Estações do Ano (Primavera Verão Outono Inverno)

Poemas neste tema

Adélia Prado

Adélia Prado

Morte Morreu

Quando o ano acinzenta-se em agosto
e chove sobre árvores
que mesmo antes das chuvas já reverdeceram,
da mesma estação levantam-se
nossos mortos queridos
e os passarinhos que ainda vão nascer.
“Ó morte, onde está tua vitória?”
Eh tempo bom, diz meu pai.
A mãe acalma-se,
tomam-se as providências sensatas.
Todos pra janela, espiar as goteiras:
“Chuva choveu, goteira pingou
Pergunta o papudo se o papo molhou.”
Pergunta a menina se a vida acabou.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Endecha

Embora a velha roseira insista neste agosto
e confirmem o recomeço estas mulheres grávidas,
eu sofro de um cansaço, intermitente como certas febres.
Me acontece lavar os cabelos e ir secá-los ao sol,
desavisada. Ocorre até que eu cante.
Mas pousa na canção a negra ave e eu desafino rouca,
em descompasso, uma perna mais curta,
a ausência ocupando todos os meus cômodos,
a lembrança endurecida no cristal
de uma pedra na uretra.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Boato da Primavera

Chegou a primavera? Que me contas!
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera! Então eu topo,
e no verso e na prosa eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu são Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço, e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Méier e na rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom, neste setembro),
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
É prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.
24/09/1969
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Na Semana

Eis que o inverno chegou, de meias pretas
nas pernas jovens… Oi, não te derretas
demais, ante o espetáculo da moda,
que dura um mini-instante, velho, e roda
como ao vento da praia, sobre a areia,
essa acobreada folha de amendoeira.
Da minissaia posso ser devoto,
mas como aceitarei o minivoto
da eleição que se chama de indireta
— mágica de sabido ou de pateta?
Tão mais simples dizer: “Fica nomeado
Fuão de Tal capitão-mor do Estado,
porque é, entre todos, excelente,
na conspícua opinião do Presidente”.
Meu caro João Brandão, esqueça a Arena
e siga em busca de outra mais amena
diversão popular: boliche, ou
(tome cuidado) o Circo de Moscou,
que mostra luluzinho trapezista
e urso bicicletando pela pista.
Se há coisa mais barata? Este lembrete:
visitar o Palácio do Catete.
É de graça, e, na velha mansão pública,
você vê o fantasma da República
circulando entre fardas e decretos,
revoluções, proclamações, secretos
conchavos, dores, tudo mais que a História
não conta ou conta mal: a pobre glória,
o poder que era férreo e vira-lata,
teia-cinza-de-aranha, vil sucata…
A casa faz cem anos ou cem mil?
O tempo é uma ilusão no céu de anil,
que por sinal anda não mui cerúleo,
encoberto, tristinho, neste julho.
Que importa a chuva, se na tarde fria
há fila para entrar na Academia?
Eis que se assusta o grupo de aspirantes:
e se não vogam mais as normas de antes?
Se se adotar o modo severino
que hoje serve ao Brasil de figurino:
escolha, sob a vara de marmelo,
numa lista de três, pelo Castelo?
O Amigo da Onça espalha este boato,
desfeito logo após pelo Viriato,
enquanto o povo, preso ao transistor,
com angústia, impaciência, febre, amor,
nosso escrete acompanha pela Europa:
Não nos deixes, Pelé, sem esta Copa!
03/07/1966
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cariocas

Como vai ser este verão, querida,
com a praia aumentada/diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.
Fogem banhistas para o Posto Seis,
o Posto Vinte… Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca
(até que alguém se lembre
de duplicar a Barra, pesadíssima).
Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.
Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro,
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a)mo(r)cidade.
Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar… a frente é interminável.
A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?
Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!
Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos…
Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)
Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?
Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!
A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?
A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor da flor em cor e albor.
Uma rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto
de metralhadora, de sequestro e bomba?
29/11/1969
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ao Sol da Praia

Já não vou a Maracangalha,
Anália: para um pouco, e lê-me.
O melhor é ficar na praia
de Ipanema, Leblon ou Leme.

O Rio refloriu, e tintas
de Renoir e Gauguin invadem
céu, montanha, barraca, e as pintas
mais loucas repontam na carne.

O rock ‘n’ roll das ondas explode
nos cinemas, ritmo liberto
de velhos tabus. Um coiote
(lobo mau ou bom?) anda perto,

filhinha. Contudo, os rapazes
e garotas são, direitinho,
o que fomos… mas a coragem
se afundava no colarinho.

O Rio, quente, é mais airoso,
mais Rio, mais tudo. Repara
como até um senhor idoso
reverdece e atira a gravata,

aderindo ao primeiro samba
que sopram na esquina vitrolas,
buzinas, rádio, e tome dança
(férias não há nessas escolas).

Carioca mofino é aquele
que a farra fáustica não ama.
Do Carnaval não fujas: ele
entra no banheiro e na Câmara.

Barra da Tijuca, infinito
mar, envolto no sol-rubi.
Tenho pena de Juscelino,
que não sabe morar aqui.

E então não mora em parte alguma,
nem nos problemas de governo.
Os dias passam, como espuma,
e o Catete dormita, ermo.

Deixa dormir: há tanta vida
na rua, em frente, em toda parte;
em Ademar, pulando acima
e além de Pedro Malasarte.

(Ademar o bom, pois não); tanta
euforia na luz janeira,
que a gente, suada, se levanta
com ligeireza de capeta

e pede ao mar e toma ao gelo
aquele suave refrigério
e vai lendo com fino apreço
o livrão de Mário Palmério.

Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.

É tradução de Berenice
Xavier, sabes?, portanto, boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.

Meu coração, vasco, se estende
por maracanãs e piscinas,
onde um reflexo de ouro acende
Maracangalhas inauditas.

Não, Anália, eu sou é do Rio…
Sem chapéu de palha e uniforme,
sem água, na glória do estio,
meu amor pousa aqui, enorme.
20/01/1957
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mosaico

Lá vem o limpa-praia: o pê pipoca
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
1 112
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Verão

Pedes, amigo, novas da cidade
tão faladora quanto Xerazade
e tão sensual que a própria Sulamita
a seu lado parece que faz fita.
E eu te direi que o grande ajuntamento
de pessoas e casas, no momento,
não pensa no que pensas. O importante
neste dezembro, sob o sol flamante,
não são os fins humanos da energia,
rosa a desabrochar na guerra fria,
nem a luta do homem contra o câncer,
começando a ganhar (seria vã, cer-
tamente a pretensão de dar-lhe rima);
nem tampouco a assembleia dissolvida
na terra da Greco, nem a renhida
peleja entre os irmãos do Oriente Médio,
a que o siso não sabe dar remédio;
nem o preço da carne, que, subindo,
famílias de faquir vai constituindo.
Não, amigo, sinucas e pesares
fogem de nossa mente, pelos ares,
que a grande novidade, o caso sério
é o verão que chegou, é seu império.
As ruas já são outras, e as pessoas
remoçam junto a praias e lagoas,
e é uma festa, meu caro, de vestidos
translúcidos, abstratos, coloridos,
e de curvas morenas ou bronzeadas
a florescer na luz, pelas calçadas.
Se visses, meu compadre, às seis e meia,
um disco sobre o mar, a lua cheia,
ainda rubra de sol, e os corpos louros
desatando na areia seus tesouros!
Mas a qualquer momento, em qualquer ponto,
a cor se casa ao ritmo, e põe-me tonto.
Sacando a esferográfica do seio
(Posto 6), a moça entra no Correio.
Vai à praia, depois? Vai a comprinhas,
de biquíni, ray-ban e outras coisinhas.
Não desejo estender-me no decote,
para poupar-te a sede sem o pote.
(Às vezes não se sabe onde ele acaba:
quem adivinha o bicho na goiaba?)
A hora não é de ação, mas de sorvete;
deixa o ministro o chato gabinete:
um mergulho na fluida turmalina,
e eis que se entrega à pesca submarina.
(Entre arpões, aqualungas, aquaplanos,
quem fisga menos são os veteranos.)
A noite é fogo, mas aberta em bares,
e a penumbra requinta os mais vulgares.
Se o calor a uns enerva e a outros abate,
é um consolo a Teresinha Solbiati,
que São Paulo emprestou — não devolvemos!
Vote o Congresso, urgente, o que escrevemos.
Enfim, meu velho, o mar, que é puro e bom,
os inocentes banha, no Leblon.
E, se acaso nos faltam pão e amor,
resta a felicidade do calor.
04/12/1955
2 283
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Sete Dias

Ó Musa semanária, que divisas
de bom e de gostoso, em meio a tanta
escassez de alegrias e divisas
que já ninguém repara nem se espanta?

Chegou Susan Hayward, porém não veio
essa amada exemplar que encomendamos
ao destino maroto, e é pobre o veio
de nossa fantasia, haste sem ramos.

Adoramos a Aída uma outra vez
(glamorizada) no Municipal.
Contemporânea do Canal de Suez,
se a leva o Egito, não faria mal.

O Exim Bank, olalá, chove dinheiro
muito oportuno, que anda a sorte aziaga.
Hipotenso anda o pobre do cruzeiro?
Sobe a quatro cruzeiros a “bisnaga”.

Tão bonitos, os Bancos decorados
ao estilo moderno! Mas destoa
ver à margem, sem banco, os namorados
de Rodrigo de Freitas (a lagoa).

Uma grave questão se nos depara
nesta fímbria de agosto: foi-se o inverno?
Calor e frio, juntos, mesma cara…
Que vestido, capote, blusa ou terno?

Uma semana igual às outras: prosa,
entretanto (não vamos rasgar sedas),
tal como outra não há. Guimarães Rosa
em seu Grande Sertão traça Veredas.

Riobaldo e Diadorim bebem na flor
de gravatá, e vão vivendo estórias
em que a morte redoura, duro amor,
a perfeição de uma arte sem escórias.

O mais são tristurinhas cotidianas
que a gente ilude como pode, ou mata.
Entre buritizais e sagaranas,
ó vida, és como o antílope na mata.

Mais não digo, leitora, que não sinto
de tua parte o mínimo interesse,
nem aceitas meus braços por teu cinto…
— “Mas que sujeito, que cronista é esse?!”
05/08/1956
548
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Isto E Aquilo

“Zefa, chegou o inverno”, diz o Poeta.
Chegou mesmo? chegada tão discreta
que pouca gente viu e tomou nota.
Esse frio que aí está não vale um iota.
O tempo, como tudo, anda inseguro,
até parece o Lott, que seu futuro
indaga en effeuillant la marguerite:
“Aceito ou não aceito esse convite
que o Último de Carvalho me apresenta
para a pátria salvar, firme, em 60?
Que dizem os partidos?” (Os partidos
disfarçaram, com seus rabos torcidos.)
E para seduzir o PSD,
o PTB e o P não sei o quê,
redige-se um anúncio longo e exato:
“Quem quer um marechal pra candidato?
Não é muito falante nem grandíloquo,
mas a gente contrata um bom ventríloquo.
Se ele é meio zangado? Ora, com jeito
se leva quem nos quer levar no peito.
E é hora de aprender a regra esconsa:
quem não tem mesmo cão caça com onça”.
Os pobres dos partidos, assustados,
quanto mais inquiridos, mais calados,
e, quanto mais calados, mais partidos
em mil pedaços, mil indecisões
de outras tantas mimosas ambições.
JK, pairando alto, em serenata,
deixa cair, sob o luar de prata,
uma jura de amor, meiga, solene,
por sobre a donzelice da UDN.
A Bahia e o Palácio da Alvorada
namoram-se da noite na calada.
Pra casar ou pra quê? Altos mistérios,
elucidai-os vós, cronistas sérios.
Medita Jango uma reforma agrária
em que, graças à Empresa Funerária,
seja a terra de todos — loteamento
com casinhas de mármore e cimento
em lugares tranquilos, onde grilos
não irrompam munidos de escrituras.
Votantes, ocupai as sepulturas!
E que mais, na semana? Amigo, se
a água te falta, vai a Meriti,
leva tua moringa, fura um cano,
e volta ao Rio, abastecido e ufano.
Eu bebo de outra fonte, linfa eterna,
e curvo-me à Poesia: não governa
o mundo hostil, mas torna a vida cheia
de suave tremor. Fino Correia,
nobre Raimundo, salve: nos teus versos
há mágicos, ocultos universos
de musical melancolia errante…
Penso em ti com ternura, neste instante.
17/05/1959
1 469
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Epístola

E veio a primavera, João, mas veio
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
938
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Elegia

Ganhei (perdi) meu dia.
E baixa a coisa fria
também chamada noite, e o frio ao frio
em bruma se entrelaça, num suspiro.
E me pergunto e me respiro

na fuga deste dia que era mil
para mim que esperava
os grandes sóis violentos, me sentia
tão rico deste dia
e lá se foi secreto, ao serro frio.

Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera
bem antes sua vaga pedraria?
Mas quando me perdi, se estou perdido
antes de haver nascido
e me nasci votado à perda
de frutos que não tenho nem colhia?

Gastei meu dia. Nele me perdi.
De tantas perdas uma clara via
por certo se abriria
de mim a mim, esteia fria.
As árvores lá fora se meditam.
O inverno é quente em mim, que o estou berçando
e em mim vai derretendo
este torrão de sal que está chorando.

Ah, chega de lamento e versos ditos
ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça,
ao ouvido do muro,
ao liso ouvido gotejante
de uma piscina que não sabe o tempo, e fia
seu tapete de água, distraída.

E vou me recolher
ao cofre de fantasmas, que a notícia
de perdidos lá não chegue nem açule
os olhos policiais do amor-vigia.
Não me procurem que me perdi eu mesmo
como os homens se matam, e as enguias
à loca se recolhem, na água fria.

Dia,
espelho de projeto não vivido,
e contudo viver era tão flamas
na promessa dos deuses; e é tão ríspido
em meio aos oratórios já vazios
em que a alma barroca tenta confortar-se
mas só vislumbra o frio noutro frio.

Meu Deus, essência estranha
ao vaso que me sinto, ou forma vã,
pois que, eu essência, não habito
vossa arquitetura imerecida;
meu Deus e meu conflito,
nem vos dou conta de mim nem desafio
as garras inefáveis: eis que assisto
a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo
de me tornar planície em que já pisam
servos e bois e militares em serviço
da sombra, e uma criança
que o tempo novo me anuncia e nega.

Terra a que me inclino sob o frio
de minha testa que se alonga,
e sinto mais presente quanto aspiro
em ti o fumo antigo dos parentes,
minha terra, me tens; e teu cativo
passeias brandamente
como ao que vai morrer se estende a vista
de espaços luminosos, intocáveis:
em mim o que resiste são teus poros.
Corto o frio da folha. Sou teu frio.

E sou meu próprio frio que me fecho
longe do amor desabitado e líquido,
amor em que me amaram, me feriram
sete vezes por dia em sete dias
de sete vidas de ouro,
amor, fonte de eterno frio,
minha pena deserta, ao fim de março,
amor, quem contaria?
E já não sei se é jogo, ou se poesia.
1 524
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Indagação

Na morta biosfera,
o fantasma do pássaro
inquiriu
ao fantasma da árvore
(que não lhe respondeu):
— A Primavera já era
ou ainda não nasceu?
1 292
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

E Aconteceu a Primavera

I

Que alguém te cante e te descante,
ficou urgente, Primavera,
para que ao menos em cantiga,
neste papel aberto às gentes,
a flor antiga se restaure.

Te cantarei em Pernambuco,
onde és cidade, e no Pará,
onde mulheres plantam malva
sob o título municipal,
e em Rondônia cantarei
a corredeira Primavera,
pois nesses nomes de lugares
e num acidente geográfico
tu pousaste como um pássaro,
modesto pássaro cinzento
de asas pretas e cauda preta,
só a lembrar, no papo branco,
extintas primaveridades.

Primavera que tanto habitas
a bráctea rósea da buganvília
(em que jardins à vista ocultos
sob a fumaça que é nosso azul
residual?),
como habitavas, parnasiana,
o soneto crônico e clássico
dos poetas consumidores
de velhos tópicos europeus,
é forçoso que alguém celebre
o ímpeto juvenil da Terra
mesmo poluída, desossada,
Terra assim mesmo, seiva nossa.

E te ofereço, Primavera,
a arvorezinha de brinquedo
em pátio escolar plantada,
enquanto lá fora se ensina
como derrubar, como queimar,
como secar fontes de vida
para erigir a nova ordem
do Homem Artificial.

Ah, Primavera, me desculpa
se corto em meio uma floresta
latifoliada, pois tenho pressa
de correr na estrada de Santos.
Não te zangues se já não vês
em teu perene séquito lírico
aquele sininho-flor, descoberto
em longes tempos por George Gardner
e que soava só no Brasil:
foi preciso (teria sido?)
matar o verde, substituí-lo
pela neutra cor uniforme
que é uniforme do Progresso.

Primavera, primula veris,
em palavra quedas intacta,
em palavra pois te deponho
a minha culpa coletiva,
o meu citadino remorso,
minha saudade de água, bicho,
terra encharcada de promessas,
e visões e asas e vozes
primitivas e eternas, como
eterno (e amoroso) é o homem
ligado ao quadro natural.

Primavera, fiz um discurso?
Primavera, tu me perdoas?…


II

— 22 de setembro, mina minha.
Vamos curtir a primavera
em compact cassete tape, meu morango?
Bota aí o Botticelli
estereoutransfigurado em Debussy
e vê (primeiro fecha os olhos) Simonetta
Vespucci toda flor
florentil florindamente
(bulcão?) entre corolas e resinas
da flora da Tijuca…

— Não. Prefiro o Sacré du Printemps
que transa a primavera mais primeva.
Assim, no sala-e-escuro
dos sala-e-quarto conjugados
os dois ficamos respeitando
um princípio de seiva e de nenúfar,
enquanto a chuva — plic — tamborina
seu samba de uma nota só
na área de serviço.

É primavera, broto-brinco:
saiu no jornal,
a TV anunciou,
o Governo consentiu,
o Congresso aplaudiu
o comércio vendeu
arranjos de ikebana
e em algum lugar florescem três-marias
que são muitas marias, muitos nomes.

Vamos também curtir os nomes
(são presentes do povo à gente-bem):
riso-do-prado
(cadê o prado?),
amor-de-estudante
(pobre! no cursinho
que vira cursão
e invade o Brasil),
unha-de-gato
(envenenado
no Passeio Público?),
sempre-viçosa…
isto! A esperança
pousa na balança
o seu peso-pluma.

— Você tá esquecido
da maria-branca,
da pombinha-das-almas
e da noivinha…
Asas-pseudônimos
de primavera.

(Ah, vero barato
esse de brincar
de estação das flores
de concreto-objeto!)

— Oi, depressa, vamos
semear canteiros,
preparar estacas
e mergulhões,
plantar tubérculos
de cromo-gladíolos,
túberas de dálias
e tinhorões,
repicar sementeiras,
controlar lagartas,
ácaros e trips,
dizimar pulgões.


(Ui, primavera é fogo
se levada a sério!)

— Vamos pintar de verde
as áreas crestadas,
pôr na parede
a árvore genealógica,
comprar um sabiá
mecânico,
sortear
o beija-flor de beijar cimento?

É primavera, escuta o Burle Marx:
diz que havia jardins
em torno das casas,
havia matas
a cavaleiro das cidades,
florestas
onde o jacarandá e o mogno conversavam
a conversa de séculos.
(Fecharam o bico,
chegado o eucalipto.)

Broto gentil, a primavera
será um sonho de sonhar-se
na fumaça
no grito
no sem azul deserto
das cidades mortas que se julgam vivas?
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Dezembro

Oiti: a cigarra zine:
convite à praia. Tine
o sol no quadril, e o míni
véu dissolve, do biquíni.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Destino de Edgard Mata

O poeta é notoriamente Prior do Desgosto,
mora na Trapa da Tristeza,
que é também castelo assombrado
desde a Idade Média ou desde Vila Rica.
O poeta confessa crimes etéreos.
Cultiva um amor noturno, pecaminoso:
a Monja Lua.
É da raça dos que morrem cedo,
não tem tempo a perder com a alegria.
Há sempre outono e inverno e tarde
em suas manhãs.
Segue a esmo, entre grotões do País de Minas.
Lágrimas e agonias vão com ele.
Satã, na sombra, o espreita.
Súbito voo sonoro flecha o céu.
São anjos? Duendes africanos?
É o bando de maritacas
e enche de cor seu coração e o mundo.
O poeta, por um instante, vislumbra a vida.
Ah, se tivesse nascido em Diamantina,
seria talvez saudável cantor do Peixe-Vivo.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Pré-Inverno

— E vem um novo inverno todo em vês
ou todo em is? de frio fino e… — Flora!
Este babado de poetar já era.
Agora
a coisa tem que ser assim:
In
ver no par que o ver de
ar pi pila.
— Traduza para mim. — Pois não:
Inverno. Parque. O verde ar pipila.

— Não era o par que pipilava amores
no verde parque?
— Como quiser. O jogo é múltiplo.
Seja também assim:
Noverin pardever que lapipi.
— Parece nome de remédio!
— E daí? Os mais lindos sons da língua
são nomes de remédio, e cobram royalties.

Ah, declaro o papo fin-
do, antes que inverno pegue fogo.
Muito melhor ouvir o Tom Jobim
cantar, pianoviolão,
no Jardim das rosas, de sonho e medo,
no clarão das águas, no deserto negro,
enquanto, lerê, lará,
o Matita Perê negaceia:
“Eu quero ver, eu quero ver
você me pegar.”
Quem pega Tom Jobim, no Rancho das nuvens,
de Nuvens douradas? Leva Ana Luísa
no Trem para Cordisburgo. Conta-lhe
a Crônica da casa assassinada.
Fala de Milagres e palhaços,
e se é Tempo de mar, com Pedrinho de Morais,
Chora o coração de Vinicius de Moraes.
Fluem, fluem
as Águas de março e vai fluindo
em poesia rosiana
o límpido som
de Tom,
na palma da mão, cor do Brasil.

Vejo camisolas de algodão
(modelos decotados) nas vitrinas;
frente única de lã, e barriguinhas
de fora, desfilando na calçada.
É um frio maroto, com saudade
do verão, ou o verão reincidente
a infiltrar-se, maroto, neste inverno?
De pés de lã, brotos de Lan
mimam na praia o rito carioca:
(in) verniverão.
O rito?
O mito?
Esta cidade é um tanto periquito
australiano, de assobio colorido
especialmente alegre todo ano,
e faz do pré-inverno pré-estreia
do calor de dezembro a florescer
na rosinha do umbigo das garotas.

Cai um pingo de chuva nesta página?
Salta do solo o Sol e sela a sala
de ouro.
— Não é nada disto (protesta o Poet/Sintétiko),
Negó seguin:

RIO RAIO RISTE
PRAIA SPRAY
SOL
SAL
SUL
SAL MAIOR
SUL MELHOR
SOL BEMOL

12/05/1973
1 291
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Liquidação de Inverno

Olha o ajuntamento na calçada,
o bolo humano denso, silencioso,
a paralisia coletiva…
Que foi que aconteceu?
Crime, suicídio, bomba, um novo deus?

Calma, não te assustes.
Precisas acostumar-te com a cidade
e seus ritos pendulares.
Não viste nos jornais aquele grito
e nas vitrinas as vermelhas tiras
anunciando em voz e cifra
Liquidação
Liquidação?

Agora vejo que esse grupo
indecifrado logo se esclarece.
Homem nenhum, ou quase. Só mulheres,
pois só mulheres sabem quando é hora
de (formigas) comprar para guardar.

A porta está fechada? Mas no aquário
de lãs tricôs camurças couros
quatro consumidoras são servidas,
outras quatro, cá fora, esperam vez.
Esperar resignado
de quem sabe que tudo anda difícil
e até os ossos do festim
têm que ser disputados como pérolas.

Outras quatro mais quatro vão entrando
no longo dia lento, frio.
O casaco de acrílico de 1000
961 por 900
e 84, uma pechincha. A calça jeans
para menina, a camisola, a jardineira,
meu Deus, o casacão, o plush,
tudo ficou barato de repente
ou dá a ilusão de ser barato,
convida, chama, intima:
Me compra rapidinho, enquanto o inverno
faz que vai mas não vai, e está gelado
o corpo, o quarto, o amor e tudo mais.

Liquidação, palavra mágica,
seu fundo de negrume e seu clarão.
Liquida-se um império,
uma política, um chefe, uma doutrina,
e nas vazias prateleiras outras formas
se acumulam, aguardam
o tempo de murchar, o desapreço
do preço baixo, a remarcada
voga da estação, como se tudo
durasse um quarto de ano: juramentos,
códigos, angústias, braceletes,
sandálias, planos…
E dura, e dura mais?

... e seu clarão.
Liquidadas as modas sazonais,
restaura-se a esperança na vitrina.
O jogo do futuro nos cativa.
A primavera, juro, vai trazer
o inolvidável prêmio de existir.
Seremos todos jovens. Ninguém mais
se lançará da ponte, ou traficâncias
fará contra a sorte dos humildes.
Todos serão humildes, na alegria
de um tempo verdejante…

Calma, não sonhes tanto.
Liquidação é apenas
porta deixando passar
compradores de saldos.
Se queres o brinquedo
de jogar com palavras, preferível
esta, que te dou entre dois goles
de papo vespertino: liquidâmbar.
Gostaste? Seu olor resinoso
o nariz te penetra e reconforta
a poluída garganta? Esquece, esquece
as liquidações que não liquidam
a carga de injustiça e desamor
pairante sobre a vida,
seja inverno ou verão, outono ou primavera.

01/08/1981
1 597
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Transparência de Um Outono

Que na transparência de um outono
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
1 090
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Estendida Sobre a Idade

Estendida sobre a idade sente-se germinar
na solidão que está sendo até ao horizonte
pura virtualidade que ondula interminavelmente
no ardor feliz em que o pensamento limpa
de si o que não é timbre ou transparência ou água.

Consuma-se carregada de aromas e de ócio
tão por fora de si que a embriaga a terra
a que se enlaça na verdura intensa
ao encontrar cada vez muito mais perto
o longe a que aspirava em busca de si mesma.

Espraia-se em paz de ardente imensidade
o seu desejo é tempo espaço movimento.
Tudo é claro porque tudo o que a habita é campo livre
e um sono que vem da luz e da folhagem canta.
Irrigam-se os veios do verão e todo o azul é sítio.
1 003
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Escrevo-Te Com o Fogo E a Água

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.
1 075
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Tangência No Centro

Até à terra, sem me inclinar, inclinando-me,
a cabeça idêntica ao solo circular,
lenta velocidade num fundo indefinido,
relação de folha e língua e pedra e água
e ar, leve tangência de um imenso sopro.

Cheguei a um silencioso, a um suave centro.
Desperto um fogo errante em minúsculas crateras.
Estou isolado, aberto a uma vida repentina.
A minha boca é incestuosa, os meus lábios verdes.
Há vozes submersas, há palavras que requerem

a visão das pálpebras. Sinto-me ligeiro
como um pequeno peixe, uma coisa vagarosa.
Feliz, feliz, na frescura das veias, nos músculos libertos.
Ouço as flores bebendo luz, ouço o esplendor
absoluto. Como saberei cantar no grande círculo móvel?

Lugar de aroma e claridade e de palavras,
o ar e a água e o fogo, o murmúrio essencial.
A primavera ascende com uma leveza de sílaba.
Tudo oscila em hastes e flores e folhas.
Suave fulguração de horizonte a horizonte.
960
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Princípio

Na primeira porta a primeira página.
Respiram escadas numa elipse frágil.
A mão é cega. As sombras esvaziam-se.
Escreve-se na pele de um planeta incerto.

Urgência de sílabas e de lábios.
Urgência de um fulgor, de uma matéria lúcida.
Alegria limpa. Lábios, lábios
sem ecos nem sombras, puríssimos, actuais.

O coração ascende. O pulso de um rio
freme. A folhagem acende-se.
Areia e sangue. Pedras ou pássaros.
Palavras de uma áspera primavera.
1 021
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Unidade do Silêncio

Unidade do silêncio com o corpo da água
irradiação de uma montanha
cimo e abismo numa única linha
melancolia viva e fresca floresta e pomba
a beleza frágil a beleza serena
arde a opacidade arde a madeira do mundo
revela-se a superfície fundamental
invulnerável a harmonia que inunda
Frases frases já não complicadas
mas orientadas
para a plenitude do ser
Redes vindas do ignorado disseminam-se
Uma paciência de mil árvores
Dilata-se a estrela de água
Praias praias onde os segredos se desvelam
Por toda a parte mediações para o desconhecido
Vagas vagas de ligeireza primaveril
Clara visão do fundo vibrante continuidade
igual a tudo na soberania do simples
1 011