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Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Rouxinol que não cantaste,

Rouxinol que não cantaste,
Gaio que não cantarás,
Qual de vós me empresta o canto
Para ver o que ela faz?
918
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nuvem que passas no céu,

Nuvem que passas no céu,
Dize a quem não perguntou
Se é bom dizer a quem deu:
«O que deste, não to dou.»
1 488
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ON BABY'S DEATH

With the doleful dead man's bell
Ring, oh, ring not Baby's knell!
Let her calmly, calmly sleep,
But with the flow’rs fresh from the dell
Make thou a music wild and deep,
Such as men can but know well
        When their souls have learnt to weep.

As if Love's self had gone from earth
Oh, sing a music that has birth
In the suspension of commotion
For thus hath death made our emotion.
Sing thou a song more deep and true
Than the vague, soft song of ocean
The quiet darkness moaning through.

Sing into sad tears our distress!
Oh, let soft sorrow be thy strain!
She's gone beyond our love's caress,
Giving to life more loneliness
        And to mystery more pain.
1 454
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dizem que as flores são todas

Dizem que as flores são todas
Palavras que a terra diz.
Não me falas: incomodas.
Falas: sou menos feliz.
4 192
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Outros com liras ou com harpas narram,

Outros com liras ou com harpas narram,
       Eu com meu pensamento.
Que, por meio de música, acham nada
        Se acham só o que sentem.
Mais pesam as palavras que, medidas,
        Dizem que o mundo existe.
1 220
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A Senhora da Agonia

A Senhora da Agonia
Tem um nicho na Igreja.
Mas a dor que me agonia
Não tem ninguém quem a veja.
1 528
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Do eterno erro na eterna viagem,

Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra cousa.

Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.

Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.

Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.

Meus ramos tecem doceis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.

Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Doceis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
838
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Seguro assento na coluna firme [ 2]

Seguro assento na coluna firme
        Dos versos em que fico.
Aquele agudo interno movimento
         Por quem os fiz pensados
Passa, e eu, outro já que o factor deles,
         Póstumo  substituo-me.
Chegada a hora, eu próprio serei todo
         Menos que essas palavras
E papel, ou papiro escrito e morto
        Será mais eu que eu mesmo.

A obra imortal excede o autor da obra;
        E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
         Morre a obra a vida nossa.
Durar, sentir, só os altos deuses unem.
         Nós não somos inteiros.
Assim os deuses esta nossa regem
         Mortal e imortal  vida;
Assim o Fado rege que assim rejam.
         Mas se assim é, é assim.
1 274
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Desejava querer fugir de mim.

ali. ali. ali
e...e...e...
        Palavras, não sois nada!
O que é Deus?
                        Uma palavra,
Pouco mais que um som.
                                           E um som?
                                                             Nada.
1 412
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPIGRAMS - V

What is the best‑named thing in all
The world? Why, this: A papal bull.
1 234
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPIGRAMS - IV

You tell me, for oft you choose
Rude and uncourteous to grow,
I can't say «Bo» to a goose...
        Why, James: Bo!
1 189
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah qualquer cousa,

(after useless discussion)

                Ah qualquer cousa,
Ou sono ou sonho, sem doer isole
O meu já isolado coração!
Se as palavras que eu diga nunca podem
Levar aos outros mais do que o sentido
Que essas palavras neles têm, e [existo]
[Por] fora do que digo, oculto nele
Como o esqueleto nesta carne minha,
Invisível estrutura do visível,
Diferente e essencial...

Cai sobre mim, apagamento meu!
Querer querer, inútil pedra ao mar!
Saco p'ra colher vento, cesto de água,
Caçador só do uivar dos lobos longe...
1 141
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sinto horror

Sinto horror
À significação que olhos humanos
Contêm;
À prescrutação que dum ser fazem
Revelado de gestos e palavras
As almas.
Não quero entregar-lhes, pois,
Em desmando ou abertura do meu ser
O que em mim me faz meu. Sinto preciso
Ocultar o meu íntimo aos olhares
E aos prescrutamentos que olhares mostram;
Não quero que ninguém saiba o que sinto,
Além de que o não posso a alguém dizer,
Mais há que aquilo que dizer não se pode.
Não se pode dizer porque não se pode.
1 317
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O papagaio do paço

O papagaio do paço
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
2 220
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

E ao acabar estes versos

E ao acabar estes versos
Feitos em modo menor
Cumpre prestar homenagem
À bebedeira do cantor.
1 037
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Amanhã estas letras em que te amo

Amanhã estas letras em que te amo.
        Serão vistas, tu morta.
Corpo, eras vida para que o não foras,
        Tão bela! Versos restam.
Quem o (...)
1 305
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

II - Mas antes era o Verbo, aqui perdido

II

Mas antes era o Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si, que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste Mundo, humano e ungido.
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
O Segredo do Mestre e o Bem profundo;

Não só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue actual de Cristo enfim libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.
1 265
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tua boca me diz sim,

Tua boca me diz sim,
Teus olhos me dizem não.
Ai, se gostasses de mim
E sem saber a razão.
1 067
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Duas vezes te falei

Duas vezes te falei
De que te iria falar.
Quatro vezes te encontrei
Sem palavra p’ra te dar.
1 458
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quisera ter

Quisera ter
Isso que escuramente em mim aspiro:
O pensamento abrangedor de tudo
Numa compreensão única e funda.
Todo o contido em artes, letras, todas
As leis no fundo do universo nadas
Que regem       (...)       até a história
Em modalizações(...)

Era isto que eu, num pensamento único,
Abrangedor, quisera compreender.
900
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Tanto silêncio

Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência,
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz "eu";
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras "o teu coração")?


Manuel António Pina | "Todas as Palavras - Poesia Reunida (1974 - 2011)", pág. 316 | Assírio & Alvim, Abril 2012
1 402
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quem lavra julga que lavra

Quem lavra julga que lavra
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.
1 111
Manuel António Pina

Manuel António Pina

[Uma casa]

Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras,

nas suas caves, nos seus infindáveis corredores;

pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja,

na ausência das palavras calar-se.

Não, com nenhuma palavra abrirás a porta,

nem com o silêncio, nem com nenhuma chave,

a porta está fechada na palavra porta

para sempre.

O azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás,

nem sob ele te deitarás nas longas tardes de Verão

como quando eras música apenas

sem uma casa guardando-te do mundo.



Manuel António Pina | "Todas as Palavras - Poesia Reunida (1974 - 2011)", pág. 354 | Assírio & Alvim, Abril 2012

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Orides Fontela

Orides Fontela

Cisne

Humanizar o cisne
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
- a presença do cisne?


Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e - humana -
é esplendor memória
e sangue.


E
resta
não o cisne: a
palavra


- a palavra mesmo
cisne.


do livro Alba (1983)
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