Poemas neste tema
Viagens e Horizontes
Eduardo Valente da Fonseca
Deve-se amar o perto
O homem
chegou à lua, e ao sol
e ao fundo do mar,
e só Londres tem a população do meu país,
e nisso nem há mal...
mas quando eu vou a Barroselas do Minho
e a D. Felisbina me recebe contente
na Primavera da sua quinta,
eu só penso na D. Felisbina
e amo a sua cabeça branca.
depois vou passear pelos sítios do ano passado,
e cada folha é um universo.
Então o sol esconde-se
e é a vez dos pinheiros serem divinos sob as estrelas.
chegou à lua, e ao sol
e ao fundo do mar,
e só Londres tem a população do meu país,
e nisso nem há mal...
mas quando eu vou a Barroselas do Minho
e a D. Felisbina me recebe contente
na Primavera da sua quinta,
eu só penso na D. Felisbina
e amo a sua cabeça branca.
depois vou passear pelos sítios do ano passado,
e cada folha é um universo.
Então o sol esconde-se
e é a vez dos pinheiros serem divinos sob as estrelas.
933
Fernando Tavares Rodrigues
Rosa dos Ventos
Ao sul de mim existe um porto
Que não se bebe.
Apenas se pressente.
Me embriaga
E , contudo, não se mede.
Mulher cujo perfume só recordo
Na madrugada fria, ainda doente.
A Norte, porém, quando confessa
Vontades que traz apetecidas
Confesso que me aquece, nessa pressa,
Outras mulheres que cria já esquecidas.
A Oeste bastava outra vontade
Para alcançar a praia repetida
Que outro gesto quisera e de vaidade.
Finalmente, a Leste, a despedida,
Abraço que ficou por acabar,
Palavra de começo e de partida
Que o tempo não deixou acreditar...
Que não se bebe.
Apenas se pressente.
Me embriaga
E , contudo, não se mede.
Mulher cujo perfume só recordo
Na madrugada fria, ainda doente.
A Norte, porém, quando confessa
Vontades que traz apetecidas
Confesso que me aquece, nessa pressa,
Outras mulheres que cria já esquecidas.
A Oeste bastava outra vontade
Para alcançar a praia repetida
Que outro gesto quisera e de vaidade.
Finalmente, a Leste, a despedida,
Abraço que ficou por acabar,
Palavra de começo e de partida
Que o tempo não deixou acreditar...
949
Fernando Tavares Rodrigues
Corpo
Que não
seja estátua!
Seja às vezes carne
Entre rosa e sangue
Entre forma e fundo.
Saiba ser o fruto
Sem ser só o gomo
Seja vinho novo
Seja apenas sumo.
Seja nevoeiro.
Venha nu, mas venha
Envolto na bruma....
Possa ser mistério...
Seja cais à espera
Seja barco à vela;
Possa ser mar alto
Possa ainda ser espuma.
(Traga o encanto de ser
impossívekl e longinquo
como um postal colorido
de uma cidade qualquer)
Que para além da imagem
Haja madrugada.
Seja uma viagem
Entre tudo e nada.
Como o álcool puro
Quando se evapora
E risca o futuro
Do lado de fora...
seja estátua!
Seja às vezes carne
Entre rosa e sangue
Entre forma e fundo.
Saiba ser o fruto
Sem ser só o gomo
Seja vinho novo
Seja apenas sumo.
Seja nevoeiro.
Venha nu, mas venha
Envolto na bruma....
Possa ser mistério...
Seja cais à espera
Seja barco à vela;
Possa ser mar alto
Possa ainda ser espuma.
(Traga o encanto de ser
impossívekl e longinquo
como um postal colorido
de uma cidade qualquer)
Que para além da imagem
Haja madrugada.
Seja uma viagem
Entre tudo e nada.
Como o álcool puro
Quando se evapora
E risca o futuro
Do lado de fora...
1 077
Armando Silva Carvalho
OS DOIS DE LANZAROTE
Eram um casal aéreo, cruzavam aeroportos,
digo eu o delator, o escriba acocorado, e sigo-os
nas suas fantasias voadoras,
açambarcando as nuvens, os romances,
toda a luta de classes
nas longas, estreitíssimas passagens dos jactos
pelo céu alucinante e cru.
Um casal a encher uma península.
Ruídos pérfidos perseguiam a sua alta rota revoltada,
a ela lambuzavam-lhe os vestidos, transparentes,
abertos sobre as nuvens.
E a ele arrancavam-lhe os cabelos
agarrados ao cérebro.
Mas eles voam mais alto, no assombro, mais livres.
Só eu pareço agora um cão acabrunhado
nas coxias deste chão sem ar,
e os olhos presos naquela exuberância.
Eles são dois padrões erguidos na terra retalhada
pelos elegantes domadores da fala,
e do mar mediterrâneo.
Recordai, ó leitores, a exibição da ternura,
a estridência feliz dos abraços frente à multidão,
a imponência do sucesso a pulso.
Um velho, uma mulher madura, uma ilha vulcânica.
E o ar que acolhe os seus impulsos
com a firme decisão de fazer estremecer
o mundo.
digo eu o delator, o escriba acocorado, e sigo-os
nas suas fantasias voadoras,
açambarcando as nuvens, os romances,
toda a luta de classes
nas longas, estreitíssimas passagens dos jactos
pelo céu alucinante e cru.
Um casal a encher uma península.
Ruídos pérfidos perseguiam a sua alta rota revoltada,
a ela lambuzavam-lhe os vestidos, transparentes,
abertos sobre as nuvens.
E a ele arrancavam-lhe os cabelos
agarrados ao cérebro.
Mas eles voam mais alto, no assombro, mais livres.
Só eu pareço agora um cão acabrunhado
nas coxias deste chão sem ar,
e os olhos presos naquela exuberância.
Eles são dois padrões erguidos na terra retalhada
pelos elegantes domadores da fala,
e do mar mediterrâneo.
Recordai, ó leitores, a exibição da ternura,
a estridência feliz dos abraços frente à multidão,
a imponência do sucesso a pulso.
Um velho, uma mulher madura, uma ilha vulcânica.
E o ar que acolhe os seus impulsos
com a firme decisão de fazer estremecer
o mundo.
687
Fernando Pessoa
Vai pela estrada que na colina
Vai pela estrada que na colina
É um risco branco na encosta verde
Risco que em arco sobe e declina
E, sem que iguale, se à vista perde –
A cavalgada, formigas, cores,
De gente grande que aqui passou.
Eram dois sexos multicolores
E riram muitos por onde estou.
Por certo alegres assim prosseguem.
Quem porém sabe se o não sou mais –
Eu, só de vê-los e como seguem;
Eu, só de achá-los todos iguais?
Eles para eles são um do outro;
Pra mim são todos – a cavalgada –,
Numa alegria, distante e neutro,
Que a nenhum deles pode ser dada.
Os sentimentos não têm medida,
Nem, de uns para outros, comparação.
Vai já na curva que é a descida
A cavalgada meu coração.
15/12/1932
É um risco branco na encosta verde
Risco que em arco sobe e declina
E, sem que iguale, se à vista perde –
A cavalgada, formigas, cores,
De gente grande que aqui passou.
Eram dois sexos multicolores
E riram muitos por onde estou.
Por certo alegres assim prosseguem.
Quem porém sabe se o não sou mais –
Eu, só de vê-los e como seguem;
Eu, só de achá-los todos iguais?
Eles para eles são um do outro;
Pra mim são todos – a cavalgada –,
Numa alegria, distante e neutro,
Que a nenhum deles pode ser dada.
Os sentimentos não têm medida,
Nem, de uns para outros, comparação.
Vai já na curva que é a descida
A cavalgada meu coração.
15/12/1932
3 620
Fernando Pessoa
Meu coração tardou. Meu coração
Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, o houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.
Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.
Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.
19/09/1933
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, o houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.
Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.
Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.
19/09/1933
4 492
Tomas Tranströmer
A viagem
Na estação subterrânea.
Uma multidão entre placares
num pasmo de luz morta.
O comboio parou e recolheu
rostos e portefólios
Depois a escuridão. Sentámo-nos
nas carruagens como estátuas,
arrastados pelas cavernas.
Restrição, sonhos, restrição.
Em estações abaixo do nível do mar
vendiam-se notícias da escuridão.
Pessoas movendo-se tristemente
silenciosas debaixo do mostrador dos relógios.
O comboio carregando
roupas e almas
Olhares em todas as direcções
na viagem pela montanha.
Nenhuma mudança.
Junto à superfície começa
um zunido de abelhas – liberdade.
Saímos da terra.
A terra por uma vez bateu
asas e ficou quieta debaixo
de nós, estirada e verde.
Espigas de milho esvoaçavam
por cima das plataformas.
Terminal – eu
prossegui mais além.
Comigo quantos estavam? Quatro,
cinco, não mais.
Casas, estradas, céus,
enseadas azuis, montanhas
abrindo as suas janelas.
Uma multidão entre placares
num pasmo de luz morta.
O comboio parou e recolheu
rostos e portefólios
Depois a escuridão. Sentámo-nos
nas carruagens como estátuas,
arrastados pelas cavernas.
Restrição, sonhos, restrição.
Em estações abaixo do nível do mar
vendiam-se notícias da escuridão.
Pessoas movendo-se tristemente
silenciosas debaixo do mostrador dos relógios.
O comboio carregando
roupas e almas
Olhares em todas as direcções
na viagem pela montanha.
Nenhuma mudança.
Junto à superfície começa
um zunido de abelhas – liberdade.
Saímos da terra.
A terra por uma vez bateu
asas e ficou quieta debaixo
de nós, estirada e verde.
Espigas de milho esvoaçavam
por cima das plataformas.
Terminal – eu
prossegui mais além.
Comigo quantos estavam? Quatro,
cinco, não mais.
Casas, estradas, céus,
enseadas azuis, montanhas
abrindo as suas janelas.
668
Nelly Sachs
ESTOU NO ESTRANGEIRO
Estou no estrangeiro
que é protegido pelo 8
o santo anjo do laço
Que está sempre a caminho
através de nossa carne
semeando a inquietude
e deixando o pó maduro para voar –
que é protegido pelo 8
o santo anjo do laço
Que está sempre a caminho
através de nossa carne
semeando a inquietude
e deixando o pó maduro para voar –
583
Giorgos Seferis
De Solstício de verão - VIII
Duro espelho o papel em branco
restitui apenas o que eras.
O papel em branco fala com a tua voz
a tua própria voz
não com a que te agrada;
tua música é a vida
que dissipaste.
Podes recuperá-la se quiseres
se te apegares ao que indiferente
te atira para trás
ao ponto de partida.
Viajaste, viste muitas luas muitos sóis
tocaste vivos e mortos
sentiste a dor do jovem
e o gemido da mulher
e o amargor do menino ainda imaturo —
o que sentiste rui sem fundamento
se não te confias ao vazio.
Talvez ali encontres o que julgavas já perdido:
o renovo da juventude, o justo sossobro da idade.
Tua vida é o que deste
esse vazio é o que deste
o papel em branco.
restitui apenas o que eras.
O papel em branco fala com a tua voz
a tua própria voz
não com a que te agrada;
tua música é a vida
que dissipaste.
Podes recuperá-la se quiseres
se te apegares ao que indiferente
te atira para trás
ao ponto de partida.
Viajaste, viste muitas luas muitos sóis
tocaste vivos e mortos
sentiste a dor do jovem
e o gemido da mulher
e o amargor do menino ainda imaturo —
o que sentiste rui sem fundamento
se não te confias ao vazio.
Talvez ali encontres o que julgavas já perdido:
o renovo da juventude, o justo sossobro da idade.
Tua vida é o que deste
esse vazio é o que deste
o papel em branco.
789
Giorgos Seferis
VIII
Mas que procuram nossas almas viajando
sobre conveses de navios arrasados
espremidas com mulheres amarelas e bebês que choram
sem poder distrair-se nem com os peixes-voadores
nem com as estrelas que os mastros apontam.
Gastas pelos discos dos fonógrafos
amarradas involuntariamente a peregrinações inexistentes
murmurando pensamentos quebrados de línguas
estrangeiras.
Mas que procura nossas almas viajando
nesses cascos podres
de porto em porto?
Movendo pedras quebradas, respirando
com mais dificuldade a cada dia o frescor do pinheiro,
nadando nas águas desse mar
e daquele mar,
sem tato
sem homens
em uma pátria que não é mais nossa
nem vossa.
Sabíamos que eram belas as ilhas
em algum lugar aqui perto que tateamos
um pouco mais baixo ou um pouco mais alto
um ínfimo espaço.
sobre conveses de navios arrasados
espremidas com mulheres amarelas e bebês que choram
sem poder distrair-se nem com os peixes-voadores
nem com as estrelas que os mastros apontam.
Gastas pelos discos dos fonógrafos
amarradas involuntariamente a peregrinações inexistentes
murmurando pensamentos quebrados de línguas
estrangeiras.
Mas que procura nossas almas viajando
nesses cascos podres
de porto em porto?
Movendo pedras quebradas, respirando
com mais dificuldade a cada dia o frescor do pinheiro,
nadando nas águas desse mar
e daquele mar,
sem tato
sem homens
em uma pátria que não é mais nossa
nem vossa.
Sabíamos que eram belas as ilhas
em algum lugar aqui perto que tateamos
um pouco mais baixo ou um pouco mais alto
um ínfimo espaço.
561
Fernando Pessoa
Desfaze a mala feita para a partida!
Desfaz a mala feita pra a partida!
Chegaste a ousar a mala?
Que importa? Desesperas ante a ida
Pois tudo a ti te iguala.
Sempre serás o sonho de ti mesmo.
Vives tentando ser,
Papel rasgado de um intento, a esmo
Atirado ao descrer.
Como as correias cingem
Tudo o que vais levar!
Mas é só a mala e não a ida
Que há-de sempre ficar!
02/07/1931
Chegaste a ousar a mala?
Que importa? Desesperas ante a ida
Pois tudo a ti te iguala.
Sempre serás o sonho de ti mesmo.
Vives tentando ser,
Papel rasgado de um intento, a esmo
Atirado ao descrer.
Como as correias cingem
Tudo o que vais levar!
Mas é só a mala e não a ida
Que há-de sempre ficar!
02/07/1931
5 444
Fernando Pessoa
Já me não pesa tanto o vir da morte.
Já me não pesa tanto o vir da morte.
Sei já que é nada, que é ficção e sonho,
E que, na roda universal da Sorte,
Não sou aquilo que me aqui suponho.
Sei que há mais mundos que este pouco mundo
Onde parece a nós haver morrer –
Dura terra e fragosa, que há no fundo
Do oceano imenso de viver.
Sei que a morte, que é tudo, não é nada,
E que, de morte em morte, a alma que há
Não cai num poço: vai por uma estrada.
Em Sua hora e a nossa, Deus dirá.
06/07/1934
Sei já que é nada, que é ficção e sonho,
E que, na roda universal da Sorte,
Não sou aquilo que me aqui suponho.
Sei que há mais mundos que este pouco mundo
Onde parece a nós haver morrer –
Dura terra e fragosa, que há no fundo
Do oceano imenso de viver.
Sei que a morte, que é tudo, não é nada,
E que, de morte em morte, a alma que há
Não cai num poço: vai por uma estrada.
Em Sua hora e a nossa, Deus dirá.
06/07/1934
4 219
Fernando Pessoa
Não digas nada! Que hás-me de dizer?
Não digas nada! Que hás-me de dizer?
Que a vida é inútil, que o prazer é falso?
Di-lo de cada dia o cadafalso
Ao que ali cada dia vai morrer.
Mais vale não querer.
Sim, não querer, porque querer é um ponto,
Ponto no horizonte de onde estamos,
E que nunca atinges nem achas,
Presos locais da vida e do horizonte
Sem asas e sem ponte.
Não digas nada, que dizer é nada!
Que importa a vida, e o que se faz na vida?
É tudo uma ignorância diluída.
Tudo é esperar à beira de uma estrada
A vinda sempre adiada.
Outros são os caminhos e as razões.
Outra a vontade que os fará seus.
Outros os montes e os solenes céus.
08/07/1934
Que a vida é inútil, que o prazer é falso?
Di-lo de cada dia o cadafalso
Ao que ali cada dia vai morrer.
Mais vale não querer.
Sim, não querer, porque querer é um ponto,
Ponto no horizonte de onde estamos,
E que nunca atinges nem achas,
Presos locais da vida e do horizonte
Sem asas e sem ponte.
Não digas nada, que dizer é nada!
Que importa a vida, e o que se faz na vida?
É tudo uma ignorância diluída.
Tudo é esperar à beira de uma estrada
A vinda sempre adiada.
Outros são os caminhos e as razões.
Outra a vontade que os fará seus.
Outros os montes e os solenes céus.
08/07/1934
4 156
Fernando Pessoa
Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exacto nem feliz.
Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.
Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.
23/08/1934
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exacto nem feliz.
Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.
Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.
23/08/1934
4 306
Osman Lins
Visões do Movietone
Epígrafe
Viajantes de cristal,
as lentes nos contarão suas visões.
E logo,
tal um vendedor ansioso,
estende a nossos olhos
seu mostruário de imagens
colhido nas retinas transparentes.
Queremos de misérias e alegrias.
Aqui estamos.
§
Os caminhantes ociosos
Na estrada lívida,
multidões caminhavam.
Um violoncelo invisível lembra um cachorro cego,
vagando, à procura de um anjo.
Não o encontrará.
A multidão caminha, estonteada,
e para eles não existem más estradas.
São as solteironas dos caminhos:
não podem mais escolher.
e realizam entre nós aquelas núpcias tristes
Vão e vão
Itinerantes,
nada levam em suas mãos
— até as suas almas deixaram,
na urgência de partir,
em suas terras natais.
Nada levam, nada fazem,
senão vir, silenciosos,
pelos lívidos caminhos.
Nada fazem, os ociosos.
§
Conferência à Beira Mar
Quatro figurões descem do avião
e são conduzidos em automóveis hermeticamente fechados para negociar a paz.
Trazem os bolsos cheios de preocupações e um menino morto no coração parado.
Vão de negro e lúgubres:
os respectivos consulados não concederam passaportes aos seus sorrisos.
— e um clandestino,
foi confiscado pela Guarda Aduaneira
e vendido em leilão a um agente de seguros.
As lâmpadas fotográficas reluzem à sua passagem,
como relâmpagos sem voz
(Oh! Como são breves
e mais inconstantes que os refletores antiaéreos!)
Os figurões se encontram
e três deles erguem os braços
quando o representante norte-americano lhes apresenta a estrela de xerife.
Mas estão junto ao mar,
à sombra de um para-sol cujos gomos são feitos com retalhos de bandeiras
e o xerife joga às ondas seu distintivo astral
que se transforma em estrela do mar
— quem sabe se futura Estrela Dalva?
Cada um fala uma língua e o intérprete é mudo.
Mas de manso,
inofensivo réptil,
crescente luz,
canção que se aproxima,
o mar avança, cresce, envolve-os.
E as quatro cabeças sob a barraca de praia
lembram a Rosa dos Ventos e os quatro pontos cardiais.
E a paz?
Afogou-se.
§
As Bestas Messiânicas
Domingo de sinos presumíveis
e explorações mirins nos arrabaldes do sonho.
Crianças tornam aos portões do Paraíso Perdido
e agora outra vez reconquistado.
Jardim Zoológico —
selva gentil, deserto ameno, polos temperados
A larga piscina é um mar ameninado.
Latitudes se encontram como as varetas de um leque,
como, num bar, marinheiros que não se entendem,
cada um contando a sua lembrança e a sua canção.
As focas zombadoras brilham como nuvens de aurora
e, para as gazelas,
a planície perdida deve ter um gosto pungente
. . . . . . . . . . . [e irrecuperável de infância morta.
Os coelhos, mesmo vivos, já parecem vítimas.
Os elefantes são pausas.
Esplende forte, sacra,
a majestade dos tigres e leões,
e na tranquilidade de uns e outros há um displicente
como se as grades fossem mitos.
São todos sós, são todos exilados.
E das jaulas, do mar ameninado,
de seus exílios, de suas nostalgias,
gritam as bestas,
apostólicas,
sem que ninguém as ouça:
“Deixai vir a mim as criancinhas
e com elas o seu deslumbramento.”
§
A Experiência Ardente
Pássaro sem cântico.
esquife desabitado,
que apreensões de vivos
não ligam a terra,
o avião sem piloto
segue.
Logo mais o atingirão,
matarão o que está morto.
Cálculos matemáticos sopesam as possibilidades da morte,
com precisão infinitesimal
como se buscassem o peso de uma pétala.
Seguros como um deus,
as equações preparam o tiro
e os diagramas fixam o desenrolar da emboscada.
E o tiro embarca
vai ao encontro do pássaro sem cântico.
Fulgem os céus,
choram as asas partidas,
imobiliza-se a hélice com um tremor de criança baleada.
E flor de chamas,
tomba em silencio o morto assassinado.,
com lentidão de túnica vazia.
§
A Moda Sempre Vária
Com um ar de bonecas mecânicas
modelos parisienses condescendem em ostentar as últimas criações da Primavera.
Aos olhos de colegiais, costureiras de subúrbio,
. . . . . . . [mães de família deficitárias e criaturas neutras para quem
. . . . . . . [a moda encalhou no último figurino comprado a já esgarço,
desfilam vestidos que mais parecem ironias.
E ninguém olha os manequins.
Todos contemplam os vestidos,
do mesmo modo que um menino,
há muitos anos,
contemplava as nuvens,
sempre alheias, sempre várias,
além das torres da igreja,
onde os vitrais sorriam nas missas do domingo
e onde as meninas, em maio, eram arcanjos de fitas no cabelo.
Viajantes de cristal,
as lentes nos contarão suas visões.
E logo,
tal um vendedor ansioso,
estende a nossos olhos
seu mostruário de imagens
colhido nas retinas transparentes.
Queremos de misérias e alegrias.
Aqui estamos.
§
Os caminhantes ociosos
Na estrada lívida,
multidões caminhavam.
Um violoncelo invisível lembra um cachorro cego,
vagando, à procura de um anjo.
Não o encontrará.
A multidão caminha, estonteada,
e para eles não existem más estradas.
São as solteironas dos caminhos:
não podem mais escolher.
e realizam entre nós aquelas núpcias tristes
Vão e vão
Itinerantes,
nada levam em suas mãos
— até as suas almas deixaram,
na urgência de partir,
em suas terras natais.
Nada levam, nada fazem,
senão vir, silenciosos,
pelos lívidos caminhos.
Nada fazem, os ociosos.
§
Conferência à Beira Mar
Quatro figurões descem do avião
e são conduzidos em automóveis hermeticamente fechados para negociar a paz.
Trazem os bolsos cheios de preocupações e um menino morto no coração parado.
Vão de negro e lúgubres:
os respectivos consulados não concederam passaportes aos seus sorrisos.
— e um clandestino,
foi confiscado pela Guarda Aduaneira
e vendido em leilão a um agente de seguros.
As lâmpadas fotográficas reluzem à sua passagem,
como relâmpagos sem voz
(Oh! Como são breves
e mais inconstantes que os refletores antiaéreos!)
Os figurões se encontram
e três deles erguem os braços
quando o representante norte-americano lhes apresenta a estrela de xerife.
Mas estão junto ao mar,
à sombra de um para-sol cujos gomos são feitos com retalhos de bandeiras
e o xerife joga às ondas seu distintivo astral
que se transforma em estrela do mar
— quem sabe se futura Estrela Dalva?
Cada um fala uma língua e o intérprete é mudo.
Mas de manso,
inofensivo réptil,
crescente luz,
canção que se aproxima,
o mar avança, cresce, envolve-os.
E as quatro cabeças sob a barraca de praia
lembram a Rosa dos Ventos e os quatro pontos cardiais.
E a paz?
Afogou-se.
§
As Bestas Messiânicas
Domingo de sinos presumíveis
e explorações mirins nos arrabaldes do sonho.
Crianças tornam aos portões do Paraíso Perdido
e agora outra vez reconquistado.
Jardim Zoológico —
selva gentil, deserto ameno, polos temperados
A larga piscina é um mar ameninado.
Latitudes se encontram como as varetas de um leque,
como, num bar, marinheiros que não se entendem,
cada um contando a sua lembrança e a sua canção.
As focas zombadoras brilham como nuvens de aurora
e, para as gazelas,
a planície perdida deve ter um gosto pungente
. . . . . . . . . . . [e irrecuperável de infância morta.
Os coelhos, mesmo vivos, já parecem vítimas.
Os elefantes são pausas.
Esplende forte, sacra,
a majestade dos tigres e leões,
e na tranquilidade de uns e outros há um displicente
como se as grades fossem mitos.
São todos sós, são todos exilados.
E das jaulas, do mar ameninado,
de seus exílios, de suas nostalgias,
gritam as bestas,
apostólicas,
sem que ninguém as ouça:
“Deixai vir a mim as criancinhas
e com elas o seu deslumbramento.”
§
A Experiência Ardente
Pássaro sem cântico.
esquife desabitado,
que apreensões de vivos
não ligam a terra,
o avião sem piloto
segue.
Logo mais o atingirão,
matarão o que está morto.
Cálculos matemáticos sopesam as possibilidades da morte,
com precisão infinitesimal
como se buscassem o peso de uma pétala.
Seguros como um deus,
as equações preparam o tiro
e os diagramas fixam o desenrolar da emboscada.
E o tiro embarca
vai ao encontro do pássaro sem cântico.
Fulgem os céus,
choram as asas partidas,
imobiliza-se a hélice com um tremor de criança baleada.
E flor de chamas,
tomba em silencio o morto assassinado.,
com lentidão de túnica vazia.
§
A Moda Sempre Vária
Com um ar de bonecas mecânicas
modelos parisienses condescendem em ostentar as últimas criações da Primavera.
Aos olhos de colegiais, costureiras de subúrbio,
. . . . . . . [mães de família deficitárias e criaturas neutras para quem
. . . . . . . [a moda encalhou no último figurino comprado a já esgarço,
desfilam vestidos que mais parecem ironias.
E ninguém olha os manequins.
Todos contemplam os vestidos,
do mesmo modo que um menino,
há muitos anos,
contemplava as nuvens,
sempre alheias, sempre várias,
além das torres da igreja,
onde os vitrais sorriam nas missas do domingo
e onde as meninas, em maio, eram arcanjos de fitas no cabelo.
478
Fernando Pessoa
VIII. FERNÃO DE MAGALHÃES
No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.
De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto –
Cingi-lo, dos homens, o primeiro –,
Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.
Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.
De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto –
Cingi-lo, dos homens, o primeiro –,
Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.
Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.
4 782
Fernando Pessoa
IX. ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA
ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA
Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.
Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.
10/01/1922
Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.
Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.
10/01/1922
5 078
Luiza Neto Jorge
Recanto 2
Viver,entretanto,é ver,ir
vendoe também ver incluir dormirsem que nada se
desfaça ou excluano interior dos
sonhos.Pensemos no comércio de viver:passagem dos
naviosquando,a passar,se retêm a espessaàgua do tempo,da
tempestade.Um comércio,apenas-desvio da moedada trajectória
do ouro para o papel.Sempre viver
incluiu andar percorrer voarde avião ou com os braços
ou num ser de maisrodas que nos conduzaa
outro sentido ambulatório.
de Dezanove Recantos
vendoe também ver incluir dormirsem que nada se
desfaça ou excluano interior dos
sonhos.Pensemos no comércio de viver:passagem dos
naviosquando,a passar,se retêm a espessaàgua do tempo,da
tempestade.Um comércio,apenas-desvio da moedada trajectória
do ouro para o papel.Sempre viver
incluiu andar percorrer voarde avião ou com os braços
ou num ser de maisrodas que nos conduzaa
outro sentido ambulatório.
de Dezanove Recantos
3 201
Ronaldo Cagiano
Retroviagem
Adiada a chegada
o mar é só vertigem
o porto está distante.
A noite nos oceanos
é uma tragédia de negrumes
onde se perdem
os homens ávidos de idílios
entre cetáceos ressabiados
e atlânticas saudades.
A estrela que me acompanha
(ou a persigo, em solitária romaria?)
restabelece o ancoradouro
que precocemente fugiu
das garras tênues
de um viandante inconcluso.
Mais inquieta é a esperança
se nela não navego
ou galopam outros sonhos.
A geografia dessas águas
fabrica desafios, enquanto no rosto
mareja o sacrifício da espera.
o mar é só vertigem
o porto está distante.
A noite nos oceanos
é uma tragédia de negrumes
onde se perdem
os homens ávidos de idílios
entre cetáceos ressabiados
e atlânticas saudades.
A estrela que me acompanha
(ou a persigo, em solitária romaria?)
restabelece o ancoradouro
que precocemente fugiu
das garras tênues
de um viandante inconcluso.
Mais inquieta é a esperança
se nela não navego
ou galopam outros sonhos.
A geografia dessas águas
fabrica desafios, enquanto no rosto
mareja o sacrifício da espera.
953
Pablo Neruda
Noite - LXXX
De viagens e dores eu regressei, amor meu,
a tua voz, a tua mão voando na guitarra,
ao fogo que interrompe com beijos o outono,
à circulação da noite no céu.
Para todos os homens peço pão e reinado,
peço terra para o lavrador sem-ventura,
que ninguém espere trégua de meu sangue ou meu canto.
Mas a teu amor não posso renunciar sem morrer.
Por isso toca a valsa da serena lua,
a barcarola na água da guitarra
até que se dobre minha cabeça sonhando:
que todos os desvelos de minha vida teceram
esta ramagem onde tua mão vive e voa
custodiando a noite do viageiro dormido.
a tua voz, a tua mão voando na guitarra,
ao fogo que interrompe com beijos o outono,
à circulação da noite no céu.
Para todos os homens peço pão e reinado,
peço terra para o lavrador sem-ventura,
que ninguém espere trégua de meu sangue ou meu canto.
Mas a teu amor não posso renunciar sem morrer.
Por isso toca a valsa da serena lua,
a barcarola na água da guitarra
até que se dobre minha cabeça sonhando:
que todos os desvelos de minha vida teceram
esta ramagem onde tua mão vive e voa
custodiando a noite do viageiro dormido.
1 253
Pablo Neruda
Tarde - LXXII
Amor meu, o inverno regressa a seus quartéis,
estabelece a terra seus dons amarelos
e passamos a mão sobre um país remoto,
sobre a cabeleira da geografia.
Ir-nos! Hoje! Adiante, rodas, naves, sinos,
aviões acerados pelo diurno infinito
para o olor nupcial do arquipélago,
por longitudinais farinhas de usufruto!
Vamos, levanta-te, e endiadema-te e sobe
e desce e corre e trina com o ar e comigo
vamo-nos aos trens da Arábia ou Tocopilla,
sem mais que transmigrar para o pólen longínquo,
a povoados lancinantes de farrapos e gardênias
governados por pobres monarcas sem sapatos.
estabelece a terra seus dons amarelos
e passamos a mão sobre um país remoto,
sobre a cabeleira da geografia.
Ir-nos! Hoje! Adiante, rodas, naves, sinos,
aviões acerados pelo diurno infinito
para o olor nupcial do arquipélago,
por longitudinais farinhas de usufruto!
Vamos, levanta-te, e endiadema-te e sobe
e desce e corre e trina com o ar e comigo
vamo-nos aos trens da Arábia ou Tocopilla,
sem mais que transmigrar para o pólen longínquo,
a povoados lancinantes de farrapos e gardênias
governados por pobres monarcas sem sapatos.
548
Pablo Neruda
XV - Os homens
O transeunte, viajeiro, o satisfeito,
volta a suas rodas para rodar, a seus aviões,
e acabou o silêncio solene, é necessário
deixar para trás aquela solidão transparente
de ar lúcido, de água, de pasto duro e puro,
fugir, fugir, fugir do sal, do perigo,
do solitário círculo na água
de onde os olhos ocos do mar,
as vértebras, as pálpebras das estátuas negras
morderam o espantado burguês das cidades:
Oh Ilha de Páscoa, não me iludas,
há demasiada luz, estás muito longe,
e quanta pedra e água:
too much for me![2] Partamos!
volta a suas rodas para rodar, a seus aviões,
e acabou o silêncio solene, é necessário
deixar para trás aquela solidão transparente
de ar lúcido, de água, de pasto duro e puro,
fugir, fugir, fugir do sal, do perigo,
do solitário círculo na água
de onde os olhos ocos do mar,
as vértebras, as pálpebras das estátuas negras
morderam o espantado burguês das cidades:
Oh Ilha de Páscoa, não me iludas,
há demasiada luz, estás muito longe,
e quanta pedra e água:
too much for me![2] Partamos!
1 183
Nuno Guimarães
Os Amorados
Na amurada dos navios, na improcedência
Das aves sem lugar, desalojados,
Vão.
E se descobrem um sinal ou um resíduo
Da terra original, é só a móvel,
A geográfica terra do sistema.
Tomados já de amor, in amorados,
Buscam só a morada, sem prefixo.
E, no entanto, há mapas, há sistemas
De orientação indica dores:
É ali, em tal lugar, em tal
Memória.
Um mito embalsamaram
No coração sem metafísica.
Entre sinais de voo e de metáfora
Entre um cantar e a sua escrita.
Palavras que rebentam....
Palavras que rebentam. Aflorando
A pedra, a solidão, deslizam, vagas,
Gramaticais, roendo inconformadas
As arestas, o atrito, puras. Quando
Nos líquidos, no éter, na distancia,
Diluem-se e morrem acabadas.
Não nos corpos, nas rugas, nas arcadas:
Combatem, rumorosas, cal e cântico.
É dificil atarem corpo e vida
Aos que vivem e morrem subjacentes
Subjazendo, talhados para mina.
Mas despertadas, bem ou mal medidas,
Rebentam em ogiva, funcionais
Chamas supostamente adormecidas.
Das aves sem lugar, desalojados,
Vão.
E se descobrem um sinal ou um resíduo
Da terra original, é só a móvel,
A geográfica terra do sistema.
Tomados já de amor, in amorados,
Buscam só a morada, sem prefixo.
E, no entanto, há mapas, há sistemas
De orientação indica dores:
É ali, em tal lugar, em tal
Memória.
Um mito embalsamaram
No coração sem metafísica.
Entre sinais de voo e de metáfora
Entre um cantar e a sua escrita.
Palavras que rebentam....
Palavras que rebentam. Aflorando
A pedra, a solidão, deslizam, vagas,
Gramaticais, roendo inconformadas
As arestas, o atrito, puras. Quando
Nos líquidos, no éter, na distancia,
Diluem-se e morrem acabadas.
Não nos corpos, nas rugas, nas arcadas:
Combatem, rumorosas, cal e cântico.
É dificil atarem corpo e vida
Aos que vivem e morrem subjacentes
Subjazendo, talhados para mina.
Mas despertadas, bem ou mal medidas,
Rebentam em ogiva, funcionais
Chamas supostamente adormecidas.
1 224
Noel Nascimento
Reprise
Ao ancorar a nave
à laje
entre ciprestes
no campo sacro,
liberta no espaço
minha alma há de alegrar-se
de saudades.
Tê-las já é reportar-me
à viagem como se estivesse em curso.
Não seja triste a despedida
qual se de um sonho
não houvesse reprise.
Há miríades de galáxias,
infinidade de astros
e até universos paralelos.
Numa nova nave,
por bondade divina,
hei de encontrar outra Terra,
um mundo igualzinho ao de outrora,
um mesmo sol, a mesma lua,
— a casa, as ruas, as pessoas —,
a cidadezinha no alto
reviver tudo como era,
amar e repetir a vida
da viagem finda.
à laje
entre ciprestes
no campo sacro,
liberta no espaço
minha alma há de alegrar-se
de saudades.
Tê-las já é reportar-me
à viagem como se estivesse em curso.
Não seja triste a despedida
qual se de um sonho
não houvesse reprise.
Há miríades de galáxias,
infinidade de astros
e até universos paralelos.
Numa nova nave,
por bondade divina,
hei de encontrar outra Terra,
um mundo igualzinho ao de outrora,
um mesmo sol, a mesma lua,
— a casa, as ruas, as pessoas —,
a cidadezinha no alto
reviver tudo como era,
amar e repetir a vida
da viagem finda.
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