Solidão

Poemas neste tema

Adélia Prado

Adélia Prado

A Carne Simples

Na cama larga e fresca
um apetite de desespero no meu corpo.
Uivo entre duas mós.
Uivo o quê?
A mão de Deus que me mói e me larga na treva.
Na boca de barro, barro.
Quando era jovem
pedia cruz e ladrões pra guarnecer meus flancos.
Deus era fora de mim.
Hoje peço ao homem deitado do meu lado:
me deixa encostar em você
pra ver se eu durmo.
1 317
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Homem Deitado

Não se levanta nem precisa levantar-se.
Está bem assim. O mundo que enlouqueça,
o mundo que estertore em seu redor.
Continua deitado
sob a racha da pedra da memória.
1 195
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Pavão

A caminho do refeitório, admiramos pela vidraça
o leque vertical do pavão
com toda a sua pompa
solitária no jardim.
De que vale esse luxo, se está preso
entre dois blocos do edifício?
O pavão é, como nós, interno do colégio.
1 222
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Lebre

Apareceu não sei como.
Queria por toda lei
desaparecer num relâmpago.
Foi encurralada
e é recolhida,
orelhas em pânico,
ao pátio dos pavões estupefatos.
Lá está, infeliz, roendo o tempo.
Eu faço o mesmo.
1 242
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Cimo da Diagonal

No cimo da diagonal
em que se levanta a torre oblíqua
sobre um jardim
de claridades verdes
a realidade é o espaço
em que o abandono fulgura como um centro.
957
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Sombra

A que dissemina o sal
da sombra,
a que circula sem nome
portas sobre

portas.
A que dissemina a sombra
de um incêndio.
A que procura

uma nocturna
pedra.
A que segue
paralelamente à água.

Procura sombra, mais sombra.
994
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Onde o Pulso Descaminha

Onde o pulso descaminha
por vezes num campo abandonado
é mais perto a terra mais solitária a sombra.
1 057
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Secreta E Branca

Secreta e branca
agita-se
sem flancos
à beira do vazio
1 133
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sem Casa E Sem Caminho

Sem casa e sem caminho

na sombra do caminho

sem a casa no corpo do caminho
1 086
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entre Dois Espaços Entre Duas Sombras

Entre dois espaços     entre duas sombras

as pálpebras abriram-se no caminho

entre dois espaços     entre duas sombras?

no vento     oscila        uma lâmpada vazia
1 050
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sob a Palha do Sol As Sílabas

Sob a palha do sol as sílabas

soçobravam

intensidade próxima da cegueira

no cérebro da terra as fissuras abriam-se

e a boca sem caminho o seio sem o outro seio

nas lajes sem contacto à superfície nua

no obscuro deserto

de basalto
988
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Permanece Ainda Enterrado Pobre

O que permanece ainda enterrado     pobre

no vazio nocturno

minha terra latente

no tempo sem sinais em que os sinais prolongam

os sulcos de uma sombra maquinal e branca

e o meu desejo é uma imagem

minúscula

uma pobre frase com duas árvores nuas
921
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

87. o Sol Sobre a Pedra a Marca Verde

87
O sol sobre a pedra a marca verde
a resolução do ar     a erva
só com a cabeça deserta

porquê? porquê e não porquê
com o sol nos cabelos com o sol
entre as árvores e sem a alegria
dos animais e a água.

Entrando na espessura sob as manchas
do silêncio sem amor mas no silêncio
das folhas eu vivo pelas pedras.
883
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

32. o Curso No Abandono Na Erva

32
O curso no abandono na erva
sob a curva do seio: a figura
do desenho, luz ou folhagem.

Pomba presente viajando em ramos
de pobreza e solidão ausente
será fatal sua presença branca.

Este o aspecto o solitário incêndio
da parede que restava com as letras vivas
chamas de sangue que ainda sangram vivas.
995
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Caminho Com a Pobreza Das Pedras,…

Caminho com a pobreza das pedras, soletrando a areia, soletrando um nome e outro nome na estranheza incerta mas rasgada, vasta como o espaço que me falta e se me abre demais numa branca clareira do olhar.
1 192
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Onde Não Chegam Os Lábios,…

Onde não chegam os lábios, onde as mãos não ascendem, o intervalo interminável, as palavras dispersam-se, insectos da aridez essencial, breves breves e longas no deserto em que não se inscrevem, em que não ressoam.
1 007
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Desejo E Deserto,…

Desejo e deserto, primeira e última sombra suscitando sobre o muro a respiração de um nada, estática sombra de ar, clarão de pedra negra que mal vejo, que retém o nada da sombra, a sombra de um nada quase terra, indelével a para sempre nesse instante perdida, aérea no muro.
1 215
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Boca Desviada,…

A boca desviada, sem o segredo do ar, sem o saber do outro, a boca solitária espera, sem sono e sem sombras, só com a água da sua sede, com o árido desejo da palavra dela e da outra boca que lê.
1 248
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dia de Inverno

A boca fria sobre as árvores
Um dia não iluminado
Um tronco inerte
A mão ensaia a carícia no espaço
nas árvores
nos cabelos da terra
a força regelada

o homem
desceu
a rua solitária

rente ao muro
a claridade pálida
da lâmpada

A terra cheira a terra pobre

os insectos percorrem
um a um
o pulso apagado
1 050
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Momento De

Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.

Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. Olha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?

Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
1 111
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Primavera

Falo por palavras
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me

O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria

Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente

Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas

Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
978
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ao Rés da Sombra

Je suis au bas des ombres
P.E.

Ao rés da sombra
auscultas o silêncio
os insectos crescem
as estrelas desaparecem

O mar repete-se ao longe
A bondade é uma caverna inútil
A solidão é inenarrável
A terra é grande
1 026
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Tertúlia

Não encontro casa
casa onde estar
Ai amigo senta-te
fala-me de ti

Não encontro amiga
não encontro amigo
Se não tenho casa
como ser amigo?

Os meus estão longe
e não têm casa
A natureza é longe
A uma mesa de café

somos quatro quatro quê?
1 057
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Que Cor ó Telhados de Miséria

Que cor ó telhados de miséria
onde nasci
de tanta pequenez de tão humildes ovos
de nenhum querer
a que horas nasceram as estrelas que
um dia foram
a que horas nasci?

Não vim embarcado não me encontrei
na rua
não nos vimos
não nos beijámos
nunca parti

Não sei que idade tenho
1 138