Beleza

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

51. Pedaço Inteiro do Frio Verde

51
Pedaço inteiro do frio verde
e mão do gelo iluminado
quebre
a unidade de pedra ou harmonia.

Beleza brusca no azul opaco
negação do acaso negando o acaso
por uma coisa graciosa
corça perdida no bosque das palavras.

No preciso atalho mas tão simples
como a clareza do pulso
quebrando a pedra do nome o nome-pedra.
954
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

16. Tecida a Paciência do Tecido

16
Tecida a paciência do tecido
se escrevo o tempo exíguo
e ela dança sem lâmpada sem véus.

Vermelha a lança a nascer da perna
volumosa e dura sem face
figura de alta árvore
e obscena sóbria sem folhagem.

Ela dupla na marcha sobre
a pedra e pedra bem de pedra
o taco do tacão negro
tornando a perna incorruptível
pedra branca.
937
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

14. Este (Aqui Formulado) Sobre Os Cílios

14
Este (aqui formulado) sobre os cílios
ou as pestanas pretas pretas mesmo
sob o deserto dele, a casa nuvem.

Terra (designação que nega) areia
do grito das pestanas, cílios sérios,
adormecendo a noite da folhagem.

Arranca à aragem o perfume sóbrio
desses cílios negros cílios
e colhe aí a perfumada imagem.
992
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Instante

Som velado. Beijo
calmo. E a chama
de uma árvore. O verde
imóvel. Lâmina

irradiante. Sol, o som,
obscura luz de sílaba
interiormente.
Tréguas com o espaço. Interrupção
contínua.
Não sei porquê a luz
se lê
na folha verde calma.
981
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Fina Nobreza de Ombros Que Persigo

Fina nobreza de ombros que persigo
animal esplendor loucura
cabem num arco de solidão suave
de ternura

E os pulsos de que ardor e perfeição
de que ânsia de delícia exacta
que número absoluto e doloroso e puro
que dourada pulsação no escuro!
802
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Cabelos São Os Teus Cabelos As Tuas Mãos

Cabelos são os teus cabelos as tuas mãos
e que sinais de perfeição tão triste
que doçura do espírito da terra
que suavidade do espírito da água

Ombros seios umbigo velo sexo
tudo velado pelo ouro da sombra
da castidade ardente honra da carne
honra de amor para o que a conhecer
1 011
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Paixão do Ar

Olhar sem caminho em cheio
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre

Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama

Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil

O fogo flexível.
515
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Aparelho Estranho

O aparelho estranho, delgada aranha
deitada e vertical harmoniosa
o mar e o sol no mesmo mar
e entre os arames o espaço ainda mais vivo
quase aereamente radica-se e penetra-nos
e são raios e raízes voos feridos
que nos libertam num trabalho claro.
1 016
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Momento 2

Lentamente inalterada
a curva radiosa e justa
(comunhão de olhar e de mulher
os corpos salvos
na larga clareira em frente ao mar)

Momento imenso de espaço
a terra silenciosa e escura
atrás da casa
uma palavra nova apaga o sol
981
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Imagens

O fogo que aparece
por cima do horizonte

A vela deslizando sobre a terra

papéis que estalam brancos

um punhado de sol no ar
994
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Polpa do Sabor

A polpa fresca, lâmina rápida que se crispa e salta viva.

E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.

A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.

Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
951
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Fruto Verde-Amarelo

Um fruto verde-amarelo,
nítido, redondo, cheio,
seca fascinação suave,
imóvel, presente, alheio
— perfeito no silêncio agora meu.
557
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Pedra

A pedra é bela, opaca,
peso-a gostosamente como um pão.
É escura, baça, terrosa, avermelhada,
polvilhada de cinza.
Contemplo-a: é evidente, impenetrável,
preciosa.
1 338
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Atlan

Estas cores livres
em que o sonho é sol
homem ouve o dia
que há nos teus olhos

Estas cores bruscas
de quinas de pedras
homem vê os ossos
da tua alegria

Estas cores negras
de cílios de vespas
homem olha o centro
da loucura certa
989
Natasha Tinet

Natasha Tinet

Não tem geometria

Não tem geometria que explique
o gosto das cinco horas da manhã
a tragédia das amoras
a geologia de uma íris
a fúria dos grânulos de areia
contra os teus pés.
638
Nuno Júdice

Nuno Júdice

A mulher das flores

No meio das flores, a mulher encontra o
movimento de rotação da árvore; e à sua volta
as pétalas caem, numa rotação de corolas
de que ela é o centro.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 83 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 121
Ruy Belo

Ruy Belo

A beringela

É ela
um fruto esférico na forma e agradável de sabor
e para alimentá-la a água acorre em abundância a todos os jardins
Envolta no xairel do pé que ao ramo a prende faz lembrar
nas garras do abutre o rubro coração de um cordeirinho


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
1 452
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nardo

Nardo
Pesado e denso,
Opaco e branco,
Feito
De obscura respiração
E de nocturno embalo.
1 883
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Para Arpad Szenes

Assim a luz ao madrugar liberta
E una se multiplica
Para inventar o espanto o alvoroço a festa
Do reino revelado

Oásis e palmar — distância justa
Atenta invenção do que foi dado
O pintor pinta no tempo respirado
Reconhece o mundo como um rosto amado

Pinta as longas extensões as longas lisas linhas
O caminhar comprido da terra e suas crinas

Pinta o quadro dentro do qual o quadro
Se tece malha a malha como em tear a teia
O outro quadro do quadro convocador convocado
Pinta o bicho egípcio os dedos da palmeira

Assim a luz ao madrugar liberta
A ternura funda nossa aliança com as coisas
Eis o mito solar a fina mão do trigo o bicho grego

O amor que move o sol e os outros astros
— Como o Dante Alighieri disse
Move e situa o quarto o dia o quadro
1 245
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Em Hydra, Evocando Fernando Pessoa

Quando na manhã de Junho o navio ancorou em Hydra
(E foi pelo som do cabo a descer que eu soube que ancorava)
Saí da cabine e debrucei-me ávida
Sobre o rosto do real — mais preciso e mais novo do que o imaginado
Ante a meticulosa limpidez dessa manhã num porto
Ante a meticulosa limpidez dessa manhã num porto de uma ilha grega
Murmurei o teu nome
O teu ambíguo nome
Invoquei a tua sombra transparente e solene
Como esguia mastreação de veleiro
E acreditei firmemente que tu vias a manhã
Porque a tua alma foi visual até aos ossos
Impessoal até aos ossos
Segundo a lei de máscara do teu nome
Odysseus — Persona
Pois de ilha em ilha todo te percorreste
Desde a praia onde se erguia uma palmeira chamada Nausikaa
Até às rochas negras onde reina o cantar estridente das sereias
O casario de Hydra vê-se nas águas
A tua ausência emerge de repente a meu lado no deck deste barco
E vem comigo pelas ruas onde procuro alguém
Imagino que viajasses neste barco
Alheio ao rumor secundário dos turistas
Atento à rápida alegria dos golfinhos
Por entre o desdobrado azul dos arquipélagos
Estendido à popa sob o voo incrível
Das gaivotas de que o sol espalha impetuosas pétalas
Nas ruínas de Epheso na avenida que desce até onde esteve o mar
Ele estava à esquerda entre colunas imperiais quebradas
Disse-me que tinha conhecido todos os deuses
E que tinha corrido as sete partidas
O seu rosto era belo e gasto como o rosto de uma estátua roída pelo mar
Odysseus
Mesmo que me prometas a imortalidade voltarei para casa
Onde estão as coisas que plantei e fiz crescer
Onde estão as paredes que pintei de branco
Há na manhã de Hydra uma claridade que é tua
Há nas coisas de Hydra uma concisão visual que é tua
Há nas coisas de Hydra a nitidez que penetra aquilo que é olhado por um deus
Aquilo que o olhar de um deus tornou impetuosamente presente —
Na manhã de Hydra
No café da praça em frente ao cais vi sobre as mesas
Uma disponibilidade transparente e nua
Que te pertence
O teu destino deveria ter passado neste porto
Onde tudo se torna impessoal e livre
Onde tudo é divino como convém ao real
Hydra, Junho de 1970
3 751
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

I. (Friso Arcaico)

«Eu vos saúdo, ó filhas dos corcéis de pés de tempestade.»
Simónides de Keos

Patas dos corcéis da tempestade
Tão concisas tão duras e tão finas
Puro rigor de espigas — arquitrave
Medida amor e fúria se combinam
Delphos, Maio de 1970
1 904
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ii. Esse Que Humano Foi Como Um Deus Grego

Esse que humano foi como um deus grego
Que harmonia do cosmos manifesta
Não só em sua mão e sua testa
Mas em seu pensamento e seu apego

Àquele amor inteiro e nunca cego
Que emergia da praia e da floresta
Na secreta nostalgia de uma festa
Trespassada de espanto e de segredo

Agora jaz sem fonte e sem projecto
Quebrou-se o templo actual antigo e puro
De que ele foi medida e arquitecto

Python venceu Apolo num frontão obscuro
Quebrada foi desde seu eixo recto
A construção possível do futuro
1 665
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Apolo Musageta

Eras o primeiro dia inteiro e puro
Banhando os horizontes de louvor.

Eras o espírito a falar em cada linha
Eras a madrugada em flor
Entre a brisa marinha.
Eras uma vela bebendo o vento dos espaços
Eras o gesto luminoso de dois braços
Abertos sem limite.
Eras a pureza e a força do mar
Eras o conhecimento pelo amor.

Sonho e presença
De uma vida florindo
Possuída e suspensa.

Eras a medida suprema, o cânon eterno
Erguido puro, perfeito e harmonioso
No coração da vida e para além da vida
No coração dos ritmos secretos.
3 635
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Kouros do Egeu

Sorriso sem costura
Inocência de caule
Retrato nu do liso

A Niké de alegria poisava seus pés em cada ilha
1 872