Dor e Desespero
Poemas neste tema
Emily Dickinson
À PORTA DE DEUS
Duas vezes perdi tudo
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
Á porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
Á porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
1 837
Emily Dickinson
MINHA VIDA ACABOU DUAS VEZES
Já morri duas vezes, e vivo.
Resta-me ver enfim
Se terceira vez na outra vida
Sofrerei assim
Dor tão funda e desesperada,
O pungir quotidiano e eterno.
Só sabemos do Céu que é adeus,
Basta a saudade como Inferno.
(Tradução
de Manuel Bandeira)
Resta-me ver enfim
Se terceira vez na outra vida
Sofrerei assim
Dor tão funda e desesperada,
O pungir quotidiano e eterno.
Só sabemos do Céu que é adeus,
Basta a saudade como Inferno.
(Tradução
de Manuel Bandeira)
1 991
Caio Valério Catulo
85
Odeio e amo. Quiçá queiras saber por que:
ignoro, mas sinto que acontece, e sofro.
ignoro, mas sinto que acontece, e sofro.
1 279
Silvia Brito
Beijo
Beijo partido de vidro
incandescente.
De cores escorridas
e pincéis sujos.
Beijo de papel branco
No canto jogado.
Beijo cheio de ausências,
de cortes e dores,
De braços cansados.
Beijo de caminho sem volta,
de quarto vazio.
Beijo sem boca,
Sem corpo, sem custo.
Beijo no claro e vazio da minha alma
Que se solta...
Calma.
incandescente.
De cores escorridas
e pincéis sujos.
Beijo de papel branco
No canto jogado.
Beijo cheio de ausências,
de cortes e dores,
De braços cansados.
Beijo de caminho sem volta,
de quarto vazio.
Beijo sem boca,
Sem corpo, sem custo.
Beijo no claro e vazio da minha alma
Que se solta...
Calma.
1 250
José Augusto Seabra
Sangria
"Como grandes lágrimas de sangue escorrem folhas dos ramos" (George Bacovia)
A árvore dessangra, assim, lágrima a lágrima, crucificando os ramos entre as folhas,
tão magra como a neve pingando seus últimos coágulos
A árvore dessangra, assim, lágrima a lágrima, crucificando os ramos entre as folhas,
tão magra como a neve pingando seus últimos coágulos
1 031
Juan-Eduardo
Ni la luz
de la luna
La noche enferma
duerme lejos del río.No me escuches,
no me oigas llorar cuando amanece.
Dime:¿has tocado mis ojos
con tus dedos de hielo?
Es que estoy enterrado;
no pises nunca el césped,
no pises la tristeza,
ni la luz de la Luna
cuando pone lejanos los caminos.
Muchacha,
no me escuches,no.No me escuches.
La noche enferma
duerme lejos del río.No me escuches,
no me oigas llorar cuando amanece.
Dime:¿has tocado mis ojos
con tus dedos de hielo?
Es que estoy enterrado;
no pises nunca el césped,
no pises la tristeza,
ni la luz de la Luna
cuando pone lejanos los caminos.
Muchacha,
no me escuches,no.No me escuches.
872
Jorge Melícias
O poema são fogueiras levantadas na
gargantaou um sono inclinado sobre as facas.Alguém
diz,a prumotodos os nomes queimam,e há uma
deflagração assombrosa,a palavra acende-se com
uma àrvore de sangue ao centro.
de A Luz nos Pulmões(2000)
diz,a prumotodos os nomes queimam,e há uma
deflagração assombrosa,a palavra acende-se com
uma àrvore de sangue ao centro.
de A Luz nos Pulmões(2000)
724
Carlos Figueiredo
Pode-se bater
Pode-se bater
em uma criança
sem acordar os vizinhos.
Comparada a uma criatura
de médio porte
a criança é a vítima ideal.
É fácil sufocar
o seu pequeno grito.
em uma criança
sem acordar os vizinhos.
Comparada a uma criatura
de médio porte
a criança é a vítima ideal.
É fácil sufocar
o seu pequeno grito.
880
Luís Amaro
Bairro
Em teu corpo enfim repousarei
Das pedras ásperas
Que mal sei pisar?
Das guerras, dos cilícios,
Dos ecos a doerem nos ouvidos
Como pedradas.
E dos tédios que sangram?
Ah, finalmente
Ao desfolhar teu corpo desfolhado
— Mas inda fresco e belo —
A vida será minha?
Das pedras ásperas
Que mal sei pisar?
Das guerras, dos cilícios,
Dos ecos a doerem nos ouvidos
Como pedradas.
E dos tédios que sangram?
Ah, finalmente
Ao desfolhar teu corpo desfolhado
— Mas inda fresco e belo —
A vida será minha?
872
Carlos de Oliveira
Desço
pelo cascalho interno da terra,
onde o esqueleto da vida
se petrifica protestando.
Como um rio ao contrário,de águas povoadas
por alucinações mortas boiando levadas
para a alma da terra,
procuro os úberes do fogo.
de Descida Aos Infernos
onde o esqueleto da vida
se petrifica protestando.
Como um rio ao contrário,de águas povoadas
por alucinações mortas boiando levadas
para a alma da terra,
procuro os úberes do fogo.
de Descida Aos Infernos
2 294
Albano Dias Martins
Aqui começam
todas
as doenças. A do feno
e seus alvéolos furtivos, a da lepra
das palavras traídas, nunca
usadas. E as maleitas
da pele, a insanável
maresia da língua.
as doenças. A do feno
e seus alvéolos furtivos, a da lepra
das palavras traídas, nunca
usadas. E as maleitas
da pele, a insanável
maresia da língua.
1 165
António Gancho
Tu és mortal meu Deus
Noite, vem noite
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
1 473
Celso Emilio Ferreiro
Longa noite de pedra
O teito é de pedra.
De pedra son os muros
i as tebras.
De pedra o chan
i as reixas.
As portas,
as cadeas,
o aire,
as fenestras,
as olladas,
son de pedra.
Os corazós dos homes
que ao lonxe espreitan
feitos están
tamén
de pedra.
I eu, morrendo
nesta longa noite
de pedra.
De pedra son os muros
i as tebras.
De pedra o chan
i as reixas.
As portas,
as cadeas,
o aire,
as fenestras,
as olladas,
son de pedra.
Os corazós dos homes
que ao lonxe espreitan
feitos están
tamén
de pedra.
I eu, morrendo
nesta longa noite
de pedra.
1 559
Fernando Pessoa
Ah, só eu sei
Ah, só eu sei
Quanto dói meu coração
Sem fé nem lei,
Sem melodia nem razão.
Só eu, só eu,
E não o posso dizer
Porque sentir é como o céu,
Vê-se mas não há nele que ver.
10/08/1932
Quanto dói meu coração
Sem fé nem lei,
Sem melodia nem razão.
Só eu, só eu,
E não o posso dizer
Porque sentir é como o céu,
Vê-se mas não há nele que ver.
10/08/1932
4 709
Fernando Pessoa
Meu ruído de alma cala.
Meu ruído de alma cala.
E aperto a mão no peito,
Porque sob o efeito
Da arte que faz trejeito,
O que é de Cristo fala.
Cega, porca, lixo
Da vida que n'alma tem,
Esta criança vem.
Que Deus é que do além
Teve este mau capricho?
26/08/1930
E aperto a mão no peito,
Porque sob o efeito
Da arte que faz trejeito,
O que é de Cristo fala.
Cega, porca, lixo
Da vida que n'alma tem,
Esta criança vem.
Que Deus é que do além
Teve este mau capricho?
26/08/1930
3 812
Fernando Pessoa
INCIDENTE
Dói-me no coração
Uma dor que me envergonha...
Quê! Esta alma que sonha
O âmbito todo do mundo
Sofre de amor e tortura
Por tão pequena coisa...
Uma mulher curiosa
E o meu tédio profundo?
1931
Uma dor que me envergonha...
Quê! Esta alma que sonha
O âmbito todo do mundo
Sofre de amor e tortura
Por tão pequena coisa...
Uma mulher curiosa
E o meu tédio profundo?
1931
4 298
Fernando Pessoa
Velo, na noite em mim,
Velo, na noite em mim,
Meu próprio corpo morto.
Velo, inútil absorto.
Ele tem o seu fim
Inutilmente, enfim.
1927
Meu próprio corpo morto.
Velo, inútil absorto.
Ele tem o seu fim
Inutilmente, enfim.
1927
4 261
Fernando Pessoa
O LOUCO
O LOUCO
E fala aos constelados céus
De trás das mágoas e das grades
Talvez com sonhos como os meus...
Talvez, meu Deus!, com que verdades!
As grades de uma cela estreita
Separam-no de céu e terra...
Às grades mãos humanas deita
E com voz não humana berra...
30/10/1928
E fala aos constelados céus
De trás das mágoas e das grades
Talvez com sonhos como os meus...
Talvez, meu Deus!, com que verdades!
As grades de uma cela estreita
Separam-no de céu e terra...
Às grades mãos humanas deita
E com voz não humana berra...
30/10/1928
5 291
Fernando Pessoa
Universal lamento
Universal lamento
Aflora no teu ser.
Só tem de ti a voz e o momento
Que o fez em tua voz aparecer.
28/09/1926
Aflora no teu ser.
Só tem de ti a voz e o momento
Que o fez em tua voz aparecer.
28/09/1926
4 468
Fernando Pessoa
Porque vivo, quem sou, o que sou, quem me leva?
Porque vivo, quem sou, o que sou, quem me leva?
Que serei para a morte? Para a vida o que sou?
A morte no mundo é a treva na terra.
Nada posso. Choro, gemo, cerro os olhos e vou.
Cerca-me o mistério, a ilusão e a descrença
Da possibilidade de ser tudo real.
Ó meu pavor de ser, nada há que te vença!
A vida como a morte é o mesmo Mal!
1919
Que serei para a morte? Para a vida o que sou?
A morte no mundo é a treva na terra.
Nada posso. Choro, gemo, cerro os olhos e vou.
Cerca-me o mistério, a ilusão e a descrença
Da possibilidade de ser tudo real.
Ó meu pavor de ser, nada há que te vença!
A vida como a morte é o mesmo Mal!
1919
4 175
Fernando Pessoa
Tudo quanto sonhei tenho perdido
Tudo quanto sonhei tenho perdido
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.
Pobre criança a quem não deram nada,
Choras? É em vão.
Como eu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.
A ti talvez, que não te tens dado,
Daria enfim...
A mim... Sei eu que duro e inato fado
Me espera a mim?
1920
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.
Pobre criança a quem não deram nada,
Choras? É em vão.
Como eu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.
A ti talvez, que não te tens dado,
Daria enfim...
A mim... Sei eu que duro e inato fado
Me espera a mim?
1920
4 454
Fernando Pessoa
Oca de conter-me
Oca de conter-me
Como a hora dói!
Pérfida de ter-me
Como me destrói
O meu ser inerme!
Ó meu ser sombrio!
Ó minha alma tal
Como se p'lo rio
Do meu ser igual
Sempre a mim, e frio
De nocturno e meu,
Passasse, cantando,
Uma louca, olhando
Dum barco pró brando
Silêncio do céu.
04/05/1914
Como a hora dói!
Pérfida de ter-me
Como me destrói
O meu ser inerme!
Ó meu ser sombrio!
Ó minha alma tal
Como se p'lo rio
Do meu ser igual
Sempre a mim, e frio
De nocturno e meu,
Passasse, cantando,
Uma louca, olhando
Dum barco pró brando
Silêncio do céu.
04/05/1914
4 161
Fernando Pessoa
DOLORA
POEMAS DISPERSOS
DOLORA
Dantes quão ledo afectava
Uma atroz melancolia!
Poeta triste ser queria
E por não chorar chorava.
Depois, tive que encontrar
A vida rígida e má.
Triste então chorava já
Porque tinha que chorar.
Num desolado alvoroço
Mais que triste não me ignoro.
Hoje em dia apenas choro
Porque já chorar não posso.
19/11/1908
DOLORA
Dantes quão ledo afectava
Uma atroz melancolia!
Poeta triste ser queria
E por não chorar chorava.
Depois, tive que encontrar
A vida rígida e má.
Triste então chorava já
Porque tinha que chorar.
Num desolado alvoroço
Mais que triste não me ignoro.
Hoje em dia apenas choro
Porque já chorar não posso.
19/11/1908
4 325
Fernando Pessoa
MARINHA
MARINHA
Ditosos a quem acena
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena...
Eu sofro sem pena a vida.
Doo-me até onde penso,
E a dor é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...
E sobe até mim, já farto
De improfícuas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.
(Presença, nº 5, Junho de 1927)
Ditosos a quem acena
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena...
Eu sofro sem pena a vida.
Doo-me até onde penso,
E a dor é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...
E sobe até mim, já farto
De improfícuas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.
(Presença, nº 5, Junho de 1927)
7 649
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