Escritas

Outros terão

Fernando Pessoa Ano: 606
Outros terão
Um lar, quem saiba, amor, paz, um amigo.
A inteira, negra e fria solidão
Está comigo.

A outros talvez
Há alguma coisa quente, igual, afim
No mundo real. Não chega nunca a vez
Para mim.

«Que importa?»
Digo, mas só Deus sabe que o não creio.
Nem um casual mendigo à minha porta
Sentar se veio.

«Quem tem de ser?»
Não sofre menos quem o reconhece.
Sofre quem finge desprezar sofrer
Pois não esquece.

Isto até quando?
Só tenho por consolação
Que os olhos se me vão acostumando
À escuridão


13/01/1920
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