Escritas

Vai pela estrada que na colina

Fernando Pessoa Ano: 605
Vai pela estrada que na colina
É um risco branco na encosta verde
Risco que em arco sobe e declina
E, sem que iguale, se à vista perde –

A cavalgada, formigas, cores,
De gente grande que aqui passou.
Eram dois sexos multicolores
E riram muitos por onde estou.

Por certo alegres assim prosseguem.
Quem porém sabe se o não sou mais –
Eu, só de vê-los e como seguem;
Eu, só de achá-los todos iguais?

Eles para eles são um do outro;
Pra mim são todos – a cavalgada –,
Numa alegria, distante e neutro,
Que a nenhum deles pode ser dada.

Os sentimentos não têm medida,
Nem, de uns para outros, comparação.
Vai já na curva que é a descida
A cavalgada meu coração.


15/12/1932
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