Poemas neste tema

Trabalho e Profissão

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Você Fica Tão Sozinho Às Vezes Que Até Faz Sentido

quando era um escritor passando fome eu costumava ler os principais escritores nas
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.

foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.

e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –

pronto para dar mais um tiro no
escuro.
841
Renato Russo

Renato Russo

Música De Trabalho

Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
Mas o que eu tenho é só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Tem gente que não tem nada
E outros que têm mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar
Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar
Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
Tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado à miséria
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos

2 356
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Tentando Chegar a Tempo

novo jóquei recém-chegado do Arizona
não conhece esta cidade
mas seu agente conseguiu pra ele uma montaria
na primeira corrida
do último sábado
e o jóquei pegou a
autoestrada
no mesmo dia do jogo
de futebol
entre U.S.C. e U.C.L.A.
e ficou preso
numa das duas pistas especiais
o que o levou para o Rose Bowl
e não ao
hipódromo.
ele foi obrigado a dirigir o caminho todo
até o estacionamento
do jogo de futebol
até que pudesse dar
meia-volta.
na hora em que chegou ao hipódromo
a primeira corrida
tinha terminado.
outro jóquei havia vencido com sua
montaria.

hoje por lá
notei no programa que o
novo jóquei do Arizona
tinha uma boa montaria na
sexta.
aí o cavalo foi tirado da corrida
em cima da hora.
às vezes dar a largada
no momento grandioso
é equivalente a
tentar obter uma ereção
num tornado
e mesmo que você consiga
ninguém tem tempo
para perceber.
961
Herberto Helder

Herberto Helder

Dos Trabalhos do Mundo Corrompida

dos trabalhos do mundo corrompida
que servidões carrega a minha vida
1 129
Urhacy Faustino

Urhacy Faustino

Inventário de safras

Ceifar o trigo;
ordenhar a vaca;
moer café.

Beneficiar o pão;
manipular o leite;
extrair a essência.

Preparar a mesa, da manhã.

II

Observar lua propícia,
plantar, na certa colher:
arroz, feijão, hortaliças e flores -
não esquecer: colibri precisa comer.

Tratar bem galo e suas galinhas,
pra ter ovos e despertador.

E rezas para agradecer farturas
no almoço e no jantar.

III

Noite,
piar de coruja, longe.
Um silêncio quase,
não fosse o ruminar dos animais.

Pirilampo que se perdeu do pasto,
faz-se estrela única,
no teto do quarto escuro.

IV

Cão amigo,
para ladrar estranhos.
Gatos no telhado —
aquecedores de pés em noites de inverno.

Livros, muitos deles,
espalhados nos cantos certos da casa.

E uma avó, cheia de histórias,
na mesa de cabeceira,
para os dias de preguiça.
802
Herberto Helder

Herberto Helder

Iii D

(Vd. suplemento ‘Artefactos’’ do jornal Expresso de/f,.6.1994)
Abre o buraco à força de homem,
faz um segredo:
o tema é: bater a massa enxuta, batê-la a pulso até
que transpire toda, respire
toda,
o negro com o amarelo revolvido,
quebrar a água em cima;
que as lojas convivam: loja da água primeva,
e a do fogo —
entre as coisas desabridas quero a minha arte mulheril, diz
ela, fornalhas:
da altura das mãos à altura dos tectos,
um cântaro abraçado no seu arco vivo,
cântaros,
O estendal do visível,
e riscos e combinações de riscos, riscos de estrelas lapidadas
— sento-me nos tronos um a um, diz ela: é uma sarça:
como se os imanes corressem pelas limalhas, as substâncias
rebarbativas, substâncias
ao palpite, quantidade
e a qualidade ganha no crivo: O amarelo por instinto,
ciência da noite —
alguém levanta-se de um sonho e,
com ferida e minúcia e fervor,
mexe nessas pequenas coisas,
uma técnica do ouro
na escuridão:
por mistério é que existe, por mistério
é transparente, ou vermelha, mistério
é o dom que nem sempre vê quem olha de fora —
exemplos de enquanto se temperam as argilas, se lavram,
e nascem talhas, potes, bilhas, tocamos em louças e elas vibram:
são o adorno e poderio dos sítios onde morremos
— como se diz: pneuma,
terrífica é a terra e no entanto nada mais do que um pouco:
criar matérias —
e depois, a nossos pés, constelações, e as caras
alumbradas pelas áscuas dentro delas, nós, as soberanas
de trono em trono,
movendo
as labaredas, coando-as através do elemento água:
se alguém mete de encontro à respiração as corolas cerâmicas das
jarras,
faz um segredo, isso: caldeia
os artefactos:
ouro que transborda,
e o mundo.
998
Herberto Helder

Herberto Helder

Iii C

Em recessos, com picareta e pá, sem máscara, trabalha
na especialidade
do ouro:
e um corpo de astronomia,
travejado, violento, refractário, doendo, arrancado ao chão,
ilumina-se de si mesmo
— obreiro e obra são uma só forma instantânea
do verbo ouro nativo.
1 118
Herberto Helder

Herberto Helder

Iii G

Tanto lavra as madeiras para que seja outro o espaço
a segui-lo: não as mobílias,
traves das salas, nem as janelas e portas,
ou os barcos nos campos de água;
lavra a estaca e irrompe dela,
da fria seiva trançada,
pontos de força,
vibração, respiração das fibras: irrompe
a flor chamada Chaga
— e é esse o espaço que o segue, que ele arruma, onde se põe
em equilíbrio,
nomeando os artefactos, colhendo o ar que se exala
da linha de nomes sobre o abismo,
e por cima do abismo ele brande aquela vara
com a cor
ao toque no fundo:
tão intrínseco e junto, tudo, e explícito: dor e ornamento,
e o ornamento é tão
experimentado no mundo, e trabalhado em madeiras e dedos,
tão sofrido como atenção, que ele mesmo
sustém a chaga ao lume do seu baptismo,
e cerrando o extenuante espaço do concreto
dentro de si,
vive disso.
1 054
Herberto Helder

Herberto Helder

Iii F

Folheie as mãos nas plainas enquanto desusa a gramática da madeira,
obscura
memória: a seiva atravessa-a.
Que a mão lhe seja oblíqua.
Aplaina as tábuas baixas e sonolentas - torne-as
ágeis.
Leveza, oh faça-a como a do ar que entra nelas.
Por súbita verdade a oficina se ilude: que,
de inspiração,
o marceneiro transtorne o artesanato do mundo.
Aparelha, aparelha as tábuas cândidas.
A sua vida é cada vez mais lenta.
Como entra o ar na gramática!
Que Deus apareça.
1 105
Fernanda Benevides

Fernanda Benevides

O Plantador de Sonhos

O lavrador prepara a terra, lentamente.
Cultiva o solo com amor.
Alimenta o chão com carinho e devoção.
Cuidadoso, escolhe a semente.
E faz a plantação.
Semeia o trigo e nasce o joio.
Paciente, reinicia.
Planta roseira e brota baobá.
Cauteloso, extirpa-o.
E recomeça.
A vegetação viça.
Súbito, vem o estio.
As plantas secam.
E continua...
A flor renasce.
E vem a inundação.
Não desiste.
Rega a poesia.
Na certeza de um dia,
colher a flor tardia.

(in, A ROSA - FÊNIX)
Fortaleza - Ce, 1997

1 059
Fernando Batinga de Mendonça

Fernando Batinga de Mendonça

Poema do Homem Latino-Americano

Para Diego de Rivera,


em cima dos ombros
tens uma pedra:
pedra sem rosto
enorme incerta.

teu corpo de fome
de ossos de pele
trabalha na mina
na lavra da terra.

estendes as mãos
sem forma incertas
nos calos nos cortes
nos dedos nos ferros.

um corpo de fome
vestido de pele
carregas as mãos
um rosto de pedra.
1 131
Herberto Helder

Herberto Helder

45

moço, digo eu ao canteiro de rojo,
tão junto ao granito, de olho ríspido,
e o outro olho sob a pálpebra virado do avesso,
para dentro,
a luz movendo-se no sistema
cérebro,
cerebelo,
bolbo raquidiano,
e eu digo: ,;tu que no granito atas um nó ou desatas um laço,
como alguém bate na madeira fechada
e bota flor, na vidraria fechada,
na prata, na fala fechada e bota flor,
talvez alguém que não ouvisse, e a gente batesse, e ele
jogasse o ar na cara da gente
e botasse flor?
e então ele diz que não lavra só uma pedra
e que fazes então na ordem das coisas entre nó e laço?
faço a beleza ,;que beleza?
faço-a comum, manual, analfabeta,
mas não fecho só um nó nem abro só um laço,
com o grosso movimento das riscas do analfabeto da gente,
eu faço numa pedra a catedral inteira
980
Fernando Fitas

Fernando Fitas

As vozes e os corpos

Os corpos ergem-se ao sol
dão início à caminhada
cada dia começado
nas vozes que se levantam.

Vêm do fundo do tempo
do mais profundo da vida
como farinha de trigo
-sempre amassada sofrida.

E dos longes donde vêm
(tamanha é a lonjura...)
que as vozes estendem-se ao longe
marulhando espaço fora.

E entre montes e cerros
tangem liras suas cordas
que "o cante" estende-se ainda
por vozes que erguem os corpos
e os corpos erguem a vida.
714
Herberto Helder

Herberto Helder

4C

Que ofício debruçado: polir a jóia extenuante,
multiplicar o mundo face
mais face.
Fazer da imagem uma consciência vária.
O fogo dessa pedra cada vez mais
alerta, preciosa, convulsa, funda, abrasadora.
Trabalhas nela até às unhas.
Trabalhas na atenção aterrada, com que louvor
de obra, irrealmente. As estações da noite, os sistemas
nervosos das avenças do alto,
as plumagens.
E os dias compactos como o leite
guardado nos jarros, ou largos
das sedas estendidas. Passam
unidos todos uns aos outros
nos cotovelos. E lapidas, lapidas. Arrancas-lhe a força
eléctrica. Que a ti mesmo,
nas mãos e na cabeça, no escuro, no levantamento
do ar no sono, te faz desentranhadamente
límpido. O relâmpago
do âmago. Queima-te avista. E na cegueira fica apenas,
atroz,
o coração da jóia.
614
Cezário de Sousa

Cezário de Sousa

Continente Brasília

gente de toda parte
arte parte arte parte arte
status estata!
povoação enigmação, _
vazio normal buracultural
diz para mim
enfim, qual teu mal?

Gente de toda arte
quem há derrado afinal?
Onde esteve teu futuro
esse todo tempo
teu fu turo teu futuro teu

tu és boi e computador
qualquer coisa assim
olha aesse cerrado será nosso
será cerrado será cerrado será

que fizeram das lembranças
das mortes da tua infância?
no des-contar da tua glória
ó cidade bela
fizeram jorrar sangue
teu solo foi manchado

continente brazilha
gente de toda mente
a seta da arte incerta te alvejará
pra espalhar flores em forma de trigo
teus hômi é teus próprio inimigo

e a seta da arte incerta não parte

teu lago afundará
vai ser até bão de pescar
mas tuelitelitista num vai tão cedo acabar

vumbora vumbora povo!
(palavra de novo mal dita)
na garganta da gravata
teúnico jota cá paz de ser gente
foi-se in-esperado
teus solitários lares decentes
teu dom bosco poliético visionário
teus vários bonitos espaços vazios
onde nos levaremos?

brazileira
filha
tu és brazileira
menina menina menina
cabeça de menina ·
corpo de cheiro de ânsia
continentalmentilha
corcheirosa de cabelos amanteigados
mão te queira
mantequilla
mãe e filha
mar à vila do sossego
desapego
tu és o concreto da arquijuntura
tu futuras
pelos passos dos teus filhos ilhos
para que quem porque foste criada
hoje agora em tédio nadas
pré destinada a ser fada
místico interpretada
lança jogada no centro
vento passaporte muldireções
oeste pé na estrada

abra
berre
erre
ria
tenha
uma
rota
agora
?

Ilha maravilhosamente certa
reta cabeça da nação
decisão precisão ver se dão lassidaão
perfidocraticamente sem coração
teus satélites querem tua luz planoalto
não brilharias tu alguma vez
não terias asas na inspiração?
Onde estaria escondida a vontade do nosso peito
nas asas na cabeça ou no coração do avião?

Gente de toda ilha
sente de toda falta
mente de toda farda
pente de todo flerte
rente de todo porte
tente de toda sorte
gente de todo mistério-vida
cidade jovem de toda parte
encontro de tempos de antes antigos
ainda destinos incertos em Volta do sonho
eorrem atrás do copo da noite
ou escutam o tédio ou vêem a ilusão
ou lêem a falta de imaginação

foi dada a largada
os cavalos estão na frente
e os funcionários montados no medo se borram
detrás da felicidade da mesa

a dor do muro na pichação:
"Ilha e Solidão"

gente de todo porte
porta que vem e que volta
as quadras nasceram enquadradas na LSN
aqui não se comete um grande crime
e todos somos funcionários do SN I
ó felizes meninos que aqui surgirão
pra repetir a cadeira gravata dos pais pais
repetir a dor repetir a dor repetir?

ai` meninas daqui
a prosseguir o passado se submeter
ao másculo caduco poder?
meninas que hão de dançar
hão de dançar dançarão
(o corpo das tuas meninas são só bailarinas?)

quem fará o que quem fará aqui lo quem faremos como

o garoto agora engraçado
filho satélite da quadra do lago
fadado a ser forte conforme o destino
ou dono de si o teimoso menino?

a arte solta salta da rua rua não existe
artista sente por não ser a praça contente
a tua reviração se faremos
quem dera que a gente quisesse
teu profetismo nos encantaremos
pra viver real idade nossa dia~a-dia
toda morte se daria em holocausto
o fausto dos teus ricos se extinguiria
o farto prato então se dividiria
e tanto pranto alegre que a vida choraria
se um dia fosse verdade
sa ída de nossas mãos
é bom gonhar e ver voar teu avião

tem olhos de fora olhando pra gente tem
a tal bastilha atual é forte meu bem
guardada por 49 chaves do além
roma honra amor remo loba rômulo êmulo

hermano hermanito m ío
dónde está nuestra amistad
dónde nuestro proyecto por la libertad

a mil milhas de altura está brazilha
continente filho da filha da quimera
esperam inferno e Verão primavera
a fé no futuro é besteira
sem o eterno-presente na mochila
as lutas a paz hão de vingar

reconhecer os que fazem fizeram a história com H
as mães de brasará
proliferação da vrida
terão mãos hão de ter mãos terá
serão mais onde ir-mãos será
virão filhos que hão de virar
essa terra criança velha
em semente do sempre novo fogo povo a penetrar

827
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

E Certas Palavras

a Fernand Verhesen
E certas palavras prazer
mágoa água plenitude
a cor navegando alta
a casa com flores e chamas

este jardim da verdade
duro pão água da vida
calado o tempo vencido
amor desta mão clara
*
Onde regresso renasço
à mesa onde o trabalho
é uma flor que sopro
Aqui respiro o tempo
da madeira e do insecto

Aqui penetro o gosto
da água lisa e da ânfora
aqui demoro um momento
*
Sonho no branco do tempo
a chama ténue suspensa
Sonho calado este espaço
sem palavras claridade
*
Um dia tentando o branco
encontrarás chama alta
prumo e nível verdadeiro
círculo inteiro alma intacta
1 017
Herberto Helder

Herberto Helder

Todas Pálidas, As Redes Metidas Na Voz.

Todas pálidas, as redes metidas na voz.
Cantando os pescadores remavam
no ocidente — e as grandes redes
leves caíam pelos peixes abaixo.
Por cima a cal com luz, por baixo os pescadores
cheios de mãos cantando.
Cresciam as barcas por ali fora, a proa
aberta como uma janela ao sal.
Metida na voz, toda pálida, a proa
rimava no ocidente com a cal que os pescadores
remavam, cantando grande, pela luz fora. Ao sol, ao sal.

E o espírito de Deus como num livro
movia-se sobre as águas.
Com seu motor à popa, veloz, peixe
sumptuoso, o espírito de Deus, motor de um número de cavalos, galgava
a antiga face pálida das águas. Enquanto,
cantando as redes,
os pescadores metiam as mãos cheias
de cal pelos grandes peixes abaixo.
E pelas barcas fora a luz remava pelo ocidente todo pálido, rimando
as redes leves com a proa.

E o peixe espírito de Deus, rangendo
o motor, rompia com um número,
remando todo pálido os seus grandes
cavalos. Deus
cantava no ocidente sobre as redes de cal,
a proa aberta — como as guelras
da luz. E os pescadores
metiam as redes pelo espírito de Deus abaixo.
E os remos rimavam com as redes
leves no peixe sumptuoso.
Por ali fora as guelras caíam na voz
dos grandes pescadores.

E Deus metido então nas redes, puxado
cor de cal para dentro
das barcas, as mãos cantando cheias
de pescadores.
E sobre as águas rangentes, rompendo
o leve ocidente, os pescadores remavam
o espírito de Deus para terra — peixe
de motor à popa — e a proa
grande aberta.

E cantavam o seu peixe sumptuoso, espírito
pálido na leve cal do ocidente
cantando.
1 112
Herberto Helder

Herberto Helder

4N

A lua leveda o mênstruo, vira o peixe no frio, ilumina
o objecto brusco. É um trabalho recôndito
do nome, que o nome escrito
na lenha,
o tronco reverdeceu. E da madeira a mão levanta abismadamente
a corola.
A profissão de marceneiro, inspira-a
a embriaguez. Deus vê a talha cândida
da sua obra. Matriz, umbigo, meio da tábua,
a estrela principal, transfundem-se
em palavra. O marceneiro arranca das entranhas
a sua rosa. A pulso e bebedeira.
Arranca o olho que a olhava
espelhada. Enquanto se ligam lua e sol
debaixo
da plaina.
1 021
Fahed Daher

Fahed Daher

Deus os abençoe

Fernando José De Paula.: Quando recebi o seu convite
comunicação da sua formatura estava diante da escultura
alegoria à medicina, a caveira tentando tomar a
paciente que o médico teimosamente procura tomar das
màos da morte e imediatamente compus este soneto
que dedico a você-, na sua formatura e que através de
você dedico a todos os seus colegas.

Desencarnados- secos - descarnados,
duros e gastos ossos da caveira,
as mãos em garra ,de qualquer maneira
querendo arrebatar o adoentado.

Força que atua em hora derradeira,
fatal destino,vida do passado,
no nauseabundo odor do fermentado,
apodrecido -trágica esterqueira-

Do outro lado a glória,o sol, a vida
serena e forte, na disputa dura,
a medicina enfrenta , atrevida,

o mal e a morte, rebuscando a ciência
no profundo ideal e na Fé pura
de ser obra de Deus por excelência.

834
Herberto Helder

Herberto Helder

86

um dos módulos da peça caiu e esmagou-o contra um suporte
de aço do atelier
arrancara a unhas frias dos testículos à boca,
beltà beauty beauté,
a áspera beleza amarrada pelo sangue,
porque tinha pintado com tintas de spray anúncios atmosféricos
e depois, no apogeu de qualquer coisa,
pôs-se a fazer uma coisa fora de moda, uma coisa animal,
acerba,
suada,
com as técnicas ardentes um respiradouro,
com os órgãos do amor,
com as mãos uma coisa alerta,
e então ele, o escultor norte-americano Luis Jiménez, morreu
esmagado pela sua obra:
o jornal diz que durante dez anos trabalhou na mesma peça,
um cavalo com dez metros de altura raptado ao caos, ligado
pelo sangue sombrio,
diz a notícia que ele amava as grandes dimensões das imagens,
amava a fibra de vidro o ferro o aço e amava
a energia das formas rápidas,
a inoxidável radiação das formas,
eu penso que ele meteu os dedos de cada mão até ambos os braços desaparecerem no mundo
já a luz se fazia da madura matéria do mundo,
já dez anos em dez metros de beleza arterial arrancada trémula
— tu que és tão leve,
que tocas com as unhas, que danças,
que sopras,
e colhes o orvalho e recolhes as chamas cortadas,
e abraças,
e boca a boca respiras até ao fundo de ti próprio,
tu que morres quando respiras,
que aprendes dedo a dedo a escrever o teu nome entre os dedos
— morreu esmagado pela sua obra
932
Herberto Helder

Herberto Helder

87

arranca ao maço de linho o fio enxuto,
nascido assim, ali, na roca, o fio,
e que gire no fuso para dentro do que fica pronto,
e vá até ao fim o trabalho que brilha,
o toque transitivo,
que a luz se mova nas pupilas,
e se ficares cego é para veres tudo unido,
escuta então como te chamam pelo nome
daquilo que te cerca,
mas não acumules nada,
amaina o fio bravio quando irrompe
e,
pálpebras cerradas,
sente como estremece tudo, o centrípeto e o centrífugo,
e morre de ti mesmo
1 115
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Os Homens do Lixo

aí vêm eles
esses caras
o caminhão cinzento
o rádio ligado
eles têm pressa
é muito empolgante:
a camisa aberta
as panças pendendo
eles esvaziam as lixeiras
rolam as latas até a boca do caminhão
que as ergue para engolir o conteúdo
com barulho excessivo...
os homens têm que preencher formulários
para conseguir esses empregos
eles têm que pagar pelas casas e
dirigir carros de último modelo
eles se embebedam no sábado à noite
agora enquanto brilha o sol em Los Angeles
eles correm para lá e pra cá com suas latas de lixo
todo esse lixo vai para algum lugar
e eles gritam uns com os outros
depois disso todos voltam ao caminhão
rumo a oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
CIA REX DE COLETAS
1 055
Estêvão da Guarda

Estêvão da Guarda

A Um Corretor Que Vi

A um corretor que vi
vender panos, que conhoci,
com penas veiras, diss'assi:
- Da molher som de Dom Foam.
E disse-m'el: - Vendem quant'ham,
el e aquesta sa molher:
       ham-no mester, ham-no mester!

E diss'eu: - Ficará em cós
sem estes panos do ver grós;
mais pois que os tragedes vós
a vender e par seu talam?
E disse-m'el: - Sei eu, de pram,
per ela, quanto vos disser:
       ham-no mester, ham-no mester!

E diss'eu: - Grav'é de creer
que eles, com mêngua d'haver,
mandem taes panos vender,
por quam pouco por eles dam.
E disse-m'el: - Per com'estam,
el e aquesta sa molher,
       ham-no mester, ham-no mester!
702
Adélia Prado

Adélia Prado

O Que a Musa Eterna Canta

Cesse de uma vez meu vão desejo
de que o poema sirva a todas as fomes.
Um jogador de futebol chegou mesmo a declarar:
‘Tenho birra de que me chamem de intelectual,
sou um homem como todos os outros’.
Ah, que sabedoria, como todos os outros,
a quem bastou descobrir:
letras eu quero é pra pedir emprego,
agradecer favores,
escrever meu nome completo.
O mais são as maltraçadas linhas.
1 290