Dor e Desespero

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Apaixonada

Por um instante detém, ó noite, o gesto.
Suspende o cálice do seu rosto
Antes que ela o entorne
Na vida sem memória.

Mas já ela inclina o seu pescoço
Como uma onda que se vai quebrar
Sem que nenhum intervalo detivesse o tempo.
Espadas de morte bebem no seu peito.
Jaz branca fria e nua no seu leito.
Ninguém a deteve. Ficou a ressoar
Interminavelmente a sua queixa
Na desordem do ar.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ii. o Destino

O destino eram
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:
— Tu esculpirás Seu rosto
de morte e de agonia.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nevoeiro

Quem poderá saber que estranha bruma
Brotou caladamente em minha volta
Pra que eu perdesse as horas uma a uma
Sem um gesto, sem gritos, sem revolta.

Quem poderá saber que estranhos laços
E que sabor de morte lento e amargo
Sugaram todo o sangue dos meus braços —
O sangue que era sede do mar largo.

Quem poderá saber em que respostas
Se quebrou o subir do meu pedido
Para que eu bebesse imagens decompostas
À luz dum pôr de sol enlouquecido.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. As Paredes São Brancas E Suam de Terror

As paredes são brancas e suam de terror
A sombra devagar suga o meu sangue
Tudo é como eu fechado e interior
Não sei por onde o vento possa entrar

Toda esta verdura é um segredo
Um murmúrio em voz baixa para os mortos
A lamentação húmida da terra
Numa sombra sem dias e sem noites
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Aquelas Cujos Ombros Se Extinguiram

Contra os muros dum quarto misterioso
Onde há uma janela voltada para longe

Aquelas em cujos olhos não há cor
À força de fitarem o vazio
Que vai e vem entre o horizonte e elas

Aquelas cujo desespero cai
De todo o céu a pique sobre a terra,
Imutável e completo, igual
Ao silêncio do mar sobre os naufrágios.

Elas são aquelas que esperaram
Que todas as promessas se cumprissem
E que nos cegos deuses confiaram.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Assim Os Claros Filhos do Mar Largo

Atingidos no sonho mais secreto
Caíram de um só golpe sobre a terra
E foram possuídos pela morte.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Santa Teresa Em Êxtase

O que me dá alegria não faz rir.
É vivo e sem movimento.
Quando desaparece
todos os meus ossos doem.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Consanguíneos

Não há culpados para a dor que eu sinto.
É Ele, Deus, quem me dói pedindo amor
como se fora eu Sua mãe e O rejeitasse.
Se me ajudar um remédio a respirar melhor,
obteremos clemência, Ele e eu.
Jungidos como estamos em formidável parelha,
enquanto Ele não dorme eu não descanso.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Mitigação da Pena

O céu estrelado
vale a dor do mundo.
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Adélia Prado

Adélia Prado

À Mesa

Faca oxidada contra a polpa verde,
é roxo o amor.
De amoras, não.
De dor.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Os Comoventes Preconceitos

As finuras de Margarete
fogem a padrões sociais:
‘O popular, tudo bem.
Mas o clássico é imbatível!’
Com a alma à porta da rua
nada esconde de si mesma.
Vi tremer-lhe o queixo um dia
a ardoroso pretendente:
‘Você por acaso é gay?’
Sofre muito Margarete,
a que não sabe doer-se,
inocente como romã,
que racha por não conter-se.
944
Adélia Prado

Adélia Prado

A Filha da Antiga Lei

Deus não me dá sossego. É meu aguilhão.
Morde meu calcanhar como serpente,
faz-se verbo, carne, caco de vidro,
pedra contra a qual sangra minha cabeça.
Eu não tenho descanso neste amor.
Eu não posso dormir sob a luz do seu olho que me fixa.
Quero de novo o ventre de minha mãe,
sua mão espalmada contra o umbigo estufado,
me escondendo de Deus.
1 654
Adélia Prado

Adélia Prado

Mulher Querendo Ser Boa

Me toldam horas de cinza
rachadas de imprecação.
Ó Deus, não me humilhe mais
com esta coceira no púbis.
Responde-me sobre os mortos,
se mamam,
nesta lua visível em pleno dia,
do seu leite de sonho.
1 011
Adélia Prado

Adélia Prado

A Carne Simples

Na cama larga e fresca
um apetite de desespero no meu corpo.
Uivo entre duas mós.
Uivo o quê?
A mão de Deus que me mói e me larga na treva.
Na boca de barro, barro.
Quando era jovem
pedia cruz e ladrões pra guarnecer meus flancos.
Deus era fora de mim.
Hoje peço ao homem deitado do meu lado:
me deixa encostar em você
pra ver se eu durmo.
1 316
Adélia Prado

Adélia Prado

De Profundis

Quando a noite vier e minh’alma ciclotímica
afundar nos desvãos da água sem porto,
salva-me.
Quando a morte vier, salva-me do meu medo,
do meu frio, salva-me,
ó dura mão de Deus com seu chicote,
ó palavra de tábua me ferindo no rosto.
1 212
Adélia Prado

Adélia Prado

Anunciação Ao Poeta

Ave, ávido.
Ave, fome incansável e boca enorme,
come.
Da parte do Altíssimo te concedo
que não descansarás e tudo te ferirá de morte:
o lixo, a catedral e a forma das mãos.
Ave, cheio de dor.
1 777
Adélia Prado

Adélia Prado

Para Tambor E Voz

Viola violeta violenta violada,
óbvia vertigem caos tão claro,
claustro.
Lápides quentes sobre restos podres,
um resto de café na xícara e mosca.
1 138
Adélia Prado

Adélia Prado

Amor Violeta

O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
1 370
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Zona de Belo Horizonte, Anos 20

A festa de aniversário de Pingo de Ouro
acaba em frege.
Maria Pinguinho corre nervosa à delegacia
para soltar a Alemãzinha
engalfinhada com Maria Triste
no véu de cocaína e éter.

Serão sempre assim as mulheres perdidas,
e perdidas porque nunca se acham
mesmo no véu de cocaína e éter?
999
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Unidade

As plantas sofrem como nós sofremos.
Por que não sofreriam,
se esta é a chave da unidade do mundo?

A flor sofre, tocada
por mão inconsciente.
Há uma queixa abafada
em sua docilidade.

A pedra é sofrimento
paralítico, eterno.

Não temos nós, animais,
sequer o privilégio de sofrer.
887
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Deus E Suas Criaturas

Quem morre vai descansar na paz de Deus.
Quem vive é arrastado pela guerra de Deus.
Deus é assim: cruel, misericordioso, duplo.
Seus prêmios chegam tarde, em forma imperceptível.
Deus, como entendê-lo?
Ele também não entende suas criaturas,
condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte.
1 466
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Resultado

No emblema do amor
o fogo
no bloco da vida
a fenda
na blindagem do medo
o fato.

Íntimos badalos balem
vergonha tristeza asco
blen blen blen
orragia.
998
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Abrãozinho

Largou a venda, largou o dinheiro,
largou a amante sem se despedir.
Foi para o Rio fazer o quê?
Sentar no banco em frente ao Supremo
Tribunal Federal,
estourar a tiro a própria cabeça,
fazendo justiça
a si mesmo, crime
ignorado até de si mesmo.
A carta de suicida
— “Me firmo Abraão Elias” —
nada esclarece.
853
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dissipam-Se As Minhas Pétalas

Dissipam-se as minhas pétalas
entre formigas e sombras.
Tudo o que me dilacera
está perto do que é minúsculo.
Pequenos fósseis brancos
dizem tudo quanto sou
no desejo de ser pedra
ou uma parede com fendas.
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