Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

WOE SUPREME

A friend said once to me: «All that thou writest,
Surely 'tis fancy, and pretence, and feigned;
Surely the moaning wherewith thou affrightest
The healthy mind is preconceived and strained!

´ln all the songs and tales that thou indictest
Why's there no word that is not hard or pained?
Why in good things and true thou not delightest,
But even in youth by thee joys are disdained?»

Because, dear friend, thought to be mad is sweet
Sometimes, and though at others nameless woe,
Yet never human pain the pain can meet

Of the mad brain that doth its madness know;
Because my science learn'd has made complete
The knowledge of an ill that cannot go.
1 386
Sânzio de Azevedo

Sânzio de Azevedo

Soneto

Já que buscas um sonho e não o alcanças,
pastor de enganos, cala a tua avena!
Foram-se todas as ovelha mansas
que conduzias na manhã serena...

Da tua terra fértil mas pequena
tirou-te um dia a sede das andanças!
Partiste, então; mas nessa idade amena
tangias um rebanho de esperanças!

Hoje, nas tardes tristes e vermelhas,
anda a apascentar outras ovelhas,
e estás perdido de intranqüilidades...

Buscas (não vês?) um bem que não existe;
e nem percebes que vagueias, triste,
conduzindo um rebanho de saudades...

1 117
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ASPIRATION

Joyless seeing me to be
Mother Nature asked of me:
        «What desirest thou?
Whence comes this thy misery?
Whence the sadness on thy brow?
        Tell me what thy wish is.»

- «To give it thou art powerless.
Something lovelier than love,
Bluer than the sky above,
Truer than the truth we have
Something better than the grave,
Aught that in the soul has root,
Something that no mistress' kiss
Nor mother's love can substitute.
But I, dreaming, do pollute
With my dream its object's day.»

In the silence absolute
Of my soul I hear it say:

´'Love can make me but to weep,
        Glory maketh me but pine.
        Give the world with my keep,
        And still nothing will be mine.'»

- «But what feelest thou in thee?»

- «Hope and misery the first,
Then despair and misery.

´Oh, it is a desire, a thirst
The limits of my soul to burst,
To spring outside my consciousness,
        I know not how nor why;
A wish with moonlight wings to fly
Past the high walls of distress.
Lifting my most daring flight
Up, far up, beyond all night,
More than eagles fly in air
Would I in that atmosphere.

«Something more near to me in space
        Than my body is. In fine
Something than myself more mine.
Something (in what words to trace
Its nature?) nearer in its bliss
To me than my own consciousness.
The Something I desire is this.
It is further than far away
And yet (its nature how to find?)
        Closer to me than my mind,
        Nearer to me than to-day.»
1 407
Sebastião Corrêa

Sebastião Corrêa

Se Assim Fosse

Se a dura sorte me apontasse, um dia,
Outro destino, a mim, outra ventura,
E me arrancasse desta vida escura,
Outra seria, então, minha alegria.

Se o coração de quem meus passos guia,
Compreendesse a extensão desta amargura,
Talvez sentisse a mesma desventura
Que às vezes sinto, em transes de agonia.

Se essa visão querida, que meus olhos
Viram, tivesse o coração humano,
Um coração que conhecesse o amor,

Certo, me não teria entre os abrolhos,
Nem eu padeceria o desengano,
No exílio escuro a que me trouxe a dor.

724
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Canto Segundo

And her head droo'd as when the lily lies
O'er charged with rain.
Don Juan.


I

Dorme! ao colo do amor, pálido amante,
Repousa, sonhador, nos lábios dela!
Qual em seio de mãe, febril infante!
No olhar, nos lábios da infantil donzela
Inebria teu seio palpitante!
O murmúrio do amor em forma bela
Tem doçuras que esmaiam no desejo
Dos sonhos ao vapor, na onda de um beijo!

II

Que importa a perdição manchasse um dia
A alvura virginal das roupas santas
E o mundo a esse corpo que tremia
Rompesse o véu que tímido alevantas?
E à noite lhe pousasse a fronte fria
Nesse leito em que trêmulo te encantas
E ao batejo venal murchasse flores,
Flores que abriam a infantis amores?

III

Que importa? se o amor teu rosto beija,
Se a beijas nua e sobre o peito dela
Teu peito juvenil ama e lateja!
Se tua langue palidez revela
Que tua alma febril sonha e deseja
Desmaiar-lhe de amor, gemer com ela,
Ébrio de vida, a soluçar d'enleio,
Pálido sonhador morrer-lhe ao seio!

IV

Que importa o mundo além? teu mundo é esse
Onde na vida o coração te alegra!
Teu mundo é o serafim que às noites desce
E que lava no amor a mancha negra!
É a névoa de luz onde não lê-se
Escrita à porta vil a infame regra
Que assinala o bordel à mão poluta
E diz nas letras fundas — prostituta!

V

A essa pobre mulher na fronte bela
Anátema, escreveu a turba fria!
Banhe o remorso o travesseiro dela,
Corram-lhe a mil da pálpebra sombria
Prantos do coração, não há erguê-la
A eterna maldição. E quem diria
A solitária dor, da noite ao manto
Que lavra o seio à cortesã em pranto?

VI

Ah! Madalenas míseras! ardentes
Quantos olhos azuis se não inundam
Nos transes do prazer em prantos quentes
Quando os seios febris em ais abundam,
Que o amante nos óculos trementes
Crê sonhos que do amor no mar se afundam!
Que suspiros no beijo que delira
Que são lágrimas só! que são mentira!

VII

E quantas vezes na cheirosa seda
Da longa trança desatada, solta,
Onde o moço de gozos embebeda
A fronte à febre juvenil revolta;
Quando a vida, o frescor, a imagem leda
De esp'rança que morreu ao leito volta;
As lágrimas na dor ferventes correm...
Como em céu de verão estrelas morrem?

(...)

IX

Amar uma perdida! que loucura!
Mas tão bela! que seio de Madona!
Nunca amara tão nívea criatura
Como aquela mulher que ali ressona!
(...)

Imagem - 00280001


Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série O Poema do Frade.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1

NOTA: "O Poema do Frade" é composto de 5 cantos; o segundo é composto de 28 oitava
2 096
Martha Medeiros

Martha Medeiros

foram tantas noites de insônia

foram tantas noites de insônia
roubando os poucos anos que tinha
perdi a conta dos prantos
contei carneiros e os dias
e os dias nunca passavam
ou passavam e eu não via
ficava um aperto no peito
nem tudo entendia como era
mas que era bonito eu sabia
1 032
Taumaturgo Vaz

Taumaturgo Vaz

Ri

Não conheces da vida o negro drama...
Não conheces a dor jamais vencida...
Viver rindo?! cuidado que na lida
Não te queime do amor a ardente chama.

Nunca sintas o fel que nos derrama
Dentro do peito essa ilusão perdida...
Ai! nunca saibas como dói a vida
Quando a gente é distante de quem ama.

Nunca saibas que o mundo é feito apenas
De amarguras cruéis, de duras penas
E de espinhos que a gente vão ferindo...

Sim! que a vida te corra sempre mansa!
Que tu sejas assim, sempre criança
E passes neste mundo sempre rindo!...

1 019
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Idéias Íntimas

FRAGMENTO.
La chaise ou je m'assieds, la natte ou je me couche,
La table ou je t'écris, ............................
....................................................
Mes gros souliers ferrés, mon bâton, mon chapeau,
Mes livres pêle-mêle entassés sur leur planche
.....................................................
De cet espace étroit sont tout l'ameublement.
LAMARTINE. Jocelyn.

I

Ossian o bardo é triste como a sombra
Que seus cantos povoa. O Lamartine
E' monótono e belo como a noite,
Como a lua no mar e o som da ondas...
Mas pranteia uma eterna monodia,
Tem na lira do gênio uma só corda,
Fibra de amor e Deus que um sopro agita:
Se desmaia de amor a Deus se volta,
Se pranteia por Deus de amor suspira.
Basta de Shakespeare. Vem tu agora,
Fantástico alemão, poeta ardente
Que ilumina o clarão das gotas pálidas
Do nobre Johannisberg! Nos teus romances
Meu coração deleita-se... Contudo
Parece-me que vou perdendo o gosto,
Vou ficando blasé, passeio os dias
Pelo meu corredor, sem companheiro,
Sem ler, nem poetar. Vivo fumando.
Minha casa não tem menores névoas
Que as deste céu d'inverno.... Solitário
Passo as noites aqui e os dias longos;
Dei-me agora ao charuto em corpo e alma;
Debalde ali de um canto um beijo implora,
Como a beleza que o Sultão despreza,
Meu cachimbo alemão abandonado!
Não passeio a cavalo e não namoro;
Odeio o lasquenet... Palavra d'honra!
Se asim me continuam por dois meses
Os diabos azuis nos frouxos membros,
Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.

II

Enchi o meu salão de mil figuras.
Aqui voa um cavalo no galope,
Um roxo dominó as costas volta
A um cavaleiro de alemães bigodes,
Um preto beberrão sobre uma pipa,
Aos grossos beiços a garrafa aperta...
Ao longo das paredes se derramam
Extintas inscrições de versos mortos,
E mortos ao nascer... Ali na alcova
Em águas negras se levanta a ilha
Romântica, sombria à flor das ondas
De um rio que se perde na floresta...
Um sonho de mancebo e de poeta,
El-Dorado de amor que a mente cria
Como um Édem de noites deleitosas...
Era ali que eu podia no silêncio
Junto de um anjo... Além o romantismo!
Borra adiante folgaz caricatura
Com tinta de escrever e pó vermelho
A gorda face, o volumoso abdômen,
E a grossa penca do nariz purpúreo
Do alegre vendilhão entre botelhas
Metido num tonel... Na minha cômoda
Meio encetado o copo inda verbera
As águas d'ouro do Cognac fogoso.
Negreja ao pé narcótica botelha
Que da essência de flores de laranja
Guarda o licor que nectariza os nervos.
Ali mistura-se o charuto Havano
Ao mesquinho cigarro e ao meu cachimbo.
A mesa escura cambaleia ao peso
Do titânio Digesto, e ao lado dele
Childe-Harold entreaberto ou Lamartine
Mostra que o romantismo se descuida
E que a poesia sobrenada sempre
Ao pesadelo clássico do estudo.

(...)

Imagem - 00280001


Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1

NOTA: Poema composto de 14 parte
8 548
Susana Pestana

Susana Pestana

Uma Lágrima

Passou por mim uma voz
Um estoiro!
Equilibrado na luz do dia
derradeiras esperanças
mostradas pela realidade acordada
Um despertar sem aviso
Um olhar entreaberto nas metades agitadas.
de um dia adulto...
O brilho nos olhos
Infantilidades adormecidas!

Tu

Criança que espreitas às escondidas
dentro da minha vida num quarto pequeno.
De olhos arregalados
Congelados num momento de dor
em feridas que se deslizam
no despertar de uma lágrima que não rola.
Uma apenas!
Sabedora lágrima que és, minha amiga
foge desse olhar arranhado pelos anos
e sobrevoa por galhos rijos e carinhosos.
vultos aquecidos por momentos.
Cresce por fora
voa!

878
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Estrada do Silêncio

Apalpo os
passos que dou lentamente...
vergado,
ando pelas ruas,
rasgando o chão de pedras nuas,
humilhado,
à procura de um sinal ardente.
Vai o sol poente encontrar-me
à beira mar deitado.
No meu peito,
vulcões de sangue quente
desfazem as imagens da mente.
Apetece-me rasgar o silêncio estúpido
fazer das tiras, uma longa trança de desejo
e banhá-la no sangue translúcido
que escorre pela face escondida.
Apetece-me desfazer palavras
tornando-as insignificantes no deslocamento do tempo,
quebrar silabas, dando movimento
ao ardor alojado no peito.
Arrancar os segundos ao tempo,
destruindo a monotonia do saber.
Arrancar os ponteiros do contratempo..
não continuar a sofrer.

1 224
Martha Medeiros

Martha Medeiros

tinha na época pouco mais que

tinha na época pouco mais que
treze mas já sabia que as pessoas
mentiam às vezes e intuía que meu
destino seria melancólico caso eu
não tomasse uma medida urgente
inventei então de ser alguém
que atravessaria paredes e
sem que ninguém percebesse
colheria dados para um poema
que um dia escreveria
mesmo que você não lesse


mas você está lendo e agora
sabe tudo a meu respeito, a dor
que trago, o amor que sinto, a
fera doce que satisfaz seu maior
instinto e que não conhece nenhum
retrato mais perfeito
1 088
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Âncora

Existe
algo que de mim se aparta
que d’uma alma dilapidada,
agora manca, quase amputada,
sem seu orgulho, dilacerada.

Que teu silêncio, já me roubara,
chorando agora a sua falta,
faltando ele, me resta nada.
perco a herança de minha casa.

Que nesse porto já ancorava
tão pobre alma de muitas lágrimas
mas teu silencio só açoitava
não parecendo já lapidada.
Ancora
essa alma..

1 071
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Pássaros Presos

Chorarei
por ti meninas,
Pássaros presos nas matas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a que mata,
Fria águia.

Chorarei por ti meninas,
Ratos revirando as latas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a Gata,
A que caça nas latas.

Chorarei por ti meninas,
Prostitutas das praças.
Lamentarei por mim meninas,
Sou muitas praças,
Aquela que paga.

Chorarei por ti meninas,
Escravas de suas casas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a dona da casa,
Senhora de Escravas.

Chorarei por ti meninas,
Mais só chorarei.
Diante de ti sou Fraca,
Sociedade Parca,
Sou vossa Mãe Pátria.
1 065
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Amanhã é Longe Demais

Fragmentos
sensíveis
Andam pelo tempo
Marcando o ritmo
Do voo das aves invisíveis

Doces melancolias
Desfazem-se pelos mistérios dos olhares
A beleza navega pelos sete mares
Diluída no brilho dos sonhos

Sombras de movimentos ancestrais
Dançam a beleza da luz imaculada
Por entre os astros do silêncio
Libertando transparências sentimentais.

Na baía das lendas
Abraçando a leveza dos espíritos
Gotas cristalinas de fontes eternas
Escorrem suavemente sonhadoras

Libertam o agora
Das profundezas do sonho da vida
E a sombra misteriosamente adormecida
Diz-nos que chegou a hora.
1 322
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em Cinza E Em Verde

Êta semana triste! Os cavalinhos,
com surpresa estampada nos focinhos,
estacam de repente, por decreto.
Não era o meu esporte predileto,
mas vejo que a cidade se esvazia,
hora a hora, de mais uma alegria,
um prazer, e só resta, no trabalho,
sentir da austeridade o cheiro de alho.
O futebol, também, só aos domingos?
Dizem, não sei. E lacrimejam pingos
de tédio, mau humor. Brincam (boatos)
que será proibido usar sapatos
de mais de mil cruzeiros. Mas Bellini
é passado pra trás? Ainda retine
o coro vibrantíssimo, profundo,
ao bravo capitão… Copa do Mundo,
vais-te tornando taça de amarguras.
Sairão do fel as seleções futuras?
Pois, se tal não bastasse, eis que o cowboy
tomba sem um disparo, e quase dói
ver que com Gary Cooper morre um pouco
do mito herói-pacato em mundo louco.
Magro, desajeitado, qualquer um
de nós se via nele, alto, em High Noon.
Outros informes, turvos ou cinzentos,
há por aí, mas salve, ó quatrocentos
milhões — mais o bilhão — em cobre fino!
(Buracos a tapar, de Juscelino.)
Desses dólares não verei a cor?
Estou satisfeito, seja como for,
ao ver, toda azul-claro, Marta Rocha,
qual princesa de um conto de carocha,
azulmente sorrindo para a vida.
Tanta gente a fitá-la, comovida,
pois a beleza é — ninguém se ilude —
uma promessa de beatitude.
Faltam-me espaço e tempo (meus algozes),
mas vou daqui saudar o Herbert Moses,
que, ao longo de trint’anos de ABI,
soube tornar o que era abacaxi
numa cesta de flores e de abraços,
unindo os desunidos, em seus laços.
Oh velhinho eletrônico, de intensa
palpitação sempre em favor da imprensa!
(Nem acabei a crônica, e, no vento,
vem sua carta de agradecimento.)
21/05/1961
999
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Órfã

Trazemos
no peito a mesma magoa.
Sendo ela a perda, a saudade e a tristeza,
Que sempre verterá lagrimas,
Luminosas claras águas.
Para que nessas nossas almas
Constantemente lavadas,
Nunca cresçam ódio, ira ou raiva,
Tornando-nos criaturas
Amarguradas.

Da presença de teu pai
Foram nossas vidas amputadas,
Mais nunca nos será roubada
A lembrança ou a saudade,
Daquela amada alma,
Pois ficastes como toda a herança
E o espólio desta saga.

Lembrando nos teus tristes traços,
Nos da face ou nos da própria alma,
A passagem em nossas vidas
Daquele ente amado,
Que hoje em ti abraço
Vertendo Lágrimas.

908
Inácio José de Alvarenga Peixoto

Inácio José de Alvarenga Peixoto

Ao mundo esconde o Sol seus resplendores

Ao mundo esconde o Sol seus resplendores,
e a mão da Noite embrulha os horizontes;
não cantam aves, não murmuram fontes,
não fala Pã na boca dos pastores.

Atam as Ninfas, em lugar de flores,
mortais ciprestes sobre as tristes frontes;
erram chorando nos desertos montes,
sem arcos, sem aljavas, os Amores.

Vênus, Palas e as filhas da Memória,
deixando os grandes templos esquecidos,
não se lembram de altares nem de glória.

Andam os elementos confundidos:
ah, Jônia, Jônia, dia de vitória
sempre o mais triste foi para os vencidos!


In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 196
3 455
Stéphane Mallarmé

Stéphane Mallarmé

Tristeza de verão

O sol, na areia, aquece, ó brava adormecida,
O ouro da tua coma em banho langoroso,
Queimando o seu incenso em tua face aguerrida,
E mistura aos teus prantos um filtro amoroso.

Desse branco fulgor a imóvel calmaria
Te faz dizer, dolente, ó carícias discretas,
‘Jamais nós dois seremos uma múmia fria
Sob o antigo deserto e as palmeiras eretas!’

Porém os teus cabelos, rio morno, imploram
Para afogar sem medo a nossa alma triste
E encontrar esse Nada que em teu ser não medra.

Degustarei o bistre que teus cílios choram
Para ver se ele doa àquele que feriste
A insensibilidade do azul e da pedra.

(Stéphane Mallarmé, 1864, trad. Augusto de Campos)
1 651
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Deserto

Cegueira límpida. Silêncio
de um incêndio. Que odor
nas áridas axilas!
Ela escuta a música do sol.

Divagações, figuras
esvaem-se na brancura.
Cegas frases de areia
no deserto da mesa.

Nada, ninguém. Retorno
à matriz branca. Ausência.
Espaços nus e inertes.
Mineral simplicidade.

Querer e não querer no início.
O risco é apenas um sopro
para incendiar o vento
no esquecimento do mundo.
532
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Não Lugar

Múltiplas vozes anulam-se
no branco. A visão não é
da vibração dos actos
mas de máscaras brancas

invioláveis. A perspectiva
muda por momentos. Súbitas
muralhas fulgurantes,
uma mão tão antiga como a terra.

De súbito enegrece
a paisagem do mar. Nenhum rosto
ou palavra
ascende da terra.

Apenas uma árvore solitária
e um fogo negro na espuma
enevoada. É o lugar da
disparidade e da cegueira.

A opressão é permanente,
as relações indiscerníveis.
700
Martha Medeiros

Martha Medeiros

tão profundamente triste

tão profundamente triste
fiquei depois daquele beijo
que já não era desejo e sim hábito
de todos os nossos encontros


era verão e eu não sabia
que certas coisas não têm fim
passei noites em claro procurando entender


o que enfim não se explica
chamam vida e é assim
1 043
Odete Silva

Odete Silva

Vazio

Rasguei
livros envelhecidos pelos meus olhos
que nada me dizem de ti

Pintei quadros na parede do meu quarto
mas, não eras tu quem vi......

Percorri o rasto dos teus passos,
só minha sombra me seguiu

Nos lábios alimentei beijos com néctar de bem-querer
mas, a espera foi tão amarga......

quis amar-te sobre pétalas morenas,
no chão perfumado do teu corpo,
quando só ausência bateu á minha porta.

A noite veio vazia de ti,
vestida de fantasmas absortos
com as mãos petrificadas
pela solidão do dia.

663
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Negra I

A que diz não e nunca
inexorável e negra
a impossível e só
pedra desolação.

Quando imensamente cresce
abraçando desmembrando
toda a distância obscura
estéril inútil cega.

Que silêncios alucinam
a já nunca mensageira
dos obscuros relâmpagos
de um pensamento sem música.

Já nos cinzentos abismos
sem jardim nem horizonte.
Ávida, inerme, enorme
delira palavras vãs.
1 040
Agostina Akemi Sasaoka

Agostina Akemi Sasaoka

Cântico

Abre-te,
anjo,
das asas que pendes
e rola vagaroso
entre os espinhos da coroa.
Sucumbe,
ainda tolo,
dentro do último riso
à espera do mar.
Nada cantará esta noite
- de crepúsculo inusitado -
Dos ossos que sustentam
teus olhos em sangue,
extraio, sem cuidado,
o único vestígio
da vida decadente.
Não mintas,
ainda que a boca
gravídica
tente o suicídio.
Dá a paz
a todos os insetos
abaixo de teu olhar.
Sepulta-me
entre as pétalas
do cárcere dos lobos.
Estás certo...
Ainda que o sol
se deteriore,
sou a porta.

826