Morte e Luto

Poemas neste tema

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

De Arredio Motel Em Colcha de Damasco

De arredio motel em colcha de damasco
viste em mim teu pai morto, e brincamos de incesto.
A morte, entre nós dois, tinha parte no coito.
O brinco era violento, misto de gozo e asco,
e nunca mais, depois, nos fitamos no rosto.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Moinho

A mó da morte mói
o milho teu dourado
e deixa no farelo
um ai deteriorado.

Mói a mó, mói a morte
em seu moer parado
o que era trigo eterno
e o nem sequer semeado.

Da morte a mó que mói
não mói todo o legado.
Fica, moendo a mó,
o vento do passado.
1 620
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

No Mármore de Tua Bunda

No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio.
Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence.
Tu a levaste contigo.
1 970
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Indagação

Na morta biosfera,
o fantasma do pássaro
inquiriu
ao fantasma da árvore
(que não lhe respondeu):
— A Primavera já era
ou ainda não nasceu?
1 290
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Frutuoso Viana

Era pequeno, era elegante, era discreto.
Não fez barulho na travessia terrestre.
Deixou apenas
um rastro de música apuradíssima.
1 149
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Augusto Frederico Schmidt 10 Anos Depois

10 ANOS DEPOIS
Veleja o poeta em mar desconhecido?
Bebe de novo em invisível fonte?
Schmidt inquieto, nunca adormecido,
brinca talvez na linha do horizonte.
1 070
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mortos Que Andam

Meu Deus, os mortos que andam!
Que nos seguem os passos
e não falam.
Aparecem no bar, no teatro, na biblioteca.
Não nos fitam,
não nos interrogam,
não nos cobram nada.
Acompanham, fiscalizam
nosso caminho e jeito de caminhar,
nossa incômoda sensação de estar vivos
e sentir que nos seguem, nos cercam,
imprescritíveis. E não falam.
1 403
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Por Quê?

Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?
1 693
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Engate

O morto no sobrado
no porão a mulata
a pausa no velório
o beijo no escurinho
a pressa de engatar
o sentido da morte
na cor de teu desejo
que clareia o porão.

O morto nem ligando.
1 177
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Abrãozinho

Largou a venda, largou o dinheiro,
largou a amante sem se despedir.
Foi para o Rio fazer o quê?
Sentar no banco em frente ao Supremo
Tribunal Federal,
estourar a tiro a própria cabeça,
fazendo justiça
a si mesmo, crime
ignorado até de si mesmo.
A carta de suicida
— “Me firmo Abraão Elias” —
nada esclarece.
853
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cemitério do Rosário

À beira do córrego, à beira do ouro,
à beira da história,
à beira da beira, os mais esquecidos
inominados
de todos os mortos antigos
dissolvem a ideia de morte
em ausência deliciosa,
lembrança de vinho
em garrafão translúcido.
1 552
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Os Gloriosos

O chão da sacristia é forrado de campas,
domicílio perpétuo dos Antigos,
pois assim deve ser: volta dos filhos
da Santa Madre à Matriz do batismo,
para serem pisados como pó
e lembrados como reis.
1 249
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Descoberta

O dente morde a fruta envenenada
a fruta morde o dente envenenado
o veneno morde a fruta e morde o dente
o dente, se mordendo, já descobre
a polpa deliciosíssima do nada.

(lc)
2 117
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Primeiro Morto

Alberto pequeno coxo
ágil endemoninhado contestador dialético,
saci que ri, óculos relumbrando
sob o circunflexo de bastas sobrancelhas
e coração ardendo de doçura
a fingir de sarcástico
— tão cedo vai Alberto: a pregar peças
em mundo novo, a amigos novos?
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dissipam-Se As Minhas Pétalas

Dissipam-se as minhas pétalas
entre formigas e sombras.
Tudo o que me dilacera
está perto do que é minúsculo.
Pequenos fósseis brancos
dizem tudo quanto sou
no desejo de ser pedra
ou uma parede com fendas.
1 024
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Livres Para Nos Apagarmos

Livres para nos apagarmos
entre as raízes ouvindo o eco ambíguo.
996
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não Sinais Já. Mas a Boca

Não sinais já. Mas a boca
da terra na obscura opacidade.
1 089
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Com a Terra de Amanhã

Com a terra de amanhã

sem o corpo da terra

deslizando

na brancura do branco
1 045
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Mar Furtivo Entre Dois Ventos

Um mar furtivo entre dois ventos

no limite

das árvores         as vagas

no papel áridas asas

uma cabeça oca     branca entre algas     dedos

transparência da luz alta

sobre as pálpebras

ávida morte         nua lápide da sombra
992
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dói-Me Uma Noite de Terra Sobre a Fronte

Dói-me uma noite de terra sobre a fronte

mínimo coral nocturno     suspensão presente

— promontório

sem a memória das imagens

no círculo

dos derradeiros insectos
946
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

17. Purificada Pela Paz Dos Olhos Lindos

17
Purificada pela paz dos olhos lindos
sob o arbusto frio
ilimitada a pobreza a amêndoa incorruptível.

Filha de quem dormindo sob
a ameaça da sílaba sinistra
filha de nada e da noite da árvore.

Por quem a sílaba formada
por quem ou pela nuvem enublada
armada pela mão da morte armada.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dia de Inverno

A boca fria sobre as árvores
Um dia não iluminado
Um tronco inerte
A mão ensaia a carícia no espaço
nas árvores
nos cabelos da terra
a força regelada

o homem
desceu
a rua solitária

rente ao muro
a claridade pálida
da lâmpada

A terra cheira a terra pobre

os insectos percorrem
um a um
o pulso apagado
1 051
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Em Qualquer Parte Um Homem

Em qualquer parte um homem
discretamente morre

Ergueu uma flor
Levantou uma cidade

Enquanto o sol perdura
ou uma nuvem passa
surge uma nova imagem

Em qualquer parte um homem
abre o seu punho e ri
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Francisco Mallmann

Francisco Mallmann

V

esse é um exercício de morte
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
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