Dor e Desespero
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Apaixonada
Por um instante detém, ó noite, o gesto.
Suspende o cálice do seu rosto
Antes que ela o entorne
Na vida sem memória.
Mas já ela inclina o seu pescoço
Como uma onda que se vai quebrar
Sem que nenhum intervalo detivesse o tempo.
Espadas de morte bebem no seu peito.
Jaz branca fria e nua no seu leito.
Ninguém a deteve. Ficou a ressoar
Interminavelmente a sua queixa
Na desordem do ar.
Suspende o cálice do seu rosto
Antes que ela o entorne
Na vida sem memória.
Mas já ela inclina o seu pescoço
Como uma onda que se vai quebrar
Sem que nenhum intervalo detivesse o tempo.
Espadas de morte bebem no seu peito.
Jaz branca fria e nua no seu leito.
Ninguém a deteve. Ficou a ressoar
Interminavelmente a sua queixa
Na desordem do ar.
1 070
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. o Destino
O destino eram
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:
— Tu esculpirás Seu rosto
de morte e de agonia.
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:
— Tu esculpirás Seu rosto
de morte e de agonia.
1 793
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nevoeiro
Quem poderá saber que estranha bruma
Brotou caladamente em minha volta
Pra que eu perdesse as horas uma a uma
Sem um gesto, sem gritos, sem revolta.
Quem poderá saber que estranhos laços
E que sabor de morte lento e amargo
Sugaram todo o sangue dos meus braços —
O sangue que era sede do mar largo.
Quem poderá saber em que respostas
Se quebrou o subir do meu pedido
Para que eu bebesse imagens decompostas
À luz dum pôr de sol enlouquecido.
Brotou caladamente em minha volta
Pra que eu perdesse as horas uma a uma
Sem um gesto, sem gritos, sem revolta.
Quem poderá saber que estranhos laços
E que sabor de morte lento e amargo
Sugaram todo o sangue dos meus braços —
O sangue que era sede do mar largo.
Quem poderá saber em que respostas
Se quebrou o subir do meu pedido
Para que eu bebesse imagens decompostas
À luz dum pôr de sol enlouquecido.
1 648
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. As Paredes São Brancas E Suam de Terror
As paredes são brancas e suam de terror
A sombra devagar suga o meu sangue
Tudo é como eu fechado e interior
Não sei por onde o vento possa entrar
Toda esta verdura é um segredo
Um murmúrio em voz baixa para os mortos
A lamentação húmida da terra
Numa sombra sem dias e sem noites
A sombra devagar suga o meu sangue
Tudo é como eu fechado e interior
Não sei por onde o vento possa entrar
Toda esta verdura é um segredo
Um murmúrio em voz baixa para os mortos
A lamentação húmida da terra
Numa sombra sem dias e sem noites
1 307
Sophia de Mello Breyner Andresen
Aquelas Cujos Ombros Se Extinguiram
Contra os muros dum quarto misterioso
Onde há uma janela voltada para longe
Aquelas em cujos olhos não há cor
À força de fitarem o vazio
Que vai e vem entre o horizonte e elas
Aquelas cujo desespero cai
De todo o céu a pique sobre a terra,
Imutável e completo, igual
Ao silêncio do mar sobre os naufrágios.
Elas são aquelas que esperaram
Que todas as promessas se cumprissem
E que nos cegos deuses confiaram.
Onde há uma janela voltada para longe
Aquelas em cujos olhos não há cor
À força de fitarem o vazio
Que vai e vem entre o horizonte e elas
Aquelas cujo desespero cai
De todo o céu a pique sobre a terra,
Imutável e completo, igual
Ao silêncio do mar sobre os naufrágios.
Elas são aquelas que esperaram
Que todas as promessas se cumprissem
E que nos cegos deuses confiaram.
1 097
Sophia de Mello Breyner Andresen
Assim Os Claros Filhos do Mar Largo
Atingidos no sonho mais secreto
Caíram de um só golpe sobre a terra
E foram possuídos pela morte.
Caíram de um só golpe sobre a terra
E foram possuídos pela morte.
1 064
Adélia Prado
Santa Teresa Em Êxtase
O que me dá alegria não faz rir.
É vivo e sem movimento.
Quando desaparece
todos os meus ossos doem.
É vivo e sem movimento.
Quando desaparece
todos os meus ossos doem.
1 157
Adélia Prado
Consanguíneos
Não há culpados para a dor que eu sinto.
É Ele, Deus, quem me dói pedindo amor
como se fora eu Sua mãe e O rejeitasse.
Se me ajudar um remédio a respirar melhor,
obteremos clemência, Ele e eu.
Jungidos como estamos em formidável parelha,
enquanto Ele não dorme eu não descanso.
É Ele, Deus, quem me dói pedindo amor
como se fora eu Sua mãe e O rejeitasse.
Se me ajudar um remédio a respirar melhor,
obteremos clemência, Ele e eu.
Jungidos como estamos em formidável parelha,
enquanto Ele não dorme eu não descanso.
1 219
Adélia Prado
Mitigação da Pena
O céu estrelado
vale a dor do mundo.
vale a dor do mundo.
1 068
Adélia Prado
À Mesa
Faca oxidada contra a polpa verde,
é roxo o amor.
De amoras, não.
De dor.
é roxo o amor.
De amoras, não.
De dor.
1 343
Adélia Prado
Os Comoventes Preconceitos
As finuras de Margarete
fogem a padrões sociais:
‘O popular, tudo bem.
Mas o clássico é imbatível!’
Com a alma à porta da rua
nada esconde de si mesma.
Vi tremer-lhe o queixo um dia
a ardoroso pretendente:
‘Você por acaso é gay?’
Sofre muito Margarete,
a que não sabe doer-se,
inocente como romã,
que racha por não conter-se.
fogem a padrões sociais:
‘O popular, tudo bem.
Mas o clássico é imbatível!’
Com a alma à porta da rua
nada esconde de si mesma.
Vi tremer-lhe o queixo um dia
a ardoroso pretendente:
‘Você por acaso é gay?’
Sofre muito Margarete,
a que não sabe doer-se,
inocente como romã,
que racha por não conter-se.
944
Adélia Prado
A Filha da Antiga Lei
Deus não me dá sossego. É meu aguilhão.
Morde meu calcanhar como serpente,
faz-se verbo, carne, caco de vidro,
pedra contra a qual sangra minha cabeça.
Eu não tenho descanso neste amor.
Eu não posso dormir sob a luz do seu olho que me fixa.
Quero de novo o ventre de minha mãe,
sua mão espalmada contra o umbigo estufado,
me escondendo de Deus.
Morde meu calcanhar como serpente,
faz-se verbo, carne, caco de vidro,
pedra contra a qual sangra minha cabeça.
Eu não tenho descanso neste amor.
Eu não posso dormir sob a luz do seu olho que me fixa.
Quero de novo o ventre de minha mãe,
sua mão espalmada contra o umbigo estufado,
me escondendo de Deus.
1 654
Adélia Prado
Mulher Querendo Ser Boa
Me toldam horas de cinza
rachadas de imprecação.
Ó Deus, não me humilhe mais
com esta coceira no púbis.
Responde-me sobre os mortos,
se mamam,
nesta lua visível em pleno dia,
do seu leite de sonho.
rachadas de imprecação.
Ó Deus, não me humilhe mais
com esta coceira no púbis.
Responde-me sobre os mortos,
se mamam,
nesta lua visível em pleno dia,
do seu leite de sonho.
1 011
Adélia Prado
A Carne Simples
Na cama larga e fresca
um apetite de desespero no meu corpo.
Uivo entre duas mós.
Uivo o quê?
A mão de Deus que me mói e me larga na treva.
Na boca de barro, barro.
Quando era jovem
pedia cruz e ladrões pra guarnecer meus flancos.
Deus era fora de mim.
Hoje peço ao homem deitado do meu lado:
me deixa encostar em você
pra ver se eu durmo.
um apetite de desespero no meu corpo.
Uivo entre duas mós.
Uivo o quê?
A mão de Deus que me mói e me larga na treva.
Na boca de barro, barro.
Quando era jovem
pedia cruz e ladrões pra guarnecer meus flancos.
Deus era fora de mim.
Hoje peço ao homem deitado do meu lado:
me deixa encostar em você
pra ver se eu durmo.
1 316
Adélia Prado
De Profundis
Quando a noite vier e minh’alma ciclotímica
afundar nos desvãos da água sem porto,
salva-me.
Quando a morte vier, salva-me do meu medo,
do meu frio, salva-me,
ó dura mão de Deus com seu chicote,
ó palavra de tábua me ferindo no rosto.
afundar nos desvãos da água sem porto,
salva-me.
Quando a morte vier, salva-me do meu medo,
do meu frio, salva-me,
ó dura mão de Deus com seu chicote,
ó palavra de tábua me ferindo no rosto.
1 212
Adélia Prado
Anunciação Ao Poeta
Ave, ávido.
Ave, fome incansável e boca enorme,
come.
Da parte do Altíssimo te concedo
que não descansarás e tudo te ferirá de morte:
o lixo, a catedral e a forma das mãos.
Ave, cheio de dor.
Ave, fome incansável e boca enorme,
come.
Da parte do Altíssimo te concedo
que não descansarás e tudo te ferirá de morte:
o lixo, a catedral e a forma das mãos.
Ave, cheio de dor.
1 777
Adélia Prado
Para Tambor E Voz
Viola violeta violenta violada,
óbvia vertigem caos tão claro,
claustro.
Lápides quentes sobre restos podres,
um resto de café na xícara e mosca.
óbvia vertigem caos tão claro,
claustro.
Lápides quentes sobre restos podres,
um resto de café na xícara e mosca.
1 138
Adélia Prado
Amor Violeta
O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
1 370
Carlos Drummond de Andrade
Zona de Belo Horizonte, Anos 20
A festa de aniversário de Pingo de Ouro
acaba em frege.
Maria Pinguinho corre nervosa à delegacia
para soltar a Alemãzinha
engalfinhada com Maria Triste
no véu de cocaína e éter.
Serão sempre assim as mulheres perdidas,
e perdidas porque nunca se acham
mesmo no véu de cocaína e éter?
acaba em frege.
Maria Pinguinho corre nervosa à delegacia
para soltar a Alemãzinha
engalfinhada com Maria Triste
no véu de cocaína e éter.
Serão sempre assim as mulheres perdidas,
e perdidas porque nunca se acham
mesmo no véu de cocaína e éter?
999
Carlos Drummond de Andrade
Unidade
As plantas sofrem como nós sofremos.
Por que não sofreriam,
se esta é a chave da unidade do mundo?
A flor sofre, tocada
por mão inconsciente.
Há uma queixa abafada
em sua docilidade.
A pedra é sofrimento
paralítico, eterno.
Não temos nós, animais,
sequer o privilégio de sofrer.
Por que não sofreriam,
se esta é a chave da unidade do mundo?
A flor sofre, tocada
por mão inconsciente.
Há uma queixa abafada
em sua docilidade.
A pedra é sofrimento
paralítico, eterno.
Não temos nós, animais,
sequer o privilégio de sofrer.
887
Carlos Drummond de Andrade
Deus E Suas Criaturas
Quem morre vai descansar na paz de Deus.
Quem vive é arrastado pela guerra de Deus.
Deus é assim: cruel, misericordioso, duplo.
Seus prêmios chegam tarde, em forma imperceptível.
Deus, como entendê-lo?
Ele também não entende suas criaturas,
condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte.
Quem vive é arrastado pela guerra de Deus.
Deus é assim: cruel, misericordioso, duplo.
Seus prêmios chegam tarde, em forma imperceptível.
Deus, como entendê-lo?
Ele também não entende suas criaturas,
condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte.
1 466
Carlos Drummond de Andrade
Resultado
No emblema do amor
o fogo
no bloco da vida
a fenda
na blindagem do medo
o fato.
Íntimos badalos balem
vergonha tristeza asco
blen blen blen
orragia.
o fogo
no bloco da vida
a fenda
na blindagem do medo
o fato.
Íntimos badalos balem
vergonha tristeza asco
blen blen blen
orragia.
998
Carlos Drummond de Andrade
Abrãozinho
Largou a venda, largou o dinheiro,
largou a amante sem se despedir.
Foi para o Rio fazer o quê?
Sentar no banco em frente ao Supremo
Tribunal Federal,
estourar a tiro a própria cabeça,
fazendo justiça
a si mesmo, crime
ignorado até de si mesmo.
A carta de suicida
— “Me firmo Abraão Elias” —
nada esclarece.
largou a amante sem se despedir.
Foi para o Rio fazer o quê?
Sentar no banco em frente ao Supremo
Tribunal Federal,
estourar a tiro a própria cabeça,
fazendo justiça
a si mesmo, crime
ignorado até de si mesmo.
A carta de suicida
— “Me firmo Abraão Elias” —
nada esclarece.
853
António Ramos Rosa
Dissipam-Se As Minhas Pétalas
Dissipam-se as minhas pétalas
entre formigas e sombras.
Tudo o que me dilacera
está perto do que é minúsculo.
Pequenos fósseis brancos
dizem tudo quanto sou
no desejo de ser pedra
ou uma parede com fendas.
entre formigas e sombras.
Tudo o que me dilacera
está perto do que é minúsculo.
Pequenos fósseis brancos
dizem tudo quanto sou
no desejo de ser pedra
ou uma parede com fendas.
1 024
Português
English
Español