Vento e Ar
Mário Donizete Massari
Inverno
Dia frio
Dia quente
hoje nevou, e em meu peito
a chama está acesa.
Dia frio
Dia quente
a mensagem trouxe-ma o vento
"alerta companheiro
abra o peito, mas não se mostre
nem busque abrigo de deuses"
E esse dia frio
dia de ficar à beira do fogão de lenha
mãos gélidas, esquentá-las
guarnecê-las de sonhos.
Ricardo Madeira
O Mosteiro Abandonado
Na mais alta montanha: mosteiro abandonado,
Perdido no tempo...
Neve (algodão?)
Cobre bela a paisagem (apenas imagem?)
Sob sol de Verão...
E ela chora, naquela janela aberta,
Aguardando, etérea, a altura certa:
Um só instante,
Tão distante...
Mas, um dia, o dia chegará,
Hora a hora, por essa hora esperará...
Um dia...
Talvez um dia...
E o vento trará nos braços alegria...
Sophia de Mello Breyner Andresen
Divaga Entre a Folhagem Perfumada
E adormece nas brisas embalada.
Aos lagos mostra a sua face nua,
E vai dançar nos palcos vazios da Lua.
Pálida, de reflexo em reflexo desliza,
Não se curvam sequer as ervas que ela pisa.
É ela quem baloiça os lânguidos pinheiros,
Quem enrola em luar as suas mãos
E depois as espalha brancas nos canteiros.
Charles Bukowski
Vidas na Lata do Lixo
e é um vento frio
e eu penso nos
garotos na miséria.
espero que eles tenham uma garrafa
de vinho.
é quando você está na miséria
que percebe que
tudo
tem um dono
e que os cadeados estão por toda
parte.
este é o modo como funciona a
democracia:
você pega aquilo que pode,
tenta manter o que pegou
e acrescentar mais ao acumulado
se possível.
é esta também a maneira de agir de uma
ditadura
a diferença é que elas destroem ou
escravizam seus
dissidentes.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
o vento segue
frio e
cortante.
As filmagens iam começar em Culver City. O bar ficava lá, e o hotel com o meu quarto. A parte seguinte seria feita no distrito da Rua Alvarado, onde ficava o apartamento da mulher.
Depois vinha um bar que frequentávamos na 6th Street com Vermont. Mas as primeiras tomadas seriam em Culver City.
Jon nos levou para ver o hotel. Parecia autêntico. Os bebuns moravam ali. O bar ficava embaixo. Nós ficamos parados, olhando.
– Que tal? – perguntou Jon.
– Sensacional. Mas já vivi em lugares piores.
– Eu sei – disse Sarah. – Eu vi.
Subimos para o quarto.
– Aqui está. Parece familiar?
Era pintado de cinza, como muitos desses lugares. Persianas rasgadas. A mesa e a cadeira. A geladeira coberta de grossa crosta de sujeira. E a pobre cama bamba.
– Está perfeito, Jon. É o quarto.
Fiquei um pouco triste por não ser jovem e estar fazendo tudo aquilo de novo, bebendo e brigando e jogando com as palavras. Quando a gente é jovem, pode realmente aguentar uma surra. A comida não importava. O que importava era beber e sentar à máquina. Eu devia ter sido louco, mas há muitos tipos de loucura, e alguns são muito gostosos. Eu morria de fome para ter tempo de escrever. Não se faz mais isso. Olhando aquela mesa, via-me ali sentado de novo. Naquele tempo estava louco e sabia disso e não importava.
– Vamos descer pra dar outra verificada no bar...
Descemos. Os bebuns que iam aparecer no filme já estavam lá. Bebiam.
– Vamos lá, Sarah, vamos pegar um banco. Tchau, Jon...
O garçom nos apresentou aos bêbados. Eram o Grande Monstro e o Pequeno Monstro, o Nojento, Buffo, Cabeça de Cachorro, Lady Lila, Lance Livre, Clara e outros.
Sarah perguntou ao Nojento o que ele estava bebendo.
– Parece bom – disse.
– É um Cape Cod, suco de amora e vodca.
– Eu tomo um Cape Cod – disse Sarah ao garçom, Cowboy Cal.
– Vodca 7 – eu disse ao Cowboy.
Tomamos algumas. O Grande Monstro me contou uma história de uma briga deles todos com os tiras. Muito interessante. E eu sabia, pelo jeito de ele contar, que era verdade.
Depois veio a chamada para o almoço para os atores e a equipe. Os bebuns ficaram onde estavam.
– É melhor a gente comer – disse Sarah.
Saímos pelos fundos e para leste do hotel. Haviam instalado uma grande banca. Os extras, técnicos, operários e outros já comiam. A comida tinha boa aparência. Jon veio ter com a gente. Pegamos nossas rações na carroça e o seguimos até a ponta da mesa. Quando passávamos, Jon parou. Um homem comia sozinho. Jon apresentou-nos.
– Esse é Lance Edwards...
Edwards fez-nos um leve aceno de cabeça e voltou ao seu filé.
Sentamo-nos na ponta da mesa. Edwards era um dos coprodutores.
– Esse Edwards age como um filho da puta – eu disse.
– Oh – disse Jon – ele é muito acanhado. É um dos caras dos quais Friedman estava tentando se livrar.
– Talvez tivesse razão.
– Hank – disse Sarah –, você nem conhece o cara.
Eu atacava minha cerveja.
– Coma sua comida, Sarah.
Ela ia acrescentar dez anos à minha vida, para o melhor ou para o pior.
– Vamos filmar uma cena com Jack na sala. Você deve vir ver.
– Depois de comermos, vamos voltar pro bar. Quando estiverem prontos pra filmar, mandem alguém nos chamar.
– Tudo bem – disse Jon.
Depois de comermos, contornamos o hotel até o outro lado, verificando-o. Jon nos acompanhava. Vários reboques estacionavam ao longo da rua. Vimos o Rolls-Royce de Jack. E junto a ele um grande reboque prateado, com um anúncio na porta: JACK BLEDSOE.
– Veja – disse Jon –, ele tem um periscópio em cima, pra ver quem se aproxima...
– Nossa...
– Escuta, tenho de acertar umas coisas...
– Tudo bem... Tchau...
Jon tinha uma coisa engraçada. Seu sotaque francês ia desaparecendo à medida que ele só falava inglês nos Estados Unidos. Era um pouco triste.
A porta do reboque de Jack abriu-se. Era ele.
– Ei, entrem!
Subimos os degraus. Uma televisão estava ligada. Uma garota jovem deitava-se no beliche, vendo TV.
– Essa é Cleo. Comprei uma moto pra ela. A gente roda junto.
Um cara sentava-se na outra ponta.
– Esse é meu irmão, Doug...
Eu me aproximei de Doug, ensaiei uns passos de boxe na frente dele. Ele não disse nada. Apenas encarava. Sujeito frio. Ótimo. Eu gostava de caras frios.
– Tem alguma coisa pra beber? – perguntei a Jack.
– Claro...
Pegou um uísque, serviu-me uma dose com água.
– Obrigado...
– Quer um pouco? – ele perguntou a Sarah.
– Obrigada – ela disse. – Não gosto de misturar bebidas.
– Ela está tomando Cape Cods – eu disse.
– Oh...
Sarah e eu nos sentamos. O uísque era bom.
– Gosto deste lugar – eu disse.
– Fique o quanto quiser – disse Jack.
– Talvez eu fique pra sempre...
Jack me lançou seu famoso sorriso.
– Seu irmão não é de falar muito, é?
– Não, não é.
– Um cara frio.
– Ééé.
– Bem, Jack, decorou suas falas?
– Eu nunca olho as minhas falas até o último instante antes da filmagem.
– Sensacional. Bem, escuta, a gente tem de se mandar.
– Eu sei que você consegue, Jack – disse Sarah. – Estamos satisfeitos por você ter o papel principal.
– Obrigado.
No bar, os bebuns ainda estavam lá e não pareciam nem um pouco mais bêbados. Era preciso muita coisa pra derrubar um profissional.
Sarah tomou outro Cape Cod. Eu voltei ao Vodca 7.
Bebemos e ouvimos outras histórias. Cheguei até a contar uma. Talvez houvesse passado uma hora. Aí eu ergui o olhar e vi Jack parado, olhando por cima das portas de vaivém da entrada. Eu via apenas a cabeça dele.
– Ei, Jack – gritei –, entre e tome uma.
– Não, Hank, vamos filmar agora. Por que não vem ver?
– Já vou lá, baby...
Pedimos mais duas doses. E já as atacávamos quando Jon entrou.
– Vamos filmar agora – ele disse.
– Tudo bem – disse Sarah.
– Tudo bem – disse eu.
Acabamos nossas doses, e eu peguei umas duas garrafas de cerveja para levar conosco.
Seguimos Jon por uma escada acima e pelo quarto adentro. Cabos por toda parte. Técnicos mexendo-se de um lado para outro.
– Aposto que poderiam rodar um filme com cerca de um terço desses porras todos.
– É o que Friedman diz.
– Às vezes ele tem razão.
– Tudo bem – disse Jon –, estamos quase prontos. Fizemos alguns ensaios. Agora filmamos. Você – disse para mim – fica nesse canto. Pode ver daqui sem entrar na cena.
Sarah recuou até ali comigo.
– SILÊNCIO! – gritou o assistente de direção de Jon. – PREPARANDO PRA RODAR!
Tudo ficou em silêncio.
Então foi a vez de Jon:
– CÂMERA! AÇÃO!
A porta do quarto abriu-se e Jack Bledsoe entrou cambaleando. Merda, era o jovem Chinaski! Era eu! Senti uma dor mole dentro de mim. Juventude, sua filha da puta, aonde foi você?
Queria voltar a ser o jovem bêbado. Queria ser Jack Bledsoe. Mas era apenas o cara velho no canto, mamando uma cerveja.
Bledsoe cambaleou até a janela junto à mesa. Abriu a persiana escangalhada. Ensaiou uns passos de boxe, um sorriso no rosto. Depois sentou-se à mesa, pegou um lápis e um pedaço de papel. Ficou ali sentado algum tempo, depois puxou a rolha de uma garrafa de vinho, tomou uma talagada, acendeu um cigarro. Ligou o rádio e deu sorte de sintonizar Mozart.
Começou a escrever naquele pedaço de papel com o lápis, enquanto a cena escurecia...
Pegara a coisa. Pegara do jeito que era, quer isso significasse alguma coisa ou não, ele a pegara como era.
Eu me aproximei dele e apertei sua mão.
– Peguei bem? – ele perguntou.
– Pegou – eu disse.
No bar lá embaixo, os bebuns ainda estavam em serviço e com a mesma aparência.
Sarah voltou aos seus Cape Cods e eu tomei a rota do Vodca 7. Ouvimos algumas histórias ótimas. Mas havia uma tristeza no ar, porque depois de rodado o filme, o bar e o hotel iam ser desmontados, para servir a algum fim comercial. Alguns dos fregueses moravam no hotel há décadas. Outros moravam numa estação ferroviária deserta próxima, e havia uma ação judicial para retirá-los dali. Por isso, a bebida era pesada e triste.
Sarah disse por fim:
– Precisamos voltar pra casa pra dar comida aos gatos.
A bebida podia esperar.
Hollywood podia esperar.
Os gatos não esperavam.
Concordei.
Despedimo-nos dos bebuns e fomos para o carro. Eu não me preocupava com a direção. Alguma coisa na visão do jovem Chinaski naquele velho quarto de hotel me estabilizara. Filho da puta, eu fora um jovem touro do caralho. Realmente um fodido de primeira.
Sarah se preocupava com o futuro dos pinguços. Eu também não gostava daquilo. Por outro lado, não podia vê-los sentados em torno da minha porta da frente, bebendo e contando suas histórias. Muitas vezes o charme diminui quando chega perto demais da realidade. E quantos irmãos a gente pode manter?
Eu dirigia em frente. Chegamos.
Os gatos esperavam.
Sarah desceu e limpou as tigelas deles e eu abri as latas.
Simplicidade, era disso que se precisava.
Subimos, tomamos banho, trocamos de roupa e fomos para a cama.
– Que é que aquele pessoal vai fazer? – perguntou Sarah.
– Eu sei. Eu sei...
Aí chegou a hora de dormir. Desci para dar uma última olhada e voltei. Sarah já adormecera. Apaguei a luz. Dormimos. Tendo visto fazer o filme naquela tarde, agora estávamos um pouco diferentes, jamais voltaríamos a pensar ou falar exatamente da mesma forma. Agora sabíamos algo mais, mas, o que era, parecia muito vago e talvez até um pouco desagradável.
– Hollywood
Pablo Neruda
VI - A ilha
ilhas de vento genital, criadas,
cedo multiplicadas pelo vento.
De argila, bosques, barro, de sêmen que voava
nasceu o colar selvagem dos mitos:
Polinésia: pimenta verde, espargida
na área do mar pelos dedos errantes
do dono de Rapa Nui, o Senhor Vento.
A primeira estátua foi de areia molhada,
ele a formou e a desfez alegremente.
Construiu de sal a segunda estátua
e o mar hostil a derrubou cantando.
Mas a terceira estátua que fez o Senhor Vento
foi um moai de granito, e este sobreviveu.
Esta obra que lavraram as mãos do ar,
as luvas do céu, a turbulência azul,
este trabalho fizeram os dedos transparentes:
um torso, a ereção do Silêncio desnudo,
o olhar secreto da pedra,
o nariz triangular da ave ou da proa
e na estátua o prodígio de um retrato:
− porque a solidão tem este rosto,
porque o espaço é esta retidão sem rincões,
y a distância é esta claridade do retângulo.
Lúcio José Gusman
Poema definitivo
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
Pablo Neruda
V - A ilha
Mas aqui, o coroado, o vento vivo, o primeiro,
fundou sua casa, fechou as asas, viveu:
a mínima Rapa Nui repartiu seus domínios,
soprou, inundou, manifestou seus dons
até o Oeste, até o Este, até o espaço unido
até que estabeleceu germes puros,
até que começaram as raízes.
Regina Souza Vieira
Frio Intempestivo
ventando muito
Sinto incomodar-me a fria brisa
Sinto esfriarem-se minhas mãos
Enquanto as folhas arrastando-se
são levadas, poeiras nesses vãos..
Sinto forte frio percorrer-me
Como um vento agudo, perspicaz
Que me quer correr todas as veias
Nunca o senti assim ávido, jamais!
Frio estranho que sequer parece
Vir de fora, cobrir o horizonte
Parecendo me nevar a fronte
Estremecer-me de tanto medo.
Frio estranho, irresistível
A mim me tornando sensível
Desfazendo minha armadura
Essa película meio nublada
Que encobre minha fraqueza
E me torna um tanto escura.
É frio forte, é vento gélido
quebra todo o forte de mim mesma
Meu ânimo se desfaz em lesma
Já nem sei se isto é simples frio
Se isto é apenas forte desânimo
Sei que se me abate, se me quebra
de mim a força, de mim o ânimo.
Lucídio Freitas
O Incêndio
ondas rubras de Sol batem fortes na areia...
No espaço nem sequer um leve ruflo de asa,
Passa aos beijos do Sol que fustiga e esbraseia.
Fogo de um lado e de outro e o vento o incêndio ateia,
Da planície a fazer vasto lençol de brasa;
E o fogo sobe e desce, e volta, e mais se alteia,
E abraça e beija, e morde a ossatura da casa.
Nisto um grande rumor pela terra se escuta.
Braços abertos no ar, soluçando, o Castelo,
Se desmorona, enfim, depois de estranha luta.
Velho Castelo Real! ó sombra de outra idade!...
Lembras hoje, depois desse horrível flagelo,
As ruínas de Sol no poente da Saudade! ...
Luiz Fernandes da Silva
Afirmação
teu corpo se abra como ave
e deixe o tempo desmemorizar o homem.
Quero ouvir o eco e o grito
no fundo de um poço
Quero que meu corpo fique
inerte sobre a mesa
para receber a luz do Cruzeiro do Sul.
Quero que escrevam
meu nome na ribanceira dos rios
no ancoradouro do cais.
Quero que o vento cante
minha lira e corte minha palavra
em mil fatias de desespero.
Quero viver intensamente
as minhas noites de vigília.
Quero ruminar campos de outrora
para pisar nas mãos do vento.
Quero viver sem tua presença
na ausência de todos os teus retratos.
António Ramos Rosa
Não É Uma Imagem
O fogo inteiro, chama do ventre.
Não é uma imagem, eu respiro
com todo o peito desta árvore
e me detenho neste nó.
Eu sou mais cego nesta luz
do que a madeira silenciosa.
Não é uma imagem, é o ar
e a luz que inunda o corpo inteiro.
Não é uma imagem, eu respiro
pelo pulso e pelo ouvido,
e a minha língua lambe o surdo
metal seco desta tarde.
Não é uma imagem, é uma crespa
e nua ramagem sobre o rosto.
Sou trespassado e vulnerado
pelo ar da luz, pela luz do ar.
António Ramos Rosa
O Caminho Que Se Abre E Que Se Perde
quando nos acaricias,
água das folhas, ar
que nos respiras
— que água de caminho breve
em nós se perde?
Que clara palavra
abre o espaço
a este puro caminho
que nos precede?
*
Caminho branco,
sempre o teu solo se perde.
Caminho que se abre,
flecha viva.
Não deixa rastro.
Sua face perdida
é esta:
a sede do ar.
*
Quando o percorro — e ele me percorre
o corpo se renova.
Como o sei eu se um intervalo se forma
onde ele se move
e o seu começo é o seu fim?
Antes da palavra se inicia e acaba,
caminho branco,
prestes a começar sempre,
sem que nunca comece e sempre inicial.
Depois da palavra e antes dela,
flecha viva,
o teu espaço é mortal.
Escrever é perseguir
teu invisível voo
prolongando o túmulo do ar.
António Ramos Rosa
Fronte Ou Limiar
o grande solo do dia,
limiar do ar onde o ar aflora
o ar no ar.
Uma só onda no papel, uma onda nua,
o solo do cimo,
o branco mar do ar.
Se te respiro, janela
aberta sobre o vazio fresco,
o ar da mesa clara
do dia,
percorro-o num voo de sol,
na roda branca do céu,
margem total rasgada de ar,
latitude do centro, largo em fuga.
Se te respiro, sou
o suporte nu do ar.
Breve, tão breve lâmina
à flor do papel, à flor da terra.
Uma madeira nova — boca e vela.
Um puro assomo de ar.
António Ramos Rosa
Creio Em Teu Silêncio, Na Tua Pele de Luz,
no galope violeta, relâmpago terrestre,
animal de chuva, de vento e ar nocturno,
de ventas formidáveis aspirando o ar da noite.
O tempo amadureceu a luz da tua pele.
Minhas palavras tornam-se pedras do teu calor.
Mesmo entre nuvens, cheiras ao estrume do teu chão.
És a manhã do tempo, a madrugada madura.
De obstáculo em obstáculo, procuro o teu alento,
e a cor do ar do tempo, o teu aroma ardente,
a tua pulsação que rasga as rugas da terra.
Creio no teu vigor, na paciência do vagar,
na violência nascente que destrói muro a muro
e em cada pisada deixa um sinal de amor.
António Ramos Rosa
Diz o Objecto E a Imagem Que Não Existe,
diz o elogio do orvalho, a palavra tecida,
órgãos necessários, uma abertura ao lado,
tudo se sobrepõe, se liga na rede destes nomes.
Asfixia quase e sem razão alguma. Algum clamor
ao rés do campo, o ruído da água persistente,
no corpo a náusea e o desejo, o atroz ardor,
o perímetro que permite a dimensão da terra.
Diz a água mais lenta na página da terra,
acorda um clamor de paz, uma ordem escura
de insectos, a frescura das ervas e dos nomes.
Acorda, que é o tempo de acordar a razão,
do clamor do vento, do objecto inerte,
e a imagem que existe é a que permanece.
António Ramos Rosa
Quem Pega o Sol do Osso E Lhe Dá a Boca?
Quem dá o seio firme à mão dilacerada?
Quem saceia de orvalho uma sede nocturna?
Quem abriu esta mão ao turbilhão do dia?
Pulsa a terra e o pulso torna-se o movimento
de fibras minerais ferindo a pedra feliz.
Mil filhos do sol, mil campos, mil abraços
restabelecem a torre, sua pureza rubra.
Ó sabor da alegria, ó sabor de argila!
Aqui é o campo da boca mais sedenta:
Liberta o arco da cabeça,
diz bom dia ao vento.
Rui Costa
Acidente I (helderiana virulenta)
eu às vezes apetece-me que vocês sejam felizes hoje,
roubando aos bocados. Com gotas de sono a morder alto,
rebentando nas asas.
Às vezes procuro chamar a atenção, isto é, por vezes decido morrer
para sempre. Sem anzóis a cair dos braços movendo o ritmo do ar.
E sem pena, horizontal a tudo. Então costumo ver os amigos encostados
uns aos outros, lavando árvores. Ou entrando pelo sangue, com as mãos
todas a dar olhos.
Lembro-me de vocês quando decido morrer para sempre.
E quando sou eterno, comendo folhas sentado.
Sei que há paredes brancas onde as éguas não entram. Ficamos
às vezes à conversa nos rios infinitos, chorando lentamente
uma felicidade louca. E somos loucos perguntando, chovendo
no coração louco. E nada existe que não seja apavorado e
tremendo.
Mas tu sabes. Eu quero que tu oiças. As nuvens são inteligentes
e é por elas que as nossas mãos recebem. Por tudo quanto não existe,
pondo pedras demoradas junto ao lugar do amor. Tantos mortos,
dizes,
órgãos repartidos por tanta nenhuma coisa. Nada. Tanto.
Eu sou louco e compreendo. Eu tenho o meu orgulho e a minha força.
Canso-me. Uso as minhas mãos. Deixo o coração ser alternado
e comestível. E o vento passa lá fora e eu passo cá dentro e lá fora.
E sigo o rumo das papoilas e digo que amo as coisas raras.
Neste extremo lugar dos homens,
coroado de tudo.
António Ramos Rosa
Lanço Uma Linha Ao Vento Lanço Um Lado
de hesitação e de não vontade
como se o desejo me abandonasse abandono-me
até ao desamparo de não saber soltar-me
Mais do que solto aberto e fracturado
no nulo e raso vão em que estremece o branco
vazio de nada ser desejo e mão e corpo
ó fuga de memória sem o ardor da seiva
Não sei qual é o lado onde é só oco e oco
e todo o material se dilui no branco
e todo o horror no não-grito e no espanto
de avançar como cego no desejo de uma árvore
que repentina e fresca abrisse o horizonte
e fosse todo o espaço e todo o mar
Sosigenes Costa
O pôr-de-sol do papagaio
Alfonsina Storni
A carícia perdida
Sai-me dos dedos... No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará... andará...
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?
António Ramos Rosa
Ferozmente Nulo Humilde Árido
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
António Ramos Rosa
Como Uma Diferença Desconhecida Sem Diferença
a lâmina do silêncio branco dentro
o percurso da sombra fresca sobre o mar
numa varanda aberta ao espaço global
forma do vento figura feita de ar
silêncio que retorna sob o frio
corpo descoberto desde as plantas frígidas
com um rosto renovado pelas rajadas de ar
com a face do silêncio em frente sobre o mar
António Ramos Rosa
O Suporte Livre Inicial
no avanço imediato no silêncio do ar
aqui e mais à frente ainda sempre
o excesso novo de cada vez ser ar
no extremo do corpo e no limite insondável
o caminho e uma pergunta a que responde o ar
o avanço e um regresso às origens da língua
a língua toda ela língua de ar
António Ramos Rosa
Com a Cabeça Vibrante Ao Largo
com a cabeça tocando os limites largos
com o vento soprando no vazio da cabeça
com a língua ávida respirando o sol do ar
antes ainda do depois
aqui na avidez perene do ar do mar
o eterno efémero a respirar
sem mais com todo o mais
sulcado todo pelo ar