Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Edmir Domingues
Soneto neste tempo
Debaixo deste sol, das armas vivas
(mais do que dantes vivas, é contado)
espraia-se o clamor, porque é do agrado
do Homem Novo de faces fugitivas.
Ora, as águas e as flores do passado
beberam do sabor das mais nocivas.
Conhecem como amargam negativas
na linguagem do amor descompensado.
Morreremos de enfarte, nestes dias
quando a paz desertou das noites frias
todas em sobressaltos perdulárias.
Como em versos antigos resta um passo.
Morrermos, pobre amor; num grande abraço,
quando morram no peito as coronárias.
(mais do que dantes vivas, é contado)
espraia-se o clamor, porque é do agrado
do Homem Novo de faces fugitivas.
Ora, as águas e as flores do passado
beberam do sabor das mais nocivas.
Conhecem como amargam negativas
na linguagem do amor descompensado.
Morreremos de enfarte, nestes dias
quando a paz desertou das noites frias
todas em sobressaltos perdulárias.
Como em versos antigos resta um passo.
Morrermos, pobre amor; num grande abraço,
quando morram no peito as coronárias.
734
Edmir Domingues
Sobre um tema de Li Tai Pó.
Na noite (se profunda) as nossas asas
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
766
Rogério Bessa
Do Canto V:
Viagem Dentro e ao Redor de um Canteiro/
Seus Pronomes Relativos ou Passeio no Quintal:
Antilhas
tem de seu a vegetal baga,
de gente, essa servilidade
e em todas as prestanças úteis,
o querer-ser e ser o que é.
em forma de glândula e pêlo,
a angústia sai pelas folhas
e a tristeza de coisa estampa
a palidez de suas flores.
na maturidade, enrubece
a agridoce ovóide baga,
na substância de polpa aquosa;
tenção de não-servir contente.
Seus Pronomes Relativos ou Passeio no Quintal:
Antilhas
tem de seu a vegetal baga,
de gente, essa servilidade
e em todas as prestanças úteis,
o querer-ser e ser o que é.
em forma de glândula e pêlo,
a angústia sai pelas folhas
e a tristeza de coisa estampa
a palidez de suas flores.
na maturidade, enrubece
a agridoce ovóide baga,
na substância de polpa aquosa;
tenção de não-servir contente.
815
António Ramos Rosa
77. Inflectida a Figura Recebe a Face
77
Inflectida a figura recebe a face
que vive no discurso das pedras dos detritos.
Na ausência da paisagem a ausência da figura.
Ó noite não ó dia manhã da vida forte
aí a face na multidão vestida
ou na nudez da cama do miserável quarto.
Com o suor da face e as pernas negras húmidas
com a humildade do sono na urina breve
vive a figura aqui
Vive? Respira pobre.
Inflectida a figura recebe a face
que vive no discurso das pedras dos detritos.
Na ausência da paisagem a ausência da figura.
Ó noite não ó dia manhã da vida forte
aí a face na multidão vestida
ou na nudez da cama do miserável quarto.
Com o suor da face e as pernas negras húmidas
com a humildade do sono na urina breve
vive a figura aqui
Vive? Respira pobre.
1 026
Edmir Domingues
Soneto ao boi
A grande voz das longas avenidas
não consegue abafar esse murmúrio
(sussurro de papoulas tenras, gritos
de agapantos azuis como a ternura)
derramado no chão. 0 campo cresce
na direta razão da nossa mágoa
com sorrisos de mágicas quermesses
multiplicando passos pela estrada.
A carne dos açougues, ainda viva,
se nutre desse verde, à luz da tarde,
os ossos dos botões passeiam tristes
protegidos no couro dos sapatos.
Alonga o olhar ao campo que perdemos
o boi que existe em nós, porque o comemos.
não consegue abafar esse murmúrio
(sussurro de papoulas tenras, gritos
de agapantos azuis como a ternura)
derramado no chão. 0 campo cresce
na direta razão da nossa mágoa
com sorrisos de mágicas quermesses
multiplicando passos pela estrada.
A carne dos açougues, ainda viva,
se nutre desse verde, à luz da tarde,
os ossos dos botões passeiam tristes
protegidos no couro dos sapatos.
Alonga o olhar ao campo que perdemos
o boi que existe em nós, porque o comemos.
696
Edmir Domingues
Os esquecidos azuis de cobalto
No horizonte de sono das palavras
os sete monges magros pontificam.
E a voz das pregações que sempre cantam
não sabe compreensão nem ressonância,
se nas terras de inverno e areia morta
os que guardam de ouvidos não residem.
Porém silêncio, em dobras incontáveis,
onde repousam árvores de pedra
de longos braços nus dependurados
sobre o solo de pedra em que se ergueram.
Cujas sementes sete magos vesgos
fabricaram na sombra dos escombros
e as entregaram presto aos ventos loucos
que em danças de loucura as sacudiram
nas planícies de pedra e de silêncio.
É pois perdido o canto de ternura
que havíamos composto, (no intervalo
dessas horas de sangue e sacrifício),
que o uníssono das vozes cantaria
quando os nobres cansados da nobreza
sentindo-se descalços se sorrissem.
Pois os pastores bêbedos e os magos
tão bêbedos também quanto os pastores,
uns contra os outros lutam nas esquinas
e engendram cogumelos, do cobalto
que a nós nos pertencia, e era guardado
para fazer o azul quanto alimenta.
E cortam nossa voz que sabem fraca
se guardam ferro e fogo e nós só temos
um canteiro de rosas desmanchadas,
a noite e os seus mastins de pelo negro.
Mas eis que a noite já não nos pertence.
A noite, que era nossa, se ressente
da invasão das risadas dos estranhos
que vestem roupa preta e andam de noite
sem que o amor da poesia os leve à sombra.
Mas que buscam no escuro a integração
dos seus corpos vazios nesse escuro
quando a luz os ofusca e os entontece
e esses não são de bem que os incomodem.
Não nos importam nossas cinco chagas
se os espinhos da rosa que as fizeram
nas nossas frágeis mãos foram perfume.
Mas dói-nos quando o mal que nos atinja
não traga o seu perfume entre o cinzento.
Pois outrora era o amor, e de cobalto
se preparava azul, enquanto agora
são feitos cogumelos de cobalto
e as tintas do cinzento se difundem.
Daí o desamor que nos atinge
a nós que só de amor temos vivido,
o horrível desespero que nos ronda
a pouquíssima chama que nos mostra
que deve haver num ponto além do espaço
a ilha de esperança que buscamos.
Nessa ilha de ternura, quando a achemos,
a laranjeira exista e frutifique,
que em torno todos nós semearemos
os azuis de cobalto que tivermos.
Que em país de laranjas e outros pomos
poremos nosso reino incipiente,
e às bordas do seu mar descansaremos
deitados sobre a face do impossível.
os sete monges magros pontificam.
E a voz das pregações que sempre cantam
não sabe compreensão nem ressonância,
se nas terras de inverno e areia morta
os que guardam de ouvidos não residem.
Porém silêncio, em dobras incontáveis,
onde repousam árvores de pedra
de longos braços nus dependurados
sobre o solo de pedra em que se ergueram.
Cujas sementes sete magos vesgos
fabricaram na sombra dos escombros
e as entregaram presto aos ventos loucos
que em danças de loucura as sacudiram
nas planícies de pedra e de silêncio.
É pois perdido o canto de ternura
que havíamos composto, (no intervalo
dessas horas de sangue e sacrifício),
que o uníssono das vozes cantaria
quando os nobres cansados da nobreza
sentindo-se descalços se sorrissem.
Pois os pastores bêbedos e os magos
tão bêbedos também quanto os pastores,
uns contra os outros lutam nas esquinas
e engendram cogumelos, do cobalto
que a nós nos pertencia, e era guardado
para fazer o azul quanto alimenta.
E cortam nossa voz que sabem fraca
se guardam ferro e fogo e nós só temos
um canteiro de rosas desmanchadas,
a noite e os seus mastins de pelo negro.
Mas eis que a noite já não nos pertence.
A noite, que era nossa, se ressente
da invasão das risadas dos estranhos
que vestem roupa preta e andam de noite
sem que o amor da poesia os leve à sombra.
Mas que buscam no escuro a integração
dos seus corpos vazios nesse escuro
quando a luz os ofusca e os entontece
e esses não são de bem que os incomodem.
Não nos importam nossas cinco chagas
se os espinhos da rosa que as fizeram
nas nossas frágeis mãos foram perfume.
Mas dói-nos quando o mal que nos atinja
não traga o seu perfume entre o cinzento.
Pois outrora era o amor, e de cobalto
se preparava azul, enquanto agora
são feitos cogumelos de cobalto
e as tintas do cinzento se difundem.
Daí o desamor que nos atinge
a nós que só de amor temos vivido,
o horrível desespero que nos ronda
a pouquíssima chama que nos mostra
que deve haver num ponto além do espaço
a ilha de esperança que buscamos.
Nessa ilha de ternura, quando a achemos,
a laranjeira exista e frutifique,
que em torno todos nós semearemos
os azuis de cobalto que tivermos.
Que em país de laranjas e outros pomos
poremos nosso reino incipiente,
e às bordas do seu mar descansaremos
deitados sobre a face do impossível.
604
Edmir Domingues
Elegia aos céus de Maralinga
Outrora em Maralinga as águas mansas
e o manso azul dos tempos de alegria.
Animais. Cada qual com sua cria
pastando um verde pasto de esperanças.
Outrora. Eis quando o aroma das matanças
rompeu a face intemporal do dia.
Fez-se unânime o escuro que existia
pousado sobre a fronte das crianças.
Ah, Maralinga (e o nome se prestara
a uma terra de amor) distante, rara,
que o passo das cidades nunca asfalte,
bem haja um dia aquela desejada
onde habite o rumor da madrugada.
Não tendo o nome teu lhe amor não falte.
e o manso azul dos tempos de alegria.
Animais. Cada qual com sua cria
pastando um verde pasto de esperanças.
Outrora. Eis quando o aroma das matanças
rompeu a face intemporal do dia.
Fez-se unânime o escuro que existia
pousado sobre a fronte das crianças.
Ah, Maralinga (e o nome se prestara
a uma terra de amor) distante, rara,
que o passo das cidades nunca asfalte,
bem haja um dia aquela desejada
onde habite o rumor da madrugada.
Não tendo o nome teu lhe amor não falte.
668
Edmir Domingues
Palafitas do Capibaribe
Muito nos custarão as águas baixas,
baniremos a Lua, por cautela.
Asas no espaço, rio, além das águas
uma essência de sombras se condensa
na espessura da tarde sem cantigas.
Rio, contém as águas na vazante
que entre o rumor das sombras que se empurram
estranhas residências se levantam
do teu leito de lama e de agonia.
Rio, contém as águas na vazante,
que homens, mulheres, velhos e crianças,
compartilham da lama do teu leito
enquanto ao lado os príncipes sorriem.
Águas noturnas, rio, eterna noite,
sobretudo as crianças, quanto sofrem
na completa ignorância do conforto.
(Mas o Reino de Deus é das crianças,
mesmo as pagãs, mais puras porque livres
da impureza das mãos de quem batiza).
A lama sairá quando lavadas
pelas águas do céu, como elas puras,
mas nem assim foi justo se lhes dessem
essa infância de lama em que vegetam.
E os infantes dourados, no acalanto
das alcovas de prata sabem riso,
e na altura das pontes, sobre o asfalto,
cresce o reino das luzes coloridas.
Nada comove as pontes. E no entanto
a agonia se esconde ao lado delas,
sob os tetos de zinco, na fumaça
negra dos lampiões de querosene,
se eles são agonia ao pé da lama,
madeira podre, som de desespero,
porque as cores de trópico se casam
frequentemente às cores da miséria.
Ah, serpente bicéfala, cidade
de esplendor e miséria inenarráveis,
o teu poeta sofre ao magro choro
das crianças de lama que cultivas.
baniremos a Lua, por cautela.
Asas no espaço, rio, além das águas
uma essência de sombras se condensa
na espessura da tarde sem cantigas.
Rio, contém as águas na vazante
que entre o rumor das sombras que se empurram
estranhas residências se levantam
do teu leito de lama e de agonia.
Rio, contém as águas na vazante,
que homens, mulheres, velhos e crianças,
compartilham da lama do teu leito
enquanto ao lado os príncipes sorriem.
Águas noturnas, rio, eterna noite,
sobretudo as crianças, quanto sofrem
na completa ignorância do conforto.
(Mas o Reino de Deus é das crianças,
mesmo as pagãs, mais puras porque livres
da impureza das mãos de quem batiza).
A lama sairá quando lavadas
pelas águas do céu, como elas puras,
mas nem assim foi justo se lhes dessem
essa infância de lama em que vegetam.
E os infantes dourados, no acalanto
das alcovas de prata sabem riso,
e na altura das pontes, sobre o asfalto,
cresce o reino das luzes coloridas.
Nada comove as pontes. E no entanto
a agonia se esconde ao lado delas,
sob os tetos de zinco, na fumaça
negra dos lampiões de querosene,
se eles são agonia ao pé da lama,
madeira podre, som de desespero,
porque as cores de trópico se casam
frequentemente às cores da miséria.
Ah, serpente bicéfala, cidade
de esplendor e miséria inenarráveis,
o teu poeta sofre ao magro choro
das crianças de lama que cultivas.
723
António Ramos Rosa
O Que Permanece Ainda Enterrado Pobre
O que permanece ainda enterrado pobre
no vazio nocturno
minha terra latente
no tempo sem sinais em que os sinais prolongam
os sulcos de uma sombra maquinal e branca
e o meu desejo é uma imagem
minúscula
uma pobre frase com duas árvores nuas
no vazio nocturno
minha terra latente
no tempo sem sinais em que os sinais prolongam
os sulcos de uma sombra maquinal e branca
e o meu desejo é uma imagem
minúscula
uma pobre frase com duas árvores nuas
973
Edmir Domingues
Terrar
Mudo e triste, conviva cotidiano
da grande solidão, sinto-me em casa,
o vôo que se voa sem ter-se asa
lançou-me a estas paragens do altiplano.
A esse deserto estranho e anti-humano
de geladas crateras, que se arrasa
e se perde no pó da antiga brasa,
fogo estelar do mais antigo arcano.
Silencioso e só, o Tempo espia
esse mundo que é apenas o esqueleto
do universo futuro de algum dia.
De súbito a surpresa. Eis que se alteia
na linha do horizonte, em fundo preto,
o grande globo azul da Terra cheia.
da grande solidão, sinto-me em casa,
o vôo que se voa sem ter-se asa
lançou-me a estas paragens do altiplano.
A esse deserto estranho e anti-humano
de geladas crateras, que se arrasa
e se perde no pó da antiga brasa,
fogo estelar do mais antigo arcano.
Silencioso e só, o Tempo espia
esse mundo que é apenas o esqueleto
do universo futuro de algum dia.
De súbito a surpresa. Eis que se alteia
na linha do horizonte, em fundo preto,
o grande globo azul da Terra cheia.
675
Edmir Domingues
De profundis II
Aqui venho, Senhor, magoado e triste.
Nu e só, em penhor de vassalagem.
Nada sei. Nada sou. Nem rei nem pagem,
na pobreza total que sempre viste.
Mas fizeste-me assim. A leve aragem
é mais forte que sou. Teu dedo em riste,
as recriminações de Sumo Antiste,
o medo que desfaz qualquer coragem.
Onde o prêmio da Vida? Onde o afago
Daquele que criou? Porquanto trago
a fé da insegurança deste estado.
Que nunca me abandona, e sempre fica,
como o aço do castigo ensanguentado
de Quem dispõe. E impõe. E nada explica.
1992.
Nu e só, em penhor de vassalagem.
Nada sei. Nada sou. Nem rei nem pagem,
na pobreza total que sempre viste.
Mas fizeste-me assim. A leve aragem
é mais forte que sou. Teu dedo em riste,
as recriminações de Sumo Antiste,
o medo que desfaz qualquer coragem.
Onde o prêmio da Vida? Onde o afago
Daquele que criou? Porquanto trago
a fé da insegurança deste estado.
Que nunca me abandona, e sempre fica,
como o aço do castigo ensanguentado
de Quem dispõe. E impõe. E nada explica.
1992.
621
Paulo Véras
Oferenda
Trago nas mãos
um resto da noite passada
e entre os dedos o suco das estrelas
que como sábias irmãs
me fizeram companhia
Faltou tua orelhinha de búzio
onde eu escutava as marés
e retirava o sal amargo
com a língua em arpão
Esta memória de hoje
é apenas o retrato morto
de um corpo com impressões digitais
sobre a pele
Uma lembrança
que traz de volta
uma dor antiga
uma ferida que é uma boca
de tão aberta
E este peito
está tão cinzento
que chego a pensar
que chove nas vísceras
um resto da noite passada
e entre os dedos o suco das estrelas
que como sábias irmãs
me fizeram companhia
Faltou tua orelhinha de búzio
onde eu escutava as marés
e retirava o sal amargo
com a língua em arpão
Esta memória de hoje
é apenas o retrato morto
de um corpo com impressões digitais
sobre a pele
Uma lembrança
que traz de volta
uma dor antiga
uma ferida que é uma boca
de tão aberta
E este peito
está tão cinzento
que chego a pensar
que chove nas vísceras
908
Adalgisa Nery
Escultura
Eu já te amava pelas fotografias.
Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos,
Pelo teu olhar vago e incerto
Como o dos que não pararam no riso e na alegria.
Te amava por todos os teus complexos de derrota,
Pelo teu jeito contrastando com a glória dos atletas
E até pela indecisão dos teus gestos sem pressa.
Te falei um dia fora da fotografia
Te amei com a mesma ternura
Que há num carinho rodeado de silêncio
E não sentiste quantas vezes
Minhas mãos usaram meu pensamento,
Afagando teus cabelos num êxtase imenso.
E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar
Toda uma existência trabalhada pela força e pela angústia
Que a verdade da vida sempre pede
E que interminavelmente tens que dar!...
(Adalgisa Nery)
Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos,
Pelo teu olhar vago e incerto
Como o dos que não pararam no riso e na alegria.
Te amava por todos os teus complexos de derrota,
Pelo teu jeito contrastando com a glória dos atletas
E até pela indecisão dos teus gestos sem pressa.
Te falei um dia fora da fotografia
Te amei com a mesma ternura
Que há num carinho rodeado de silêncio
E não sentiste quantas vezes
Minhas mãos usaram meu pensamento,
Afagando teus cabelos num êxtase imenso.
E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar
Toda uma existência trabalhada pela força e pela angústia
Que a verdade da vida sempre pede
E que interminavelmente tens que dar!...
(Adalgisa Nery)
1 711
Edmir Domingues
O Último poema
Tenho estado tão cansado
quero dormir para sempre.
Caminhos muitos andei
os pés feridos nas pedras.
Mas havia as cores vivas
das flores nas pradarias,
havia o canto dos pássaros
entre as folhas do arvoredo
havia o doce perfume
das rosas, pelos caminhos.
Mas agora estou cansado.
Os pés sem forças antigas,
os olhos já muito gastos
não vêem as cores de outrora,
os ouvidos insensíveis
da velhice contundente
não ouvem cantos de pássaros,
os sentidos corroídos
já não sentem, como dantes,
o perfume das roseiras.
Tanta vez estive à morte
e tanta vez desmorri.
Mas quero dormir agora.
O mundo não mudou nada,
o mundo eterno e contínuo,
mas eu mudei, não encontro
o menino do Passado.
Moriturus te salutat.
Se eu amo o sono das noites
por que, então, não amaria
o Grande Sono da Morte?
1987.
quero dormir para sempre.
Caminhos muitos andei
os pés feridos nas pedras.
Mas havia as cores vivas
das flores nas pradarias,
havia o canto dos pássaros
entre as folhas do arvoredo
havia o doce perfume
das rosas, pelos caminhos.
Mas agora estou cansado.
Os pés sem forças antigas,
os olhos já muito gastos
não vêem as cores de outrora,
os ouvidos insensíveis
da velhice contundente
não ouvem cantos de pássaros,
os sentidos corroídos
já não sentem, como dantes,
o perfume das roseiras.
Tanta vez estive à morte
e tanta vez desmorri.
Mas quero dormir agora.
O mundo não mudou nada,
o mundo eterno e contínuo,
mas eu mudei, não encontro
o menino do Passado.
Moriturus te salutat.
Se eu amo o sono das noites
por que, então, não amaria
o Grande Sono da Morte?
1987.
763
Raul Machado
Póstuma
Noite fechada, lúgubre, sombria.
Céu escuro, tristíssimo, nevoento,
Relâmpagos, trovões, água, invernia
E vento e chuva, e chuva e muito vento!
Abro um pouco a janela, úmida e fria;
Quedo a ver e a escutar, por um momento
O rugido feroz da ventania
E o rasgar dos fuzis no firmamento.
Quero vê-la no céu... e o céu escuro!
E, sem temer que chova e o vento açoite,
Abro mais a janela... abro, e murmuro:
Ah! talvez acalmasse o meu tormento,
—Se eu pudesse chorar, como esta noite!
—Se eu pudesse gemer, corno este vento!
Céu escuro, tristíssimo, nevoento,
Relâmpagos, trovões, água, invernia
E vento e chuva, e chuva e muito vento!
Abro um pouco a janela, úmida e fria;
Quedo a ver e a escutar, por um momento
O rugido feroz da ventania
E o rasgar dos fuzis no firmamento.
Quero vê-la no céu... e o céu escuro!
E, sem temer que chova e o vento açoite,
Abro mais a janela... abro, e murmuro:
Ah! talvez acalmasse o meu tormento,
—Se eu pudesse chorar, como esta noite!
—Se eu pudesse gemer, corno este vento!
1 644
Edmir Domingues
Rota de colisão
É fortuna do mar o que nós somos
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
619
Raul Machado
Lágrimas de Cera
Quando Estela morreu choravam tanto!
Chovia tanto nessa madrugada!
— Era o pranto dos seus, casado ao pranto
Da Natureza — mãe desventurada
Ninguém podia ver-lhe o rosto santo,
A fronte nívea, a pálpebra cerrada,
Que não sentisse logo, em cada canto
Dos olhos uma lágrima engastada !
Ah! ... não credes, bem sei, porque não vistes!
Mas, quando ela morreu, chorava tudo!
Até dois círios, lânguidos e tristes,
Acendidos à sua cabeceira,
Iam chorando, no seu pranto mudo,
Um rosário de lágrimas de cera!
Chovia tanto nessa madrugada!
— Era o pranto dos seus, casado ao pranto
Da Natureza — mãe desventurada
Ninguém podia ver-lhe o rosto santo,
A fronte nívea, a pálpebra cerrada,
Que não sentisse logo, em cada canto
Dos olhos uma lágrima engastada !
Ah! ... não credes, bem sei, porque não vistes!
Mas, quando ela morreu, chorava tudo!
Até dois círios, lânguidos e tristes,
Acendidos à sua cabeceira,
Iam chorando, no seu pranto mudo,
Um rosário de lágrimas de cera!
1 685
Mário Dionísio
No cais
Ó quarteirões de casas escuras
sem cortinados nas janelas
O dia é como a noite a noite é como o dia
e o Tejo aqui ao lado traz nas águas
pedaços de óleo e restos da cidade
Ó quarteirões de casas escuras
por trás de montes de carvão
que sabeis vós das nuvens dos poetas?
As vossas nuvens são de fumo
do fumo negro dos navios de carga
e de outros fumos negros da cidade
Ruas sem nome Iguais iguais
como estas mãos e essas mãos
como estes pés e esses pés
que a vida deformou
Ó quarteirões de casas escuras
o que enche aqui o ar é este grito repetido
dos guindastes no cais
e a matraca repetida dos comboios
de mercadorias
Ó quarteirões de casas escuras
os barracões engolem homens
os barracões vomitam homens
Rio
foste tu que inspiraste as ninfas ao Poeta?
Rio
és tu que inspiras os poetas?
Ó quarteirões de casas escuras
é impossível que não haja
nenhum sonho escondido e adormecido lá no fundo
destas vidraças partidas Que não haja
nenhum riso abafado nos barris de alcatrão
E nenhum canto aqui nestas águas do rio
nestas águas soturnas soturnas tão soturnas do rio
Velho sentado à porta da taberna
há tantos anos sentado com a perna de pau
à porta da taberna
com teu cachimbo e tua voz tão serena contando
histórias antigas e lendárias
à porta da taberna
Dá teu lugar a outro A qualquer outro
que quebre o fado do velho gramofone da taberna
e conte histórias um pouco mais felizes e mais claras
em vez do vinho na taberna
sem cortinados nas janelas
O dia é como a noite a noite é como o dia
e o Tejo aqui ao lado traz nas águas
pedaços de óleo e restos da cidade
Ó quarteirões de casas escuras
por trás de montes de carvão
que sabeis vós das nuvens dos poetas?
As vossas nuvens são de fumo
do fumo negro dos navios de carga
e de outros fumos negros da cidade
Ruas sem nome Iguais iguais
como estas mãos e essas mãos
como estes pés e esses pés
que a vida deformou
Ó quarteirões de casas escuras
o que enche aqui o ar é este grito repetido
dos guindastes no cais
e a matraca repetida dos comboios
de mercadorias
Ó quarteirões de casas escuras
os barracões engolem homens
os barracões vomitam homens
Rio
foste tu que inspiraste as ninfas ao Poeta?
Rio
és tu que inspiras os poetas?
Ó quarteirões de casas escuras
é impossível que não haja
nenhum sonho escondido e adormecido lá no fundo
destas vidraças partidas Que não haja
nenhum riso abafado nos barris de alcatrão
E nenhum canto aqui nestas águas do rio
nestas águas soturnas soturnas tão soturnas do rio
Velho sentado à porta da taberna
há tantos anos sentado com a perna de pau
à porta da taberna
com teu cachimbo e tua voz tão serena contando
histórias antigas e lendárias
à porta da taberna
Dá teu lugar a outro A qualquer outro
que quebre o fado do velho gramofone da taberna
e conte histórias um pouco mais felizes e mais claras
em vez do vinho na taberna
1 625
Mário Dionísio
Casa deserta
Ah nada pior que a casa deserta,
sozinha, sozinha.
O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...
Ah nada pior que estes dias e dias,
de cachimbo aceso, com as mãos inertes,
com todas as estradas inteiramente barradas,
ouvindo a floresta.
Com tudo lá longe, na casa deserta,
o vento soprando
e a chuva caindo, na noite caindo...
Há uma cancela que range nos gonzos
um velho cão de guarda que ladra sem motivo-
parece que é gente que vem a entrar...
E é só vento soprando, soprando
e a chuva caindo...
Mudaram muita vez as folhas da floresta.
Os olhos do homem são olhos de doido.
Fogão apagado, aceso o cachimbo, o mundo lá longe.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...
sozinha, sozinha.
O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...
Ah nada pior que estes dias e dias,
de cachimbo aceso, com as mãos inertes,
com todas as estradas inteiramente barradas,
ouvindo a floresta.
Com tudo lá longe, na casa deserta,
o vento soprando
e a chuva caindo, na noite caindo...
Há uma cancela que range nos gonzos
um velho cão de guarda que ladra sem motivo-
parece que é gente que vem a entrar...
E é só vento soprando, soprando
e a chuva caindo...
Mudaram muita vez as folhas da floresta.
Os olhos do homem são olhos de doido.
Fogão apagado, aceso o cachimbo, o mundo lá longe.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...
2 206
Fernando Pessoa
Fausto perante o povo alegre
Alegres camponeses, raparigas
Alegres e ditosas,
Como me amarga n'alma essa alegria!
Vendo-a, que bem sinto que nunca a tive!
Nem em criança, ser predestinado,
Alegre era eu assim; no meu brincar
Nas minhas ilusões de infância eu punha
O mal da minha predestinação.
Ao ver vosso dançar, ouvindo
Vossas cantigas
Sobe em mim um amargor que me estonteia
E me faz odiar e desejar.
Odiar o quê e desejar o quê?
Não sei: sei que odeio e que desejo.
Folgai — sinto a ironia dessa vida —
Danças e cantos e a morte avança...
Mas que importa?
Tendes razão — se tendes! -
Vem a morte e nos leva, e a Vossa vida
Envolvida em inconsciências fundas
Foi contudo feliz, enquanto a minha...
Que dizer dela?
Oh horror! horror!
Não nasce em mim nem sombra de alegria
Longínquo e exilado.
Acabemos com esta vida assim!
Acabemos! o modo pouco importa!
Sofrer mais já não posso. Pois verei —
Eu, Fausto, aqueles que não sentem bem
Toda a extensão da felicidade
Gozá-la?
Eu que adaptado tenho
A sensações profundas todo o ser
Não as sentir? Ferve a revolta em mim
Contra a causa da vida que me fez
Qual sou. Eu morrerei e deixarei
Neste mundo isto apenas: uma vida
Sem prazer e sem gozo, sem amor,
Só imersa em estéril pensamento
E desprezo (...) da humanidade.
Mas eu, como entrarei naquela vida?
Eu não nasci para ela.
Alegres e ditosas,
Como me amarga n'alma essa alegria!
Vendo-a, que bem sinto que nunca a tive!
Nem em criança, ser predestinado,
Alegre era eu assim; no meu brincar
Nas minhas ilusões de infância eu punha
O mal da minha predestinação.
Ao ver vosso dançar, ouvindo
Vossas cantigas
Sobe em mim um amargor que me estonteia
E me faz odiar e desejar.
Odiar o quê e desejar o quê?
Não sei: sei que odeio e que desejo.
Folgai — sinto a ironia dessa vida —
Danças e cantos e a morte avança...
Mas que importa?
Tendes razão — se tendes! -
Vem a morte e nos leva, e a Vossa vida
Envolvida em inconsciências fundas
Foi contudo feliz, enquanto a minha...
Que dizer dela?
Oh horror! horror!
Não nasce em mim nem sombra de alegria
Longínquo e exilado.
Acabemos com esta vida assim!
Acabemos! o modo pouco importa!
Sofrer mais já não posso. Pois verei —
Eu, Fausto, aqueles que não sentem bem
Toda a extensão da felicidade
Gozá-la?
Eu que adaptado tenho
A sensações profundas todo o ser
Não as sentir? Ferve a revolta em mim
Contra a causa da vida que me fez
Qual sou. Eu morrerei e deixarei
Neste mundo isto apenas: uma vida
Sem prazer e sem gozo, sem amor,
Só imersa em estéril pensamento
E desprezo (...) da humanidade.
Mas eu, como entrarei naquela vida?
Eu não nasci para ela.
1 492
Edmir Domingues
Canção amarga II
Acender o cigarro que não fumo
nos limites finais da noite enorme.
A janela, o jornal, o dia amargo
da amargura sem causa
que é a amargura
maior.
Pela janela aberta chegam ventos
(por nome alísios) sopros descendentes.
Ao longe o nosso barco, abertos panos
para todos os ventos do universo.
Por que tanto amargor
se na distância
há outros ventos calmos
carregados
dos aromas silvestres?
Por que tanto amargor
quando nos longes
correm claros regatos
de águas mansas paradas nos remansos?
Por que tanto amargor
se há garças brancas
sobrevoando o pantanal imenso?
E há paz ainda - a paz inexcedível
- nos recantos do mundo
que habitamos?
No entanto um outro mundo
o mundo interior, sofre esse mundo
a angústia de existir.
A resposta à amargura
o trágico desejo
de um auto-venefício, a ter por termo
o aspirado não ser
melhor que o ser.
Uma estranha anaconda
(o íntimo inimigo)
envolve e esmaga o coração
ferido.
nos limites finais da noite enorme.
A janela, o jornal, o dia amargo
da amargura sem causa
que é a amargura
maior.
Pela janela aberta chegam ventos
(por nome alísios) sopros descendentes.
Ao longe o nosso barco, abertos panos
para todos os ventos do universo.
Por que tanto amargor
se na distância
há outros ventos calmos
carregados
dos aromas silvestres?
Por que tanto amargor
quando nos longes
correm claros regatos
de águas mansas paradas nos remansos?
Por que tanto amargor
se há garças brancas
sobrevoando o pantanal imenso?
E há paz ainda - a paz inexcedível
- nos recantos do mundo
que habitamos?
No entanto um outro mundo
o mundo interior, sofre esse mundo
a angústia de existir.
A resposta à amargura
o trágico desejo
de um auto-venefício, a ter por termo
o aspirado não ser
melhor que o ser.
Uma estranha anaconda
(o íntimo inimigo)
envolve e esmaga o coração
ferido.
675
Fernando Pessoa
DEATH IN LIFE
Another day is past, and while it past,
What have I pondered or conceived or read?
Nothing! Another day has gone to waste.
Nothing! Each hour as it is born is dead.
I have done nothing. Time from me has fled,
And unto Beauty not a statue raised!
By thought's firm power no creed nor lie debased
By this young useless and wearied.
Is it my lot then ever to remain
Like a grain of sand upon the beach,
A thing at will of wind, at will of sea?
Alas, that aught that wishes and has pain,
Because e'er fall'n from what its power should reach
Less than a thing inanimate should be!
What have I pondered or conceived or read?
Nothing! Another day has gone to waste.
Nothing! Each hour as it is born is dead.
I have done nothing. Time from me has fled,
And unto Beauty not a statue raised!
By thought's firm power no creed nor lie debased
By this young useless and wearied.
Is it my lot then ever to remain
Like a grain of sand upon the beach,
A thing at will of wind, at will of sea?
Alas, that aught that wishes and has pain,
Because e'er fall'n from what its power should reach
Less than a thing inanimate should be!
1 548
Soares Bulcão
Mater
Floreces na penumbra anônima do albergue,
Sob o humilde casal de pobres infelizes,
Onde mora a honradez, e a cuja sombra se ergue
A árvore da desgraça onde o amor fez raízes.
Ao mundo, sem que a dor teu ânimo se vergue,
Surges predestinada às fundas cicatrizes,
E passam sem deixar quem o teu passo enxergue,
Vás, embora, onde vás, pises por onde pises.
Segues a tua estrada entre flores e espinhos;
Ora esbarras na treva, ora na luz, e dentre
O universal rumor fere-te a voz dos ninhos;
E o teu sonho é tão grande, e a missão tão profunda,
Que desprezas a dor, porque trazes no ventre,
— Fonte de eterna vida — a dor que em ti fecunda!
Sob o humilde casal de pobres infelizes,
Onde mora a honradez, e a cuja sombra se ergue
A árvore da desgraça onde o amor fez raízes.
Ao mundo, sem que a dor teu ânimo se vergue,
Surges predestinada às fundas cicatrizes,
E passam sem deixar quem o teu passo enxergue,
Vás, embora, onde vás, pises por onde pises.
Segues a tua estrada entre flores e espinhos;
Ora esbarras na treva, ora na luz, e dentre
O universal rumor fere-te a voz dos ninhos;
E o teu sonho é tão grande, e a missão tão profunda,
Que desprezas a dor, porque trazes no ventre,
— Fonte de eterna vida — a dor que em ti fecunda!
985
Fernando Pessoa
Perdido / No labirinto de mim mesmo, já
Perdido
No labirinto de mim mesmo, já
Não sei qual o caminho que me leva
Dele à realidade humana e clara
Cheia de luz, onde sentir-me irmãos.
Por isso não concebo alegremente,
Mas com profunda pesadez em mim,
Esta alegria, esta felicidade,
Que odeio e que me fere.
Ouvir um riso
Amarga-me a alma — mas por quê não sei.
Sinto como um insulto esta alegria...
Toda a alegria. Quase que sinto
Que rir é rir... não de mim mas, talvez
Do meu ser.
Um insulto ao mistério estar a rir
E tendo o horror, do poder durar eterno
Do incompreendido! Estranho!
Felicidade, (...) composto
De sensualidade e infantilismo...
Como te posso eu ter, felicidade?
No labirinto de mim mesmo, já
Não sei qual o caminho que me leva
Dele à realidade humana e clara
Cheia de luz, onde sentir-me irmãos.
Por isso não concebo alegremente,
Mas com profunda pesadez em mim,
Esta alegria, esta felicidade,
Que odeio e que me fere.
Ouvir um riso
Amarga-me a alma — mas por quê não sei.
Sinto como um insulto esta alegria...
Toda a alegria. Quase que sinto
Que rir é rir... não de mim mas, talvez
Do meu ser.
Um insulto ao mistério estar a rir
E tendo o horror, do poder durar eterno
Do incompreendido! Estranho!
Felicidade, (...) composto
De sensualidade e infantilismo...
Como te posso eu ter, felicidade?
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