Poemas neste tema

Vento e Ar

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sopra de mais o vento

Sopra de mais o vento
Para eu poder descansar...
Há no meu pensamento
Qualquer coisa que vai parar...

Talvez essa coisa da alma
Que acha real a vida...
Talvez esta coisa calma
Que me faz a alma vivida...

Sopra um vento excessivo...
Tenho medo de pensar...
O meu mistério eu avivo
Se me perco a meditar.

Vento que passa e esquece,
Poeira que se ergue e cai...
Ai de mim se eu pudesse
Saber o que em mim vai!
1 883
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

IV - Doura o dia. Silente, o vento dura.

........IV

Doura o dia. Silente, o vento dura.
Verde as árvores, mole a terra escura,
Onde flores, vazia a álea e os bancos.
No pinhal erva cresce nos barrancos.
Nuvens vagas no pérfido horizonte.
O moinho longínquo no ermo monte.
Eu alma, que contempla tudo isto,
Nada conhece e tudo reconhece.
Nestas sombras de me sentir existo,
E é falsa a teia que tecer me tece.
1 294
Débora Novaes de Castro

Débora Novaes de Castro

Haicai

concha perolada
descoberta pelos ventos
soprar das areias

varando nuvens,
levando sonhos d’ouro
cavalo alado

921
Afonso X

Afonso X

Senher, Ad-Ars Ie'us Venh 'Querer

- Senher, ad-ars ie'us venh 'querer
un don que'm donetz, si vos plai:
que vul[h] vostr'almiral esser
en cela vostra mar d'alai;
e si o fatz, en bona fe,
c'a totas las na[u]s que la som
eu les farai tal vent de me,
c'or la vam totas a mon.

- Dom Arnaldo, pois tal poder
de vent'havedes, bem vos vai,
e dad'a vós dev'a seer
aqueste dom; mais dig'eu: ai,
por que nunca tal dom deu rei?
Pero nom quer'eu galardom;
mais, pois vo-lo já outorguei,
chamem-vos "Almiral Sisom".

- Lo dom vos deit molt mercejar
e l'ondrat nom que m'avetz mes,
e d'aitam vos vul[h] segurar
qu'en farai un vent tam cortes
que mia dona, qu'es la melhor
del mond e la plus avinen,
farai passar a la dolçor
del temps, con filhas altras cen.

- Dom Arnaldo, fostes errar,
por passardes com batarês
vossa senhor a Ultramar,
que nom cuid'eu que [ha]ja três
no mundo de tam gram valor;
e juro-vos, par Sam Vincent,
que nom é bom doneador
quem esto fezer a ciente.
701
Deborah Brennand

Deborah Brennand

Sempre Algumas Léguas Restam

Em todos os sítios
o vento arranca as folhas secas.

Assim, também é certo
a cerca, mesmo caindo, seguir a terra.

Só o rio desata nós de água
em ramalhetes de pedra.

E sempre algumas léguas restam
para chegar ou partir

na claridade dispersa.

1 130
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Deixa passar o vento

Deixa passar o vento
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…

Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.
1 696
Daniel Cruz Filho

Daniel Cruz Filho

Canto do Homem no Kósmos

Canto I

à pedra hei de permitir único destino:
reencarnação de grão em grão, contínua salina;
e tudo — resíduos de pedra — a que se destina?

palmilhando o Saara sob o inclemente sol
aportei — cercado de toda a gente — no meu deserto:
era o inferno, a sagrada maldição — eu, em caracol, incerto

a pedra avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil candura
ela me mostra o avesso da brandura

a pedra avalia a minha aventura:
sou lânguido trânsito, a pluma no ar,
ela, o nó definitivo, fogo de estrela a brilhar

mais que pedra, ela somente pedra,
(são tantas as cores e formas)
só para rimar: desejo uma mulher Fedra

inscrita na pedra a síntese da semente
ao sopro de vida na chama da vela
e entre uma e outra o tempo da rosa amarela

ei-la pedra: toda ela me fascina,
mas o que assaz a ilumina
é a fenda eterna, precipício a me mergulhar

pedra tibetana, pedra de corais
elaborando no mar a ilha, o atol,
espelhando a luz noturna de um sol

outono, a folha solitária apodrece
mas sei renascerá pedra: é
na pedra que o tempo amanhece e esmaece

é no pedra que o espaço descreve seu vôo,
seu arco circunflexo: a bela íris
de um tigre refletindo a imagem da caça

mas tudo passa, tudo passa,
até o doce murmúrio do vento
afagando lá fora a folha solitária agora

Canto II

afagando lá fora a folha solitária
o doce murmúrio do vento
rege nossa orquestra: sinfonia do movimento

é sentimento, assaz sentimento, o vento
a me fustigar o corpo que ainda sustento,
mais que isso: verso e anverso do invisível

ele — puríssimo oxigênio, nobre elemento —
azula a Terra e põe o cosmonauta a recitar:
"Terra é azul" — Yuri sem querer fez um blue

o vento aventa sempre a dor imprevisível:
ao mar maremoto, ciclone, tufão, furacão,
anunciando um holocausto em germinação

mas se ele traz instantes de tormento,
angústia sem fim ao marinheiro — vendaval,
encantou-se Charles Darwin numa chuva tropical

no Saara árido vento o homem cega,
é névoa, oásis inatingível em imagem,
o avesso do Raso da Catarina: miragem

acaricia o mar, acaricia o peixinho na gaivota,
o Senhor do Bonfim acaricia no sacra Galeota:
ó Senhora da Conceição protegei-nos dos maus ares!

acaricia o Velho e o Mar de Hemingway,
molda o coqueiral de Guarajuba, Itacimirim,
Praia do Forte — faz um célebre Carybé de mim!

o cantor assobia uma bossa nova,
um sambinha de uma nota só:
por que batizei a primogênita Slanowa.

Islanowa, Isla Nueva, Ilha Nova?
um Leão Tolstoi me concedeu a palavra,
apenas emudeci Paslowa, Maslowa

dos Alpes Vollenweider metaliza White winds,
minha morada no verão: eterna Guarajuba,
mas o sábio índio traduz a raiz do sopro: Pituba

Canto III

o sábio índio traduz sopro: Pituba,
o sábio índio é Tupi. Guarany, Txucarramãe,
embalde repito zil vezes: mar é Guarajuba

e nem me toca se no oca do Aurélio
ela (enseada Guarajuba) significa árvore,
ave, peixes, posto que um baiano fê-la

mar, mar aberto, mar de mármore
ou tudo — resíduos de pedra — não passa
de uma indígena rima ricaça?

o mar em março avalia a minha aventura,
desenvoltura do corpo e da alma: nadar
boiando no Porto da Barra (baby que loucura!)

o mar avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil brandura
ele é presságio, mais presságio — ágil

ágil como o cão amarelo: Guarajuba,
Guararruba — assim me diz o herdeiro espanhol,
o cão mais belo e arisco e noturno, sem juba

mas quê sei do mar se não me bronzeio ao sol?
mas quê sei do mar se não ouço teu suave sopro,
se não edifico castelos de mármore, oca, iglu?

A desmoronar, a desmoronar, feito amar,
a larga vaga traga o poema e
emudece a pena, penaliza a brisa em Santanas!

ao mar lacrimejam Nilos e Amazonas,
Pororocas — ouça a tua soledade em foz
e a recôndita fonte: placidez em silente voz

o rio não é do mar espelho
antes, milagres de São Francisco:
se na caatinga seca, acolá revolta feito Corisco

lavadeiras-de-nossa-senhora circunscrevem ondas,
boiam focas marinhas em píncaros de icebergs,
mas o fogo ronca e assalta nosso coração albergue

Canto IV
o fogo ronca e degela em primaveras icebergs
(ápices de água, morada de focas e leões-marinhos)
e assalta e assola meu árido coração albergue

doce, salobro, marinho, num anônimo plâncton
a vulcânica mão do homem viola, viola
da vida a glória, de Deus luz e dádiva

e fere a ferida mais ferrenha, dolorida,
desafinando o cântico de Yuri Gágarin:
Terra à vista, terra na Terra, Terra is blue!

o fogo ronca, a água banha, a brisa sopra
(não a maresia que enferruja vídeos na Pituba)
e plasma-se novo (ou o mesmo?) plâncton de vida

Vulcanu — eis-me aqui: vil cão
a flor mulher? lavas do Vesúvio obcecado
mais uma vez: cão, cão, cão enciumado

infante, exclamei inocente à Santa Rita:
dá-me tua benção, ó Santo, tua benção!
minha mãe esfaqueando galos no quintal

prepara, possessa, caruru de São Cosme e Damião
o olhar silencioso, incógnito, da sacra imagem
pôs-me, lúdico, a atiçar velas em chamas

sobre a bela colcha bordado pela negra Aniceta,
colcha de retalhos — resíduos de Carmen artesã:
como arde em fogo o que a memória reclama!

arde em fogo ao homem o milenar drama
(no Japão hiberna, Vesúvios incendiando Pompéias):
se aqueces no coração o inclemente sol

— gases, coisa magmática, lama, lama, lama-
incerto, no Saara deserto, à pedra declama
genesis, farol, caos e Kósmos, mítico homem em caracol

rima, rima e rima, mais que rima,
à pedra declama em continua salina:
a que se destina? a que se destina? a que se destina?

Canto V

meu destino está inscrito numa pedra angular,
numa pirâmide — catacumba e perfeição — prismática,
jogo de búzios: lindíssimas conchinhas do mar

ó Destino, filho do Caos, iluminai-nos
com teus olhos sem luz no imensa Noite:
às Parcas ordenai nossa sorte em vossa urna!

erguemos uma estátua à Liberdade na América
mas na África pobres e cegos irmãos arianos
aprisionam nosso coração em melancólicos apartados

ó Destino erguemos estátuas como a vossa
(às mãos sustentas depositário de sortilégios
e flutuas qual a lua sobre a Terra nossa)

o destino avalia a minha aventura:
se desrazão é estar em loucura
faço versos, palavreio, à árida secura

a que se destina o homem e sua pedra,
nauta, argonauta, cosmonauta,
à Terra, à Lua, Marte — fenda infinitesimal?

eterna, enigmática fenda a me mergulhar:
oráculo, contemplo a tua esfinge
e finges ao eclipsar meu olhar vesgo

o código genético, a gravidade do sistema solar
mas, resoluto, transcendo ventos e estrelas
ao ungir chagas, a galopar óbices cavalgar

porquanto a pedra em grão em grão refaz
e desfaz e, ressurrecta, nos põe
no crespusculatório a eternizar-nos no linhagem

linhagem de uma raça cuja linguagem
a palavra domou, mas ainda hesita entre flor e canhão
plâncto
465
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Marinha Crespa, Sabedes Filhar

Marinha Crespa, sabedes filhar
eno paaço sempr'um tal logar,
em que ham todos mui bem a pensar
de vós; e por en diz o verv'antigo:
       "a boi velho nom lhi busques abrigo."

E no inverno sabedes prender
logar cabo do fogo, ao comer,
ca nom sabedes que x'há de seer
de vós; e por en diz o verv'antigo:
       "a boi velho nom lhi busques abrigo."

E no abril, quando gram vento faz,
o abrigo éste vosso solaz,
u fazedes come boi, quando jaz
eno bom prad'; e diz o verv'antigo:
       "a boi velho nom lhi busques abrigo."
495
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Efémero Paraíso

Um mundo onde a ignorância é primavera
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.

O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.

Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
1 118
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Círculo Total

Onde estou respiro e ardo. Nada sei. Sou a seiva incandescente do compacto. Mas a densidade coincide com a mais viva ligeireza. A grande massa móvel da folhagem insufla-me um sangue verde que me dá uma sensação aérea de imponderável vigor. Estou completo como uma onda do mar, como uma árvore, como um muro branco. A tranquilidade é absoluta. Ninguém responde, nada responde, é aqui o círculo total. Movimentos leves, movimentos fundos, movimentos obscuros e sempre aéreos, movimentos claros. O que outrora eram os deuses estende-se no esplendor das coisas e dos seres. Que magnífica dilatação de todo o espaço interno! Estou talvez no centro liberto. Sinto a realidade numa profusão harmoniosa que me inclui, que me abraça, que a mim vem e de mim rompe em tranquilos e ardentes jorros. Tudo o que vejo toco. O vento que perpassa nas folhas corre-me pelas veias e pelas fibras. Fibras de um corpo, fibras do universo, vibrando no universo. Suspenderam-se as interrogações, nada pode ser proclamado nem aclamado aqui. Estou no templo natural. Totalmente ébrio de uma totalidade em que repouso e vibro. Sou tudo aquilo em que estou. Folhagem e água, ar, pedras, o sono verde da terra, as cores, os muros, as árvores e as casas adormecidas, rugosas, tudo, o todo inteiro, aqui, na coincidência feliz de ser, de mais ser, ebriamente límpido, misteriosamente idêntico.
1 090
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Vaivém Imóvel

Nada mais que um pouco de luz e um pouco de vento. E umas quantas árvores cuja folhagem tremula e fulge, no delírio do ar. É real o que vejo, o que respiro: sou o próprio espaço em que estou. Trânsito fresco de minúsculas sombras e de folhas cintilantes. Circulam palavras leves de silêncio, de água, de ar. Ninguém é o sopro ligeiro que estimula e tranquiliza o vinho do sangue. Límpido o corpo, aberto e completo, límpida a sua ferida vertical. No vaivém imóvel há uma fulguração de um voo branco de sossegada iridiscência. Livre e certo, numa embriagada incerteza, o coração repousa e arde de luz e de alegria.
1 068
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Ar

Ouves a pequena pergunta dos pássaros? O vento sopra o meu corpo apagado entre palavras dispersas. Os olhos abertos no espaço, não tenho nome nem história. Sou uma semente, uma folha entre folhas. A respiração cresce. Sou exactamente o que sou. Redondo, transparente, nulo. O meu sangue é uma colmeia aberta. Meandros, mil meandros luminosos, rapidíssimos, por onde circulo, ébrio, de sopro em sopro. Sou uma rapariga aérea que ora se apaga na luz, ora se acende com o vento. Para nascer, para continuar nascendo, escrevo como se estas linhas fossem de vento.
1 259
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Corpo do Vento

Obstinado, volve o vento a areia. Sulcos ou palavras de metal alegre e trémulo, despertas e ao acaso, embriagadas de vento, voltijantes, fugidias. De que boca ou lâmpada saiu este vento que revolve a areia como um corpo? Obstinado, leve, invade, confunde, acaricia, sonha. Abre suavemente lábios, inscreve delicadamente umbigos, modela seios, desenha púbis evanescentes. É um corpo, um corpo de vento que voltija, incandescente, na geometria branca do ar. Que são as palavras agora se não forem as pétalas deste corpo vertiginoso? Elas correm, elas querem nascer entre os cabelos e o mar, como lâmpadas verdes, como latidos nupciais.
1 284
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Espera do Vento

Espero. Espero o vento. Coloco-me na área aberta entre a areia e o sal. O meu desejo é pólen, delírio da pedra, labirinto de folhas. É talvez a energia da cinza que me move. Escrevo com três vogais de água pura e quatro palavras de sol branco. Um sinal desenhado na argila, uma minúscula aranha, uma pequena chama no solo, o tremor do ar, tudo indica que as palavras, entre o sono e o sol, se consumarão com a verde energia do desejo liberto.
1 126
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Fábula do Vento

O que eu te quero contar não foi dito nem está escrito na pele de nenhuma página. Ou foi dito e escrito milhares de vezes e milhares de vezes apagado pela própria palavra. Sem visão, no vão do esquecimento, tento iniciar uma fábula do vento até à ondulação, até à transparência. Tenho na boca o sabor de um canto que é já o canto de um sabor aéreo. O meu desejo procura construir cálices incendiados, sílabas amorosas, hieroglifos de água e fogo. Não estou no centro mas na orla da distância, na frescura da soberana inteligência do mar. Reconheço agora todas as qualidades do silêncio, da brancura e da luz e da sua móvel mas permanente equivalência. A interrogação mais pura levanta-se e resolve-se em mil ondas incessantes, nas volutas vertiginosas do vento.
1 165
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entre o Papel E As Árvores

Entre o papel e as árvores, no apoio frontal do ar visível, vazio, vento, vocábulos, breves incoerências, ar no ar. Nadador intermitente, sou, uma e outra vez, reconduzido ao centro das folhas e palavras.
O texto circula, a golpes de ar, em obscuras feridas, em claros movimentos.
Corpo que se enrola no corpo, outro ar cintilante e desenhado, outra água escrita pelos mesmos braços da água que, ondulando, escrevem a longa incoerência unânime. Frases em que o papel respira, frases que logo esquecem no espaço que se abre e que se perde, energia visível em volume, em espaço, em nítido contorno, em fluxo de folhas, em espiral rasa e branca ao nível da terra. Sem reservas, compactamente, banal e inexpugnável, o instante apaga o que o precede, inicia a vigia sonhada dos sulcos brancos do dia.
1 226
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Terra Abandonada

A incoerente no entanto suave
inundação
uma construção de sombras
em que se encontram caminhos mais aéreos
desconhecidos
com o sabor marítimo do silêncio.

Palavras livres que fluem nas veias
palavras por dizer obscuras leves
palavras ilegíveis e todavia transparentes.

Sinais cintilações
do ilegível que é um deus que ignora
e se esconde entre as pedras no silêncio e no sono.

Terra abandonada
terra onde não regressámos
onde o Incompreendido nos espera
onde já não se repousa na sua paz aérea.

Talvez uma pobreza nos liberte
talvez a simplicidade do ilegível
nos leve ao coração das coisas.
Quem sabe até onde se pode arder
no obscuro sol verde entre as coxas da terra?

Sinais sinais que nada dizem
senão o rumor confuso
das vozes da terra.

Sinais para o fundo e para o cimo
para construir a consonância com a amplitude.

Sinais de vento e árvore sinais de gérmen.
Sinais de ubiquidade inteligente e ignorante.
Sinais inexauríveis que abrem horizontes.
Sinais para a nudez sinais para o aberto.
………………………………………...

De novo a voz confusa do vento
a grande figura fugidia e esparsa
o visceral arbusto das palavras.
De novo o sopro selvagem sobre as folhas
de novo a iluminação obscura e rápida.
1 058
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Para Além Das Palavras Com As Palavras

Palavras com o seu peso, apaixonadas
pelo seu peso.
Palavras que demoram nas fronteiras do solo,
palavras trabalhadas pelo vento,
palavras com sede como a água.

Até onde as palavras já não possam progredir.
No cimo do cimo, numa árvore de estrelas.
Um deus murmura, se é um deus o ar, o deus do aberto e do intacto.
Tão perto de ser nada, renasço no vazio, renasço anónimo.
Nada me protege nesta abóbada aberta e tudo me soergue.
Tudo é vago, tudo é irmão do vento, tudo é informulável.
Se escrevesses as palavras poderiam ser lâmpadas de pólen.
Mais longe, mais alto desata-se a serpente dos sinais.
Todo o prodígio é de ar, todo o sentido é ar.
1 040
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Volubilidade do Ser

Um sopro sobre as nuvens, sobre as ondas e as árvores
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
1 109
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Incluído

Algo volúvel lúdico involuntário
algo que se afasta e no entanto me rodeia
recebido pelo solo e por uns lábios dispersos
nascente sem começo porque nascida no meio do ar
constância subtil do que já não me foge
não a paciência mas a facilidade
incluído no grande bloco móvel e difuso
errante ignorante ao sabor do sem caminho
emudecido em diáfana lucidez
com o rosto lavado pelos perfumes da terra
nulo o sentido de tudo nulo e pleno
ouço o que me precede e me ilumina
a ausência é uma figura da presença inesgotável
tudo é fugaz e permanente tudo é evidente e imemorial
pertenço à fugidia origem
e desprendo-me e dissemino-me com o ar.
934
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Vento e conformação

O denso minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.

Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.

E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade

E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.

Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
775
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Mulher Dilacerada

Tinhas um sabor a terra escura e à espuma
amarga de uma árvore. Descobri-te o rosto
sujo trabalhado pelo vento
e pelas marés negras. Um oleoso girassol
enublava-te. O rosto inclinava-se
sobre um ombro matinal dilacerado.

As tuas pernas densas eram nervos atrozes
implantados na pedra. Sobre o teu peito neutro
repercutiam as ondas e os metais furiosos.
O mundo obscurecera nas dilaceradas ancas.
Como um pássaro nocturno entre espelhos abolidos
movias a matéria da tua identidade.
No teu vestido opaco o vento ressoava
num furor de consoantes e relâmpagos escuros.
1 095
Frank O'Hara

Frank O'Hara

Linhas ao ler “A pintura” de Coleridge

Já não me resta bondade alguma
tampouco nenhuma ternura
essa fraqueza foi arrancada de mim-
antes ela cercava meu desejo
como pétalas beiram o centro
de uma flor, e agora suas
sementes se esvaem, delicadas asas
ao vento! Onde há de pousar
na terra acolhedora
eu ainda não sei, mas vou
reconhecer seu primeiro
frágil broto e o saudarei
tão terno quanto a chuva
sabendo que cada sucessiva
flor é mais bela quanto
mais apaixonadamente breve.


:


Lines while reading Coleridge"s "The Picture"


I have no kindness left
and no more tenderness
that weakness"s torn from me-
it once surrounded my desire
as petals fringe the center
of a flower, and now it"s
gone to seed, delicate wings
in the wind! and where it
falls to welcoming earth
I don"t know yet, but I will
recognize the first frail
shoot and greet it then
as tenderly as the rain,
knowing that each successive
flower"s more beautiful,
the more passionately short-lived.
1 143
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Do sal aos tabuleiros de xadrez

Percamo-nos no sal que o sal nos vest
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.

E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.

Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.

Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
672