Propósito e Sentido da Vida

Poemas neste tema

Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Em Riste

de que um obelisco
acusa o céu?

ele mesmo tão inpuro
entre potência e solidão

855
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

O Deserto

nenhuma
sombra
que justifique
o sol

759
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

O Século Seguinte

eis o tempo
da profunda busca
Em que se busca
o que já está nas mãos

842
Aymar Mendonça

Aymar Mendonça

in Certeza

Para onde irá minha alma
depois da apoteose?

Irá comigo
a certeza de quê?

Não sei se os anos idos
selarão o encontro
vida/morte
com fluxos de sol.

944
André Joffily Abath

André Joffily Abath

O Navegador

Tempo não é o que passa,
é sim o que fica,
cercado em quatro paredes,
prisioneiro da própria vida.
Daí não haver saída,
ou chegada até a margem.
Viver não é ir, voltar;
viver é viagem.

1 650
Paladas

Paladas

QUATRO POEMAS

QUATRO POEMAS

Digamos pois que a vida é um teatro,
em que cumpre ao actor fingir com arte:
levando-a a rir, como se fora farsa,
ou digno sendo na tragédia parte.

860
Natália Correia

Natália Correia

O Livro dos Amantes I

Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

2 101
Alexei Bueno

Alexei Bueno

Pergunta

Será realmente a face do universo

a face da Medusa,

esta geral destruição confusa,

este criar perverso,

ou será a máscara,álgida e estrelada,

onde os cometas passam,

turva de treva,rútila de nada,

e onde olhos se espedaçam?

1 246
Adriana Sampaio

Adriana Sampaio

Auto-Suficiência

Auto-Suficiência

Procuro outra ótica
Um ângulo de 180 graus
Para observar
As flechas que lanço
Em todas as direções.

Estou atrás de novas sensações
Que me permitam
Mais vida e menos perplexidade.

Como bom entendedor
Sem meias palavras
E isso basta!
923
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XIII - The work is done. The hammer is laid down.

The work is done. The hammer is laid down.
The artisans, that built the slow-grown town,
Have been succeeded by those who still built.
All this is something lack-of-something screening.
The thought whole has no meaning
But lies by Time's wall like a pitcher spilt.
4 280
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VI - Some were as loved loved, some as prizes prized.

Some were as loved loved, some as prizes prized.
A natural wife to the fed man my mate,
I was sufficient to whom I sufficed.
I moved, slept, bore and aged without a fate.
3 886
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ladram uns cães a distância,

Ladram uns cães à distância,
Cai uma tarde qualquer,
Do campo vem a fragrância
De campo, e eu deixo de ver.

Um sonho meio sonhado,
Em que o campo transparece,
Está em mim, está a meu lado,
ora me lembra ou me esquece.

E assim neste ócio profundo
Sem males vistos ou bens,
Sinto que todo este mundo
É um largo onde ladram cães.


25/12/1932
4 671
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nada. Passaram nuvens e eu fiquei...

Nada. Passaram nuvens e eu fiquei...
No ar limpo não há rasto.
Surgiu a lua de onde já não sei,
Num claro luar vasto.

Todo o espaço da noite fica cheio
De um peso sossegado...
Onde porei o meu futuro, e o enleio
Que o liga ao meu passado?


25/10/1933
3 995
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vão breves passando

Vão breves passando
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho.

De aqui a tão pouco
Ainda acabou.
Vou ser um cadáver
Por quem se rezou.

E entre hoje e esse dia
Farei o que fiz:
Ser qual quero eu ser,
Feliz ou infeliz.


28/03/1931
4 074
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Em plena vida e violência

Em plena vida e violência
De desejo e ambição,
De repente uma sonolência
Cai sobre a minha ausência,
Desce ao meu próprio coração.

Será que a mente, já desperta
Da noção falsa de viver,
Vê que, pela janela aberta,
Há uma paisagem toda incerta
E um sonho todo a apetecer?


1931
4 477
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não fiz nada, bem sei, nem o farei,

Não fiz nada, bem sei, nem o farei,
Mas de não fazer nada isto tirei,
Que fazer tudo e nada é tudo o mesmo,
Quem sou é o espectro do que não serei.

Vivemos aos encontros do abandono
Sem verdade, sem dúvida nem dono.
Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.


1931
4 906
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Já não vivi em vão

Já não vivi em vão
Já escrevi bem
Uma canção.

A vida o que tem?
Estender a mão
A alguém?

Nem isso, não.
Só o escrever bem
Uma canção.


07/05/1927
4 918
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pois cai um grande e calmo efeito

Pois cai um grande e calmo efeito
De nada ter razão de ser
Do céu, nulo como um direito,
Na terra vil como um dever.


21/08/1930
4 311
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Porque vivo, quem sou, o que sou, quem me leva?

Porque vivo, quem sou, o que sou, quem me leva?
Que serei para a morte? Para a vida o que sou?
A morte no mundo é a treva na terra.
Nada posso. Choro, gemo, cerro os olhos e vou.
Cerca-me o mistério, a ilusão e a descrença
Da possibilidade de ser tudo real.
Ó meu pavor de ser, nada há que te vença!
A vida como a morte é o mesmo Mal!


1919
4 175
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ninguém, na vasta selva virgem

Ninguém, na vasta selva virgem
Do mundo inumerável, finalmente
Vê o Deus que conhece.
Só o que a brisa traz se ouve na brisa
O que pensamos, seja amor ou deuses,
Passa, porque passamos.


10/12/1931
2 255
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sob a leve tutela

Sob a leve tutela
De deuses descuidosos,
Quero gastar as concedidas horas
Desta fadada vida.

Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino.

Da verdade não quero
Mais que a vida; que os deuses
Dão vida e não verdade, nem talvez
Saibam qual a verdade.
2 068
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quero ignorado, e calmo

Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.

Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.

Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato.


02/03/1933
3 541
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tudo, desde ermos astros afastados

Tudo, desde ermos astros afastados
A nós, nos dá o mundo.
E a tudo, alheios, nos acrescentamos,
Pensando e interpretando.
A próxima erva a que não chega basta,
O que há é o melhor.


10/12/1931
1 586
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Os deuses e os Messias que são deuses

Os deuses e os Messias que são deuses
Passam, e os sonhos vãos que são Messias.
A terra muda dura.
Nem deuses, nem Messias, nem ideias
Que traz em rosas. Minhas são se as tenho.
Se as tenho, que mais quero?


08/02/1931
2 140