Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Fernando Pessoa
O meu tédio não dorme.
O meu tédio não dorme.
Cansado existe em mim
Como uma dor informe
Que não tem causa ou fim.
19/06/1915
Cansado existe em mim
Como uma dor informe
Que não tem causa ou fim.
19/06/1915
4 337
Charles Bukowski
Moro em Uma Vizinhança De Assassinatos
as baratas cospem clipes
enferrujados
e o helicóptero dá voltas e voltas
farejando sangue
holofotes esquadrinhando nossos
banheiros
procurando por nosso esconderijo com dupla tampa sob o
colchão
5 caras nesta quadra têm pistolas
um outro tem um
machete
nós somos todos assassinos e
alcoólatras
mas há piores no hotel
atravessando a rua;
eles ficam na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando serem
presos.
aqui cada um de nós tem uma planta que está murchando
em nossa entrada
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da madrugada
fazemos isso
em tons de sussurro
enquanto fora em cada varanda
fica um pequeno pires de ração
que sempre é comido pela manhã
supomos que
pelos
gatos.
enferrujados
e o helicóptero dá voltas e voltas
farejando sangue
holofotes esquadrinhando nossos
banheiros
procurando por nosso esconderijo com dupla tampa sob o
colchão
5 caras nesta quadra têm pistolas
um outro tem um
machete
nós somos todos assassinos e
alcoólatras
mas há piores no hotel
atravessando a rua;
eles ficam na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando serem
presos.
aqui cada um de nós tem uma planta que está murchando
em nossa entrada
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da madrugada
fazemos isso
em tons de sussurro
enquanto fora em cada varanda
fica um pequeno pires de ração
que sempre é comido pela manhã
supomos que
pelos
gatos.
986
Fernando Pessoa
Tudo quanto sonhei tenho perdido
Tudo quanto sonhei tenho perdido
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.
Pobre criança a quem não deram nada,
Choras? É em vão.
Como eu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.
A ti talvez, que não te tens dado,
Daria enfim...
A mim... Sei eu que duro e inato fado
Me espera a mim?
1920
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.
Pobre criança a quem não deram nada,
Choras? É em vão.
Como eu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.
A ti talvez, que não te tens dado,
Daria enfim...
A mim... Sei eu que duro e inato fado
Me espera a mim?
1920
4 503
Fernando Pessoa
Outros terão
Outros terão
Um lar, quem saiba, amor, paz, um amigo.
A inteira, negra e fria solidão
Está comigo.
A outros talvez
Há alguma coisa quente, igual, afim
No mundo real. Não chega nunca a vez
Para mim.
«Que importa?»
Digo, mas só Deus sabe que o não creio.
Nem um casual mendigo à minha porta
Sentar se veio.
«Quem tem de ser?»
Não sofre menos quem o reconhece.
Sofre quem finge desprezar sofrer
Pois não esquece.
Isto até quando?
Só tenho por consolação
Que os olhos se me vão acostumando
À escuridão
13/01/1920
Um lar, quem saiba, amor, paz, um amigo.
A inteira, negra e fria solidão
Está comigo.
A outros talvez
Há alguma coisa quente, igual, afim
No mundo real. Não chega nunca a vez
Para mim.
«Que importa?»
Digo, mas só Deus sabe que o não creio.
Nem um casual mendigo à minha porta
Sentar se veio.
«Quem tem de ser?»
Não sofre menos quem o reconhece.
Sofre quem finge desprezar sofrer
Pois não esquece.
Isto até quando?
Só tenho por consolação
Que os olhos se me vão acostumando
À escuridão
13/01/1920
4 507
Alfonsina Storni
Dorme tranqüilo
Falaste a palavra que enamora
meus ouvidos. Já esqueceste? Bom.
Dorme tranqüilo, deve estar sereno
e charmoso o teu rosto a toda hora.
Quando encanta a boca sedutora
deve ser fresca, seu dizer ameno;
Para teu ofício de amante não é bom
o rosto ardido de quem muito chora.
Reclamam-te destinos mais gloriosos
que o de levar, entre os negros poços
das olheiras, o olhar em duelo.
Cobre de belas vítimas o solo!
Mais dano ao mundo fez a espada fátua
de algum bárbaro rei e tem estátua.
meus ouvidos. Já esqueceste? Bom.
Dorme tranqüilo, deve estar sereno
e charmoso o teu rosto a toda hora.
Quando encanta a boca sedutora
deve ser fresca, seu dizer ameno;
Para teu ofício de amante não é bom
o rosto ardido de quem muito chora.
Reclamam-te destinos mais gloriosos
que o de levar, entre os negros poços
das olheiras, o olhar em duelo.
Cobre de belas vítimas o solo!
Mais dano ao mundo fez a espada fátua
de algum bárbaro rei e tem estátua.
907
Áurea de Arruda Féres
Primavera
O vento acalanta
o inconsolável chorão
no seu desalento...
o inconsolável chorão
no seu desalento...
941
Fernando Pessoa
Nas grandes horas em que a insónia avulta
Nas grandes horas em que a insónia avulta
Como um novo universo doloroso,
E a mente é clara com um ser que insulta
O uso confuso com que o dia é ocioso,
Cismo, embebido em sombras de repouso
Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,
Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo
Me farão nada, como frase estulta.
Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo.
Meu coração, que fala estando mudo,
Repete seu monótono torpor
Na sombra, no delírio da clareza,
E não há Deus, nem ser, nem Natureza
E a própria mágoa melhor fora dor.
31/08/1929
Como um novo universo doloroso,
E a mente é clara com um ser que insulta
O uso confuso com que o dia é ocioso,
Cismo, embebido em sombras de repouso
Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,
Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo
Me farão nada, como frase estulta.
Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo.
Meu coração, que fala estando mudo,
Repete seu monótono torpor
Na sombra, no delírio da clareza,
E não há Deus, nem ser, nem Natureza
E a própria mágoa melhor fora dor.
31/08/1929
3 696
Charles Bukowski
Meu Fiel Servo Índio
eu me virei para acender
a luz. a luz já estava
acesa. eu não estava legal. "Hudnuck!"
berrei para meu fiel servo
índio. "vá chupar meu saco," ele respondeu.
na luz mortiça
eu o vi no sofá com
minha mulher. eu saí
e toquei minha corneta.
3 camelos responderam a meu chamado e vieram
correndo atravessando o quintal.
"Hudnuck!", eu berrei.
"segure a sua onda, paizinho", ele respondeu,
"até eu acabar."
toquei minha corneta. nada aconteceu.
estava cheia de cuspe e
lágrimas.
Hudnuck apareceu na
varanda, fechando seu zíper.
"quero um aumento", ele disse,
"estou trabalhando para nada."
"e eu estou vivendo para nada, Hud:
você não percebe que
eu estou acabado?"
"não fale assim", ele disse,
"você tem uma boa mulher."
minha mulher apareceu na
varanda, "o que você vai querer para
o desjejum, querido?", ela
perguntou.
"bacon e ovos", eu respondi.
"você não, seu maluco!", ela gritou.
"bife e salsicha de fígado", disse
Hudnuck.
"obrigada, querido", disse minha boa
mulher, retornando a nosso
ninho.
toquei minha corneta. um corvo respondeu.
Hudnuck arrancou a corneta
da minha mão. ele a esfregou
na frente da minha melhor
camisa. (ele a estava
usando.)
ele tocou "Hearts and Flowers"
na maldita coisa. meus olhos
ficaram marejados de lágrimas.
resolvi dar-lhe um
aumento. olhando sobre o ombro, eu o vi
retorcer minha cometa até que ela
tomasse a forma de uma cruz
enquanto ele tocava "It Ain't Gonna
Rain No More".
ele tinha mãos fortes, delicadas,
belas. olhei para minhas próprias
mãos, primeiro não consegui achá-las, então
rapidamente
eu as tirei dos meus bolsos
eo
aplaudi.
a luz. a luz já estava
acesa. eu não estava legal. "Hudnuck!"
berrei para meu fiel servo
índio. "vá chupar meu saco," ele respondeu.
na luz mortiça
eu o vi no sofá com
minha mulher. eu saí
e toquei minha corneta.
3 camelos responderam a meu chamado e vieram
correndo atravessando o quintal.
"Hudnuck!", eu berrei.
"segure a sua onda, paizinho", ele respondeu,
"até eu acabar."
toquei minha corneta. nada aconteceu.
estava cheia de cuspe e
lágrimas.
Hudnuck apareceu na
varanda, fechando seu zíper.
"quero um aumento", ele disse,
"estou trabalhando para nada."
"e eu estou vivendo para nada, Hud:
você não percebe que
eu estou acabado?"
"não fale assim", ele disse,
"você tem uma boa mulher."
minha mulher apareceu na
varanda, "o que você vai querer para
o desjejum, querido?", ela
perguntou.
"bacon e ovos", eu respondi.
"você não, seu maluco!", ela gritou.
"bife e salsicha de fígado", disse
Hudnuck.
"obrigada, querido", disse minha boa
mulher, retornando a nosso
ninho.
toquei minha corneta. um corvo respondeu.
Hudnuck arrancou a corneta
da minha mão. ele a esfregou
na frente da minha melhor
camisa. (ele a estava
usando.)
ele tocou "Hearts and Flowers"
na maldita coisa. meus olhos
ficaram marejados de lágrimas.
resolvi dar-lhe um
aumento. olhando sobre o ombro, eu o vi
retorcer minha cometa até que ela
tomasse a forma de uma cruz
enquanto ele tocava "It Ain't Gonna
Rain No More".
ele tinha mãos fortes, delicadas,
belas. olhei para minhas próprias
mãos, primeiro não consegui achá-las, então
rapidamente
eu as tirei dos meus bolsos
eo
aplaudi.
774
Fernando Pessoa
Fica o coração pesado
Fica o coração pesado
Com o choro que chorei.
É um ficar engraçado
O ficar com o que dei...
Com o choro que chorei.
É um ficar engraçado
O ficar com o que dei...
1 509
Charles Bukowski
Um Final Plausível
deveria haver algum lugar para onde ir
quando você não consegue mais dormir
ou você cansou de ficar bêbado
e a erva não funciona mais,
e não me refiro a passar
para o haxixe ou cocaína,
eu me refiro a um lugar para ir além
da morte que está esperando
ou do amor que não funciona
mais.
deveria haver algum lugar para onde ir
quando você não consegue mais dormir
além de um aparelho de TV ou um filme
ou comprar um jornal
ou ler um romance.
é não ter esse lugar para onde ir
que cria as pessoas agora nos hospícios
e os suicídios
suponho que aquilo que a maioria das pessoas faz
quando não há mais lugar algum para onde ir
é ir a qualquer lugar ou fazer qualquer coisa
que dificilmente as satisfaça,
e esse ritual tende a aplainá-las
até que consigam prosseguir de algum modo
mesmo sem esperança.
essas caras que você vê todos os dias nas ruas
não foram criadas
inteiramente sem
esperança: seja generoso com elas:
assim como você
elas não
escaparam.
quando você não consegue mais dormir
ou você cansou de ficar bêbado
e a erva não funciona mais,
e não me refiro a passar
para o haxixe ou cocaína,
eu me refiro a um lugar para ir além
da morte que está esperando
ou do amor que não funciona
mais.
deveria haver algum lugar para onde ir
quando você não consegue mais dormir
além de um aparelho de TV ou um filme
ou comprar um jornal
ou ler um romance.
é não ter esse lugar para onde ir
que cria as pessoas agora nos hospícios
e os suicídios
suponho que aquilo que a maioria das pessoas faz
quando não há mais lugar algum para onde ir
é ir a qualquer lugar ou fazer qualquer coisa
que dificilmente as satisfaça,
e esse ritual tende a aplainá-las
até que consigam prosseguir de algum modo
mesmo sem esperança.
essas caras que você vê todos os dias nas ruas
não foram criadas
inteiramente sem
esperança: seja generoso com elas:
assim como você
elas não
escaparam.
782
Fernando Pessoa
Tens vontade de comprar
Tens vontade de comprar
O que vês só porque o viste.
Só a tenho de chorar
Porque só compro o ser triste.
O que vês só porque o viste.
Só a tenho de chorar
Porque só compro o ser triste.
1 211
Roberto Juarroz
Poema dedicado a Antonio Porchia
Havemos amado juntos tantas coisas
que é difícil amá-las separados.
Parece que se houveram afastado de repente
ou que o amor fora uma formiga
escalando os declives do céu.
Havemos vivido juntos tanto abismo
que sem você tudo parece superfície,
orbita de simulados que resvalam,
tensão sem extensões,
vigilância de corpos sem presença.
Havemos perdido juntos tanto nada
que o hábito persiste e se da volta
e agora tudo é ganância de nada.
O Tempo se converte em anti-tempo
porque já não o pensas.
Havemos calado e falado juntos
que até calar e falar são duas traições,
duas substâncias sem justificação,
dois substitutos.
O havemos buscado todo.
O havemos falado todo.
O havemos deixado todo.
Unicamente não nos deram tempo
para encontrar o buraco de tua morte
ainda que fora também para deixá-lo.
que é difícil amá-las separados.
Parece que se houveram afastado de repente
ou que o amor fora uma formiga
escalando os declives do céu.
Havemos vivido juntos tanto abismo
que sem você tudo parece superfície,
orbita de simulados que resvalam,
tensão sem extensões,
vigilância de corpos sem presença.
Havemos perdido juntos tanto nada
que o hábito persiste e se da volta
e agora tudo é ganância de nada.
O Tempo se converte em anti-tempo
porque já não o pensas.
Havemos calado e falado juntos
que até calar e falar são duas traições,
duas substâncias sem justificação,
dois substitutos.
O havemos buscado todo.
O havemos falado todo.
O havemos deixado todo.
Unicamente não nos deram tempo
para encontrar o buraco de tua morte
ainda que fora também para deixá-lo.
1 137
Fernando Pessoa
Pela rua já serena
Pela rua já serena
Vai a noite
Não sei de que tenho pena,
Nem se é penar isto que tenho...
Pobres dos que vão sentindo
Sem saber do coração!
Ao longe, cantando e rindo,
Um grupo vai sem razão...
E a noite e aquela alegria
E o que medito a sonhar
Formam uma alma vazia
Que paira na orla do ar...
18/06/1929
Vai a noite
Não sei de que tenho pena,
Nem se é penar isto que tenho...
Pobres dos que vão sentindo
Sem saber do coração!
Ao longe, cantando e rindo,
Um grupo vai sem razão...
E a noite e aquela alegria
E o que medito a sonhar
Formam uma alma vazia
Que paira na orla do ar...
18/06/1929
4 282
Antonio Machado
Tenho andado muitos caminhos
Tenho andado muitos caminhos
tenho aberto muitas veredas;
tenho navegado em cem mares
e atracado em cem ribeiras
Em todas partes tenho visto
caravanas de tristeza
orgulhosos e melancólicos
borrachos de sombra negra.
E pedantes ao pano
que olham, calam e pensam
que sabem, porque não bebem
o vinho das tabernas
Má gente que caminha
e vai empestando a terra...
E em todas partes tenho visto
pessoas que dançam ou jogam,
quando podem, e lavoram
seus quatro palmos de terra.
Nunca, se chegam a um lugar
perguntam a onde chegam.
Quando caminham, cavalgam
lombos de mula velha.
E não conhecem a pressa
nem mesmo nos dias de festa.
Onde há vinho, bebem vinho,
onde não há vinho, água fresca.
tenho aberto muitas veredas;
tenho navegado em cem mares
e atracado em cem ribeiras
Em todas partes tenho visto
caravanas de tristeza
orgulhosos e melancólicos
borrachos de sombra negra.
E pedantes ao pano
que olham, calam e pensam
que sabem, porque não bebem
o vinho das tabernas
Má gente que caminha
e vai empestando a terra...
E em todas partes tenho visto
pessoas que dançam ou jogam,
quando podem, e lavoram
seus quatro palmos de terra.
Nunca, se chegam a um lugar
perguntam a onde chegam.
Quando caminham, cavalgam
lombos de mula velha.
E não conhecem a pressa
nem mesmo nos dias de festa.
Onde há vinho, bebem vinho,
onde não há vinho, água fresca.
2 228
Fernando Pessoa
O céu de todos os Invernos
O céu de todos os Invernos
Cobre em meu ser todo o Verão...
Vai p'rás profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!
Por ti meu pensamento é triste,
Meu sentimento anda estrangeiro;
A tua ideia em mim insiste
Como uma falta de dinheiro.
Não posso dominar meu sonho.
Não te posso obrigar a amar.
Que hei-de fazer? Fico tristonho.
Mas a tristeza há-de acabar.
Bem sei, bem sei... A dor de corno...
Mas não fui eu que lho chamei.
Amar-te causa-me transtorno,
Lá que transtorno é que não sei...
Ridículo? É claro. E todos?
Mas a consciência de o ser, fi-la bas-
tante clara deitando-a a rodos
Em cinco quadras de oito sílabas.
03/04/1929
Cobre em meu ser todo o Verão...
Vai p'rás profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!
Por ti meu pensamento é triste,
Meu sentimento anda estrangeiro;
A tua ideia em mim insiste
Como uma falta de dinheiro.
Não posso dominar meu sonho.
Não te posso obrigar a amar.
Que hei-de fazer? Fico tristonho.
Mas a tristeza há-de acabar.
Bem sei, bem sei... A dor de corno...
Mas não fui eu que lho chamei.
Amar-te causa-me transtorno,
Lá que transtorno é que não sei...
Ridículo? É claro. E todos?
Mas a consciência de o ser, fi-la bas-
tante clara deitando-a a rodos
Em cinco quadras de oito sílabas.
03/04/1929
3 926
Carlos Eduardo Bandeira de Mello Gomes
O Silêncio
O silêncio
morre na boca azul da lua
"temos todo o tempo do mundo"
só não tenho tempo de viver
mas vivo, claro verbo profundo
"parece cocaína mas é só tristeza"
o silêncio
nasce no ventre branco do lírio
passa o colírio
e uma gota de orvalho do teu incêndio
morre na boca azul da lua
"temos todo o tempo do mundo"
só não tenho tempo de viver
mas vivo, claro verbo profundo
"parece cocaína mas é só tristeza"
o silêncio
nasce no ventre branco do lírio
passa o colírio
e uma gota de orvalho do teu incêndio
843
Florbela Espanca
Sol Posto
Sol posto. O sino ao longe dá Trindades
Nas ravinas do monte andam cantando
As cigarras dolentes... E saudades
Nos atalhos parecem dormitando...
É esta a hora em que a suave imagem
Do bem que já foi nosso nos tortura
O coração no peito, em que a paisagem
Nos faz chorar de dor e d’amargura...
É a hora também em que cantando
As andorinhas vão p’lo meio das ruas
Para os ninhos, contentes, chilreando...
Quem me dera também, amor, que fosse
Esta a hora de todas a mais doce
Em que eu unisse as minhas mãos às tuas!...
Nas ravinas do monte andam cantando
As cigarras dolentes... E saudades
Nos atalhos parecem dormitando...
É esta a hora em que a suave imagem
Do bem que já foi nosso nos tortura
O coração no peito, em que a paisagem
Nos faz chorar de dor e d’amargura...
É a hora também em que cantando
As andorinhas vão p’lo meio das ruas
Para os ninhos, contentes, chilreando...
Quem me dera também, amor, que fosse
Esta a hora de todas a mais doce
Em que eu unisse as minhas mãos às tuas!...
2 477
Florbela Espanca
A Esta Hora...
A esta hora branda d’amargura,
A esta hora triste em que o luar
Anda chorando, Ó minha desventura
Onde estás tu? Onde anda o teu olhar?
A noite é calma e triste... a murmurar
Anda o vento, de leve, na doçura
Ideal do aveludado ar
Onde estrelas palpitam... Noite escura
Dize-me onde ele está o meu amor,
Onde o vosso luar o vai beijar,
Onde as vossas estrelas co fulgor
Do seu brilho de fogo o vão cobrir! ...
Dize-me onde ele está!... Talvez a olhar
A mesma noite linda a refulgir...
A esta hora triste em que o luar
Anda chorando, Ó minha desventura
Onde estás tu? Onde anda o teu olhar?
A noite é calma e triste... a murmurar
Anda o vento, de leve, na doçura
Ideal do aveludado ar
Onde estrelas palpitam... Noite escura
Dize-me onde ele está o meu amor,
Onde o vosso luar o vai beijar,
Onde as vossas estrelas co fulgor
Do seu brilho de fogo o vão cobrir! ...
Dize-me onde ele está!... Talvez a olhar
A mesma noite linda a refulgir...
1 961
Florbela Espanca
Se as tuas mãos divinas folhearem
Se as tuas mãos divinas folhearem
As páginas de luto uma por uma
Deste meu livro humilde; se poisarem
Esses teus claros olhos como espuma
Tua boca os beijar, lendo-os, um dia;
Se o teu sorrir pairar suavemente
Nessas palavras minhas d’agonia,
Sob esses olhos teus, sob essa boca,
Hão de pairar carícias infinitas!
Às trevas desse livro, assim, ó louca!
A noite atira sóis ao infinito!...
As páginas de luto uma por uma
Deste meu livro humilde; se poisarem
Esses teus claros olhos como espuma
Tua boca os beijar, lendo-os, um dia;
Se o teu sorrir pairar suavemente
Nessas palavras minhas d’agonia,
Sob esses olhos teus, sob essa boca,
Hão de pairar carícias infinitas!
Às trevas desse livro, assim, ó louca!
A noite atira sóis ao infinito!...
1 300
Marcelo Almeida de Oliveira
Shopping center
Olhos de desejo barato.
Vitrines de beleza barata.
sozinhos todos
homens,
desejando,
sozinhos.
Alheios à música ambiente.
- Meu Deus! Quanta falta de amor!
Lágrima solitária
molhou despercebida.
Vitrines de beleza barata.
sozinhos todos
homens,
desejando,
sozinhos.
Alheios à música ambiente.
- Meu Deus! Quanta falta de amor!
Lágrima solitária
molhou despercebida.
965
Pablo Neruda
Os versos do Capitão
Oh dor que envolveram relâmpagos e foram guardando-se
naqueles versos, fugazes e duros, floridos e amargos,
em que um Capitão cujos olhos esconde uma máscara negra
te ama, oh amor, arrancando com mãos feridas
as chamas que queimam, as lanças de sangue e suplício.
Mas logo um favo substitui a pedra do muro arranhado;
frente a frente, de repente sentimos a impura miséria
de dar aos outros o mel que buscávamos por água e por fogo,
por terra e por lua, por ar e por ferro, por sangue e por ira:
então ao fundo de ti e ao fundo de mim descobrimos que estávamos cegos
dentro dum poço que ardia com nossas trevas.
naqueles versos, fugazes e duros, floridos e amargos,
em que um Capitão cujos olhos esconde uma máscara negra
te ama, oh amor, arrancando com mãos feridas
as chamas que queimam, as lanças de sangue e suplício.
Mas logo um favo substitui a pedra do muro arranhado;
frente a frente, de repente sentimos a impura miséria
de dar aos outros o mel que buscávamos por água e por fogo,
por terra e por lua, por ar e por ferro, por sangue e por ira:
então ao fundo de ti e ao fundo de mim descobrimos que estávamos cegos
dentro dum poço que ardia com nossas trevas.
1 422
António Ramos Rosa
A Voz do Papel
Aqui: mas não há um aqui para o ser perdido. Dilaceração do que perdeu o pulso e mal respira, sem ritmo, sem horizonte. Quem fala em voz baixa, voz de terra, idêntica, sussurrante? Nenhuma árvore próxima, nenhuma palavra habitável, nenhuma pulsação terrestre. Espaço, espaço, talvez o espaço de uma palavra perdida. Extrema tenuidade nas frases esparsas, enubladas, nulas. Nada se concentra em clareira ou sombra, nada fustiga o centro da ausência. Nula e nua é a voz branca do papel que não figura, que não abre, que, sem interstícios, repercute uma única matéria inerte.
1 207
Fernando Pessoa
O coração é pequeno,
O coração é pequeno,
Coitado, e trabalha tanto!
De dia a ter que chorar,
De noite a fazer o pranto...
Coitado, e trabalha tanto!
De dia a ter que chorar,
De noite a fazer o pranto...
1 452
Cláudio Ferro
Pensando em Mim
Pensando em mim
este fim é o fim.
Ai de mim,
que amando sou descartado.
Que descartado saio amando,
e no fim, igual ao começo,
me envolvo em novos tropeços,
num sem fim de findar.
Findar novos tropeços.
Igual ao começo, saio amando.
Sou descartado.
Ai de mim.
É o fim em mim.
Num sem fim me envolvo.
E no fim...
Que descartado!
Que amando!
Ai de mim!
Este fim...
Pensando...em mim...
Ai de mim.
Descartado e no fim...findar!
Este fim é o fim!
Ai de mim!
05 de Junho de 1997 19:59
este fim é o fim.
Ai de mim,
que amando sou descartado.
Que descartado saio amando,
e no fim, igual ao começo,
me envolvo em novos tropeços,
num sem fim de findar.
Findar novos tropeços.
Igual ao começo, saio amando.
Sou descartado.
Ai de mim.
É o fim em mim.
Num sem fim me envolvo.
E no fim...
Que descartado!
Que amando!
Ai de mim!
Este fim...
Pensando...em mim...
Ai de mim.
Descartado e no fim...findar!
Este fim é o fim!
Ai de mim!
05 de Junho de 1997 19:59
971