Literatura e Palavras

Poemas neste tema

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lembrança de Portinari

O universo de Portinari,
se às vezes dói, sempre fulgura:
entrelaça, como num verso,
o que é humano ao que é pintura.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Recomendação

Neste botânico setembro,
que pelo menos você plante
com eufórica
emoção ecológica
num pote de plástico
uma flor de retórica.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Abgar Renault

A contagem de tempo
do poeta
não é a do relógio
nem a da folhinha.
É amadurecer de poemas
a envolvê-lo e tirar-lhe
toda marca de tempo
de folhinha
e relógio
e a situá-lo
na franja além do tempo
onde paira o sentido
a razão última das coisas
imersas de poesia.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Augusto Frederico Schmidt 10 Anos Depois

10 ANOS DEPOIS
Veleja o poeta em mar desconhecido?
Bebe de novo em invisível fonte?
Schmidt inquieto, nunca adormecido,
brinca talvez na linha do horizonte.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Passatempo

O verso não, ou sim o verso?
Eis-me perdido no universo
do dizer, que, tímido, verso,
sabendo embora que o que lavra
só encontra meia palavra.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lição

Tarde, a vida me ensina
esta lição discreta:
a ode cristalina
é a que se faz sem poeta.
1 280
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Bom Marido

Nunca vou esquecer a palavra ingrediente
no plural.
À tarde, Arabela conversava
com Teresa, na sala de visitas.
Passei perto, ouvi:
— Custódio tem todos os ingredientes
para ser bom marido.
— Quais são os ingredientes?
a outra lhe pergunta.
Arabela sorri, sem responder.
Guardo a palavra com cuidado,
corro ao dicionário:
continua o mistério.
1 339
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Primeiro Poeta

O poeta Astolfo Franklin, como o invejo:
tem tipografia em que ele mesmo
imprime seus poemas simbolistas
em tinta verde e violeta: Maio…
é seu jornal, e a letra rara orna seu nome
que tilinta na bruma, enquanto o resto
some.
1 018
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em Memória de Alphonsus de Guimaraens

I

Na violeta do entardecer,
flutua, evanescente, o poema
daquele poeta cujo ser
era só poesia — e suprema.


II

Um poeta, entre muitos, me fascina
por ser mineiro e do País do Sonho.
O luar pousa em seu verso alto e tristonho
e a alma de quem o lê já se ilumina.
1 199
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não Fosforesce Essa Mão Que Mal Se Move

Não fosforesce essa mão que mal se move
e quase não palpita sob a escura abóbada.
Estreitam-se os dedos de madeira transparente
e sobre o papel volante ainda acendem uma lua
que ascende vacilante sobre a cabeça trémula.
853
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

É No Vazio Que Alcanço a Identidade

É no vazio que alcanço a identidade
compacta
em que nunca me repito e sou
a luz e a sombra de um acto único
de indomável tremor
que se desintegra em miríades de palavras.
1 049
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Silêncio

Onde o incandescente
centro das flores?
Entre margens de água
onde a alma se encurva?

Voz próxima do chão
onde estremecem palavras
na indivisa espera
de um vinho negro.

Respiram minuciosas
entre detritos verdes
e lâmpadas quebradas.
Não dizem a palavra.

Calar, calar talvez.
Querer dizer é demais.
933
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Apagada

Acolhe na sua língua
um veneno de lâmpadas.
Apaga-se e
centra-se

na obscura falha.
Onde os nomes nas ervas
da noite?
Um silêncio de ilha

propaga-se nas palavras.
Uma boca desaparece
no fulgor
de uma nuvem.
482
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Eu Digo Vacila, o Que Vejo Treme.

O que eu digo vacila, o que vejo treme.
O que eu não posso dizer ou ver é o que eu digo,
é o que eu vejo, a transparência.
1 218
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Estrias de Ignorância Para Enunciar

Estrias de ignorância para enunciar
o canto material.
903
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dizer As Palavras Na Afluência

Dizer as palavras na afluência
que vem do impenetrável arvoredo.
São estes os vocábulos sem miragem.
1 018
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Seiva do Ar

Na seiva do ar
uma palavra que é rosto ou melodia.
1 101
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Num Repouso de Fundura Agreste

Num repouso de fundura agreste
na ressonância suave da folhagem
encontrar as mais simples palavras
entreabrir as portas mais serenas.
1 085
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Brecha Aberta Pelo Gesto

A brecha aberta pelo gesto
apaga todas as fórmulas. Do rio
nasce a palavra que corre para o fogo.
Outra boca se abre inicial, perdida.
887
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Fogo Sob Os Passos Vibra Verde

O fogo sob os passos vibra verde
sem o caminho exacto
A clareira é um lugar em que se está
O centro verdadeiro ou simulacro
imponderável
A aragem nas vértebras
O fogo dos pulsos
O inacessível tronco ardendo no quadrado
E um outro quadro com as folhas e o espaço
ditos não pela boca mas inscritos
na nulidade do vento e na nudez da escrita
1 078
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

É Um Lugar Para As Hordas

É um lugar para as hordas
para os cavalos     Para algo
que se designa aqui
na evidência

Contanto que o ardor os nomeie
essa paixão árida que não canta
mas vibra seca no papel incerta

Quem detém os olhos? Quem vê o curso
do vento nas palavras?
E as flechas que por vezes se desfazem?
947
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Secreta a Amadurecer E Abrindo-Se

Secreta a amadurecer e abrindo-se
quando a noite é a folhagem
Diria flor ou pétala mas não
Este segredo é de água une-se ao vento

São linhas ou corpos     indecidida
resta a palavra que não segue a imagem
Entre uns e outros respira-se talvez
e uns caem separados na distância
e outros formam o volume branco
que une o obscuro à claridade
975
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sucedem-Se As Imagens

Sucedem-se as imagens
sobre imagens
em busca de um alvo que recua a cada avanço inacessível
É preciso deter esta corrida e procurar o caminho da palavra

no branco que a desloca

suscitando
a nitidez nua de umas frases
que esparsas se reúnam num só corpo
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mais do Que Um Rosto Um Espaço

Mais do que um rosto um espaço
multiplicado e branco     para o desejo ou o obscuro
A palavra que o disser dissolver-se-á
dissolvê-lo-á
na brancura doutra
Outro desejo e o mesmo
na palavra nua
de um alento
e na surpresa nua
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