Poemas neste tema

Vida

Renato Rezende

Renato Rezende

[Oceano]

Círculos de luz opaca, em vibrações, como se saíssem de mim, da região entre os olhos: a sensação de levantar-me dentro de mim mesmo, e ascender, ao ver um objeto caindo, caindo, caindo sem fim e se espatifando junto a uma grande encosta murada, uma muralha que parecia erguer-se indefinidamente, e de repente, eu vendo, lá de cima, o infinito vale muito embaixo, onde corre o rio que era eu o objeto espatifado.

—Então me mata?

[Ela está pedindo para você matá-la]

Não Posso.

—Então me carrega no colo, em silêncio.

Sou uma pepita de ouro no seu ventre.

No fim de todos os caminhos, de todos os atalhos, de todas as vielas, de todos os declives, de todos os abismos, de todas as picadas e veredas está o mar.

O oceano iluminado.

Sonhei com você. A gente estava num bar do aeroporto, se despedindo, você ia viajar para algum lugar e usava umas roupas meio estranhas, tipo assim, roupas de peregrino. Aí você me disse que quando voltasse ia se casar com alguém do seu passado, você disse: “essa pessoa sempre esteve lá, acho que no fundo sempre soube que era ela”.

Uma voz agora:
Que me diga que eu existo, que eu estou vivo.

O sentimento de desamparo, no tudo estar de pernas para o ar, é facilmente sanado pelo Amor. Não o que vem de fora, mas o Amor que vem de dentro: substituir essa sensação por Amor: e tudo volta ao seu lugar, sobre esta terra, ao rés do chão: tudo volta a ter sentido.

Ser como um cão farejador de Amor.

Eu não quero ir a lugar algum.

—se for preciso, cavo.

Escorrer a vida e gozar de suas dádivas, sem cobiçar nada.

O Amor transforma o Tempo num oceano.

Cruzam monstros marinhos, disformes, horrorosos,
escuros
e eu os amo

a todos

Lá vou eu
choramingando de ternura pelos cantos.

Sou muito grata por existir.

Tudo é a Verdade.

Sou
partícula de fogo que retorna ao Sol

Esse corpo nunca mais.

706
Renato Rezende

Renato Rezende

[Estilhaços]

[estar: dois ou mais
locais ao mesmo tempo.]

Já sei o que vou fazer. Nada.
E quando o dinheiro acabar? Nada.

Do chão ninguém passa.

Eu não tenho compromisso com o real.

De vez em quando rompe-se um espelho.

Ainda não suporto
a força desse gozo.

Vou-me embora para Pasárgada? Que nada
Vou ficar aqui mesmo
Aqui
sou amigo dos meus inimigos, rei dos mosquitos.

Quanto mais belo, mais verdadeiro
Quanto mais verdadeiro, mais pleno

Tudo que é dito é desmentido.
Tudo o que é, também não é.

Estamos todos aqui de forma oblíqua—estilhaços.

Quando virarei do avesso?

A arte de estar onde se está

Ser é estar

esse habitar, esse ser quem é dentro de si

Penso, logo penso que existo.

só as ações são sólidas

o importante não é estar aqui ou ali
estar com este ou aquela

pq a pressa em morrer?
logo logo estará morto

a vida nunca é a vida
viver nunca é viver

Toda cultura inventa um corpo

Quer chá? Não quer chá.

Viver é sempre um construir

Uma coisa de barro é mais humana que uma de plástico?

Por quê?

Há palavras sagradas?

Há uma força maior? Algo que nos atravessa?

Ser Renato como poderia ser qualquer pessoa. O Renato tem seu destino. Ser Renato sendo o que observa o Renato, sendo o que assiste, estupefato, divertido, o filme do desenvolver da vida do Renato. Ser Renato não sendo o Renato, e sim aquele que assiste. Ser aquele que testemunha a vida do Renato sendo o Renato. Ser o que assiste—ser o observador—a vida do Renato interferindo na vida do Renato através do Amor.
Ser o que assiste amando. O ponto de encontro entre o Renato sendo e o que o assiste enquanto: é o Amor.

929
Angela Santos

Angela Santos

Condição

Se
de um mistério me queres falar
lembra-me a semente prenhe
acoitada no seio da terra
em silencio a germinar

Se me queres falar
do amor – dor
fala-me do tenro tronco
que em grito rasga
o corpo da mulher

Se me queres falar da alegria
lembra-me um rútila boca pequenina
que sem sombra de cuidado
ri ainda

Se me queres falar de paz
leva-me ao fim do dia
junto ao esplendor de um sol
em brasa
sobre a mansidão do mar.

Se me queres falar da vida
mostra-me o homem que procura
fala-me do amor, da dor
e às vezes da alegria!

985
Renato Rezende

Renato Rezende

[Ensaios]

Saberei renascer em vida?

De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.

Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.

Ensaios.

Vou perder o medo de ficar louco.

Começar a ser o que eu sou.

Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto

Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.

Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.

Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.

Por acaso eu sou eu.

Eu:

Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.

Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.

Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.

Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.

Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.

Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.

É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.

AMA ET FAC UT VIS

Tenho sido meticulosamente destruído.

Era uma casa abandonada, sem telhado

e as vacas

a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):

era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.

Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.

Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.

Eu vivo minha vida como se eu não existisse.

A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.

Não me importo com o que possa vir a acontecer.

Eu só sossegarei com o silêncio.

Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.

Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.

Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
813
Sebastião Alba

Sebastião Alba

A palhota

Espanta não ver nada
que se coma e caçarolas
As aranhas debandaram
não há moscas
até o humor secou
nas espinhas largadas
Vive-se como?
Donde a modeladora energia
que põe a carne?
Ladino um rato
como na infância o quereríamos
rói os bambus a viga
as horas urdem
e um opaco cisco indizível
aduz as proporções laqueia
a quietação à roda.
973
Pentti Saarikoski

Pentti Saarikoski

XLVII

os mortos têm nomes
os vivos: uma cara e dez dedos
582
Renato Rezende

Renato Rezende

[Filtros]

Eu criei uma ilusão, um véu, há muitas camadas de tecido,
muito filtro, entre eu e a vida.
Mas uma vida humana não é justamente a experiência desses
filtros?
A vida—experiência absurda—não é sempre necessariamente
mediada?
A vida humana só é se mediada.

Somos todos vazios,
Sem existência fixa.

A gente vai sempre virando

apenas mais uma vida,
perdida

ARRISCAR TUDO

Todos os recursos

Concentrar todos os esforços

Lançar tudo fora

Um homem deve dedicar sua vida àquilo pelo qual se esquece

se perde

diante do abismo

pisa

no vazio

Nada tem sentido

Tudo é um fim em si mesmo.
Derreter no coração todos os sentidos.

Nesta terra não há jardim que não tenha sido construído sobre os quintos dos infernos.

A pessoa nunca é em termos absolutos. Nenhum de nós é.

Somos sempre em termos relativos. Em relação ao outro: espelhos uns dos outros. Poderíamos ser qualquer um de nós.

Isso é ser livre?

Toda pessoa que se preze é uma fracassada.

Na Noruega há um Joe Doe que passa os dias olhando pela janela a neve cair, sem vontade de sair de casa. Ele teria coisas para fazer, responder emails e telefonemas, o trabalho se acumulando. Eu não me importo com isso, não o julgo, não o condeno. Acho que ele tem todo o tempo do mundo, o direito a todo esse tempo: não sinto ansiedade, nem culpa, não me envolvo. Agora eu sou esse Joe Doe no Rio de Janeiro:

No meio da tarde, levanto e saio: nada realmente para fazer, apenas a atração pela luz e pelo abismo. Apenas o descaso pelo falatório.
[Essa é a imagem da minha vida].
Mas não saio com a experiência de um vazio interno, um oco. Não é para o exílio que saio, e sim para a VIDA. Agora, quando saio, carrego o mundo comigo: sou eu o vivo, são eles os mortos.
[Não. O Amor nos une a todos: somos todos vivos e mortos: homo caritas est].
811
Martha Medeiros

Martha Medeiros

Mudança

Minha mãe recentemente se mudou do apartamento em que morou a vida toda para um bem menorzinho. Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.

Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos de idade. Rejuvenesceu.

Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um ótimo emprego em Porto Alegre por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela caminha na beira da praia todas as manhãs. Rejuvenesceu.

Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.

Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna.

Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco, porque não existe plástica que resgate seu brilho.

Quem dá brilho ao nosso olhar é a vida que a gente optou por levar.

Um olhar iluminado, vivo e sagaz impede que a pessoa envelheça.

Olhe-se no espelho. Você tem um olhar de quem estaria disposta a cometer loucuras? Tem que ter.

467
Angela Santos

Angela Santos

Sentidos

Cheiro,
provo, toco

Terra,
sal,
fogo,
desejo e cismo
a indomável força
do cosmos em mim
vivo.

1 305
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Cemitério Pernambucano (Nossa Senhora da Luz)

Nesta terra ninguém jaz,
pois também não jaz um rio
noutro rio, nem o mar
é cemitério de rios.

Nenhum dos mortos daqui
vem vestido de caixão.
Portanto, eles não se enterram,
são derramados no chão.

Vêm em redes de varandas
abertas ao sol e à chuva.
Trazem suas próprias moscas.
O chão lhes vai como luva.

Mortos ao ar-livre, que eram,
hoje à terra-livre estão.
São tão da terra que a terra
nem sente sua intrusão.


Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Paisagens com Figuras.

In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.159. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
8 974
Renato Rezende

Renato Rezende

[Abgrund]

Tudo vale a pena

Tout enfant, j’ai senti dans mon coeur deux sentiments
contradictoires: l’horreur de la vie et l’extase de la vie.

Abyssus infinitudinis

Imagino usar sempre um hábito azul.

Caitanya Atman

Tudo é consciência

Caitanya Caitanya

A poesia em chamas

incapaz de explicar sua própria estranheza

[Poesia]

Arrombar a roda da linguagem.

UM DIA EU SILENCIO

Eu confundo vida e morte?

A morte não é.

Volta: um salto para a terra.

A linguagem são todas as máscaras.
O silêncio profundo é essa balbúrdia.

Poesia:

Eu me enlaço com o mundo pelo amor.

O prazer aos porcos, eu quero o amor.

Tudo o que está acontecendo não está acontecendo comigo.

(escrevo no escuro, olhos atentos, sem enxergar nada
no leito do papel
sombras)

Abyssus infinitudinis

A sensação de que todo o meu dia—toda a minha vida—está sendo mastigada, na boca, e depois regurgitada: enfim apta para ser vivida.

como se purificada, humanizada, feita ouro

Em casa, uma coleção de bocas
dentes
pernas
olhos

(a coisa mais linda
são olhos de gente)

ninguém de fato existe—fragmentos

coletados

colados por algum tempo, só aparência

o conteúdo é sempre o mesmo

cacos de espelho

o mundo inteiro meu espelho

eu não sou inteligente.

A inteligência é que pousa em mim, pensando.
O pensamento é que se pensa.

Sou todas as Consciências.

Doidivanas

Indivíduo imprudente, estouvado; adoidado, doidelo, girolas.

E agora?

Cala a boca e trabalha.

[Cala a boca e ama]

698
Renato Rezende

Renato Rezende

[Re-Nato]

O poder da respiração—entrando e saindo do corpo

e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo

Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.

(Às vezes me sinto sem pé, submerso).

Saia para uma caminhada pelo bairro

(Como entendo essa língua em que me falam?)

Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.

Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.

Deus veio tocar Rachmaninoff

e tocou pior que Rachmaninoff

(era eu)

A perfeição não é fazer tudo perfeito

Tudo acontece para o melhor

Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.

Esse ato de violência inaugurou nova vida,

o caminho de volta.

Hoje amo o assassino sinceramente.

Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.

O amor está na respiração profunda.

Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!

Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.

Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.

No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias

A vida humana é longa
Se cada instante é doce

aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço

(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania

(que importância um nome tem?)

Sou todo mundo,
agora você sou eu

(Uma mente sem fantasias):

Abra-te Coração.
977
José Armelim

José Armelim

A Vida é Esta

A vida abana, sacode
É um leque
A vida é esta
Queima, pica
É piri-[iri
Fogo a arder.
A vida é esta
Cifrão prá frente
Cifrão pra trás
Tudo a contar,
Descontar, conter.
A vida é esta
Um berlinde
Gira, rola,
Salta, desliza
Um ping-pong
Bate, resvala
A vida é esta.
Um elástico
Puxa, estica
Torce, dobra
A vida é esta.
Uma dança
Baila, rebola
Ginga, contorna
A vida é esta.
Um jogo
Disputa, goleia
Ganha, perde
A vida é esta.
Uma ferida
Amola, remói
Dói, dói, dói-dói...
E é assim a vida
Enfim, uma grande dor.

889
Renato Rezende

Renato Rezende

[Tento-Carolina]

Quero ser rei e quero servir

Meu Deus, está tudo pegando fogo

É da minha ferida que escorre o meu Amor

Prestar atenção nos vazios, nos imensos vazios que existem entre
todas as pessoas, os momentos, as palavras, as coisas.
Praticamente tudo é vazio

Só dias maravilhosos?

Encantei-me por uma árvore em frente ao
templo de Shiva. Era uma árvore comum, mas
com extraordinárias pequenas sementes
vermelhas que salpicavam o chão. Vivas,
lustrosas, rijas. Peguei um punhado e as trouxe
para cá; coloquei algumas numa pequena caixa
de mármore incrustado de pedras para Lakshmi.
No mês passado, caminhando na rua que sobe o
morro, encontrei as mesmas sementes! E apenas
hoje percebi e comprovei que a árvore no quintal
do prédio diante da minha janela (ao lado da
mangueira, perto da buganvília) é ela. A menos
de 10 metros da minha janela, da minha cama.
Como nascem dentro de cachos espiralados que
só se abrem no chão, nunca percebi as sementes
antes. Mas agora, atento, vejo os pontos
vermelhos entre a folhagem.

bead tree, bois de condori, peacock
flower-fence, colales, coral bean tree,
culalis, false wili wili, falso-sândalo,
kaikes, la’aulopa,
lera, lerendamu, lopa, metekam, olhode-dragão, paina, pitipitio, pomea, red
sandalwood tree,
redbeadtree, segavé, telengtúngd,
telentundalel,
vaivai,
vaivainivavalangi,
tento-carolina

O mundo manifesto.

O amor é uma chama que deve consumir tudo,
mas em mim sendo facilmente extinguida pelos caminhões
de areia dos pensamentos e sentimentos cotidianos

desistir do plano, como parte da estratégia;
desistir da estratégia

Tudo é impuro e belo

Tudo é perfeito e imperfeito

(Senti-me o que sou, sem mais, uma pessoa entre outras, finita e autorizada)

Teria a coragem de dizer que não me sinto, freqüentemente, uma pessoa?

Viver no limite daquilo que me limita.

(ontem, na festa da Carol, me vi
novamente tomando atitudes herdadas da minha mãe, e pela
primeira vez não me senti ridícula e tola, mas me aceitei, aceitando
assim minha mãe, e, novamente, assim, me aceitando)

deixar de vir a ser para ser—o que sou

todo futuro já aconteceu

Alço o coração ao alto, os braços abertos—sei que Deus quer me ajudar.

Eu não quero a redenção; eu já sou redimida,

Vim aprender a amar
Ah, olhar transparente!

Maravilha das maravilhas

salva:

Deleitar-se com a vida
Depois de sacrificá-la

Amor de perdição
671
Angela Santos

Angela Santos

Existencialismo

Cerra
os ouvidos
às palavras dos profetas
segura nos olhos o horizonte
o tempo renova-se
e tu és senhor de ti

Esquece a promessa
nosso sonho perdido
a vida é irmã da morte
da angústia e desta sede
sem nome…

E contaram tantas lendas
pra amainar o desespero,
gritaram aos sete ventos
espalharam pelas cinco partidas
o milenar sonho perdido,
sonhado ser infinito..

Simples sopro é a vida…
e pode deixar de o ser!

1 024
Angela Santos

Angela Santos

Caminhos


caminho, e caminhos
largos uns, estreitando-se
outros.

Há os que caminham
a par de outros que caminham
outros caminhos

Há os que seguem seus caminhos,
solitários
à força de o querer

Há os solitários
que buscam caminhos paralelos
mas sempre e só
a solidão companheira
suspensa no seu caminho.

1 092
Daniel Lima

Daniel Lima

Minha mãe era feita de incertezas

Minha mãe era feita de incertezas.
tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viajeiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
Vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus solhos,
nas mãos, nos gestos
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.

E eu perguntava coisas
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.

Minha mãe era feita de incertezas
mas, por certo, sabia o que queria.
663
Angela Santos

Angela Santos

Hic et Nunc

Agora
quero apenas ser daqui…
sem ânsia de outro mundo
ou beleza que se eleve
à que rente ao chão que piso,
sinto e fruo por inteiro…

A fealdade não é
senão um olhar ao invés
e aqui
neste chão que sou
até do lodo se elevam
prodígios da natureza
em busca da luz do sol.

Aqui e agora
Ser,
chão rude e áspero,
anjo sem asas,
brisa que passa,
poeira de estrelas…..

e até lodo ser
se a beleza do Lotus
abrindo-se ao sol
do fundo do pântano
teimosamente
se erguer.

1 125
Erich Fried

Erich Fried

Falta de humor

Os moleques
jogam
de brincadeira
pedras
nos sapos

Os sapos
morrem
de verdade

:

Humorlos

Die Jungen
werfen
zum Spass
mit Steinen
nach Fröschen

Die Frösche
sterben
im Ernst


869
Samarone Lima de Oliveira

Samarone Lima de Oliveira

Formas do dia

Às vezes, ao escolher os sapatos
Erramos o dia.

E a cor, a forma,
Nos levam ao ponto primordial:
Como saímos de casa.

Às vezes, a falta de uma bênção
Nos leva ao segundo erro:
Saímos de casa desassistidos
E nos perdemos do próprio dia.

Às vezes, a falta de um aviso
De um recado
De um aceno
Nos faz seguir sem os pequenos gestos
Que nos salvam o dia.

Quase sempre
Voltamos para casa
Tão vivos
E nem sabemos
Que sapatos, bênçãos, avisos
Nos salvam a vida.
679
Millôr Fernandes

Millôr Fernandes

Poeminha de Louvos ao Strip-Tease

Eu sou do tempo em que a mulher
Mostrar o tornozelo
Era um apelo!
Depois, já rapazinho, vi as primeiras pernas
De mulher
Sem saia;
Mas foi na praia!

A moda avança
A saia sobe mais
Mostra os joelhos
Infernais!

As fazendas
Com os anos
Se fazem mais leves
E surgem figurinhas
Em roupas transparentes
Pelas ruas:
Quase nuas.

E a mania do esporte
Trouxe o short.
O short amigo
Que trouxe consigo
O maiô de duas peças.

E logo, de audácia em audácia,
A natureza ganhando terreno
Sugeriu o biquíni,
O maiô de pequeno ficando mais pequeno
Não se sabendo mais
Até onde um corpo branco
Pode ficar moreno.

Deus,
A graça é imerecida,
Mas dai-me ainda
Uns aninhos de vida!
1 106
Maria Ângela Alvim

Maria Ângela Alvim

Soneto ao amigo

Procure ao largo de alma o lenitivo
para este mal da vida, sem promessa.
O corpo vive alheio a se ter vivo
quando fome maior nos arremessa.
Temos todos, enfim, um amor cativo
que tudo pode e inflama e tudo cessa
quando liberto em si vê seu motivo
a este amor dê tudo e nada peça.
Cante em sua voz o rito e os dissabores
do tempo e acontecer mas abstraindo
aspecto transitório e fáceis cores.
Só amor, enquanto é, nos anistia:
sem ele, seres, coisas, verso vindo;
são refúgios do medo sem poesia.
757
Maria Ângela Alvim

Maria Ângela Alvim

Estou e não me respondo

Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.

E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.

Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.

Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.

899
Maria Ângela Alvim

Maria Ângela Alvim

Inteira me deixo aqui

Inteira me deixo aqui,
inteira, posto que ausente,
- neste corpo que nasci
fez-me a vida ou minha mente?

De ninguém sobrevivi.
Ah! vida, me fiz consciente,
mestiça de mim, de ti ,
em morte - quase semente.

E em terra desejo estar
e sempre, enquanto me alerto
nas vozes de vento e mar.

Sem jamais me resolver
a conter-me num deserto
ou saciar-me de morrer.

863