Saudade e Ausência

Poemas neste tema

Juan Gelman

Juan Gelman

Sefini

Basta
por esta noite fecho a porta
no saco onho
guardo os papelitos
onde não faço senão falar de ti
mentir sobre teu paradeiro
corpo que me faz tremer
1 643
Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

As aves migram em Setembro

as aves migram em setembro.
nem vou com elas, nem
guardo delas
a mínima memória.

escurece mais cedo,
o tempo não se rouba,
escoa-se como o frio
por uma camisola

até dentro da pele.
as aves migram
calmamente, eu
permaneço aqui

de guarda à água lisa que viu passar seus bandos
e em que hás-de debruçar-te.
3 267
Juan Gelman

Juan Gelman

Pouco se sabe

Eu não sabia que
não te ter podia ser doce como
nomear-te para que venhas ainda que
não venhas e não haja senão
tua ausência tão
dura como o golpe que
me dei na cara pensando em ti
1 422
Paulo Leminski

Paulo Leminski

lembrem de mim

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça


Publicado no livro Polonaises (1980).

In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 198
1 848
Carlos Vogt

Carlos Vogt

Ponto de Vista

Visto da ilha
o continente no container dos olhos
represa mágoas e metáforas de alegria.
Na distância de água e argila,
visto da ilha,
o continente é outra ilha.


In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 143
Afrânio Peixoto

Afrânio Peixoto

na alcova desfeita

Na alcova desfeita,
Onde não há mais ninguém,
Uma flor caída...


In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 236

NOTA: Tradução de haicai de Bash
1 341
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Horizonte

Alma em suspiro
pelo encontro
do que fica
sempre mais longe


Publicado no livro Reverberações (1976).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 662
Paulo Leminski

Paulo Leminski

você está tão longe

você está tão longe
que às vezes penso
que nem existo

nem fale em amor
que amor é isto

2 471
Paulo Leminski

Paulo Leminski

a noite - enorme

a noite - enorme
tudo dorme
menos teu nome

2 385
Felipe Larson

Felipe Larson

UMA IMAGEM EM DUAS CORES

Noites de insônia só penso em você
Não vejo a hora de o dia nascer
Noites de agonia, eu me ligo em você.
Quando estou sentado de frente a TV

Uma imagem para se ver
Em apenas duas cores no entardecer
O amor não vem de longe no amanhecer
Ele vem surgindo pra eu na te esquecer

E eu não vou te esquecer
Não!

803
Manuel Machado

Manuel Machado

A chuva

Eu tive uma vez amores.
Hoje é dia de lembranças.
Eu tive uma vez amores.

Houve sol e houve alegria.
Um dia, já bem passado...,
houve sol e houve alegria.

De tudo, que me há ficado?
Da mulher que me amava,
de tudo, que me há ficado?

...O aroma de seu nome,
a lembrança de seus olhos
e o aroma de seu nome.

1 081
Manuel Machado

Manuel Machado

Outono

No parque, eu só...
Hão fechado
e, esquecido
no parque velho, só
Hão-me deixado.

A folha seca
vagamente
indolente
roça o solo...
Nada sei,
nada quero,
nada espero,
Nada...

no parque hão-me deixado
esquecido,
...e hão fechado.

973
Otto Rene Catillo

Otto Rene Catillo

Os amantes

Se haviam
encontrado faz pouco
e logo
se haviam separado,
levando
cada um consigo
seu nunca ou seu jamais
sua afirmação de esquecimento
sua golpeadora dor.

Porém o último beijo
que voara de suas bocas,
era um planeta azul.
Girando
entorno a sua ausência
e eles
viviam de sua luz
igual que de sua recordação.

688
Manuel Machado

Manuel Machado

Melancolia

Sinto-me, às vezes, triste
como uma tarde do outono velho;
de saudades sem nomes,
de aflições melancólicas tão cheio...
Meu pensamento, então,
vaga junto às tumbas dos mortos
e em torno dos ciprestes e salgueiros
que abatidos, se inclinam... e me lembro
de historias tristes, sem poesia... Historias
que têm quase brancos meus cabelos.

1 285
Rafael Alberti

Rafael Alberti

O mar, o mar

O mar. O mar.
O mar. Só o mar!

Por que me trouxeste, pai
a cidade?

Em sonhos, a marejada
me tira do coração.
Se o quisesses levar.

Pai, por que me trouxeste
aqui?

1 301
Gabriela Marcondes

Gabriela Marcondes

Hai-kais

Minha mão vazia
Esperando a sua
Encontro que cria.

Harmonia sem acorde
nota em contratempo
A dissonância morde

Sair do protocolo
Contornar a mesmice
Bancar o vôo solo.

Alma que sente frio
distância que aprisiona
A saudade está no cio.

458
Maria Azenha

Maria Azenha

Recordações

Nenhum vestígio
Nenhuma noite impura
Nenhum país de lume
Nenhuma serra ali.
A tua ausência é tão funda
Que não regressa a ti.

875
Hilda Hilst

Hilda Hilst

Penso linhos e ungüentos

Penso linhos e ungüentos
para o coração machucado de Tempo.
Penso bilhas e pátios
Pela comoção de contemplá-los.
(E de te ver ali
À luz da geometria de teus atos)
Penso-te
Pensando-me em agonia. E não estou.
Estou apenas densa
Recolhendo aroma, passo
O refulgente de ti que me restou.

1 400
Lenilde Freitas

Lenilde Freitas

A Fernando Pessoa

Não é disso que estou falando
nem do silêncio presente nesta sala
em que os pensamentos entram
igual moscas e pousam onde querem.
Não é disso
nem de tarde que mastiga devagar
o que resta da hora
e o vento procura, procura
lá fora não se sabe a quem.
Falo do teu sonho
ancorado nas alturas
e desta porta aberta
a esperar ninguém

870
Alice Ruiz

Alice Ruiz

Hai-kais

apaga a luz
antes de amanhecer
um vagalume

vento seco
entre os bambus
barulho d água

tanta poesia no gesto
nenhum poema
o diria

o relógio marca
48 horas sem te ver
sei lá quantas para te esquecer

circuluar
sonho impar
acordo par

desacerto
entre nós
só etceteras

1 691
Rosalía de Castro

Rosalía de Castro

Cantar de emigração

Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão.
Galiza, ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca orfãos e orfãs
e campos de solidão
e mães que não têm filhos
filhos que não têm pais.

Corações que tens e sofrem
longas horas mortais
viúvas de vivos-mortos
que ninguém consolará

5 823
Angela Santos

Angela Santos

Alma-Gémea

Tu
que não oiço, não vejo
só pressinto
és o pedaço que pode refazer
minha alma mutilada

Tu por quem desfio esperas
Deus sabe,
se a este encontro virás.

Deus sabe
se um dia ao acordar,
tua alma sentirá o frémito
de um outro pedaço,
o meu
gémea-alma
nela a vibrar.

1 048
Angela Santos

Angela Santos

Viva Voz

Da
tua voz vivo agora
e se chega eu esqueço
o vazio que me farta…
mordo e deixo em tua boca
a marca de um beijo
e parto...

a cabeça repleta e o coração faminto
e pergunto – me sem fim
até quando…
até quando…
até quando..?

1 112
Fernando Tavares Rodrigues

Fernando Tavares Rodrigues

Construção

Construir-te
verso a verso
Tijolo a tijolo de saudade.
Palácio que supuz noutra cidade,
Conquista que sofreu um vento adverso.
Cristal que me cegou quando te quis,
Luxúria do teu corpo onde não estive.
E só faltou que tu fosses feliz
Nesse intervalo breve em que te tive....

1 085