Morte e Luto
Poemas neste tema
Affonso Romano de Sant'Anna
Biografia Alheia
Cada amigo que morre
enterra consigo gestos, frases, detalhes meus
que nem suspeito
e nos outros reverberam.
Com eles esvai-se
minha inapreensível biografia.
Estou, sem eles,
ficando duplamente escasso antes do fim.
Até por egoísmo
não posso mais perdê-los,
pois em cada um que perco
perco uma parte de mim.
enterra consigo gestos, frases, detalhes meus
que nem suspeito
e nos outros reverberam.
Com eles esvai-se
minha inapreensível biografia.
Estou, sem eles,
ficando duplamente escasso antes do fim.
Até por egoísmo
não posso mais perdê-los,
pois em cada um que perco
perco uma parte de mim.
1 091
Affonso Romano de Sant'Anna
Os Bois
De madrugada matam os bois
que comemos ao amanhecer.
No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.
que comemos ao amanhecer.
No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.
1 053
Affonso Romano de Sant'Anna
O Que Sei Dos Etruscos
Quase tudo o que se sabe dos etruscos
é o que deixaram inscrito em seus sarcófagos:
imagem de danças
música
esportes
banquetes
desenhos de demônios
enfim
o conhecimento do dia a dia
feito arte funerária:
espécie de jornal
enciclopédia
essência
daquilo que da morte sempre resta, poesia.
é o que deixaram inscrito em seus sarcófagos:
imagem de danças
música
esportes
banquetes
desenhos de demônios
enfim
o conhecimento do dia a dia
feito arte funerária:
espécie de jornal
enciclopédia
essência
daquilo que da morte sempre resta, poesia.
519
Affonso Romano de Sant'Anna
A Morte Vizinha
Estou jogando água nas plantas
com o olhar no azul do mar
e minha vizinha está morta.
Sozinho em casa, improviso um almoço
e a morta vizinha já não come.
Comprei jornais
que a morta vizinha já não lê.
A morta vizinha
a morte vizinha
a minha morte
que se avizinha.
com o olhar no azul do mar
e minha vizinha está morta.
Sozinho em casa, improviso um almoço
e a morta vizinha já não come.
Comprei jornais
que a morta vizinha já não lê.
A morta vizinha
a morte vizinha
a minha morte
que se avizinha.
1 095
Pablo Neruda
II - Os homens
É a verdade do prólogo. Morte ao romanticão,
e ao perito nas incomunicações:
sou igual à professora da Colômbia,
ao rotário de Filadélfia, ao comerciante
de Paysandú que juntou dinheiro
para chegar aqui. Chegamos de ruas diferentes,
de idiomas desiguais, ao Silêncio.
e ao perito nas incomunicações:
sou igual à professora da Colômbia,
ao rotário de Filadélfia, ao comerciante
de Paysandú que juntou dinheiro
para chegar aqui. Chegamos de ruas diferentes,
de idiomas desiguais, ao Silêncio.
910
Pablo Neruda
XXXV
Não será nossa vida um túnel
entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?
Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?
A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?
entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?
Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?
A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?
1 038
Pablo Neruda
XXVII
Morreram talvez de vergonha
estes trens que se extraviaram?
Quem nunca viu o aloés?
Onde plantaram os olhos
do camarada Paul Éluard?
Há lugar para uns espinhos?
perguntaram à roseira.
estes trens que se extraviaram?
Quem nunca viu o aloés?
Onde plantaram os olhos
do camarada Paul Éluard?
Há lugar para uns espinhos?
perguntaram à roseira.
499
Pablo Neruda
XXV
Por que para esperar a neve
se desnudou o arvoredo?
E como saber qual é Deus
entre os deuses de Calcutá?
Por que vivem tão esfarrapados
todos os bichos-da-seda?
Por que é tão dura a doçura
do coração da cereja?
É por que se tem de morrer
ou por que se tem de continuar?
se desnudou o arvoredo?
E como saber qual é Deus
entre os deuses de Calcutá?
Por que vivem tão esfarrapados
todos os bichos-da-seda?
Por que é tão dura a doçura
do coração da cereja?
É por que se tem de morrer
ou por que se tem de continuar?
1 019
Pablo Neruda
XLV
O amarelo dos bosques
é o mesmo do ano passado?
E se repete o vôo negro
da tenaz ave marinha?
E onde termina o espaço
se chama morte ou infinito?
Que pesam mais na cintura,
as dores ou as lembranças?
é o mesmo do ano passado?
E se repete o vôo negro
da tenaz ave marinha?
E onde termina o espaço
se chama morte ou infinito?
Que pesam mais na cintura,
as dores ou as lembranças?
952
Pablo Neruda
LXII
Que significa persistir
no beco da morte?
No deserto do sal
como se pode florescer?
No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?
Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
no beco da morte?
No deserto do sal
como se pode florescer?
No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?
Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
955
Pablo Neruda
XXXVIII
Não achas que vive a morte
dentro do sol de uma cereja?
Não pode também matar-te
um beijo da primavera?
Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?
E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
dentro do sol de uma cereja?
Não pode também matar-te
um beijo da primavera?
Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?
E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
982
Pablo Neruda
LX
E que importância tenho eu
no tribunal do olvido?
Qual é a representação
do resultado vindouro?
É a semente cereal
com sua multidão amarela?
Ou é o coração ossudo
o incumbido do pêssego?
no tribunal do olvido?
Qual é a representação
do resultado vindouro?
É a semente cereal
com sua multidão amarela?
Ou é o coração ossudo
o incumbido do pêssego?
1 010
Pablo Neruda
LXI
A gota viva do mercúrio
corre para baixo ou para sempre?
Minha poesia infeliz
olhará com os olhos meus?
Terei meu cheiro e minhas dores
quando eu dormir destruído?
corre para baixo ou para sempre?
Minha poesia infeliz
olhará com os olhos meus?
Terei meu cheiro e minhas dores
quando eu dormir destruído?
980
Pablo Neruda
XXXVI
Não será por fim a morte
uma cozinha interminável?
Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?
Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?
Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?
uma cozinha interminável?
Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?
Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?
Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?
964
Pablo Neruda
XXXVII
De tuas cinzas nascerão
tchecoslovacos ou tartarugas?
Tua boca beijará cravos
com outros lábios vindouros?
Mas sabes de onde vem
a morte, de cima ou de baixo?
Dos micróbios ou dos muros,
das guerras ou do inverno?
tchecoslovacos ou tartarugas?
Tua boca beijará cravos
com outros lábios vindouros?
Mas sabes de onde vem
a morte, de cima ou de baixo?
Dos micróbios ou dos muros,
das guerras ou do inverno?
918
Pablo Neruda
LXXI
Ou deitam-no para dormir
sobre seus arames farpados?
Ou lhe estão tatuando a pele
para abajures do inferno?
Ou mordem-no sem compaixão
os negros mastins do fogo?
Ou deve de noite e de dia
viajar sem trégua com seus presos?
Ou deve morrer sem morrer
eternamente sob o gás?
sobre seus arames farpados?
Ou lhe estão tatuando a pele
para abajures do inferno?
Ou mordem-no sem compaixão
os negros mastins do fogo?
Ou deve de noite e de dia
viajar sem trégua com seus presos?
Ou deve morrer sem morrer
eternamente sob o gás?
1 024
Pablo Neruda
XLII
Sofre mais o que espera sempre
que aquele que nunca esperou ninguém?
Onde termina o arco-íris,
em tua alma ou no horizonte?
Talvez uma estrela invisível
será o céu dos suicidas?
Onde estão as vinhas de ferro
de onde cai o meteoro?
que aquele que nunca esperou ninguém?
Onde termina o arco-íris,
em tua alma ou no horizonte?
Talvez uma estrela invisível
será o céu dos suicidas?
Onde estão as vinhas de ferro
de onde cai o meteoro?
1 065
Pablo Neruda
XXXIX
Não sentes também o perigo
na gargalhada do mar?
Não vês na seda sangrenta
da papoula uma ameaça?
Não vês que floresce a macieira
para morrer na maçã?
Não choras rodeado de riso
com as garrafas do olvido?
na gargalhada do mar?
Não vês na seda sangrenta
da papoula uma ameaça?
Não vês que floresce a macieira
para morrer na maçã?
Não choras rodeado de riso
com as garrafas do olvido?
995
José Saramago
Medusas
Tentaculada e branca, morta já,
A medusa apodrece,
Veio na onda maior que se espraiou.
Na areia, onde ficou,
A gelatinosa massa fosforesce.
O orgasmo funde dois corpos ali perto,
E do comum suor,
Do brilho fosco que da pele lhes irradia,
A noite faz, recria,
Medusa viva, renovado amor.
A medusa apodrece,
Veio na onda maior que se espraiou.
Na areia, onde ficou,
A gelatinosa massa fosforesce.
O orgasmo funde dois corpos ali perto,
E do comum suor,
Do brilho fosco que da pele lhes irradia,
A noite faz, recria,
Medusa viva, renovado amor.
1 020
José Saramago
Testamento Romântico
A versos eu, convoco quantas vozes
Em gargantas humanas já passaram
Desde o grito, primeiro articulado.
Quando a voz pessoal se vai calar,
Tome lugar o coro no vazio
Da ausência do homem, assinado.
Em gargantas humanas já passaram
Desde o grito, primeiro articulado.
Quando a voz pessoal se vai calar,
Tome lugar o coro no vazio
Da ausência do homem, assinado.
1 046
José Saramago
Orgulho de D. João No Inferno
Bem sei que para sempre: onde caí
Não há perdão ou letra de resgate.
Mas fui, quando vivi, o sal da terra,
A flor azul, o cetro de escarlate.
Aqui, se condenado, não esqueci,
Nem morto estou sequer: torno a ser eu
No sangue da mulher que, acesa, pede
Aquele modo de amar que foi o meu.
Não há perdão ou letra de resgate.
Mas fui, quando vivi, o sal da terra,
A flor azul, o cetro de escarlate.
Aqui, se condenado, não esqueci,
Nem morto estou sequer: torno a ser eu
No sangue da mulher que, acesa, pede
Aquele modo de amar que foi o meu.
1 078
José Saramago
Meias-Solas
Bem sei que as meias-solas que deitei
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
1 094
José Saramago
Um Zumbido, Apenas
Cai a mosca na teia. As finas patas
Da aranha recolhida se distendem,
E nos palpos gulosos, entre os fios,
O zumbido enrouquece, e pára, cerce.
O que viveu, morreu. Abandonado
Ao balouço do vento, o corpo seco
Bate a conta do tempo que me rola
Num casulo de estrelas sufocado.
Da aranha recolhida se distendem,
E nos palpos gulosos, entre os fios,
O zumbido enrouquece, e pára, cerce.
O que viveu, morreu. Abandonado
Ao balouço do vento, o corpo seco
Bate a conta do tempo que me rola
Num casulo de estrelas sufocado.
1 087
José Saramago
Jogo Das Forças
Resiste ainda a corda que se esgarça,
Rangendo entre os dois nós que a rematam:
Não fugiu dela a força que disfarça
Este romper de fibras que desatam.
Do nascimento e morte os pólos vejo
Na distorção que mostra a corda ferida,
Contraditório medo, que é desejo
De a conservar assim e ver partida.
Rangendo entre os dois nós que a rematam:
Não fugiu dela a força que disfarça
Este romper de fibras que desatam.
Do nascimento e morte os pólos vejo
Na distorção que mostra a corda ferida,
Contraditório medo, que é desejo
De a conservar assim e ver partida.
1 160
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