Escritas

Amor

Poemas neste tema

Eolo Yberê Líbera

Eolo Yberê Líbera

Certezas

Não sei os mistérios, as mãos, as vidraças;
não sei a hora nem o dia do amor
que em vida é pressa, é vago, é frágil.
Não sei as heranças - o que existe
depois da última hora
do último beijo e da última espera
atrás da porta.
Não sei os meus passos e nem as esquinas.
Não sei se o que encaro é pura rotina
ou etapa que se vence, por mero acaso.
Não sei as vidas que me cercam
e que aguardam atentas, meu gesto
minhas palavras estéreis e amenas
- como algumas mulheres
que cortam a paisagem sem deixar marca.

Não sei o certo e o errado
o que fazer diante do impasse
na dúvida, não sei o resto
na certeza, não sei a meta.
Só sei mesmo que todo tempo é curto
e que meu chão é este :
feito de pedra e pluma
em barro e nuvem e irremediavelmente, meu.

926
Ernani Sátyro

Ernani Sátyro

Soneto

A Antonietta
Sinto que adoras ver-me recitar
Os versos de Machado a Carolina.
Nesses momentos, sempre me domina
O desejo também de te louvar.

É bem difícil, sabes, imitar
O ouro que jorrava aquela mina,
Mas, mesmo assim, bendigo a minha sina:
Se não sei fazer versos, sei amar.

Nosso recanto é o mundo recriado,
Pelos nossos três filhos prolongado.
Como a dos outros, árdua é nossa lida.

Numa parte, porém, temos mais sorte:
O Mestre seu amor louvou na morte,
O meu amor eu louvo ainda em vida.

895
Epiphânia Nogueira

Epiphânia Nogueira

Saudade Ancestral

A saudade ancestral me trouxe ao mar,
e o líquido elemento me acolheu;
a imensidão azul foi o meu lar,
e fui peixe, e fui concha, e não fui eu.
Das ondas meu cabelo foi espuma
e brinquei nua e pura à luz da lua.
Com o verme e com o lodo me fiz uma,
e renasci, eterna, à voz que é tua.
Vivo, o incêndio do sol a água queimou,
e toda a minha vida vi arder
nesse mar onde a luz me penetrou.
E o sangue que foi água se refez;
e a carne que foi lodo quis viver;
e, à luz do sol o mar o ser me fez

902
Manoel Elias Filho

Manoel Elias Filho

Restos

Do amor intensoNa calada da noiteDo fogo do sexoSobraram restosVestígios, marcas.Do encontroSobrou a fuga.Da sociedadeRestou a insegurançaDo ser humanoRestou pedaçosTrapos de um serDivisão, confusão.Que da verdadeRestou a mentira.Que da razãoRestou a loucura.E da realidadeRestou a fantasiaPedaços de mimRestos de vocêSobras de todosRestos do mundo.

881
Dora Ferreira da Silva

Dora Ferreira da Silva

Pássaro e Mulher

Quem me prende
mais do que a terra?
Impossível o vôo
agora.
Quente fremente
a intenção de alguém.
Desfez-se a palidez
perdi meu vôo
nas grades de seu peito.
Aprísiona-me - grilhão -
o seio suave e
no calor do instante
a união.

1 624
Fernanda Teixeira

Fernanda Teixeira

Não Pedirei Adeus

Reflito minha vida,
a compartilho contigo.
De uma luz preciso,
de um caminho para seguir;

A saudade
que
como nunca me atingiu
Ao pensar nos bons momentos
que só você...

Volta,
preciso,
volta, volta pra mim!

Nem esses campos infinitos me consolam
da tristeza de assim...

Não me faça pedir adeus
pois nesses campos me afogaria,
ao me lembrar de teus beijos molhados,
que ainda tocam os meus lábios,
e vagam por mim;

Não, não foste embora,
continuaste aqui,
em minha memória,
mas ainda preciso de ti;
te clamo:
volta,
volta pra mim !

740
António Diniz da Cruz e Silva

António Diniz da Cruz e Silva

Soneto

Da bela mãe perdido Amor errava
Pelos campos que corta o Tejo brando,
E a todos quantos via suspirando
Sem descanso por ela procurava.

Os farpões lhe caíam da áurea aljava;
Mas ele de arco e setas não curando,
Mil glórias prometia, soluçando,
A quem à deusa o leve, que buscava.

Quando Jônia que ali seu gado pasce,
Enxugando-lhe as lágrimas que chora,
A Vênus lhe mostrar, leda, se oferece:

Mas Amor dando um vôo à linda face
Beijando-a lhe tornou: "Gentil pastora,
Quem os teus olhos vê, Vênus esquece".

1 046
Dieter Roos

Dieter Roos

Talvez

talvez
não exista o amor
talvez
exista somente
o ódio
e aquilo
que chamamos de amor
é somente odiar

821
Emílio Burlamaqui

Emílio Burlamaqui

Angico

Fogão de lenha, carvão de angico.
Bastava abanar e logo saía um café quente
Servido em bule de ágata, em chícara de ágata.

O cigarro era forte, o pigarro também.

Minha meninice na casa do meu avô
Durou uma eternidade.

Naquele tempo eu não tomava café,
Não fumava e não tinha pigarro.
Não sabia sequer que mulher
Rimava com sofrer. Rima?
Mulher rima com quê?

Mas já então eu pressentia:
Naquelas menininhas que me compulsavam
Ao Jogo do Anel havia algo diferente.
Eu era muito pequeno mas já sentia
Que aquelas mãozinhas quentes e fugidias
Tinham um toque muito diferente.

E se uma delas, ela, demorava um pouquinho mais
Suas mãos entre as minhas e me passava o anel,
Para mim era o sinal certo de que entre nós havia
Aquilo que um dia chamar-se-ia
Uma grande paixão.

Porém se nada disso sucedia,
Naquela noite eu acho que ia dormir triste,
Como hoje.

Depois, a mulher deixou de ser inatingível
Para ser apenas inalcançável.

E eu vim a conhecer a mulher
E a saber que nesses seres movediços,
Sedosos, sediços,
Havia um sumidouro.

Afinal, há rima para mulher?
Para homem tem. Serve lobisomem?

1 020
Egito Gonçalves

Egito Gonçalves

Sitiados

Esta cidade é a última cidade...
Os muros derruídos estão cercados:
Os canhões troam através dos mapas.

Nossa imagem, revelada pelas montras,
Passeia pelas ruas de mãos dadas...
Somos a última trincheira valiosa.

Unidos, trituramos os assaltos
E renovamos o cristal da esperança.

Os ruídos emolduram-te o sorriso,
Pura mensagem, prenhe de um futuro
Isolado de poeiras e de lágrimas.

1 649
Emílio Burlamaqui

Emílio Burlamaqui

De Nietzsche a Dante, com Amor

Se vais à mulher, não esqueças o chicote
Para fustigares o perigo do amor.
Carrega a lança, pois és sempre um D. Quixote,
Mas leva o lenço para a inexorável dor.

O amor não é mais forte que a espuma
(espuma do mar: Venus, amor... tormento)
E muito menos que a neblina, que a bruma
Que se desfazem com o sol ou com o vento.

O amor é instável, sutil, evanescente.
Não há prazo para tempo tão fugaz,
Sua essência é ser assim inconsistente,
Não há norma, não há tino, não há paz.

Porta o chicote, leva o corpo, deixa a alma,
Guarda receio se a mulher tua mão alcança,
Conduz teu lenço, teu escudo, tua calma,
Se vais ao amor, deixa atrás toda esperança.

891
Di Souto

Di Souto

Busca

Há momentos
em que me vejo
em mim:
é quando descinjo
as brumas do pensamento
e encontro-me
em ti.

Há momentos
em que te vejo
em mim:
é quando os entroses
(nossas arcadas)
moem o beijo
de outras bocas,
que é só nosso.

Há momentos
em que somos,
um para o outro,
simplesmente estranhos,
no vazio do universo.

Há momentos
em que somos,
unidos,
o cinzel de nossas almas,
a chaminé das idéias,
ou o cinturão,
desusado,
da ternura.

Há momentos
em que não me vejo
em mim
e nem em ti.
(Extrínsecas almas
flutuantes no nada
sem sermos nada.)

Há momentos
em que me vejo
em mim
e em ti:
é quando os sapatos
desamarrados,
jogados na areia,
esperam nossos pés
que se perderam,
em busca de nós mesmos

Messejana, 23.12.70

370
Efer Cilas dos Santos Junior

Efer Cilas dos Santos Junior

Dor Infinita

Dor Infinita

Um dia nasce e, por fim, morre então;
Surge depois outro e também fenece,
Assim nossa existência acontece
E, aos poucos se dissipa qual poção.

Mas o que tem o pesar como irmão,
E de uma dor profunda assim padece,
Todo dia tormento lhe parece
Insuportável sua condição...

Não há riqueza, sorte, ou até conquista
Que impedir possa que tal dor persista
E faça rir de novo o triste ser...

Que dor é essa maior que o existir?
É sem um amor ter que resistir!
É sem carinho ter que então viver!

941
Edmundo de Bettencourt

Edmundo de Bettencourt

Canção

Não te deites, coração,
A sombra dos teus amores.
Não durmas, olha por eles,
Com alegrias e dores.

Não tenhas medo. O calor
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios, não queima
O que não é de queimar.

Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha:
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...

Nos incêndios naturais
Queima ramos de saudades
E faz a tua canção
Do grito das tempestades!

1 093
Deborah Brennand

Deborah Brennand

Declaração de Amor

Ontem disseste
sisudo, como todo saber
— Esta flor é da família das violáceas
o nome correto é — violeta tricolor.

Eu disse — é amor perfeito...

Amarelo e roxo
salpicado de negror
severamente reclamando
gotas de terra nas folhas.

Pensei — será isto perfeito?

1 099
Dílson Catarino

Dílson Catarino

Eu Você

quero por que quero querer
seu cheiro em minha vida

não me importa se é já
ou se é muito depois
o que me importa é
ter um filme a assistir
ou cervejas a tomar

o que quero é estar
no seu sonho ou pesadelo
e por acaso penetrar
em sua fome ou janela

não gosto de não ter
vontade de ter fome
você sem minha fome

gosto de você mesmo sem fome

você é a minha madrugada
é meu carinho em um cão sem dono
é meu sonho em uma estrada de madrugada

é meu cheiro de lenha molhada
é minha ópera de madrugada
é a minha própria madrugada

você sem mim
é meio sem fim
eu sem você
sou todo sem quê.
sou inteiro sem porquê
sou montante sem sem
sou eu sem ser você
sou você sem ser você

minha vida é sem Drummond

o duro é estar Byron
querendo estar você
e meio sem saber
sempre sou você

EU EM VOCÊ

VOCÊ E EU

933
Diamond

Diamond

Celular

Muito estranho esse amor virtual !
Cujo o rosto eu não conheço, profano e temporal.
Parece adoçante sintético. Do qual só sinto o doce,
Não a vejo onde vou. Nem imagino você
Mas, o dia que a encontrar, mesmo que eu
Não saiba quem você é, o meu coração saberá
E feito um louco celular, no bolso do meu peito,
Tremendo aflito, me comunicará a sua mágica presença.

Trimmmm

973
Dilercy Adler

Dilercy Adler

Mulher

Corpo desnudo
sob os lençóis
de cetim
pele sedosa
e incandescente
contornos perfeitos
sob medida
para a gratificação
de olhos ávidos
braços vigorosos
e boca sedenta
de paixão!

926
Diamond

Diamond

Mosaico

Cada uma em seu lugar
Como cores, mil palavras
O ladrilheiro dos poemas
E seu trabalho para acomodar
Em forma de verso e prosa
Há um verbo para sonhar
A mensagem corajosa
Dizendo que vou amar
Você por toda minha vida
Enquanto a vida durar

Para amigos muito especiais.
Para o dia dezenove e
Para toda a vida

1 085
Dílson Catarino

Dílson Catarino

Quero-Quero

A carga d’água nas costas feridas
quero-quero que tudo role
que tudo rode,

tudo mole,
tudo pode.

posso?

POSTE
POST.
MORTEM.

Tudo aquilo que eu sempre quis
nada

As gueixas pintadas
as ameixas murchas
as queixas infundadas
suas saias justas

SAIA! - SAIA!
não quero mais ficar aqui...

Não quero mais encargos
nem mesmo um cargo quero

Eu quero um beijo
embaixo da cachoeira
no vale das águas.

790
Carla Dias

Carla Dias

Chove

Chove tuas lágrimas ...
tingem de azul minha visão,
de que a paz é frágil
e a febre é da paixão.

Onde caminham tuas estórias,
descabidas, íntegras estórias?
Passam pela vida e marcam hora
para virar destino ... cada estória.

Chove e tuas mãos jogam-se ao vento,
encharcam de calor um corpo tenso.
Tocam os fantasmas e os devoram ...
apresentam minutos feito horas.

Ensina-me a ser sereno e louco,
controvérsia explícita,
que desfaz enganos e dá de ombros
às mais piegas feridas.

Como viver tão triste e sem cantar,
não escrever versos?
E até patrocinar o esquecimento ...
parir pseudo tédio?

Chove dos teus olhos a madrugada ...
chove tua sina.
Chove e ainda quer enxergar o mar
que cai do céu na tua vida.

867
Debora Bottcher

Debora Bottcher

Reino de Mar

As Lendas contam que
Do outro lado do Mar,
No Reino de Mar,
Há um vale onde são guardadas
Todas as coisas perdidas da Terra.
Os sonhos perdidos,
As horas perdidas,
Os tesouros perdidos...
As pessoas - depois de muita busca -,
Vão até lá procurar
Atos e dias perdidos.
E ficam surpresas por encontrar
Um Amor perdido...
Simplesmeste porque,
Apesar de sentirem falta dele,
O buscaram sempre em lugares errados...

900
Carla Dias

Carla Dias

Gota

Há uma gota dágua.
Gota da lágrima,
vinda da alegria insana
de colher o riso do homem cansado.

Apaixonado, último, raro,
engatinhando por campos minados.
Caçando a chance de amar
e de sua alma espalhar-se em vida.

Há um instante no tempo,
e um planeta que adormece
sonhando um brilho de estrela,
pela noite escura que antecede a guerra.

E o homem come sua terra,
pó mágico que embriaga de loucura,
que atenua a dor ...
a dor de não saber sonhar.

Há o homem no ar!
Suspenso por fio transparente,
pendendo entre o amor e o ódio,
querendo a chave de si próprio.

Pra poder vasculhar à si, sem ter medo.
Pra ter medo com a chance de vencê-lo.
Pra acreditar no ontem que tornou o hoje a sua condição.
Gota a gota ...

1 216
Diamond

Diamond

O Mar

Lambendo com gosto a areia,
Nesse amor de vai e vem,
Num gozo de muita espuma,
Molha o meu amor, também.

900