Morte
Poemas neste tema
Alphonsus de Guimaraens
XVII - Serenada
A HENRIQUE MALTA
Da noite pelos ermos
Choram violões.
São como enfermos
Corações.
Dorme a cidade inteira
Em agonia...
A lua é uma caveira
Que nos espia.
Todo o céu se recama
De argêntea luz...
Uma voz clama
Por Jesus.
A quietude morta
Do luar se espalma...
E ao luar em cada porta,
Expira uma alma.
Passam tremendo os velhos...
Ide em paz,
Ó evangelhos
Do Aqui-Jaz!
Toda a triste cidade
É um cemitério...
Há um rumor de saudade
E de mistério.
A nuvem guarda o pranto
Que em si contém...
Do rio o canto
Chora além.
De sul a norte passa,
Como um segredo,
Um hausto de desgraça:
É a voz do medo...
Há pela paz noturna
Um celestial
Silêncio de urna
Funeral...
Pela infinita mágoa
Que em tudo existe,
Ouço o marulho da água,
Sereno e triste.
Da noite pelos ermos
Choram violões...
São como enfermos
Corações.
E em meio da cidade
O rio corre,
Conduzindo a saudade
De alguém que morre...
Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: livro lírico do poeta Alphonsus de Guimaraens (1923). Poema integrante da série As Canções.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 219-220- (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
Da noite pelos ermos
Choram violões.
São como enfermos
Corações.
Dorme a cidade inteira
Em agonia...
A lua é uma caveira
Que nos espia.
Todo o céu se recama
De argêntea luz...
Uma voz clama
Por Jesus.
A quietude morta
Do luar se espalma...
E ao luar em cada porta,
Expira uma alma.
Passam tremendo os velhos...
Ide em paz,
Ó evangelhos
Do Aqui-Jaz!
Toda a triste cidade
É um cemitério...
Há um rumor de saudade
E de mistério.
A nuvem guarda o pranto
Que em si contém...
Do rio o canto
Chora além.
De sul a norte passa,
Como um segredo,
Um hausto de desgraça:
É a voz do medo...
Há pela paz noturna
Um celestial
Silêncio de urna
Funeral...
Pela infinita mágoa
Que em tudo existe,
Ouço o marulho da água,
Sereno e triste.
Da noite pelos ermos
Choram violões...
São como enfermos
Corações.
E em meio da cidade
O rio corre,
Conduzindo a saudade
De alguém que morre...
Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: livro lírico do poeta Alphonsus de Guimaraens (1923). Poema integrante da série As Canções.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 219-220- (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
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Abgar Renault
Depois
Para onde irão depois as coisas que aprendi?
Por exemplo: aquele cálculo de pi.
Que será feito daqueles restos de saudade,
destes medos antigos sempre novos?
Em que voltas desaparecerão os sonhos
que enfeitaram de flores o quintal antigo?
Por que caminhos irão andar aqueles ágeis pés?
Sobretudo, como se esvaziará de som a velha voz
e onde afundará o último verde daquela flama esguia?
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990. Poema integrante da série O Rio Escuro.
Por exemplo: aquele cálculo de pi.
Que será feito daqueles restos de saudade,
destes medos antigos sempre novos?
Em que voltas desaparecerão os sonhos
que enfeitaram de flores o quintal antigo?
Por que caminhos irão andar aqueles ágeis pés?
Sobretudo, como se esvaziará de som a velha voz
e onde afundará o último verde daquela flama esguia?
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990. Poema integrante da série O Rio Escuro.
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Paulo Eiró
Soneto II
Quando, c'os olhos míopes, eu sigo
Esta vida que sempre nos ilude,
Como a dama, ao passar um ataúde,
Tenho ataques de nervos, meu amigo.
Logo ao nascer, arrancam-nos o umbigo;
Depois, a vara inspira-nos virtude,
E, ao amor dedicando a juventude,
Pomos as nossas costas em perigo.
Casamos... que tolice! O ano inteiro
Em inútil suor banha-se a testa,
Que a mulher nos dá cabo do dinheiro.
A velhice mil mágoas nos empresta;
Só do tabaco nos agrada o cheiro;
Chega a morte de foice e... acaba a festa.
Poema integrante da série Tetéias, 1855.
In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
Esta vida que sempre nos ilude,
Como a dama, ao passar um ataúde,
Tenho ataques de nervos, meu amigo.
Logo ao nascer, arrancam-nos o umbigo;
Depois, a vara inspira-nos virtude,
E, ao amor dedicando a juventude,
Pomos as nossas costas em perigo.
Casamos... que tolice! O ano inteiro
Em inútil suor banha-se a testa,
Que a mulher nos dá cabo do dinheiro.
A velhice mil mágoas nos empresta;
Só do tabaco nos agrada o cheiro;
Chega a morte de foice e... acaba a festa.
Poema integrante da série Tetéias, 1855.
In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
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Santa Rita Durão
Canto VII [Vêem-se cobras terríveis, monstruosas
LVI
Vêem-se cobras terríveis, monstruosas,
Que afugentam coa vista a gente fraca;
As jibóias, que cingem volumosas
Na cauda um touro, quando o dente o ataca;
Voa entre outras com forças horrorosas,
Batendo a aguda cauda a jararaca,
Com veneno, a quem fere tão presente,
Que logo em convulsão morrer se sente.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.175. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto VII" é composto de 74 estrofe
Vêem-se cobras terríveis, monstruosas,
Que afugentam coa vista a gente fraca;
As jibóias, que cingem volumosas
Na cauda um touro, quando o dente o ataca;
Voa entre outras com forças horrorosas,
Batendo a aguda cauda a jararaca,
Com veneno, a quem fere tão presente,
Que logo em convulsão morrer se sente.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.175. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto VII" é composto de 74 estrofe
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Cacaso
Face a Face
São as trapaças da sorte
são as graças da paixão
pra se combinar comigo
tem que ter opinião
Morena quando repenso
no nosso sonho fagueiro
o céu estava tão denso
inferno tão passageiro
uma certeza me nasce
e abole todo o meu zelo
quando me vi face a face
fitava o meu pesadelo
estava cego o apelo
estava solto o impasse
sofrendo nosso desvelo
perdendo no desenlace
no rolo feito novelo
até o fim do degelo
até que a morte me abrace
São as desgraças da sorte
são as traças da paixão
quem quiser casar comigo
tem que ter bom coração
Morena quando relembro
aquele céu escarlate
mal começava dezembro
já ia longe o combate
uma lambada me bole
uma certeza me abate
a dor querendo que eu morra
o amor querendo que eu mate
estava solta a cachorra
que mete o dente e não late
No meio daquela zorra
perdendo no desempate
girando feito piorra
até que a mágoa escorra
até que a raiva desate
Publicado no livro Mar de mineiro: poemas e canções (1982). Poema integrante da série Papos de Anjo da Guarda.
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.141-142
NOTA: Música de Sueli Cost
são as graças da paixão
pra se combinar comigo
tem que ter opinião
Morena quando repenso
no nosso sonho fagueiro
o céu estava tão denso
inferno tão passageiro
uma certeza me nasce
e abole todo o meu zelo
quando me vi face a face
fitava o meu pesadelo
estava cego o apelo
estava solto o impasse
sofrendo nosso desvelo
perdendo no desenlace
no rolo feito novelo
até o fim do degelo
até que a morte me abrace
São as desgraças da sorte
são as traças da paixão
quem quiser casar comigo
tem que ter bom coração
Morena quando relembro
aquele céu escarlate
mal começava dezembro
já ia longe o combate
uma lambada me bole
uma certeza me abate
a dor querendo que eu morra
o amor querendo que eu mate
estava solta a cachorra
que mete o dente e não late
No meio daquela zorra
perdendo no desempate
girando feito piorra
até que a mágoa escorra
até que a raiva desate
Publicado no livro Mar de mineiro: poemas e canções (1982). Poema integrante da série Papos de Anjo da Guarda.
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.141-142
NOTA: Música de Sueli Cost
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Martins Fontes
A Água Toda Secou até nos Olhos
— Meu culto ao Ceará, Coração do Brasil.
O rio vai morrer, sem que nada o socorra,
sem que ninguém, jamais, bendiga o moribundo.
Morre na solidão, no silêncio profundo,
e o malárico mal o mantém em modorra.
A enfermidade faz que da boca lhe escorra
o limo, feito fel, viscoso e nauseabundo.
E o terror se lhe vê das órbitas ao fundo.
Paralítico jaz na estreitez da masmorra.
Tu só, tu, meu Irmão, que a miséria não vence.
Que suportando a sede, a fome, a febre, o frio,
sem que prêmio nenhum teu martírio compense.
Poeta, herói, semideus, sabes o desvario,
a sobre-humana dor, a bravura, cearense,
de quem se suicidou, vendo morrer o rio.
Publicado no livro Guanabara (1936).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.47-48. (Nossos clássicos, 40
O rio vai morrer, sem que nada o socorra,
sem que ninguém, jamais, bendiga o moribundo.
Morre na solidão, no silêncio profundo,
e o malárico mal o mantém em modorra.
A enfermidade faz que da boca lhe escorra
o limo, feito fel, viscoso e nauseabundo.
E o terror se lhe vê das órbitas ao fundo.
Paralítico jaz na estreitez da masmorra.
Tu só, tu, meu Irmão, que a miséria não vence.
Que suportando a sede, a fome, a febre, o frio,
sem que prêmio nenhum teu martírio compense.
Poeta, herói, semideus, sabes o desvario,
a sobre-humana dor, a bravura, cearense,
de quem se suicidou, vendo morrer o rio.
Publicado no livro Guanabara (1936).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.47-48. (Nossos clássicos, 40
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José Albano
IV [Mata-me, puro Amor, mas docemente
Mata-me, puro Amor, mas docemente,
Para que eu sinta as dores que sentiste
Naquele dia tenebroso e triste
De suplício implacável e inclemente.
Faze que a dura pena me atormente
E de todo me vença e me conquiste,
Que o peito saudoso não resiste
E o coração cansado já consente.
E como te amei sempre e sempre te amo,
Deixa-me agora padecer contigo
E depois alcançar o eterno ramo.
E, abrindo as asas para o etéreo abrigo,
Divino Amor, escuta que eu te chamo,
Divino Amor, espera que eu te sigo.
Publicado no livro Antologia Poética (1918). Poema integrante da série Dez Sonetos Escolhidos Pelo Autor.
In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.59. (Série Revisões, 3
Para que eu sinta as dores que sentiste
Naquele dia tenebroso e triste
De suplício implacável e inclemente.
Faze que a dura pena me atormente
E de todo me vença e me conquiste,
Que o peito saudoso não resiste
E o coração cansado já consente.
E como te amei sempre e sempre te amo,
Deixa-me agora padecer contigo
E depois alcançar o eterno ramo.
E, abrindo as asas para o etéreo abrigo,
Divino Amor, escuta que eu te chamo,
Divino Amor, espera que eu te sigo.
Publicado no livro Antologia Poética (1918). Poema integrante da série Dez Sonetos Escolhidos Pelo Autor.
In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.59. (Série Revisões, 3
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Menotti del Picchia
Fascinação - 1
Tudo ama!
As estrelas no azul, os insetos na lama,
a luz, a treva, o céu, a terra, tudo,
num tumultuoso amor, num amor quieto e mudo
tudo ama! tudo ama!
Há amor na alucinada
fascinação do abismo,
amor paradoxal humano e forte
que se traduz nas febres do sadismo,
nessa atração perpétua para o Nada,
nessa corrida doida para a Morte.
Por isso quando as lianas
em lascívias florais cercam de abraços
o tronco hirsuto e grosso,
têm, no amplexo mortal, crueldades humanas.
Há no erótico ardor de enlaçá-lo, abraçá-lo,
a assassina violência de dois braços
crispados num pescoço,
atenazando-o para estrangulá-lo!
É que o amor quer a morte. Num momento
resume a vida, os loucos entusiasmos
dos supremos espasmos...
Nesse furor que o invade,
tem a volúpia da ferocidade,
tem o delírio do aniquilamento!
É por isso que sempre vês, por tudo,
uma luta de morte, um desespero mudo:
a insídia da raiz que mina a terra e esgota,
o caule que ergue o fuste, a rama, em sobressalto,
agitando pelo ar a própria dor ignota
no torturante amor do mais puro e mais alto!
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.37. (Prestígio
As estrelas no azul, os insetos na lama,
a luz, a treva, o céu, a terra, tudo,
num tumultuoso amor, num amor quieto e mudo
tudo ama! tudo ama!
Há amor na alucinada
fascinação do abismo,
amor paradoxal humano e forte
que se traduz nas febres do sadismo,
nessa atração perpétua para o Nada,
nessa corrida doida para a Morte.
Por isso quando as lianas
em lascívias florais cercam de abraços
o tronco hirsuto e grosso,
têm, no amplexo mortal, crueldades humanas.
Há no erótico ardor de enlaçá-lo, abraçá-lo,
a assassina violência de dois braços
crispados num pescoço,
atenazando-o para estrangulá-lo!
É que o amor quer a morte. Num momento
resume a vida, os loucos entusiasmos
dos supremos espasmos...
Nesse furor que o invade,
tem a volúpia da ferocidade,
tem o delírio do aniquilamento!
É por isso que sempre vês, por tudo,
uma luta de morte, um desespero mudo:
a insídia da raiz que mina a terra e esgota,
o caule que ergue o fuste, a rama, em sobressalto,
agitando pelo ar a própria dor ignota
no torturante amor do mais puro e mais alto!
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.37. (Prestígio
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Armindo Trevisan
Uma Doença Chamada Homem
Se dividirmos o corpo, se na unidade
as coisas se arranjarem, à revelia de outros corpos,
se de nós a inteligência partir para fora
e de fora vier até nós; se algo assim
com Kipling não nos obrigar à capitulação
e isto for complicado porque em política
repressão nada significa e as palavras constituem
o que elas constituiriam se pensar fosse comer;
se nem na comida conseguimos unanimidade
mas antes uma laranja é fruto
de divisão; se pensamos que ser é ser indivíduo,
trabalhar com os outros, fornicar com os outros;
se a colisão de bocas na treva
não nos atar as línguas; se
por acaso a vida fosse um abuso
de força a esta atavicamente jorrasse
do bico de um pássaro, do furo de uma baleia;
se cada um de nós de repente se dispusesse
a inverter a evolução, a recomeçar outro movimento.
Que aconteceria? Seríamos
inúteis durante algum tempo. Não saberíamos
manipular um motor, estender uma roupa,
ou juntar as mãos. Seríamos
inúteis. Mas dessa inutilidade
não brotaria mais sentido? Que
aconteceria? Alinhar-nos-íamos entre
os gansos? Que
se passaria com a consciência? Oh! o esforço
de se beijar um mamilo, de
se dizer absolutamente porque somos.
Um esforço do qual
cada pessoa emergeria jovem,
um gesto feito quando chega a notícia.
Seríamos inúteis. Inúteis sem remorso.
Extraviados na liberdade de ignorar
a própria morte. Em vez disso sabemos como as coisas
caminham, temos noções exatas acerca de um
fusível, pagamos nossas dívidas,
e saboreamos a sensação
de morrermos muito antes do tempo.
Imagem - 01490004
In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série O Abajur de Píndaro
as coisas se arranjarem, à revelia de outros corpos,
se de nós a inteligência partir para fora
e de fora vier até nós; se algo assim
com Kipling não nos obrigar à capitulação
e isto for complicado porque em política
repressão nada significa e as palavras constituem
o que elas constituiriam se pensar fosse comer;
se nem na comida conseguimos unanimidade
mas antes uma laranja é fruto
de divisão; se pensamos que ser é ser indivíduo,
trabalhar com os outros, fornicar com os outros;
se a colisão de bocas na treva
não nos atar as línguas; se
por acaso a vida fosse um abuso
de força a esta atavicamente jorrasse
do bico de um pássaro, do furo de uma baleia;
se cada um de nós de repente se dispusesse
a inverter a evolução, a recomeçar outro movimento.
Que aconteceria? Seríamos
inúteis durante algum tempo. Não saberíamos
manipular um motor, estender uma roupa,
ou juntar as mãos. Seríamos
inúteis. Mas dessa inutilidade
não brotaria mais sentido? Que
aconteceria? Alinhar-nos-íamos entre
os gansos? Que
se passaria com a consciência? Oh! o esforço
de se beijar um mamilo, de
se dizer absolutamente porque somos.
Um esforço do qual
cada pessoa emergeria jovem,
um gesto feito quando chega a notícia.
Seríamos inúteis. Inúteis sem remorso.
Extraviados na liberdade de ignorar
a própria morte. Em vez disso sabemos como as coisas
caminham, temos noções exatas acerca de um
fusível, pagamos nossas dívidas,
e saboreamos a sensação
de morrermos muito antes do tempo.
Imagem - 01490004
In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série O Abajur de Píndaro
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Alphonsus de Guimaraens
IV - Noiva
N'as-tu pas senti le gout des éternelles amours?
H. DE BALZAC
Noiva... minha talvez... pode bem ser que o sejas.
Não me disseste ao certo o dia em que voltavas.
O céu é claro como o teto das igrejas:
Vens de lá com certeza. Humildes como escravas,
Curvadas ainda estão as estrelas morosas;
E bem se vê que algum excelso vulto branco
Passou por elas, entre arcarias de rosas,
Revolto o manto de ouro, afagando-lhe o flanco.
Há tanto tempo que te espero, e espero embalde...
Não sabia que assim tão diferente vinhas.
Tinhas negro o cabelo: entanto a nuvem jalde,
Que o doura todo, o faz tão outro do que tinhas!
Quando morreste, o sol era morto, e ainda agora
Para mim se prolonga essa noite de guerra...
Acaso vens com o teu olhar de eterna aurora
Aclará-la outra vez, vindo de novo à terra?
Vejo-te a imagem tão destacada no fundo
Deste meu sonho, que é como se eu não sonhasse...
Cheio da nostalgia estelar de outro mundo,
Tem as mágoas de um astro o palor da tua face.
Caminhas, e os teus pés sublimes nem de leve
Tocam a flor do solo: o ar impalpável pisas.
Ora se abaixa, ou se ergue o teu corpo de neve...
Parece que te vão berçando auras e brisas.
O peristilo arcual da tua boa se move:
Soabre-se: a fulva luz que a ilumina contemplo...
Falas: como me pasma e inebria e comove
Toda a púrpura real do interior desse templo!
Parece que um hinal de suaves litanias
Acompanha a tua voz nas palavras que soltas.
Não sabia que assim tão outra voltarias:
Eras de negro olhar, de olhar azul tu voltas.
Que me admira se vens de olhar azul e louro
Cabelo? Não é a mesma a tua formosura?
Voltas do céu, e a cor celestial é azul e é ouro,
E é todo este clarão que a imagem te moldura.
Noiva... minha talvez... e por que não? Setembro
Volta. Setembro é o mês das laranjeiras castas.
Vens de grinalda branca, a voar... Ah! bem me lembro.
A veste com que foste é a mesma que hoje arrastas.
Foste de branco e vens de branco ainda trajada.
A túnica nupcial que em níveas dobras desce
Pelo teu corpo, tem a brancura sagrada
Dos alvos corporais do altar exposto à prece.
O parélio do gênio imortal que te anima
Surge no resplandor que te aureola a cabeça.
Atenta escutas os meus versos rima a rima,
E mandas que em cada um a tua Alma apareça.
Quero abraçar-te e nada abraço... O que me assombra
É que te vejo e não te encontro com os meus braços.
Morta, beijei-te um dia: hoje tu és uma sombra
Exilada do céu para seguir-me os passos.
Imagem - 00010003
Publicado no livro Dona Mística, 1892/1894 (1899). Poema integrante da série IV - Noiva.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 105-106. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
H. DE BALZAC
Noiva... minha talvez... pode bem ser que o sejas.
Não me disseste ao certo o dia em que voltavas.
O céu é claro como o teto das igrejas:
Vens de lá com certeza. Humildes como escravas,
Curvadas ainda estão as estrelas morosas;
E bem se vê que algum excelso vulto branco
Passou por elas, entre arcarias de rosas,
Revolto o manto de ouro, afagando-lhe o flanco.
Há tanto tempo que te espero, e espero embalde...
Não sabia que assim tão diferente vinhas.
Tinhas negro o cabelo: entanto a nuvem jalde,
Que o doura todo, o faz tão outro do que tinhas!
Quando morreste, o sol era morto, e ainda agora
Para mim se prolonga essa noite de guerra...
Acaso vens com o teu olhar de eterna aurora
Aclará-la outra vez, vindo de novo à terra?
Vejo-te a imagem tão destacada no fundo
Deste meu sonho, que é como se eu não sonhasse...
Cheio da nostalgia estelar de outro mundo,
Tem as mágoas de um astro o palor da tua face.
Caminhas, e os teus pés sublimes nem de leve
Tocam a flor do solo: o ar impalpável pisas.
Ora se abaixa, ou se ergue o teu corpo de neve...
Parece que te vão berçando auras e brisas.
O peristilo arcual da tua boa se move:
Soabre-se: a fulva luz que a ilumina contemplo...
Falas: como me pasma e inebria e comove
Toda a púrpura real do interior desse templo!
Parece que um hinal de suaves litanias
Acompanha a tua voz nas palavras que soltas.
Não sabia que assim tão outra voltarias:
Eras de negro olhar, de olhar azul tu voltas.
Que me admira se vens de olhar azul e louro
Cabelo? Não é a mesma a tua formosura?
Voltas do céu, e a cor celestial é azul e é ouro,
E é todo este clarão que a imagem te moldura.
Noiva... minha talvez... e por que não? Setembro
Volta. Setembro é o mês das laranjeiras castas.
Vens de grinalda branca, a voar... Ah! bem me lembro.
A veste com que foste é a mesma que hoje arrastas.
Foste de branco e vens de branco ainda trajada.
A túnica nupcial que em níveas dobras desce
Pelo teu corpo, tem a brancura sagrada
Dos alvos corporais do altar exposto à prece.
O parélio do gênio imortal que te anima
Surge no resplandor que te aureola a cabeça.
Atenta escutas os meus versos rima a rima,
E mandas que em cada um a tua Alma apareça.
Quero abraçar-te e nada abraço... O que me assombra
É que te vejo e não te encontro com os meus braços.
Morta, beijei-te um dia: hoje tu és uma sombra
Exilada do céu para seguir-me os passos.
Imagem - 00010003
Publicado no livro Dona Mística, 1892/1894 (1899). Poema integrante da série IV - Noiva.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 105-106. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
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Alphonsus de Guimaraens
VIII [Ai dos que vivem, se não fora o sono
Ai dos que vivem, se não fora o sono!
O sol, brilhando em pleno espaço, cai
Em cascatas de luz; desce do trono
E beija a terra inquieta, como um pai.
E surge a primavera. O áureo patrono
Da terra é sempre o mesmo sol. Mas ai
Da primavera, se não fora o outono,
Que vem e vai, e volta, e outra vez vai.
Ao níveo luar que vaga nos outeiros
Sucedem sombras. Sempre a lua tem
A escuridão dos sonhos agoureiros.
Tudo vem, tudo vai, do mundo é a sorte...
Só a vida, que se esvai, não mais nos vem.
Mas ai da vida, se não fora a morte!
Publicado no Jornal do Comércio (Juiz de Fora, 23 mar. 1919).
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 334. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
O sol, brilhando em pleno espaço, cai
Em cascatas de luz; desce do trono
E beija a terra inquieta, como um pai.
E surge a primavera. O áureo patrono
Da terra é sempre o mesmo sol. Mas ai
Da primavera, se não fora o outono,
Que vem e vai, e volta, e outra vez vai.
Ao níveo luar que vaga nos outeiros
Sucedem sombras. Sempre a lua tem
A escuridão dos sonhos agoureiros.
Tudo vem, tudo vai, do mundo é a sorte...
Só a vida, que se esvai, não mais nos vem.
Mas ai da vida, se não fora a morte!
Publicado no Jornal do Comércio (Juiz de Fora, 23 mar. 1919).
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 334. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
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Manuel de Santa Maria Itaparica
À Morte de Sua Majestade Fidelíssima
In nidulo meo moriar, & sicut
Phaenix multiplicabo dies meos.
Job. 29.18.
Ambulabimus in viis Domini in
aeternum, & ultra.
Mich. 4.5.
Morreu em fim o Rei dos Lusitanos,
Mas como homem não sentiu a morte,
Como Fênix morreu, que desta sorte.
Acrescentou morrendo os próprios anos.
Um Rei tão singular entre os humanos,
Se acabara de parca ao duro corte,
Fora tão grande o sentimento, e forte,
Que causara no mundo imensos danos.
Mas como a Fênix já desfalecida
Deste modo acrescenta a sua idade,
Não se sente esta morte, é aplaudida:
Oh! mitigue-se a nossa saudade,
Que deu o nosso Rei, perdendo a vida
Tão cedo, mais aumento à eternidade.
In: VARNHAGEN, F.A. Florilégio da poesia brasileira. Apres. Lêdo Ivo. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1987. t.1, p.221. (Coleção Afrânio Peixoto, 4)
NOTA: Texto corrigido conforme edição origina
Phaenix multiplicabo dies meos.
Job. 29.18.
Ambulabimus in viis Domini in
aeternum, & ultra.
Mich. 4.5.
Morreu em fim o Rei dos Lusitanos,
Mas como homem não sentiu a morte,
Como Fênix morreu, que desta sorte.
Acrescentou morrendo os próprios anos.
Um Rei tão singular entre os humanos,
Se acabara de parca ao duro corte,
Fora tão grande o sentimento, e forte,
Que causara no mundo imensos danos.
Mas como a Fênix já desfalecida
Deste modo acrescenta a sua idade,
Não se sente esta morte, é aplaudida:
Oh! mitigue-se a nossa saudade,
Que deu o nosso Rei, perdendo a vida
Tão cedo, mais aumento à eternidade.
In: VARNHAGEN, F.A. Florilégio da poesia brasileira. Apres. Lêdo Ivo. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1987. t.1, p.221. (Coleção Afrânio Peixoto, 4)
NOTA: Texto corrigido conforme edição origina
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2
Junqueira Freire
À Morte de Garrett
No doce arranco
Que o céu lhe abrira,
Garrett ouvia
Seus próprios carmes
De terno amor.
E aos brancos lábios
Franco, improviso,
Lhe veio um riso
Em vez de angústias,
Em vez de dor.
Morreu poeta,
Ledo e gostoso:
Morreu ditoso,
Cingido, ornado
Dos cantos seus.
Lá foi com os anjos,
Que o inspiraram,
Que o sublimaram,
Cantar saudades
Ao pé de Deus.
Cantai, donzelas
Da pátria dele,
Cantai aquele
Hino de amores,
Hino gentil.
Ouvi que entoam
Seu hino etéreo
Em som funéreo
As belas virgens
Do meu Brasil.
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
Que o céu lhe abrira,
Garrett ouvia
Seus próprios carmes
De terno amor.
E aos brancos lábios
Franco, improviso,
Lhe veio um riso
Em vez de angústias,
Em vez de dor.
Morreu poeta,
Ledo e gostoso:
Morreu ditoso,
Cingido, ornado
Dos cantos seus.
Lá foi com os anjos,
Que o inspiraram,
Que o sublimaram,
Cantar saudades
Ao pé de Deus.
Cantai, donzelas
Da pátria dele,
Cantai aquele
Hino de amores,
Hino gentil.
Ouvi que entoam
Seu hino etéreo
Em som funéreo
As belas virgens
Do meu Brasil.
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
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2
Alphonsus de Guimaraens
Soneto de Ofélia
Lírio do val perdido na corrente,
Sigo formosa e fria entre outros lírios...
Na cabeça, uma c’roa de martírios;
Nos olhos virginais, a paz silente.
As estrelas virão acender círios
No fundo deste leito, suavemente:
E a lua beijar-me-á, calma e dolente,
– A lua que abençoou os meus delírios.
Que venha o vago luar que anda nas covas
Atorçalar-me a fronte, onde vagueia
O beijo etéreo e trágico de Hamleto...
Formosa como vou, com flores novas
Beijando a minha cor de lua-cheia,
O Príncipe ter-me-á Eterno Afeto.
Publicado no livro Poesias (1938). Integrante da série Pulvis que, segundo João Alphonsus, reúne "os últimos versos do poeta". Segundo da série Lendo Shakespeare, constituída por quatro sonetos.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 329. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
Sigo formosa e fria entre outros lírios...
Na cabeça, uma c’roa de martírios;
Nos olhos virginais, a paz silente.
As estrelas virão acender círios
No fundo deste leito, suavemente:
E a lua beijar-me-á, calma e dolente,
– A lua que abençoou os meus delírios.
Que venha o vago luar que anda nas covas
Atorçalar-me a fronte, onde vagueia
O beijo etéreo e trágico de Hamleto...
Formosa como vou, com flores novas
Beijando a minha cor de lua-cheia,
O Príncipe ter-me-á Eterno Afeto.
Publicado no livro Poesias (1938). Integrante da série Pulvis que, segundo João Alphonsus, reúne "os últimos versos do poeta". Segundo da série Lendo Shakespeare, constituída por quatro sonetos.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 329. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
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2
Régis Bonvicino
O Suicida
o suicida
vê na morte
um direito civil
mata
o que acha
imbecil
por uma utopia
causa
ou fantasia
o ato de matar-se
sutil
ou inconsútil
o caso
pouco divulgado
daquele homem
que bater pregos
no próprio cérebro
preferiu
o suicida
é o que não se repetiu
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
vê na morte
um direito civil
mata
o que acha
imbecil
por uma utopia
causa
ou fantasia
o ato de matar-se
sutil
ou inconsútil
o caso
pouco divulgado
daquele homem
que bater pregos
no próprio cérebro
preferiu
o suicida
é o que não se repetiu
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
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2
Edgar Allan Poe
A Cidade no Mar
Olhai! a Morte edificou seu trono
numa estranha cidade solitária
por entre as sombras do longínquo oeste.
Lá, os bons, os maus, os piores e os melhores,
foram todos buscar repouso eterno.
Seus monumentos, catedrais e torres
(torres que o tempo rói e não vacilam!)
em nada se parecem com os humanos.
E em volta, pelos ventos olvidadas,
olhando o firmamento, silenciosas
e calmas, dormem águas melancólicas.
Ah! luz nenhuma cai do céu sagrado
sobre a cidade, em sua imensa noite.
Mas um clarão que vem do oecano lívido
invade dos torreões, silentemente,
e sobe, iluminando capitéis,
pórticos régios, cúpulas e cimos,
templos e babilônicas muralhas;
sobe aos arcos templos magníficos, sem conta,
onde os frios se enroscam e entretecem
de vinhedos, violetas, sempre-vivas.
Olhando o firmamento, silenciosas,
calmas, dormem as águias melancólicas.
Torreões e sombras tanto se confundem
que é tudo como solto nos espaços.
E a Morte, do alto de soberba torre,
contempla, gigantesca, o panorama.
Lá, os sepulcros e os templos se escancaram
mesmo ao nível das águas luminosas;
mas não pode a riqueza portenhosa
dos ídolos com olhos de diamente,
nem das jóias que riem sobre os mortos,
tirar as vagas de seu leito imóvel;
pois, ai! nem leve movimento ondula
esse imenso deserto cristalino!
Nem ondas falam de possíveis ventos
sobre mares distantes, mais felizes;
ondas nào contam que existiram ventos
em mar de menos espantosa calma.
Mas, vede! Um frêmito percorre os ares.
Uma onda... Fez-se ali um movimento!
e dir-se-ia que as torres vacilaram
e afundaram de leve na água turva,
abrindo com seus cumes, debilmente,
um vazio nos céus enevoados.
As ondas têm, agora, luz mais rubra,
as horas fluem, lânguidas e fracas.
E quando, entre gemidos sobre-humanos,
a cidade submersa for fixar-se no fundo,
o Inferno, erguido de mil tronos,
curvar-se-á, reverente.
numa estranha cidade solitária
por entre as sombras do longínquo oeste.
Lá, os bons, os maus, os piores e os melhores,
foram todos buscar repouso eterno.
Seus monumentos, catedrais e torres
(torres que o tempo rói e não vacilam!)
em nada se parecem com os humanos.
E em volta, pelos ventos olvidadas,
olhando o firmamento, silenciosas
e calmas, dormem águas melancólicas.
Ah! luz nenhuma cai do céu sagrado
sobre a cidade, em sua imensa noite.
Mas um clarão que vem do oecano lívido
invade dos torreões, silentemente,
e sobe, iluminando capitéis,
pórticos régios, cúpulas e cimos,
templos e babilônicas muralhas;
sobe aos arcos templos magníficos, sem conta,
onde os frios se enroscam e entretecem
de vinhedos, violetas, sempre-vivas.
Olhando o firmamento, silenciosas,
calmas, dormem as águias melancólicas.
Torreões e sombras tanto se confundem
que é tudo como solto nos espaços.
E a Morte, do alto de soberba torre,
contempla, gigantesca, o panorama.
Lá, os sepulcros e os templos se escancaram
mesmo ao nível das águas luminosas;
mas não pode a riqueza portenhosa
dos ídolos com olhos de diamente,
nem das jóias que riem sobre os mortos,
tirar as vagas de seu leito imóvel;
pois, ai! nem leve movimento ondula
esse imenso deserto cristalino!
Nem ondas falam de possíveis ventos
sobre mares distantes, mais felizes;
ondas nào contam que existiram ventos
em mar de menos espantosa calma.
Mas, vede! Um frêmito percorre os ares.
Uma onda... Fez-se ali um movimento!
e dir-se-ia que as torres vacilaram
e afundaram de leve na água turva,
abrindo com seus cumes, debilmente,
um vazio nos céus enevoados.
As ondas têm, agora, luz mais rubra,
as horas fluem, lânguidas e fracas.
E quando, entre gemidos sobre-humanos,
a cidade submersa for fixar-se no fundo,
o Inferno, erguido de mil tronos,
curvar-se-á, reverente.
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Antero de Quental
Lacrimae Rerum
Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oráculo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!
Aonde são teus sóis, como coorte
De almas inquietas, que conduz o Fado?
E o homem porque vaga desolado
E em vão busca a certeza que o conforte?
Mas, na pompa de imenso funeral,
Muda, a noite, sinistra e triunfal,
Passa volvendo as horas vagarosas…
É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;
E, perdido num sonho imenso, escuto
O suspiro das coisas tenebrosas…
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oráculo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!
Aonde são teus sóis, como coorte
De almas inquietas, que conduz o Fado?
E o homem porque vaga desolado
E em vão busca a certeza que o conforte?
Mas, na pompa de imenso funeral,
Muda, a noite, sinistra e triunfal,
Passa volvendo as horas vagarosas…
É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;
E, perdido num sonho imenso, escuto
O suspiro das coisas tenebrosas…
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Augusto dos Anjos
Alucinação à Beira Mar
Um medo de morrer meus pés esfriava.
Noite alta. Ante o telúrico recorte,
Na diuturna discórdia, a equórea coorte
Atordoadoramente ribombava!
Eu, ególatra céptico, cismava
Em meu destino!... O vento estava forte
E aquela matemática da Morte
Com os seus números negros me assombrava!
Mas a alga usufructuária dos oceanos
E os malacopterígios subraquianos
Que um castigo de espécie emudeceu,
No eterno horror das convulsões marítimas
Pareciam também corpos de vítimas
Condenadas à Morte, assim como eu!
Noite alta. Ante o telúrico recorte,
Na diuturna discórdia, a equórea coorte
Atordoadoramente ribombava!
Eu, ególatra céptico, cismava
Em meu destino!... O vento estava forte
E aquela matemática da Morte
Com os seus números negros me assombrava!
Mas a alga usufructuária dos oceanos
E os malacopterígios subraquianos
Que um castigo de espécie emudeceu,
No eterno horror das convulsões marítimas
Pareciam também corpos de vítimas
Condenadas à Morte, assim como eu!
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2
Batista Cepelos
Resignação
Este Anjo do Infortúnio, que me guia
Desde o primeiro albor da tenra idade,
E os lírios roxos da melancolia
Desfolha sobre a minha mocidade...
Este, que me acompanha e me vigia,
Sorrindo-me um sorriso de bondade,
E, na dor, que é o meu pão de cada dia,
Me fortalece contra a iniqüidade...
Este, bendito seja, enquanto eu vivo,
A debater-me em trevas horrorosas,
Como um ansioso pássaro cativo!
E que, sobre o meu túmulo, tristonho,
Distenda as asas misericordiosas,
Quando eu sonhar aquele Grande Sonho...
Desde o primeiro albor da tenra idade,
E os lírios roxos da melancolia
Desfolha sobre a minha mocidade...
Este, que me acompanha e me vigia,
Sorrindo-me um sorriso de bondade,
E, na dor, que é o meu pão de cada dia,
Me fortalece contra a iniqüidade...
Este, bendito seja, enquanto eu vivo,
A debater-me em trevas horrorosas,
Como um ansioso pássaro cativo!
E que, sobre o meu túmulo, tristonho,
Distenda as asas misericordiosas,
Quando eu sonhar aquele Grande Sonho...
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Vitoriano Palhares
Negro Adeus
Adeus! já nada tenho que dizer-te.
Minhas horas finais trêmulas correm.
Dá-me o último riso, pra que eu possa.
Morrer cantando, como as aves morrem.
Ai daquele que fez do amor seu mundo!
Nem deuses nem demônios o socorrem.
Dá-me o último olhar, para que eu possa
Morrer sorrindo, como os anjos morrem.
Foste a serpente, e eu, vil, ainda te adoro!
Que vertigens meu cérebro percorrem!
Mente a última vez, para que eu possa
Morrer sonhando, como os doidos morrem.
Minhas horas finais trêmulas correm.
Dá-me o último riso, pra que eu possa.
Morrer cantando, como as aves morrem.
Ai daquele que fez do amor seu mundo!
Nem deuses nem demônios o socorrem.
Dá-me o último olhar, para que eu possa
Morrer sorrindo, como os anjos morrem.
Foste a serpente, e eu, vil, ainda te adoro!
Que vertigens meu cérebro percorrem!
Mente a última vez, para que eu possa
Morrer sonhando, como os doidos morrem.
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Reinaldo Ferreira
Quem dorme à noite comigo?
Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, desdigo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!
E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.
Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?
Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, desdigo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!
E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.
Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?
Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.
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Lya Luft
Todos esses Anjos
Todos esses
Anjos que à noite
agitam cortinas e sussurram frases
que temes entender:
se te tomarem nos braços
se te beijarem na boca,
se te entrarem no corpo,
não te darão certeza de que morrer, viver,
são igualmente suaves e difíceis
loucos e sensatos , e urgentíssimos?
Poderás enfim amar, rendendo-te aquilo
que te aflora com suas asas,
te chama com suas vozes,
te vara constantemente com essa luz,
essa dor.
Anjos que à noite
agitam cortinas e sussurram frases
que temes entender:
se te tomarem nos braços
se te beijarem na boca,
se te entrarem no corpo,
não te darão certeza de que morrer, viver,
são igualmente suaves e difíceis
loucos e sensatos , e urgentíssimos?
Poderás enfim amar, rendendo-te aquilo
que te aflora com suas asas,
te chama com suas vozes,
te vara constantemente com essa luz,
essa dor.
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Almir Fonseca
Último Soneto
Padecendo no leito de Procusto,
Eu sinto a vida se esvaindo aos poucos,
E às vezes tenho pesadelos loucos
Que ao lembrá-los depois inda me assusto
Levados por espíritos de amoucos,
Num desespero crucial, injusto,
Desço, com a exigüidade do meu busto,
À escuridão das covas e cavoucos.
Mas quebrando os grilhões e os arganéus
Que me atavam às fundas sepulturas,
— Surjo singrando a vastidão dos céus,
Como se navegasse em mansas vagas
Para alcançar as máximas alturas
Do além, buscando esplendorosas plagas...
Eu sinto a vida se esvaindo aos poucos,
E às vezes tenho pesadelos loucos
Que ao lembrá-los depois inda me assusto
Levados por espíritos de amoucos,
Num desespero crucial, injusto,
Desço, com a exigüidade do meu busto,
À escuridão das covas e cavoucos.
Mas quebrando os grilhões e os arganéus
Que me atavam às fundas sepulturas,
— Surjo singrando a vastidão dos céus,
Como se navegasse em mansas vagas
Para alcançar as máximas alturas
Do além, buscando esplendorosas plagas...
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Ferreira Gullar
Isso e Aquilo
Você é
seu corpo
sua voz seu osso
você é seu cheiro
e o cheiro do outro
o prazer do beijo
você é seu gozo
o que vai morrer
quando o corpo morra
mas também aquela
alegria (verso
melodia)
que intangível, adeja
acima
do que a morte beija.
seu corpo
sua voz seu osso
você é seu cheiro
e o cheiro do outro
o prazer do beijo
você é seu gozo
o que vai morrer
quando o corpo morra
mas também aquela
alegria (verso
melodia)
que intangível, adeja
acima
do que a morte beija.
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