Fé, Espiritualidade e Religião
Poemas neste tema
Adriana Lustosa
Como uma Ovelha
Como uma ovelha
rondo os pastos da boa vontade
enquanto o pastor
saltando de estrela em estrela
propicia o absurdo:
o abismo que era mudo
engole meu grito.
rondo os pastos da boa vontade
enquanto o pastor
saltando de estrela em estrela
propicia o absurdo:
o abismo que era mudo
engole meu grito.
1 025
Torquato Tasso
NA MORTE DE MARGARIDA BENTIVOGLIO
Não é isto um morrer,
imortal Margarida,
ma, um passa,, mais cedo a uma, outra vida;
nem dessa ignota via
dor te descore ou prema,
mas só piedade na partida extrema.
De nós penosa e pia,
de ti feliz, segura,
te despedes do mundo, ó alma pura.
imortal Margarida,
ma, um passa,, mais cedo a uma, outra vida;
nem dessa ignota via
dor te descore ou prema,
mas só piedade na partida extrema.
De nós penosa e pia,
de ti feliz, segura,
te despedes do mundo, ó alma pura.
1 111
Emily Dickinson
À PORTA DE DEUS
Duas vezes perdi tudo
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
Á porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
Á porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
1 837
Emily Dickinson
NUNCA VI UM CAMPO DE URZES
Nunca vi um campo de urzes.
Também nunca vi o mar.
No entanto sei o urze como é,
Posso a onda imaginar.
Nunca estive no Céu.
Nem vi Deus. Todavia
Conheço o sítio como se
Tivesse em mãos um guia.
Também nunca vi o mar.
No entanto sei o urze como é,
Posso a onda imaginar.
Nunca estive no Céu.
Nem vi Deus. Todavia
Conheço o sítio como se
Tivesse em mãos um guia.
2 115
Jonathan Griffin
O CREDO AGNÓSTICO
Meu timbre a dúvida. Acredito
no credo agnóstico - duvidar até estar morto
e contudo viver para acolher
não fugir ao dar-se do acto da fé,
não fugir a desconfiar dele, até que a morte
aqui está, alisou a fé e a dúvida.
no credo agnóstico - duvidar até estar morto
e contudo viver para acolher
não fugir ao dar-se do acto da fé,
não fugir a desconfiar dele, até que a morte
aqui está, alisou a fé e a dúvida.
885
Antonio Machado
PARÁBOLAS
VI
O Deus que todos levamos,
o Deus que todos fazemos,
o Deus que todos buscamos
e que nunca encontraremos:
três deuses e três pessoas
do único Deus verdadeiro.
O Deus que todos levamos,
o Deus que todos fazemos,
o Deus que todos buscamos
e que nunca encontraremos:
três deuses e três pessoas
do único Deus verdadeiro.
1 551
Virna G. Teixeira
Visita
criado-mudo:
bíblia e
rosário de contas
na cama, ao lado
a nudez
sem nome
bíblia e
rosário de contas
na cama, ao lado
a nudez
sem nome
315
Lúcia Nobre
Captus est libidine
aqua
benedicta
unctione
cabelos
olhos
narinas
boca
dorso
mamilos
ventre
umbigo
clitóris
vagina
abençoa
me
orgasmos
in
extremis
benedicta
unctione
cabelos
olhos
narinas
boca
dorso
mamilos
ventre
umbigo
clitóris
vagina
abençoa
me
orgasmos
in
extremis
974
Ossip Mandelstam
Eu não podia sentir no nevoeiro
Tua imprecisa imagem de ansiedade,
Oh meu Deus,foi o sussurro que primeiro
Me saiu do peito bem contra vontade.
O nome de Deus,como um pássaro grande,
Do meu peito a voar se despedia!
À minha frente paira um névoa espessa,
Atrás ficava uma gaiola vazia...
Oh meu Deus,foi o sussurro que primeiro
Me saiu do peito bem contra vontade.
O nome de Deus,como um pássaro grande,
Do meu peito a voar se despedia!
À minha frente paira um névoa espessa,
Atrás ficava uma gaiola vazia...
1 830
José Augusto Seabra
Ícone
Cada lado de Deus tem a sua sombrailuminando a morte: a luz só
pousalevemente em seus ombros:entre a luz e a rosa,sobre a
sombrae a sombra
pousalevemente em seus ombros:entre a luz e a rosa,sobre a
sombrae a sombra
894
Mário Rui de Oliveira
Mark Rothko
Mede a tapeçaria como quem entra no santuário e quebra o espelho de
uma ausência. Suas cores são um milagre. De púrpura violácea, de
púrpura escarlate, de púrpura carmesin.
Assim o manto do seu encontro. Feito de romãs e sinos de oiro. Da
matéria dos holocaustos.
(para José Tolentino Mendonça)
uma ausência. Suas cores são um milagre. De púrpura violácea, de
púrpura escarlate, de púrpura carmesin.
Assim o manto do seu encontro. Feito de romãs e sinos de oiro. Da
matéria dos holocaustos.
(para José Tolentino Mendonça)
1 012
Paulo Leminski
eu ontem tive a impressão
eu ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos
quem sou eu pra falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
eu cuido dos meus
que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos
quem sou eu pra falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
eu cuido dos meus
2 995
Fernando Pessoa
Quinto: O ENCOBERTO
QUINTO
O ENCOBERTO
Que símbolo fecundo
Vem na aurora ansiosa?
Na Cruz Morta do Mundo
A Vida, que é a Rosa.
Que símbolo divino
Traz o dia já visto?
Na Cruz, que é o Destino,
A Rosa, que é o Cristo.
Que símbolo final
Mostra o sol já desperto?
Na Cruz morta e fatal
A Rosa do Encoberto.
21/02/1933 - 11/02/1934
O ENCOBERTO
Que símbolo fecundo
Vem na aurora ansiosa?
Na Cruz Morta do Mundo
A Vida, que é a Rosa.
Que símbolo divino
Traz o dia já visto?
Na Cruz, que é o Destino,
A Rosa, que é o Cristo.
Que símbolo final
Mostra o sol já desperto?
Na Cruz morta e fatal
A Rosa do Encoberto.
21/02/1933 - 11/02/1934
4 877
Fernando Pessoa
VII - I put by pleasure Iike an alien bowl.
I put by pleasure like an alien bowl.
Stern, separate, mine, I looked towards where gods seem.
From behind me the common shadow stole.
Dreaming that I slept not, I slept my dream.
Stern, separate, mine, I looked towards where gods seem.
From behind me the common shadow stole.
Dreaming that I slept not, I slept my dream.
4 162
Fernando Pessoa
A lâmpada nova
A lâmpada nova
No fim de apagar
Volta a dar a prova
De estar a brilhar.
Assim a alma sua
Deveras desperta
Quando a noite é nua
E se acha deserta.
Vestígio que ergueu
Sem ser no lugar
De onde se perdeu...
Nasce devagar!
03/08/1934
No fim de apagar
Volta a dar a prova
De estar a brilhar.
Assim a alma sua
Deveras desperta
Quando a noite é nua
E se acha deserta.
Vestígio que ergueu
Sem ser no lugar
De onde se perdeu...
Nasce devagar!
03/08/1934
4 359
Fernando Pessoa
Nesta grande oscilação
Nesta grande oscilação
Entre crer e mal descrer
Transtorna-se o coração
Cheio de nada saber;
E, alheado do que sabe
Por não saber o que é,
Só um instante lhe cabe,
Que é o conhecer a fé –
A fé, que os astros conhecem
Porque é a aranha que está
Na teia, que todos tecem,
E é a vida que antes há.
05/05/1934
Entre crer e mal descrer
Transtorna-se o coração
Cheio de nada saber;
E, alheado do que sabe
Por não saber o que é,
Só um instante lhe cabe,
Que é o conhecer a fé –
A fé, que os astros conhecem
Porque é a aranha que está
Na teia, que todos tecem,
E é a vida que antes há.
05/05/1934
4 324
Fernando Pessoa
Meu ruído de alma cala.
Meu ruído de alma cala.
E aperto a mão no peito,
Porque sob o efeito
Da arte que faz trejeito,
O que é de Cristo fala.
Cega, porca, lixo
Da vida que n'alma tem,
Esta criança vem.
Que Deus é que do além
Teve este mau capricho?
26/08/1930
E aperto a mão no peito,
Porque sob o efeito
Da arte que faz trejeito,
O que é de Cristo fala.
Cega, porca, lixo
Da vida que n'alma tem,
Esta criança vem.
Que Deus é que do além
Teve este mau capricho?
26/08/1930
3 812
Fernando Pessoa
EPITÁFIO DESCONHECIDO
EPITÁFIO DESCONHECIDO
Quanta mais alma
Por mais que a alma ande no amplo informe,
A ti, seu lar anterior, do fundo
Da emoção regressou, ó Cristo, e dorme
Nos braços cujo amor é o fim do mundo.
26/06/1929
Quanta mais alma
Por mais que a alma ande no amplo informe,
A ti, seu lar anterior, do fundo
Da emoção regressou, ó Cristo, e dorme
Nos braços cujo amor é o fim do mundo.
26/06/1929
4 755
Fernando Pessoa
Ninguém, na vasta selva virgem
Ninguém, na vasta selva virgem
Do mundo inumerável, finalmente
Vê o Deus que conhece.
Só o que a brisa traz se ouve na brisa
O que pensamos, seja amor ou deuses,
Passa, porque passamos.
10/12/1931
Do mundo inumerável, finalmente
Vê o Deus que conhece.
Só o que a brisa traz se ouve na brisa
O que pensamos, seja amor ou deuses,
Passa, porque passamos.
10/12/1931
2 255
Fernando Pessoa
Os deuses e os Messias que são deuses
Os deuses e os Messias que são deuses
Passam, e os sonhos vãos que são Messias.
A terra muda dura.
Nem deuses, nem Messias, nem ideias
Que traz em rosas. Minhas são se as tenho.
Se as tenho, que mais quero?
08/02/1931
Passam, e os sonhos vãos que são Messias.
A terra muda dura.
Nem deuses, nem Messias, nem ideias
Que traz em rosas. Minhas são se as tenho.
Se as tenho, que mais quero?
08/02/1931
2 140
Fernando Pessoa
Da lâmpada nocturna
Da lâmpada nocturna
A chama estremece
E o quarto alto ondeia.
Os deuses concedem
Aos seus calmos crentes
Que nunca lhes trema
A chama da vida
Perturbando o aspecto
Do que está em roda,
Mas firme e esguiada
Como preciosa
E antiga pedra,
Guarde a sua calma
Beleza contínua.
02/08/1914
A chama estremece
E o quarto alto ondeia.
Os deuses concedem
Aos seus calmos crentes
Que nunca lhes trema
A chama da vida
Perturbando o aspecto
Do que está em roda,
Mas firme e esguiada
Como preciosa
E antiga pedra,
Guarde a sua calma
Beleza contínua.
02/08/1914
1 596
Fernando Pessoa
06 - Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua Primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua Primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...
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