stones.

These crumbling walls; these tottering arcades ;
These mouldering plinths; these sad, and blacken'd shafts ;
These vague entablatures; this broken frieze ;
These shattered cornices; this wreck; this ruin ;
These stones, alas! — these grey stones — are they all ;
All of the great and the colossal left
By the corrosive hours to Fate and me ?

"Not all," — the echoes answer me; "not all :
Prophetic sounds, and loud, arise forever
From us, and from all ruin, unto the wise,
As in old days from Memnon to the sun.
We rule the hearts of mightiest men: — we rule
With a despotic sway all giant minds.
We are not desolate — we pallid stones ;
Not all our power is gone; not all our Fame ;
Not all the magic of our high renown ;
Not all the wonder that encircles us ;
Not all the mysteries that in us lie;
Not all the memories that hang upon,
And cling around about us now and ever,
And clothe us in a robe of more than glory."


1833

1 435
Paulo Leminski

Paulo Leminski

MALLARMÉ BASHÔ

um salto de sapo
jamais abolirá
o velho poço

3 045
Paulo Leminski

Paulo Leminski

desta vez não vai ter neve como em

desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado
[aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

1 741
Vladimir Maiakovski

Vladimir Maiakovski

ESCÁRNIOS

(tradução: Augusto de Campos e Boris Schnaiderman)

Desatarei a fantasia em cauda de pavão num ciclo de matizes, entregarei a alma ao poder do enxame das rimas imprevistas.
Ânsia de ouvir de novo como me calarão das colunas das revistas esses que sob a árvore nutriz es-
cavam com seus focinhos as raízes.

2 011
Vladimir Maiakovski

Vladimir Maiakovski

A FLAUTA VÉRTEBRA

(tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

2 371
Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

Canto de Onipotência

Cloto, Átropos, Tifon, Laquesis, Siva...
E acima deles, como um astro, a arder,
Na hiperculminação definitiva
O meu supremo e extraordinário Ser!

Em minha sobre-humana retentiva
Brilhavam, como a luz do amanhecer,
A perfeição virtual tornada viva
E o embrião do que podia acontecer!

Por antecipação divinatória,
Eu, projetado muito além da História,
Sentia dos fenômenos o fim...

A coisa em si movia-se aos meus brados
E os acontecimentos subjugados
Olhavam como escravos para mim!

2 366
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

O EDITOR

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte

A poesia transcrita é de Torquato,
Desse pobre poeta enamorado
Pelos encantos de Leonora esquiva,
Copiei-a do próprio manuscrito;
E, para prova da verdade pura
Deste prólogo meu, basta que eu diga
Que a letra era um garrancho indecifrável,
Mistura de borrões e linhas tortas!
Trouxe-ma do Arquivo lá da lua
E decifrou-ma familiar demônio...
Demais... infelizmente é bem verdade
Que Tasso lastimou-se da penúria
De não ter um ceitil para a candeia.

Provo com isso que do mundo todo
O sol é este Deus indefinível,
Ouro, prata, papel, ou mesmo cobre,
Mais santo do que os Papas - o dinheiro!

Byron no seu Don Juan votou-lhe cantos,
Filinto Elísio e Tolentino o sonham,
Foi o Deus de Bocage e d'Aretino,
- Aretino! essa incrível criatura
Lívida, tenebrosa, impura e bela,
Sublime... e sem pudor, onda de lodo
Em que do gênio profanou-se a pérola,
Vaso d'ouro que um óxido terrível
Envenenou de morte, alma - poeta
Que tudo profanou com as mãos imundas
E latiu como um cão mordendo um século...

..............................

Quem não ama o dinheiro? Não me engano
Se creio que Satã, à noite, veio
Aos ouvidos de Adão adormecido,
Na sua hora primeira, murmurar-lhe
Essa palavra mágica da vida,
Que vibra musical em todo o mundo,

Se houvesse o Deus-Vintém no Paraíso
Eva não se tentava pelas frutas,
Pela rubra maçã não se perdera:
Preferira decerto o louro amante
Que tine tão suave e é tão macio!

Se não faltasse o tempo a meus trabalhos,
Eu mostraria quanto o povo mente
Quando diz que - a poesia enjeita e odeia
As moedinhas doiradas. É mentira!

Desde Homero (que até pedia cobre),
Virgílio, Horácio, Calderón, Racine,
Boileau e o fabuleiro LaFontaine
E tantos que melhor decerto fora
De poetas copiar algum catálogo,
Todos a mil e mil por ele vivem
E alguns chegaram a morrer por ele!
Eu só peço licença de fazer-vos
Uma simples pergunta: - na gaveta
Se Camões visse o brilho do dinheiro...
Malfilâtre, Gilbert, o altivo Chatterton
Se o tivessem nas rotas algibeiras,
Acaso blasfemando morreriam?

1 849
Luís Vianna

Luís Vianna

CONTRACULTURA

Ah!
Que saudade tenho,
Deste tempo que não vivi.
Paz e amor,
“No War”,
“World Free”.

Tempo lindo
Da utopia possível.
Política “out”,
Cultura “in”.

Psicodélico mundo colorido.
Comunidades de mãos dadas.
O mundo todo e todo mundo,
Unidos.

Juventude fiel à filosofia “drop out”,
Regado aos
Bill Haley e outros mais,
No “only you”, “rock around the clock”
E mais algumas
Sentados na grama
Fumando umas...

O sonho acabou?
The dream is over?
Não, ele só se reciclou.

30/05/2001

672
Felipe Vianna

Felipe Vianna

REFLEXÕES DE UM ANO SECULAR

Entre lucros e prejuízos
A humanidade vai andando.
Papai Noel vai, Papai Noel vem,
Século vai, século vem.

Como o folhear de um livro
O tempo vai passando.
O que foi escrito, bem ou mau, escrito foi.
Mas folhas brancas estão chegando.

As luzes da ribalta se acendem
Para um novo século entrar,
E que em festejos de amores em corações
Faça a humanidade se encantar.

Que cristalina como a água da fonte
Seja o amor entre os homens,
E belo como o brilho da pérola
Seja este século que nos espera.

São os votos da humanidade
Que almeja, em plena sanidade,
Não ver mais fomes, guerras e atrocidades.

É,...
Chega de falar em desgraças,
Deixemos o passado para os livros de história,
E, vamos escrever a nossa, agora!

Feliz Ano Novo
Feliz Novo Século

21/12/2000

648
Felipe Vianna

Felipe Vianna

DE UM JOÃO NINGUÉM

Meu sonho é ser alguém!
Quem, eu?
Sim, eu!
Um João-sem-terra,
Um João-ninguém.

Quero ser importante,
Ser visto e respeitado;
Um ser elegante,
Um objetivo a ser almejado.

Meu futuro será brilhante,
Meus caminhos serão grandes,
Serei maior que minha estatura,
Não terá estátua a minha altura.

Postumamente meu nome será lembrado,
Pela história relevado.
Esta rua em que me encontro,
Seu nome será Felipe Vianna;
E ponto.

28/08/1999

752
Felipe Vianna

Felipe Vianna

POESIA À POESIA

Rosas, amor, morte, vida,
São as armas da poesia.
Poesia hoje não lida,
Poesia hoje esquecida.

Poesia é um discurso,
Um discurso com muito som.
Se seu ritmo é bonito
É de alguém com muito dom.

Poesia é cultura,
É beleza, é arte pura.
Canto dos pássaros,
Pérola dos poetas.

Na vida das poesias
Tantas vidas se passaram,
Estas vidas já se foram
Mas nas poesias ficaram.

Tão bela quanto a rosa
A poesia ainda é,
Mas hoje, totalmente esquecida
Na conquista da mulher.

Já vou aos poucos findando
Esta poesia de dor,
Dor da ausência da arte
Na presença de um amor.

13/04/1991

567
Marilina Ross

Marilina Ross

E que nunca mais

A desenterrar os vivos e aos mortos enterrar
Sobre areias movediças não se pode caminhar

A desentranhar os leitos dos rios e do mar
para que flutuem os restos da verdade
e que nunca mais

A tirar as teias de aranha que teceu nossa memória
Se negamos o passado repetiremos a história

A levantar, se é preciso, o obelisco e sua praça
Que saia à luz do sol o que ocorreu nessas praias
e que nunca mais

A começar a renascer do pior dos infernos
Busquemos braços amigos no sul do hemisfério
e que nunca mais

Ou logramos entre todos que a pátria grande remonte
ou seremos uma estrela a mais na bandeira do norte.

852
Gaspara Stampa

Gaspara Stampa

No dia

No dia em que no ventre concebido
Foi meu senhor, viu-se dos céus eleito
Para que fosse entre os mortais perfeito
E de virtudes mil ficasse ungido,

Saturno junto aos sábios fê-lo aceito
E jove, dos mais nobres preferido;
Marte na liça o fez mais aguerrido
E Febode elegância encheu-lhe o peito.

Beleza deu-lhe Vênus, e eloqüente
O fez Mercúrio; mas a Lua, ao vê-lo,
Frieza ao coração deu de presente.

Cada qual desses dons mais forte apelo
Faz à chama que em mim crepita ardente;
Menos aquele só, que o fez de gelo.

517
Eliana Mora

Eliana Mora

Espanto

Se um dia
saio a dizer
o que me vai na cabeça
muitos irão se espantar
[alguns vão até estranhar]

Mas na verdade eu teria
uma história a revelar

E o resumo seria
um aqui jaz
elegia
ou canto a enaltecer
a tal de vida
[promessa]
meio sem eira nem beira
meio sem voz
[de coleira]

Com a dona desta vida
arrematando seus cantos
como faz a bordadeira
[para o pano não rasgar]

(18 de setembro de 1998)

767
Angela Santos

Angela Santos

Em Nome do Pai

Todos os
nomes inominável
te colam ao rosto, como se fosses forma,
corpo mesuravel, e tornam-te espelho
de impasses e limites, os nossos,
e chamam-te a grande presença
como se pudesses, sendo-o, caber nos estreitos
domínios onde tolhidos nos movemos

e pedem-te a benção na sagração
da guerra e na miragem de vitórias que a honra
lave, ante os escombros da civilização em ruínas
às mãos da barbárie que o rosto cobre...

saiem por aí nas armaduras espelhantes
ribombando tiradas moralistas
invocando protecções, ondulando bandeiras
que são suas, exibindo os dentes lavados
depois do canibalismo

são pútridos os restos que trazem agarrados
e desfilam pela história dos mortos
que esqueceram ou apagaram como riscos de giz
e discursivos acenam máximas aos vivos
que a memória dos seus mortos são agora ...

Manchados hoje os chãos de Nova York.....

os da Palestina, Hiroshima, Auschwitz e Guernica,
o chão exangue de África, quem lembra ainda?

Marcada a ferro e brasa a terra toda,
em teu nome, inominável, quantas vezes...

a soldo de quem não estás urge que o digas,
que não o sabem os que te dão rosto
os que te armam pra que mates em seu nome
os que se benzem com a mesma mão que esgana
os que erguem obeliscos e esculpem frases póstumas
os que se prostram ante o deus das míseras vitórias.

esses que nada sabem e pouco crêem
na estultícia de razões invocam o deus da inumanidade
e num voo ágil de águias
sobrevoam o espectáculo do mundo como Neros frios
cobrindo a terra com asas de anjo negro
em nome da liberdade que é a deles,
em nome duma pátria que é deles
em nome de um deus que é o deles.

Enquanto isso, apocalípticos sinais
desnudam o ventre imundo
onde germina a besta cega e bruta
em nome do pai!

626
Angela Santos

Angela Santos

Em parte e no

todo

Serei, a
sereia,
mulher pla metade
metade no mar
outra metade
na areia...
mas é nesta  cama
despida do mito
que me deito inteira....

E  no  abandono,
adentrando o todo
para tudo ser...
de que serei feita?

mulher, pele,  medusa, mito,
metafísica das formas
que me ditam
seios
quadris
plexus,
olhos
boca
mãos,
instinto....

E alma...
alma presa a este chão
aspirando ao infinito.

1 007
Angela Santos

Angela Santos

Dia

Internacional da Mulher)
Lançaram-nos
ao mundo
Despidas e desarmadas
E aceitamos caladas
Regras, tratados, pré-conceitos
E todos cuidavam saber
De que éramos feitas

E éramos menos
Em seus assentimentos
Fraco sexo, mãe devota
Rosto escondido por detrás dos véus,
Sofrimento e aceitação
Trancados soluços
Almas vexadas dentro de portas

E fomos o que quiseram que fossemos
Anos, dezenas, centenas, milhares deles
E fomos tudo isso, e tudo isso o somos ainda
Não sabendo , quantas de nós, que outra coisa
Somos já

O nosso despertar acordará todos os mágicos
Saberes, sabores, dizeres e sentidos
E ficaremos mais puras, mais perto de ser
Se nos olharmos à luz do que sempre
Havíamos sido sem saber

Viajamos pela História como sombras
Porque a noite era a dimensão que nos refletia

Mas descobrimos o prazer das bacantes
E erguemos nossa taça orgiástica ao sol
nos embriagamos de vida
e na vida mergulhamos
pois da vida criadoras

Os ventos da História
Sopraram mais fortes
E a descoberto, a olho nú
Surgiu a caixa Pandora

À luz do dia que nos furtaram
Clamamos paridade
Que iguais não somos
Antes este modo diverso de ser

E a tempestade atravessou a memória
E arrastou a poeira
Nas regras, tratados e pré-conceitos alojada
Estilhaçando a mentira que nos atava

Escavados os restos mortais,
Do que nunca fomos,
Na minúscula fração de um século
Ainda perguntamos:
- O que haveremos de ser??

Tudo!
Na caminhada infinita da Humanidade
Acabamos de nascer.
982
Angela Santos

Angela Santos

Tear do Tempo

De
noites de mil sóis se fazem os dias
e na berma dos sentidos
corre o desassossego de um corpo sôfrego
e a alma se aviva a cada sobressalto,
do acto consentido que atravessa o corpo

Paira uma leveza sobre os nossos dias
que leva a pensar se em nossas vidas
só ficam as marcas do fugaz presente,
e se me pergunto a alma entoa
um canto que rasga a fundura do tempo

E fico suspensa
no ponto intermédio onde me toca o futuro
e a História me alcança

Desse promontório onde o tempo interroga,
vivo as dimensões todas que há em mim
pretérito, futuro, continuo presente
a lembrar que sou
caminho, vontade, corpo chão, raiz ,
e que a cada instante do tempo que passa
ensaio a busca , de chegar mais perto
da razão que seja o tempo em si

Olho o corpo e vejo ser a dimensão
que o tempo atravessa e marca a passagem,
o corpo navio que sulca esse instante
onde ajo , penso, desejo, decido
e a alma o baú que guarda as memórias
do que fiz, pensei quis e desejei

Pesa-me a leveza que este tempo vive
que escolhe a amnésia como atitude,
pesa-me e contudo por vivê-la anseio
sem esquecer que fui e navego sonhos
e ter sido conjugo com o que serei

A vida me acena aqui e agora
no tempo e lugar onde urge cumprir
o presente e o futuro que incrustados vivem
na raiz da memória que me fez e sou,
raiz donde parto em direcção a mim

Por isso os meus dias, mesmo os banais,
são instantes únicos
que busco olhar na sua inteireza
para viver à proa o tempo que é o meu,
tempo transversal que me atravessa
tempo a dimensão que me interpela
a viver instantes de total urgência.

1 016
Eduardo Valente da Fonseca

Eduardo Valente da Fonseca

Onde nem tudo o que luz é oiro

Somos talvez até um país rico,
e tivemos Camões, e tivemos pessoa e o infante,
mas a beleza está nos escombros,
e atola-se na areia e morre sem nos ver.
porque se eu abro a minha mão à noite
e nela só vejo as linhas do destino,
de que me vale a história do meu povo?
Sim, é possível que a profética rosa do oriente
ainda venha pelo rio da primavera
ancorar na solidão imensa deste cais.

956
Joaquim Pessoa

Joaquim Pessoa

Perguntas

Onde estavas
tu quando fiz vinte anos
E tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
Nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
Para com elas fazer posters cinzeiros  e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
Mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
Ao mesmo tempo que viamos Música no Coração
Mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
Retalhados na Coreia e no Vietname
Nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylon
Virando também as costas quando arrasaram Wiriammu
E enterraram vivas
Mulheres e crianças em nome
De uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
Foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
Ou Alende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
Pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
Às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
Que ninguém te encontrou em lugar algum.

1 757
Angela Santos

Angela Santos

Histórias

de Ninar

Belas
histórias de ninar, arrumadas, esquecidas
nos velhos baús da memória.
abrir os baús, desempoeirar as histórias
e à roda da fogueira voltar a contá-las
aos crescidos, aos pequenos…

Crescidos que esqueceram histórias
que ouviram um dia e não souberam guardar
nos baús do tempo
pequenos que encherão seus dias
seus olhos e sonhos de contos e maravilhas
rasgando caminhos nas dobras da memória

Levantem-se os contadores de histórias
abra-se o coração ao sonho e à magia
que nas poeiras e gangas soterrados
não vemos já
o que os olhos da alma vislumbraram um dia.

Nossos tempos de ilusão….. frios de solidão

Ergam-se os velhos contadores de histórias
brilhem os olhos que se deixaram dormir
abram-se as comportas do tempo
e de novo crianças
tudo olhar à luz de uma estrela - guia

Estrela que nos leve de volta ao lugar
onde os sonhos brotam e o maravilhoso emerge,
ponte que nos liga a um caminho esquecido
onde à luz do sonho rodamos no tempo…

E no que ontem foi inteiros nos vemos,
vivendo histórias de pura magia
sem deixar de ser o que hoje somos
nas florestas densas que imaginamos,
esse lugar mágico onde se abrigam
o Gato das Botas, Peter- Pan e os Gnomos.

650
Angela Santos

Angela Santos

Cântico

Sinto-me,
e sou
em todos os lugares,
todos os tempos
Húmus.. matriz, Isis..

anfíbio largando os mares
animal comendo raízes
mão que se abre para colher frutos
corpo ainda não erecto
que se levanta do chão...

Shiva, Kali, incensos orientais....
arca, diluvio, sargaça ardente
no cume de uma montanha,
eco de uma voz longínqua
mandamentos, mar vermelho
de sangue

Esfinge dos desertos
brisa marinha no rosto.
barco fenício sulcando mares,
pórtico grego, ´"Ágora", coluna romana,
crueldade, circo de Nero.
catacumbas, carne rasgada
cruz exposta, agnus dei

Oração de santo monástico
acesa violência de bárbaros,
"Trevas", medieva luz, busca de eremita.

Navio das descobertas, mares e monstros
dentes podres de escorbuto,
Índias longínquas, astrolábio, estrela polar
marinheiro português

Copérnico, Galileu, metódica dúvida
sem método
ardendo na fogueira dos medos Inquisitoriais
Iluminada revolução, igual, fraterna, liberta,
libertária., sanguinária , Bonnapart
fuga de Bach, Sabat "matter"

Redondela, dança de roda ..campo
seara, camponesa tosca
inocente sagração da vida,

10 de Outubro, sol da terra, Tosltoi, Lenine
amanhãs que não cantaram
ruas de neve vestindo
a morte …. ideologias

Cidade Luz , euforia,
Garçonettes,
Gorges de Sande
Wilde, Monet, Picasso, Gaugin
Comte, Nietsche,
infinito crer, vontade,
Homem, Humanidade
Poder

Cruz gamada, fuzil, horror
Estrela de David, rasgando o peito
Auchewitz...trem humano
rosto da desumanidade.
crematório,
vergonha
culpa
dor

Manhã de Fevereiro,
meu grito recém-nascido.
infância, dor, descoberta
trevas ,luz, alvorecer
caminhada, construção, desconstruçãoeu
a caminho de o ser

1 010
Angela Santos

Angela Santos

Ideologia

Vinham
de longe,
atravessavam desertos
tempestades resistiam,
e no coração guardada
a fórmula do alquimista

viandantes condenados
grilhões de ferro nos pés
vezes e vezes caíram,
seguir era a sua sina
fosse ou não razão ficar.

E cumpriam-se à chegada
exaustos, e sem sentido
um outro norte, a mesma senha…
por eles de novo se erguiam
por eles de novo partir…

Alvoradas, bandeiras, hinos
espadas em punho brandindo
contra o tempo contra os ventos,
sem resistência lá iam,
um novo mundo cumprir.

1 014
Mauricio Segall

Mauricio Segall

Venham admirar

Venham,
venham admirar
o mais recente monumento
neoclássico da civilização ocidental

Não tenham medo nem receio
das alvas chaminés marítimas,
vigilantes sentinelas avançadas
que vomitam os rugidos do boulez electrônico.

Atravessem ousadamente
o happening programado
vasto pátio de milagres,
repleto de artistas amadores,
profissionais do subemprego
(não esqueçam a moedinha, por favor)
e adentrem a queixada
do mais recente dos molochs.

Tranquilizem-se com as criancinhas
virgens, puras e rosadas
armadilhas inocentes
entrevistas nas provetas
dos ascéticos e desinfetados
ateliers de cria-cria-criatividade.

Venham, venham ser moídos
pela recepção glacial toda sorrisos
deglutidos pelas entranhas desnudas
e expelidos pelas peristálticas tripas de vidro
do mais novo monstro sagrado da arte
sorvedouro metálico
das multidões famintas
de verbo e cor
de som e espetáculo.

Transatlântico multicolorido
circo travestido
novo templo de aço
digerindo tecnologicamente
séculos de sensibilidade
e anos de orçamento.

Cultura nuclear instantânea
para os telespectadores
extasiados com a prestidigitação
arquitetônica do futuro
inserida a golpes de fórceps
entre os velhos tetos de paris.

Ah! Que saudades dos Halles
sacrificados no altar da especulação,
cujo imenso buraco desnudo
nos faz chorar a má-fé dos homens.

Centro Beaubourg-Pompidou
fruto da megalomania furiosa,
ditadura da nova moda,
agencia central da arte
igreja dos novos templos
ritual da nova liturgia,
computador maldito
piscando eternamente
anunciando a nova
e duradoura alienação.

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