Poemas neste tema

Trabalho e Profissão

Vicente de Carvalho

Vicente de Carvalho

Marinha

I

Eis o tempo feliz das pescarias — quando
Maio aponta a sorrir pela boca das flores.
Derramam-se na praia as gaivotas em bando...
Alerta, pescadores!

Crepusculeja ainda a aurora, mas quem pesca
Deve esperar o dia entre as ondas — enquanto
Sopra enfunando a vela a matutina fresca
E o sol não queima tanto.

Mulheres, fazei fogo! Ao alcance do braço,
Mesmo à porta do rancho a maré pôs a lenha.
Aprontai o café! Vibra já pelo espaço
A buzina roufenha.

Peixe na costa! O aviso erra de frágua em frágua,
Chama de rancho em rancho os pescadores. Eia!
As canoas estão ainda fora d'água
Encalhadas na areia:

Prestes, descei-as! Ide apanhar às estacas
A rede. Ide-a colhendo às pressas; colocai-a
Na canoa. Descendo agora nas ressacas,
Isso, fora da praia!

E é remar, é remar para o largo... As crianças
E as mulheres, em terra, esperam aguentando
O cabo que por sobre o azul das ondas mansas
A rede vai largando...


Publicado no livro Relicário: versos (1888).

In: CARVALHO, Vicente de. Versos da mocidade. Porto: Chardron, 191
1 489
Fernão Garcia Esgaravunha

Fernão Garcia Esgaravunha

Esta Ama, Cuj'é Joam Coelho

Esta ama, cuj'é Joam Coelho,
per bõas manhas que soub'aprender,
cada u for, achará bom conselho:
ca sabe bem fiar e bem tecer
e talha mui bem bragas e camisa;
e nunca vistes molher de sa guisa
que mais límpia vida sábia fazer.

Ante, hoj'é das molheres preçadas
que nós sabemos em nosso logar,
ca lava bem e faz bõas queijadas
e sabe bem moer e amassar
e sabe muito de bõa leiteira.
Esto nom dig'eu por bem que lhi queira,
mais porque est assi, a meu cuidar.

E seu marido, de crastar verrões
nom lh'acham par, de Burgos a Carrion,
nem [a] ela de capar galiões
fremosament', assi Deus mi perdom.
Tod'esto faz; e cata bem argueiro
e escanta bem per olh'e per calheiro
e sabe muito bõa escantaçom.

Nom acharedes em toda Castela,
graças a Deus, de que mi agora praz,
melhor ventrulho nem melhor morcela
do que a ama com sa mão faz;
e al faz bem, como diz seu marido:
faz bom souriç'e lava bem transido
e deita bem galinha choca assaz.
657
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

A Letra E a Morte

Para Fausto Henrique
Meu amigo morreu
e eu estava ao telefone encomendando estantes para os livros.
Quem me dava a notícia
explicava como o câncer devorou-lhe o fígado
em um mês,
enquanto minha mulher do outro lado da sala
perguntava se eu ia montar a árvore de Natal.
Volto pesaroso ao escritório
lembrando o amigo que restaurava obras raras
e mal repouso a tristeza e os olhos nas montanhas
outro telefonema
cobra-me uma conferência na Argentina.
Visitarei o corpo do amigo na capela 5 às três da tarde
mas não poderei acompanhar-lhe o sepultamento
porque no mesmo horário
estarei numa livraria
lançando um novo livro:
– mausoléu de palavras vivas –
celebrando o amor e a morte.
623
Afonso X

Afonso X

Nom Me Posso Pagar Tanto

Nom me posso pagar tanto
do canto
das aves nem de seu som
nem d'amor nem de missom
nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas som
- come d'um bom galeom
que mi alongue muit'aginha
deste demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.

E juro par Deus lo santo
que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.

Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.

E direi-vos um recado:
pecado
já me nom pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.
354
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fazes renda de manhã

Fazes renda de manhã
E fazes renda ao serão.
Se não fazes senão renda,
Que fazes do coração?
2 423
Jorge Macedo

Jorge Macedo

Nos pés do recomeço

1

na cidade
nos pés
o recomeço
vai-se
é-se
reconstrutivo

a parede
demolida
revém
no contorno
do
dia

2

as esquinas
de tudo
entornam
seus rostos
de tempo
emerso
no sol todos os dias outro

3

crescendo
cres
cen
do
crescentes
crescem
acrescendo
rosas
chaminés
crescendo
no elã
guindastes
creem
branco rosar
rosamão
fumo não
caracóis
sim rosas

4

a cidade
nome
doutro oceano
é mais
líquida
vertiginosa
enchente

5

no elã de guindastes
semeando
hastes
no tamanho
das ânsias

o despertar
o loiro

estua
os barcos
guindados
para a dimensão rósea das rotas

1 039
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Pero da Pont', E[M] Um Vosso Cantar

- Pero da Pont', e[m] um vosso cantar,
que vós ogano fezestes d'amor,
foste-vos i escudeiro chamar.
E dized'ora tant', ai trobador:
pois vos escudeiro chamastes i,
porque vos queixades ora de mi,
por meus panos, que vos nom quero dar?

- Afons'Anes, se vos en pesar,
tornade-vos a vosso fiador;
e de m'eu i escudeiro chamar,
e por que nom, pois escudeiro for?
E se peç'algo, vedes quant'há i:
nom podemos todos guarir assi
come vós, que guarides per lidar.

- Pero da Ponte, quem a mi veer
desta razom ou doutra cometer,
querrei-vo-lh'eu responder, se souber,
como trobador deve responder:
em nossa terra, se Deus me perdom,
a tod'o 'scudeiro que pede dom
as mais das gentes lhe chamam segrel.

- Afons'Anes, est'é meu mester,
e per esto dev'eu a guarecer
e per servir donas quanto poder;
mais ũa rem vos quero [eu] dizer:
em pedir algo nom dig'eu de nom,
a quem entendo que faço razom,
e alá lide quem lidar souber.

- Pero da Ponte, se Deus vos perdom,
nom faledes mais em armas, ca nom
vos está bem, esto sabe quem quer.

- Afons'Anes, filharei eu dom,
e lidade vós, ai cor de leom,
e faça quis cada quem seu mester.
698
Afonso X

Afonso X

Cirola Vi [Eu] Andar-Se Queixando

Cirola vi [eu] andar-se queixando
de que lhi nom da[va]m sas quitações;
mais, des que [eu] oí bem sas razões
[e] ena conta foi mentes parando,
log'atentei que nom dissera rem
[c]a era já quite de todo bem:
por en faz mal d'andar-s'assi queixando.

E queixa-se-m'el muitas de vegadas
dos escrivães e dos despenseiros
[.....................................];
mais, pois vêem a[s] contas aficadas,
logo lhi mostram bem do que quit'é;
e pero digo-lh'eu que [o] mal é
de quen'o quitou muitas de vegadas.

E por levá'la quitaçom dobrada
se [me] queixou; e catei u jazia
eno padrom, e achei que havia
de todo bem sa quitaçom levada;
por en faz mal, que nom pode peor;
mais tant'há el de quitaçom sabor,
que a nega, pero x'a leva dobrada.
494
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Em Almoeda Vi Estar

Em almoeda vi estar
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.

E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.

E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.

E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
338
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Quem a Sa Filha Quiser Dar

Quem a sa filha quiser dar
mester, com que sábia guarir,
a Maria Doming'há-de ir,
que a saberá bem mostrar;
e direi-vos que lhi fará:
ante d'um mês lh'amostrará
como sábia mui bem ambrar.

Ca me lhi vej'eu ensinar
ũa sa filha e nodrir;
e quem sas manhas bem cousir
aquesto pode bem jurar:
que des Paris atẽes acá
molher de seus dias nom há
que tam bem s'acorde d'ambrar.

E quem d'haver houver sabor
nom ponha sa filh'a tecer,
nem a cordas nem a coser,
mentr'esta mestra aqui for,
que lhi mostrará tal mester,
por que seja rica molher,
ergo se lhi minguar lavor.

E será en mais sabedor,
por estas artes aprender;
demais, quanto quiser saber,
sabê-lo pode mui melhor;
e pois tod'esto bem souber,
guarrá assi como poder;
de mais, guarrá per seu lavor.
344
Charles Bukowski

Charles Bukowski

86'd

o que mais compromete o trabalho
é
tentar fazê-lo
sob uma bandeira
santificada.
a semelhança das intenções
com as dos outros
distingue o idiota
do descobridor

você pode aprender isso em
qualquer
sinuca de esquina, jóquei, bar,
universidade ou
cadeia.

as pessoas correm da chuva mas
sentam
em banheiras cheias
d'água.

é bem desanimador saber que
milhões de pessoas estão preocupadas com
a bomba de hidrogênio
embora
já estejam
mortas.

mesmo assim continuam querendo
mulheres
dinheiro
fazer sentido.

e finalmente o Grande Bartender se inclina pra você
branco e puro e forte e místico
e diz que pra você já
basta
logo quando você acha
que está justamente
começando.
1 021
Sílvio Romero

Sílvio Romero

ABC do Vaqueiro em Tempo de Seca

(Ceará)

Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.

Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.

Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.

Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.

Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.

Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!

Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.

Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.

I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.

Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.

Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.

Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.

O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.

Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.

Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.

Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.

Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.

Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.

Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.

Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.

Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.


In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 639
Sílvio Romero

Sílvio Romero

ABC do Lavrador

(Ceará)

Agora quero tratar,
Segundo tenho patente,
A vida de lavrador
No passado e no presente.

Bem queria ter ciência,
Dizer por linhas direitas,
Para agora explicar
Uma idéia bem perfeita.

Cuidados tenho da noite,
De madrugada levanto,
De manhã vou para a roça
A correr todos os cantos.

Domingos e dias santos
Todos vão espairecer,
Eu me acho tão moído,
Que não me posso mexer.

Estando desta sorte
Não é possível calçar,
Os pés inchados de espinhos,
E de todo o dia andar.

Feliz de quem não tem
Esta vida laboriosa,
Não vive tão fatigado,
Como eu me acho agora.

Grande tristeza padece
Todo aquele lavrador,
Quando perde o legume todo
Porque o inverno escasseou.

He possível aturar
Até a idade de cinquenta,
Quando se chega aos quarenta,
Já parece ter oitenta.

Lavradores briosos
Consideram no futuro,
Não tomam dinheiro sem ver
Os seus legumes seguros.

Muitos não têm recursos,
Não sabem o que hão de fazer,
Não temem a percentage,
Querem achar quem dê.

Não queira ser lavrador
Quem tiver outra profissão,
É a vida mais amarga
Deus deixou aos filhos de Adão.

Pois quando se colhe
Os legumes de um ano,
Ainda se não acaba,
Nova roça começando.

Quase sempre os lavradores
De cana, café, cacau,
Têm feitores de campo
Para não passar tão mal.

Razão eles têm
Para ter contentamento,
Quem trabalha no campo
É quem padece o tormento.

Souberam as câmaras criar
Ministros pra proteger,
Nesta terra não tem um banco
Que a ela possa favorecer.

Terra pobre como esta
Ninguém pode dar impulso,
Sem banco, sem proteção,
Fora de todo o recurso!

Vive sempre isolado
Metido nas espessuras
Com a memória no passado,
O futuro sem venturas.

Xoram todos a sua sorte,
Faz pena ver os lamentos,
De pedir dinheiro a rebate,
Por não acharem por centos.

Zombem, façam caçoada
Da vida do lavrador,
Considerem no futuro,
A sorte a Parca cortou.

O til por ser do fim,
Sempre dá uma esperança,
Na consolação dos afetos
Até chegar a bonança.


In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.105-106. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 777
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Faíscas

a fábrica longe da Av. Santa Fé era
melhor.
empacotávamos suportes de luminárias
pesados em caixas pesadas e longas
e depois jogávamos as caixas em pilhas
de seis.
aí os carregadores
vinham
esvaziar sua mesa e
você começava as seis seguintes.

jornada de dez horas
quatro no sábado
pagamento pelo sindicato
bom demais para trabalho não especializado
e se você não chegava lá
com músculos
logo, logo ia arranjá-los

a maioria de nós em 
camisetas brancas e jeans
cigarro no bico
cerveja furtiva
a gerência olhando
pro outro lado

poucos brancos
os brancos não demoravam:
trabalhadores preguiçosos
na maioria mexicanos e
pretos
frios e rancorosos

aqui e ali
brilhava uma faca
ou alguém
era ferido
a gerência olhando
pro outro lado

os raros brancos que ficavam
eram loucos

trabalhava-se
e as jovens mexicanas
nos mantinham
acesos e esperançosos
seus olhos piscando
mensagens
de lá da
linha de montagem.

eu era um dos
brancos loucos
que duraram
eu era bom trabalhador
só pelo ritmo da coisa
pelo diabo da coisa
e depois de dez horas
de trabalho duro
depois de trocar insultos
vivendo entre atritos
com os que não eram suficientemente calmos
para se conformar
saíamos
ainda dispostos

subíamos em nossos velhos
carros para
voltar para casa
beber metade da noite
brigar com nossas mulheres

para recomeçar no dia seguinte
a embalar os suportes
sabendo que éramos
uns babacas
fazendo os ricos
mais ricos

enfiávamos
nossa camiseta branca
e o jeans
e deslizávamos
entre as jovens mexicanas

éramos simples e perfeitos
para o que fazíamos
ressaca
podíamos
fazer bem pra burro
nosso trabalho

mas isso
não nos tocou
nunca

entre aquelas paredes despelando

o barulho das brocas
e serras

as faíscas

éramos uma turma boa
naquele balé mortal

éramos maravilhosos

dávamos a eles
muito mais do que pediam

e ainda assim
a eles não dávamos
nada.
1 048
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Falando a Minha Caixa de Correio...

menino, não venha me dizendo que você
não pode impedir, que
estão batendo embaixo e dentro e duro, que
estão conspirando contra você,
que tudo que você quer é uma chance, mas que eles
não vão lhe dar
uma chance.

menino, o problema é que você não está fazendo
o que quer, ou
se está, não está fazendo
bem.

menino, eu concordo:
não há muitas oportunidades, e há alguns
no topo que não estão trabalhando
lá muito melhor do que
você
mas
você está é gastando energia brigando e
resmungando.

menino, eu não estou aconselhando, estou apenas sugerindo que
em vez de me mandar seus poemas
com suas cartas
queixosas
você devia entrar na
arena -
mandar seus trabalhos para os editores,
isso vai reforçar sua espinha dorsal e sua
versatilidade.

menino, quero lhe agradecer
os elogios a alguns dos meus
trabalhos publicados,
mas isso
não tem nada a ver com
nada e não ajuda
merda nenhuma, você tem que
aprender a bater embaixo
e dentro e duro.

isso é uma espécie de carta
que eu mando pra quase todo mundo, mas
espero que você receba como
uma coisa pessoal,
homem.
1 142
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Primavera

Tem na cabeça um curso de história de arte, mas
quando as flores começam a abrir à sua volta, e
os ramos da árvore se agarram a ela, como braços
obscenos, liberta-se das preocupações teóricas e
oferece o corpo à vista do pintor, para que ele
o transforme numa alegoria da manhã. Entre ela
e o seu corpo, então, surge um conflito que não
consegue resolver: será a mulher do quadro mais
real do que ela? E terão aquelas flores o perfume
que ela respira, enquanto espera que o pintor
termine o seu retrato? As ideias que lhe passam
pela cabeça esvaziam-na de sentimentos; e pode
olhar friamente para aquela situação, pensando
que o próprio pintor se limita a executar o
que vê. Mas aquilo que está em frente dele
é ela; e quando ele se cansa, pousa os pincéis,
e arruma a tela para o fundo do atelier,
resta-lhe vestir-se, receber o que ele lhe
deve, e voltar à sua vida. Porém, já não é
a mesma coisa; e não se esquece da mulher
deitada num canto, respirando o perfume de um
jardim que vai secando, com o tempo, e que
sabe mais do que ela sobre o que é o destino
de quem entregou o seu corpo a quem não soube
o que fazer com ele, depois de o pintar.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 91 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 991
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Lição de abismo

A árvore. Onde estará?
Em que lote, em que terreno,
em que bosque, em que floresta,
terá crescido, e sugado
a vida do pó da terra?

Será que ainda existe a árvore?
a copa de passarinhos
verde e viva, verdejando,
uma sombra ao pé da estrada?

Ou será que está cortada,
desfeita em pranchas polidas,
empilhadas, empoeiradas,
madeira de serraria?

0 ferro. Em que mina o ferro
simples minério repousa
a sua paz mineral?
Será que já foi colhido
por negros braços mineiros
e trazido à luz do sol?

Será que já soube a forja
o fogo, o malho, a bigorna,
onde depois de batido
será composto em martelo?

Estará pronto o martelo?
O cabo talvez tirado
dos rijos galhos cortados
da planta desfeita em pranchas?

Os pregos. Já serão pregos
já maquinofaturados
talvez desse mesmo ferro
de que foi feito o martelo?

A mão. Que estará fazendo
a mão, neste exato instante?
Será jovem, será velha
a mão, será negra ou branca?

E assim, já composto o quadro,
quando estarão todos juntos,
a mão, o martelo, os pregos,
a madeira (e o seu destino),
para que, juntos, componham
meu caixão, meu ataúde?

Talvez a mão distraída,
pregando os pregos não sinta
que a boca do mesmo corpo
trauteia a canção da vida,
um canto simples de amor.

Talvez tudo esteja pronto,
o trabalho esteja feito,
e já se veja o ataúde
brilhando no mostruário.

E só não tenha chegado,
para o final da comédia,
o momento que não tarda
que vem por certo em caminho.
632
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Trólios E Treliças

claro, eu posso morrer nos próximos dez minutos
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa é
que meu editor-publisher talvez se aposente
muito embora ele seja dez anos mais novo do que
eu.
foi apenas 25 anos atrás (eu estava com a madura
idade avançada de 45)
que nós iniciamos nossa aliança profana para
testar as águas literárias,
nenhum dos dois sendo muito
conhecido.
acho que tivemos alguma sorte e ainda temos algo
do mesmo
mas
são bem razoáveis as chances
de que ele acabe optando por cálidas e aprazíveis
tardes
no jardim
muito antes de mim.
escrever é uma intoxicação em si
enquanto publicar e editar,
tentar cobrar contas
carrega seu próprio
atrito
que também inclui lidar com as
triviais frescuras e demandas
de vários
assim chamados gênios queridinhos que não
o são.
não vou culpá-lo por cair
fora
e espero que ele me mande fotos de sua
Rose Lane, sua
Gardenia Avenue.
será que terei de procurar outros
promulgadores?
aquele sujeito com o chapéu de pele
russo?
ou aquela peste do leste
com todos aqueles pelos
em seus ouvidos, com aqueles lábios
úmidos e gordurosos?
ou será que meu editor-publisher
tendo se retirado para o mundo de Trólios e
treliças
vai repassar a
maquinaria
de seu antigo ofício para um
primo, uma
filha ou
certo poundiano de Big
Sur?
ou será que ele vai simplesmente transmitir o legado
para o
Despachante
que vai se erguer como
Lázaro,
manejando recém-descoberta
importância?
podemos imaginar coisas
terríveis:
“Sr. Chinaski, todas as suas produções
deverão ser agora entregues em
formato rondó
e
datilografadas
com espaço triplo em papel
de arroz”.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo que
nos resta
é um
monte de
verrugas.
“não, não, Sr. Chinaski:
formato rondó!”
“ei, cara”, eu vou perguntar,
“você não ouviu falar dos
anos trinta?”
“os anos trinta? o que é
isso?”
meu atual editor-publisher
e eu
por vezes
de fato discutimos os anos trinta,
a Depressão
e
alguns dos pequenos truques que os trinta
nos ensinaram –
tipo como sobreviver com quase
nada
e seguir em frente
mesmo assim.
bem, John, se acontecer desfrute da sua
diversão em
desenvolver agricultura,
cultivar e arejar
entre
os arbustos, regar apenas no
início da manhã, espalhar
forração para desencorajar
o crescimento de ervas daninhas
e
como faço com a minha escrita:
usar bastante
esterco.
e obrigado
por me alojar lá na
5124 DeLongpre Avenue
em algum lugar entre
o alcoolismo e
a loucura.
juntos nós
atiramos a luva
e é possível
encontrar
quem aceite o desafio
inclusive nesta época tardia
enquanto o fogo canta
por entre as
árvores.
947
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Poema nos Meus 43 Anos

Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida ---
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.

...de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...

e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.
1 164
Edmir Domingues

Edmir Domingues

soneto XIV - Um mundo como o nosso

A caravana estranha, grave e estranha,
dos limpa-chaminés, dos desgraçados,
aves já quase não de tão cansados,
as sombras deste bairro morto assanha.

Seguem. E a angústia mórbida acompanha
aqueles a seus olhos bem-amados,
que sonham meigos risos sufocados
que a lua faz de antigos quando banha.

Os limpa-chaminés só têm a rua
onde tombam de sono, a luz da lua
e essas canções que são de um mundo louco,

leves, vazias, feitas de tão pouco.
Canções que repetir tento e não posso
porque não são de um mundo como o nosso.
657
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ferreiro

Filho do ferro e da fagulha
fulgurando na forja formidável
o seu fole afrouxou e sua força
em face do fiscal e da folhinha
de papel.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Censo Industrial

Que fabricas tu?
Fabrico chapéu
feito de indaiá.
Que fabricas tu?
Queijo, requeijão.
Que fabricas tu?
Faço pão de queijo.
Que fabricas tu?
Bolo de feijão.
Que fabricas tu?
Geleia da branca
e também da preta.
Que fabricas tu?
Curtidor de couro.
Que fabricas tu?
Fabrico selim,
fabrico silhão
só de sola d’anta.
Que fabricas tu?
Eu faço cabresto,
barbicacho e loro.
Que fabricas tu?
Toco uma olaria.
Que fabricas tu?
Santinho de barro.
Que fabricas tu?
Fabrico melado.
Que fabricas tu?
Eu faço garapa.
Que fabricas tu?
Fabrico restilo.
Que fabricas tu?
Sou da rapadura.
Que fabricas tu?
Fabrico purgante.
Que fabricas tu?
Eu torro café.
Que fabricas tu?
Ferradura e cravo.
Que fabricas tu?
Panela de barro.
Que fabricas tu?
Eu fabrico lenha
furtada no pasto.
Que fabricas tu?
Gaiola de arame.
Que fabricas tu?
Fabrico mundéu.
Que fabricas tu?
Bola envenenada
de matar cachorro.
Que fabricas tu?
Faço pau de fogo.
Que fabricas tu?
Facão e punhal
de sangrar capado.
Que fabricas tu?
Caixão de defunto.
Que fabricas tu?
Fabrico defunto
na dobra do morro.
Que fabricas tu?
Não fabrico. Assisto
às fabricações.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Torso

Torcendo o torso virava o volante da escavadora
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas

Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo

Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Esteira E Cesto

No entrançar de cestos ou de esteira
Há um saber que vive e não desterra
Como se o tecedor a si próprio se tecesse
E não entrançasse unicamente esteira e cesto

Mas seu humano casamento com a terra
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