Tristeza e Melancolia

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Que suave é o ar! Como parece

Que suave é o ar! Como parece
Que tudo é bom na vida que há!
Assim meu coração pudesse
Sentir essa certeza já.

Mas não; ou seja a selva escura
Ou seja um Dante mais diverso,
A alma é literatura
E tudo acaba em nada e verso.


06/11/1932
4 400
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Renego, lápis partido,

Renego, lápis partido,
Tudo quanto desejei.
E nem sonhei ser servido
Para onde nunca irei.

Pajem metido em farrapos
Da glória que outros tiveram,
Poderei amar os trapos
Por ser tudo que me deram.

E irei, príncipe mendigo,
Colher, com a boa gente,
Entre o ondular do trigo
A papoula inteligente.


12/04/1934
4 338
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eram varões todos,

Eram varões todos,
Andavam na floresta
Sem motivo e sem modos
E a razão era esta.

E andando iam cantando
O que não pude ser,
Nesse tom mole e brando
Como um anoitecer.

Em querer cantar quanto
Não há nem é e dói
E que tem disso o encanto
De tudo quanto foi.


1934
4 059
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No meu sonho estiolaram

No meu sonho estiolaram
As maravilhas de ali,
No meu coração secaram
As lágrimas que sofri.
Mas os que amei não acharam
Quem eu era, se era em si,
E a sombra veio e notaram
Quem fui e nunca senti.


10/08/1932
3 989
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Canta onde nada existe

Canta onde nada existe
O rouxinol para seu bem,
Ouço-o, cismo, fico triste
E a minha tristeza também

Janela aberta, para onde
Campos de não haver são
O onde a dríade se esconde
Sem Ser imaginação.

Quem me dera que a poesia
Fosse mais do que a escrever!
Canta agora a cotovia
Sem se lembrar de viver...


07/12/1933
4 465
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

De aqui a pouco acaba o dia.

Daqui a pouco acaba o dia.
Não fiz nada.
Também, que coisa é que faria?
Fosse o que fosse, estava errada.

Daqui a pouco a noite vem.
Chega em vão
Para quem como eu só tem
Para contar o coração.

E após a noite a irmos dormir
Torna o dia.
Nada farei senão sentir.
Também que coisa é que faria?


31/08/1930
5 039
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O mau aroma alacre

O mau aroma álacre
Da maresia
Sobe no esplendor acre
no dia.

Falsa, a ribeira é lodo
Ainda a aguar.
Olho, e o que sou está todo
A não olhar.

E um mal de mim a deixa.
Tenho lodo em mim –
Ribeira que se queixa
De o rio ser assim.


27/03/1931
4 454
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vem dos lados da montanha

Vem dos lados da montanha
Uma canção que me diz
Que, por mais que a alma tenha,
Sempre há-de ser infeliz.

O mundo não é seu lar
E tudo que ele lhe der
São coisas que estão a dar
A quem não quer receber.

Diz isto? Não sei. Nem voz
Ouço, música, à janela
Onde me medito a sós
Como o luzir de uma estrela.


14/11/1931
4 197
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho sono em pleno dia.

Tenho sono em pleno dia.
Não sei de quê, tenho pena.
Sou como uma maresia.
Dormi mal e a alma é pequena.

Nos tanques da quinta de outrem
É que gorgoleja bem.
Quanto as saudades encontrem,
Tanto minha alma não tem.


05/04/1931
4 152
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Clareia cinzenta a noite de chuva,

Clareia cinzenta a noite de chuva,
Que o dia chegou.
E o dia parece um traje de viúva
Que já desbotou.

Ainda sem luz, salvo o claro do escuro,
O céu chove aqui,
E ainda é um além, ainda é um muro
Ausente de si.

Não sei que tarefa terei este dia;
Que é inútil já sei...
E fito, de longe, minha alma, já fria
Do que não farei.


14/11/1931
4 217
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cheguei à janela,

Cheguei à janela,
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.

Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.

Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.


26/02/1931
4 638
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

As nuvens são sombrias

As nuvens são sombrias
Mas, nos lados do sul,
Um bocado do céu
É tristemente azul.

Assim, no pensamento,
Sem haver solução,
Há um bocado que lembra
Que existe o coração.

E esse bocado é que é
A verdade que está
A ser beleza eterna
Para além do que há.


05/04/1931
4 512
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Talvez que seja a brisa

Talvez que seja a brisa
Que ronda o fim da estrada,
Talvez seja o silêncio,
Talvez não seja nada...

Que coisa é que na tarde
Me entristece sem ser?
Sinto como se houvesse
Um mal que acontecer.

Mas sinto o mal que vem
Como se já passasse...
Que coisa é que faz isto
Sentir-se e recordar-se?


17/08/1930
3 969
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Mais triste do que o que acontece

Mais triste do que o que acontece
É o que nunca aconteceu.
Meu coração, quem o entristece?
Quem o faz meu?

Na nuvem vem o que escurece
O grande campo sob o céu.
Memórias? Tudo é o que esquece.
A vida é quanto se perdeu.
E há gente que não enlouquece!
Ai do que em mim me chamo eu!


09/06/1930
4 226
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Como às vezes num dia azul e manso

Como às vezes num dia azul e manso
No vivo verde da planície calma
Duma súbita nuvem o avanço
Palidamente as ervas escurece
Assim agora em minha pávida alma
Que súbito se evola e arrefece
A memória dos mortos aparece...


10/11/1925
4 145
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

É inda quente o fim do dia...

É inda quente o fim do dia...
Meu coração tem tédio e nada...
Da vida sobe maresia...
Uma luz azulada e fria
Pára nas pedras da calçada...
Uma luz azulada e vaga
Um resto anónimo do dia...
Meu coração não se embriaga
Vejo como que em si o dia...
É uma luz azulada e fria.


13/07/1928
4 279
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pela rua já serena

Pela rua já serena
Vai a noite
Não sei de que tenho pena,
Nem se é penar isto que tenho...

Pobres dos que vão sentindo
Sem saber do coração!
Ao longe, cantando e rindo,
Um grupo vai sem razão...

E a noite e aquela alegria
E o que medito a sonhar
Formam uma alma vazia
Que paira na orla do ar...


18/06/1929
4 225
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Em torno ao candeeiro desolado

Em torno ao candeeiro desolado
Cujo petróleo me alumia a vida,
Paira uma borboleta, por mandado
Da sua inconsistência indefinida.


01/09/1928
4 713
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há luz no tojo e no brejo

Há luz no tojo e no brejo
Luz no ar e no chão...
Há luz em tudo que vejo,
Não no meu coração...

E quanto mais luz lá fora
Quanto mais quente é o dia
Mais por contrário chora
Minha íntima noite fria.


26/11/1927
3 879
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vai leve a sombra

Vai leve a sombra
Por sobre a água.
Assim meu sonho
Na minha mágoa.

Como quem dorme
Esqueço a viver.
Despertarei
Ao sol volver.

Nuvem ou brisa,
Sonho ou (...) dada
Faz sentir; passa,
E não foi nada.


03/08/1930
4 039
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ó sorte de olhar mesquinho

Ó sorte de olhar mesquinho
E gestos de despedida,
Apanha-me do caminho
Como a uma coisa caída...

Resvalei à via velha
Do colo de quem sonhava.
Leva-me como na celha
O sabão de quem lavava...

Quem quer saber de quem fora
Quem eu fora se outro fosse...
Olha-me e deita-me fora
Como quem farta de doce.


24/06/1930
4 131
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, toca suavemente

Ah, toca suavemente
Como a quem vai chorar
Qualquer canção tecida
De artifício e de luar –
Nada que faça lembrar
A vida.

Prelúdio de cortesias,
Ou sorriso que passou...
Jardim longínquo e frio...
E na alma de quem o achou
Só o eco absurdo do voo
Vazio.


08/11/1922
3 748
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tudo quanto sonhei tenho perdido

Tudo quanto sonhei tenho perdido
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.

Pobre criança a quem não deram nada,
Choras? É em vão.
Como eu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.

A ti talvez, que não te tens dado,
Daria enfim...
A mim... Sei eu que duro e inato fado
Me espera a mim?


1920
4 454
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meus dias passam, minha fé também.

Meus dias passam, minha fé também.
Já tive céus e estrelas em meu manto.
As grandes horas, se as viveu alguém,
Quando as viver, perderam já o encanto.


1924
4 263