Tempo e Passagem

Poemas neste tema

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Passado Presente

Vejo o conde D’Eu no Grande Hotel.
Fala francês com Dr. Rodolfo Jacob.
O fantasma da Monarquia
é o terceiro, invisível, interlocutor.
Lá fora o sol encandece, republicano.
Ah, nunca pensei que o passado existisse
assim tocável, a mexer-se.
Existe. E fala baixo. Daqui a pouco
toma o trem da Central, rumo ao silêncio.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Resto

No alto da cidade
a boca da mina
a boca desdentada da mina de ouro
onde a lagartixa herdeira única
de nossos maiores
grava em risco rápido
no frio, na erva seca, no cascalho
o epítome-epílogo
da Grandeza.
1 386
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cortesia

Mil novecentos e pouco.
Se passava alguém na rua
sem lhe tirar o chapéu,
Seu Inacinho lá do alto
de suas cãs e fenestra
murmurava desolado
— Este mundo está perdido!
Agora que ninguém porta
nem lembrança de chapéu
e nada mais tem sentido,
que sorte Seu Inacinho
já ter ido para o céu.
1 426
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ordem

Quando a folhinha de Mariana
exata informativa santificada
regulava o tempo, as colheitas,
os casamentos e até a hora de morrer,
o mundo era mais inteligível,
pairava certa graça ao viver.

Hoje quem é que pode?
598
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Pedra Natal

ita bira
pedra luzente candeia seca
pedra empinada sono em decúbito
pedra pontuda tempo e desgaste
pedra falante sem confidência
pedra pesante paina de ferro
por toda a vida viva vivida
pedra
mais nada
1 857
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ciência

Começo a ver no escuro
um novo tom
de escuro.
Começo a ver o visto
e me incluo
no muro.
Começo a distinguir
um sonilho, se tanto,
de ruga.
E a esmerilhar a graça
da vida, em sua
fuga.
1 284
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Fiel À Lentidão Que Abarca a Cinza E o Fogo

Fiel à lentidão que abarca a cinza e o fogo.
Fogo do ar em sua tácita certeza.
Confluência à superfície na dispersão latente.
1 188
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Súbito No Vértice Reconhece

O que súbito no vértice reconhece
o vazio navegável do instante.
1 070
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Amar Esta Sombra Que Desliza

Amar esta sombra que desliza
e que é talvez já a presença que nos foge.
1 097
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Aqui Está Um Arbusto E a Sua Luz

Aqui está um arbusto e a sua luz
tão branca     O seu volume
é leve surpreendente intacto

Se o trabalharmos sobre a terra parda
não saberemos não adivinhamos
a surpresa da flor vermelha
mas saberemos que insectos o assaltam

Ao vento à chuva
as flores tornam-se negras
são negras e todas hão-de arder
971
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Nuvem Passa

A nuvem passa

sem vestígios

abrindo o espaço
1 014
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Tempo de Semente

Um tempo de semente

sob os passos

e a lâmpada

sob as traves
986
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Progridem Os Silêncios

Progridem os silêncios

— tudo é oco ou opaco?

a pressão do tempo cai sobre a nuca negra

o mundo da língua é o murmúrio de um barco

e um ritmo subsiste     um perfume de pedra

uma laranja     um copo     um fragmento        a folha

a gravidade cálida nos elementos livres

o negro

transmite

o branco     a intensidade silenciosa
1 002
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nomes de Terra,…

Nomes de terra, no inverno da tarde, frio sólido, pedras cinzentas e brancas de outono ainda, mãos na terra, mãos do desejo escrito, rápidas passageiras.
1 380
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Aqui Se Abre Um Parêntese

Aqui se abre um parêntese
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas

Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou

Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
915
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Óleo de Manuel Baptista

Na parede as teias
a cor de uma adega
o vinho que cheira
de séculos e o sol
debaixo da terra
ouro subterrâneo
poente que dura
999
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Eis Os Instrumentos

Eis os instrumentos
no vagar da terra

A ordem é do mar
com seu repouso manso
Os objectos e os dias
têm as suas pontes
onde a leveza é densa
Há pratos onde o silêncio
salvou o tempo
e faixas de luz
que a mão bebe
890
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Última Oportunidade É Sempre

A última oportunidade é sempre
esta
corre
só um pouco mais e o sol e o sangue
invadirá a árvore
a seiva empapará tua língua

eia! um homem
sem nada para a morte
925
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Em Qualquer Parte Um Homem

Em qualquer parte um homem
discretamente morre

Ergueu uma flor
Levantou uma cidade

Enquanto o sol perdura
ou uma nuvem passa
surge uma nova imagem

Em qualquer parte um homem
abre o seu punho e ri
3 375
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Faço um castelo na areia

Faço um castelo na areia do futuro. Torres
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe as linhas do infinito,
derrubando os muros da manhã.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 28 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 812
Ruy Belo

Ruy Belo

As impossíveis crianças

Nesta manhã de outono dos primeiros frios
mais a caminho da velhice que da minha casa
eu vejo-vos em roda todas a cantar
Impossíveis crianças deixais-me brincar?


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 16 | Editorial Presença Lda., 1981
1 351
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Cuarteta

Del Diván de Almotásam el Magrebí (siglo XII).

Murieron otros, pero ello aconteció en el pasado,
que es la estación (nadie lo ignora) más propicia a la muerte.
¿Es posible que yo, súbdito de Yaqub Almansur,
muera como tuvieron que morir las rosas y Aristóteles?


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 155 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 895
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Caderno Ii

Quando me perco de novo neste antigo
Caderno de capa preta de oleado
Que um dia rasguei com fúria e desespero
E que um amigo recolou com amor e paciência

De novo se ergue em minha frente a clara
Parede cal do quarto matinal
Virado para o mar e onde o poente
Se afogueava denso e transparente
E a sonâmbula noite se azulava

Ali o tempo vivido foi tão vivo
Que sempre à própria morte sobrevive
E cada dia julgo que regressa
Seu esplendor de fruto e de promessa
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Atelier do Escultor do Meu Tempo

Uma nudez geométrica
Implanta nos espaços sucessivos
O vazio propício à aparição dos fantasmas

É aqui que as estátuas mostram
A necessidade sem discurso dos seus gestos

Exiladas da vida e da cidade
Exiladas do tempo
Elas convocam
O fragmento a mutilação os destroços

O peixe que navega sem perturbar o silêncio
1 848