Arte

Poemas neste tema

Eunice Arruda

Eunice Arruda

Hora Poética

Para esquecer esta
dor

— transformá-la em poesia

Para eternizar esta
dor

— transformá-la em poesia

964
Pe. Osvaldo Chaves

Pe. Osvaldo Chaves

Culto de Ricardo Reis

A um infiel

Horácio é um rio...
Batiza-te, infiel, nas santas águas,
Receberás o espírito!
Mergulha de uma vez,
Terás em plenitude
A graça e a saúde
Para entender e amar Ricardo Reis.

891
Aymar Mendonça

Aymar Mendonça

Busca

Um quadro futurista
uma mosca pousada na parede
um barbante enroscado no chão

O pensamento busca mistérios
cria mantras

enquanto a realidade transita
entre o barulho da máquina de lavar
e uma réstea de sol varando o vidro.

899
Antônio Massa

Antônio Massa

Gozo

o poetasonhaabsorveamadespeama de novoadornae eterniza a palavra com o suor do seu íntimo

1 006
André Ricardo Aguiar

André Ricardo Aguiar

Revisão

uma mão sempre escreve
o ofício das letras:

a Eternidade
urge reformas

826
Aleilton Fonseca

Aleilton Fonseca

nota sobre

teoria particular (mas nem tanto) do poema

a disposição dos versos em estrofes numeradas indica uma seqüência de leitura entre
outras, por exemplo:

1 134
Paladas

Paladas

QUATRO POEMAS

QUATRO POEMAS

Digamos pois que a vida é um teatro,
em que cumpre ao actor fingir com arte:
levando-a a rir, como se fora farsa,
ou digno sendo na tragédia parte.

862
Heinrich Heine

Heinrich Heine

DOCH DIE KASTRATEN

Quando ensaiei minhas árias
Os castrados protestaram.
Que voz, que dicção, ordinárias
- Protestaram e clamaram.

E logo de cada qual
A vozinha delicada
Em trilos como cristal
Pura vibrou e afinada.

De desejos só cantavam,
E do amor e suas partes.
E as damas todas choravam
Comovidas com tais artes.

1 941
Jorge Lúcio de Campos

Jorge Lúcio de Campos

Retrato de Regina num quimono preto

(a Steve Hawley)

Pouco a ver ou
a dizer daqueles

seios de Alechinsky –
as coisas do mundo

a argila quente do dia

Pouco a ver ou
a dizer daquele

queixo de Rodchenko
– um eu-te-amo de

delírio reencontrado

(um pouco a língua e
a nuca por completo)

Ao redor daquelas
patas de Tanguy

só cabeça, tronco
e membros

793
Jorge Lúcio de Campos

Jorge Lúcio de Campos

A origem do mundo

(a Gustave Courbet)

Há uma doença qualquer tagarela
nesse buço de quasares negros

ao meu lado; aqui comigo a carne
ferve aos poucos – cortes lentos

Mas por que não regurgita agora
a vulva cáqui linguaruda

sob a luz desenroscada
da manhã?

896
Mário Rui de Oliveira

Mário Rui de Oliveira

Mark Rothko

Mede a tapeçaria como quem entra no santuário e quebra o espelho de
uma ausência. Suas cores são um milagre. De púrpura violácea, de
púrpura escarlate, de púrpura carmesin.

Assim o manto do seu encontro. Feito de romãs e sinos de oiro. Da
matéria dos holocaustos.

(para José Tolentino Mendonça)

1 012
Murillo Mendes

Murillo Mendes

Harpa-Sofá

(Um quadro de Vieira da Silva)

Repousa na harpa-sofá
A mulher com o filho pródigo,
Sirène bleue nonchalante,
Veio da terra de Siena
Talvez medieval ou chinesa.
Eis o grande no minúsculo:
Da minha infância é que veio,
Ou do tempo que virá.
1 216
Renier Dias Pereira

Renier Dias Pereira

Essência

Essência

Eu quero a rima pobre , paupérrimaEu quero os mais puros sentimentosEu quero o exagero , a língua erradaEu quero a dor , a alegria , o sofrimentoEu quero o íntimo , veias abertas Eu quero a sem-vergonhice , a poesia vivaEu quero o discurso em chamasEu quero o parto normal de uma vidasem limites...

1 157
Régis Bonvicino

Régis Bonvicino

Uma Idéia

palavras não matam
nem provocam inverno atômico

e na voz do poeta
(abelhas na colméia)

podem até conter uma idéia

1 632
António de Navarro

António de Navarro

Poema XVI

Uma nota solta
De não sei que música
Vagueia flor em flor
Como abelha de som.

Não lhe sei a cor,
Não lhe sei o tom,
— Deve ser esquiva e nívea
E faltar com certeza

Ao compositor e poeta
Que sonhou a perfeição
E a beleza
Sem mácula, que lhe adoece
De a buscar o coração

Ah, se ela quisesse
Aninhar-se na minha alma!...

1 184
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Do fundo do fim do mundo

Do fundo do fim do mundo
Vieram-me perguntar
Qual era o anseio fundo
Que me fazia chorar.

E eu disse: «É esse que os poetas
Têm tentado dizer
Em obras sempre incompletas
Em que puseram seu ser.»

E assim com um gesto nobre
Respondi a quem não sei
Se me houve por rico ou pobre.


14/07/1934
3 999
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A criança que ri na rua,

A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo –

Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer coisa de amor,
Ainda que o amor seja mudo.


04/10/1934
4 859
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho escrito mais versos que verdade.

Tenho escrito muitos versos,
Muitas coisas a rimar,
Dadas em ritmos diversos
Ao mundo e ao seu olvidar.

Nada sou, ou fui de tudo.
Quanto escrevi ou pensei
É como o filho de um mudo –
«Amanhã eu te direi».

E isto só por gesto e esgar,
Feito de nadas em dedos
Como uma luz ao passar
Por onde havia arvoredos.


12/04/1934
3 743
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Canta onde nada existe

Canta onde nada existe
O rouxinol para seu bem,
Ouço-o, cismo, fico triste
E a minha tristeza também

Janela aberta, para onde
Campos de não haver são
O onde a dríade se esconde
Sem Ser imaginação.

Quem me dera que a poesia
Fosse mais do que a escrever!
Canta agora a cotovia
Sem se lembrar de viver...


07/12/1933
4 470
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Já não vivi em vão

Já não vivi em vão
Já escrevi bem
Uma canção.

A vida o que tem?
Estender a mão
A alguém?

Nem isso, não.
Só o escrever bem
Uma canção.


07/05/1927
4 922
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não canto a noite porque no meu canto

Não canto a noite porque no meu canto
O sol que canto acabará em noite.
Não ignoro o que esqueço.
Canto por esquecê-lo.

Pudesse eu suspender, inda que em sonho,
O Apolíneo curso, e conhecer-me,
Inda que louco, gémeo
De uma hora imperecível!


02/09/1923
2 302
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

óóóó–óóóóóóóóó–óóóóóóóóóóóóóóó

(O vento lá fora).
4 714
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

12 - Os pastores de Virgílio tocavam avenas e outras coisas

Os pastores de Virgílio tocavam avenas e outras coisas
E cantavam de amor literalmente.
(Depois – eu nunca li Virgílio.
Para que o havia eu de ler?)

Mas os pastores de Virgílio, coitados, são Virgílio,
E a Natureza é bela e antiga.
2 341
Anterior Página 17