Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Donizete Galvão
Anel Caucasiano
Olha para o anel de ferro
e mantém acesa a lembrança.
Lembra-te dos dez mil anos
no miolo escuro do rochedo.
Lembra-te, depois, da visitante
e do barulho de suas asas.
Lembra-te da humilhação
de revelar o que era segredo.
Lembra-te de tudo
antes que todos se esqueçam dessa história
e, mero acidente geográfico,
reste apenas a montanha de pedra.
e mantém acesa a lembrança.
Lembra-te dos dez mil anos
no miolo escuro do rochedo.
Lembra-te, depois, da visitante
e do barulho de suas asas.
Lembra-te da humilhação
de revelar o que era segredo.
Lembra-te de tudo
antes que todos se esqueçam dessa história
e, mero acidente geográfico,
reste apenas a montanha de pedra.
1 075
Ruy Belo
Esta situação
E a senhora dos filhos e dos gritos e da malha
não falha nenhum dia chega sempre à mesma hora
Poderás ser feliz: basta mudar de esplanada
mas acredita não resolve nada
a mesma água vem na mesma calha
e é tudo como antes para aquele que chora:
a mudança é fatal até para a face mudada
Já nela havia rugas e era fresca e corada
A cara da senhora? Não. Mas espera, talvez
o que eu disse estivesse já dito de vez
E eu só amanhã me vou ontem embora
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 112 | Editorial Presença Lda., 1984
não falha nenhum dia chega sempre à mesma hora
Poderás ser feliz: basta mudar de esplanada
mas acredita não resolve nada
a mesma água vem na mesma calha
e é tudo como antes para aquele que chora:
a mudança é fatal até para a face mudada
Já nela havia rugas e era fresca e corada
A cara da senhora? Não. Mas espera, talvez
o que eu disse estivesse já dito de vez
E eu só amanhã me vou ontem embora
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 112 | Editorial Presença Lda., 1984
1 014
Fernando Pessoa
Hora a hora não dura a face antiga
Hora a hora não dura a face antiga
Dos repetidos seres, e hora a hora,
Pensando, envelhecemos.
Tudo passa ignorado, e o que, sabido,
Fica só sabe que ignora, porém nada
Torna, ciente ou néscio.
Pares, assim, do que não somos pares,
Da hora incerta a chama agasalhemos
Com côncavas mãos frias.
Dos repetidos seres, e hora a hora,
Pensando, envelhecemos.
Tudo passa ignorado, e o que, sabido,
Fica só sabe que ignora, porém nada
Torna, ciente ou néscio.
Pares, assim, do que não somos pares,
Da hora incerta a chama agasalhemos
Com côncavas mãos frias.
911
Dom Francisco Manuel de Melo
Soneto I
Formosura, e Morte, advertidas por um corpo
belíssimo, junto à sepultura.
Armas do amor, planetas da ventura
Olhos, adonde sempre era alto dia,
Perfeição, que não cabe em fantasia,
Formosura maior que a formosura:
Cova profunda, triste, horrenda, escura,
Funesta alcova de morada fria,
Confusa solidão, só companhia,
Cujo nome melhor é sepultara:
Quem tantas maravilhas diferentes
Pode fazer unir, senão a morte?
A morte foi em sem-razões mais rara.
Tu, que vives triunfante sobre as gentes.
Nota (pois te ameaça uma igual sorte)
Donde pára a beleza, e no que pára.
belíssimo, junto à sepultura.
Armas do amor, planetas da ventura
Olhos, adonde sempre era alto dia,
Perfeição, que não cabe em fantasia,
Formosura maior que a formosura:
Cova profunda, triste, horrenda, escura,
Funesta alcova de morada fria,
Confusa solidão, só companhia,
Cujo nome melhor é sepultara:
Quem tantas maravilhas diferentes
Pode fazer unir, senão a morte?
A morte foi em sem-razões mais rara.
Tu, que vives triunfante sobre as gentes.
Nota (pois te ameaça uma igual sorte)
Donde pára a beleza, e no que pára.
1 418
Donizete Galvão
Silêncio
De pedra ser.
Da pedra ter
o duro desejo de durar.
Passem as legiões
com seus ossos expostos.
Chorem os velhos
com casacos de naftalina.
A nave branca chega ao porto
e tinge de vinho o azul do mar.
O maciço de rocha,
de costas para a cidade
sete vezes destruída,
celebra o silêncio.
A pedra cala
o que nela dói.
Da pedra ter
o duro desejo de durar.
Passem as legiões
com seus ossos expostos.
Chorem os velhos
com casacos de naftalina.
A nave branca chega ao porto
e tinge de vinho o azul do mar.
O maciço de rocha,
de costas para a cidade
sete vezes destruída,
celebra o silêncio.
A pedra cala
o que nela dói.
1 219
Fernando Pessoa
Não torna atrás a negregada prole
Não torna atrás a negregada prole
Regular de Saturno,
Nem magnos deuses implorados volvem
Quem foi à luz que vemos.
Moramos, hóspedes na vida, e usamos
Um tempo do discurso,
Um breve amor, um sorriso breve, e um dia
Saudoso de todos.
Regular de Saturno,
Nem magnos deuses implorados volvem
Quem foi à luz que vemos.
Moramos, hóspedes na vida, e usamos
Um tempo do discurso,
Um breve amor, um sorriso breve, e um dia
Saudoso de todos.
1 114
Fernando Pessoa
Teu olhar não tem remorsos
Teu olhar não tem remorsos
Não é por não ter que os ter.
É porque hoje não é ontem
E viver é só esquecer.
Não é por não ter que os ter.
É porque hoje não é ontem
E viver é só esquecer.
1 307
Affonso Romano de Sant'Anna
O Morto Cresce
O morto cresce estranhamente, logo que morre.
A barba brota-lhe no rosto
e as unhas se alongam.
O morto cresce em nossa mente.
Súbito, recrudesce o afeto
ampliam-se as lembranças,
dilata-se a biografia
nas conversas e jornais.
O morto, antes de morrer completamente
instala-se no nosso espanto
iludindo a própria morte.
Depois, a urgência da vida
toma conta de nossos dias
e o morto se conforma
encolhe-se
e fica amortecido num canto da memória
até morrer de novo
dentro de nossa morte.
A barba brota-lhe no rosto
e as unhas se alongam.
O morto cresce em nossa mente.
Súbito, recrudesce o afeto
ampliam-se as lembranças,
dilata-se a biografia
nas conversas e jornais.
O morto, antes de morrer completamente
instala-se no nosso espanto
iludindo a própria morte.
Depois, a urgência da vida
toma conta de nossos dias
e o morto se conforma
encolhe-se
e fica amortecido num canto da memória
até morrer de novo
dentro de nossa morte.
1 368
Ruy Belo
Miséria e grandeza
Nem uma só pegada nos deixaste
entre as areias desta praia
que em dias e barcos nos é dada
e à vida pertence dar um rosto
Tudo é táctil demais à nossa volta
e na pessoa quotidiana que passa
incorrigivelmente descobrimos
o anjo que nos diga: "Não temas!"
Só nos é dada a palavra
o nosso modo humano de morder o tempo
Não há outra saída para além de ficarmos
hirtos sob as folhas que caem
nupcialmente sobre nós e os sonhos
Mas lá de quando em quando
distante como um passado lembrado
e então como se fosse para sempre
tu és uma presença redonda no meu ombro de morte
anjo de luz que apetece tocar
em vez da terra que os dedos nos trazem dos dias
e das metáforas mais ou menos subsistentes
como a vida e as outras sombras
e até as palavras quando ´são indiferentes
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
entre as areias desta praia
que em dias e barcos nos é dada
e à vida pertence dar um rosto
Tudo é táctil demais à nossa volta
e na pessoa quotidiana que passa
incorrigivelmente descobrimos
o anjo que nos diga: "Não temas!"
Só nos é dada a palavra
o nosso modo humano de morder o tempo
Não há outra saída para além de ficarmos
hirtos sob as folhas que caem
nupcialmente sobre nós e os sonhos
Mas lá de quando em quando
distante como um passado lembrado
e então como se fosse para sempre
tu és uma presença redonda no meu ombro de morte
anjo de luz que apetece tocar
em vez da terra que os dedos nos trazem dos dias
e das metáforas mais ou menos subsistentes
como a vida e as outras sombras
e até as palavras quando ´são indiferentes
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
866
Ruy Belo
Córdoba Lejana y Sola
Nesta cidade aonde fomos jovens
colhemos hoje na praça
raios do último sol
Qual criança que ousaria ainda
nascer em nossos olhos?
Entrar-nos-ia ainda hoje a rua em casa
como quando eram possíveis todos os regressos?
Extingue-se-nos já na boca a tarde
Em que país ouvimos estes sons cair?
Vai longe o tempo em que andávamos
perto dos pássaros
Prometiam os olhos futuras estrelas
morriam-nos no rosto todos os poentes
Agora só a noite virá
estender um manto sobre a nossa agitação
E a tua palavra há-de planar em nossa alma
como qualquer folha de plátano na tarde
Este céu passará e então
teu riso descerá dos montes pelos rios
até desaguar no nosso coração
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 53 e 54 | Editorial Presença Lda., 1984
colhemos hoje na praça
raios do último sol
Qual criança que ousaria ainda
nascer em nossos olhos?
Entrar-nos-ia ainda hoje a rua em casa
como quando eram possíveis todos os regressos?
Extingue-se-nos já na boca a tarde
Em que país ouvimos estes sons cair?
Vai longe o tempo em que andávamos
perto dos pássaros
Prometiam os olhos futuras estrelas
morriam-nos no rosto todos os poentes
Agora só a noite virá
estender um manto sobre a nossa agitação
E a tua palavra há-de planar em nossa alma
como qualquer folha de plátano na tarde
Este céu passará e então
teu riso descerá dos montes pelos rios
até desaguar no nosso coração
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 53 e 54 | Editorial Presença Lda., 1984
1 895
Antero de Quental
Aspiração
Meus dias vão correndo vagarosos,
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.
É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.
Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...
Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.
É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.
Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...
Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!
2 928
Fernando Pessoa
35 - THE HOURS
The hours are weary of being hours.
Oh, to be aught else! they say.
Their task's to age children, hopes and flowers,
Paint lips cold and hairs gray.
They sicken and sadden and deaden beauty.
When they pass and look behind,
Lining the path of their ended duty
They only weeping fmd.
So, Oh, to be something else! they say,
For they think they know
That the things and thoughts they take away
Really fade and go.
But they do not know, blind misers screening
A robber‑changed false pelf,
That everything has Another Meaning -
Ay, even God Himself
Oh, to be aught else! they say.
Their task's to age children, hopes and flowers,
Paint lips cold and hairs gray.
They sicken and sadden and deaden beauty.
When they pass and look behind,
Lining the path of their ended duty
They only weeping fmd.
So, Oh, to be something else! they say,
For they think they know
That the things and thoughts they take away
Really fade and go.
But they do not know, blind misers screening
A robber‑changed false pelf,
That everything has Another Meaning -
Ay, even God Himself
1 475
Ruy Belo
Jerusalém, Jerusalém... ou Alto da Serafina
Que importa que morramos se a tarde é de sol
e o céu se abre às lágrimas
que sobre a cidade choras?
Esmagam-se lá longe contra a igreja as casas
aonde os homens nascem e aceitam
a grade humilhação da morte
onde as mulheres acenam tristemente panos sujos
de não dizerem adeus a nenhum barco
onde já ninguém sabe onde os anos começam
Pesadamente vão caindo os sinos
e tu a um e um desfolhas
os olhos sobre o tempo
O que trocamos são crostas de silêncio:
tivéssemos em teu reino o lugar
que esta folha de outono tem sobre o asfalto
e a espaços certa música na alma
Que importa que morramos se o passado está certo
se voltas para nós a mágoa que te molha a face
de virmos de tão longe tendo-te tão perto?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 54 | Editorial Presença Lda., 1984
e o céu se abre às lágrimas
que sobre a cidade choras?
Esmagam-se lá longe contra a igreja as casas
aonde os homens nascem e aceitam
a grade humilhação da morte
onde as mulheres acenam tristemente panos sujos
de não dizerem adeus a nenhum barco
onde já ninguém sabe onde os anos começam
Pesadamente vão caindo os sinos
e tu a um e um desfolhas
os olhos sobre o tempo
O que trocamos são crostas de silêncio:
tivéssemos em teu reino o lugar
que esta folha de outono tem sobre o asfalto
e a espaços certa música na alma
Que importa que morramos se o passado está certo
se voltas para nós a mágoa que te molha a face
de virmos de tão longe tendo-te tão perto?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 54 | Editorial Presença Lda., 1984
674
Armando Freitas Filho
Vou gota a gota
Vou gota a gota
aos poucos
mas apesar de todo cálculo
e de tanta cautela
acabo não me poupando
pois estou sempre na ponta
do trampolim
e o tempo aí já não cuida
de segurar nada — não sabe —
conter-se nem contar
o que de fato aconteceu:
se foi vôo, queda ou mergulho.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
aos poucos
mas apesar de todo cálculo
e de tanta cautela
acabo não me poupando
pois estou sempre na ponta
do trampolim
e o tempo aí já não cuida
de segurar nada — não sabe —
conter-se nem contar
o que de fato aconteceu:
se foi vôo, queda ou mergulho.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
1 292
Armando Freitas Filho
O que se lê, ali
O que se lê, ali
a sós
na ilha de um minuto
é tudo o que vem logo
ao léu: olá leitor
eis minha palavra-ventarola
e o mais que está além
é apenas luz
ou o sol no céu, somente.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Entre.
a sós
na ilha de um minuto
é tudo o que vem logo
ao léu: olá leitor
eis minha palavra-ventarola
e o mais que está além
é apenas luz
ou o sol no céu, somente.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Entre.
1 136
Affonso Romano de Sant'Anna
Arte Mortal
Anda me cercando a morte
por vários lados
abrindo alçapões
até dentro da casa.
Anda me espreitando
querendo intimidades
dentro dos lençóis.
Anda num vai e vem
de comadre sirigaita. Vem
lança um boato e parte. Vem
toda manhã
deixa a mensagem
no jornal do espelho
inscrevendo
no meu rosto
sua antiobra de arte.
por vários lados
abrindo alçapões
até dentro da casa.
Anda me espreitando
querendo intimidades
dentro dos lençóis.
Anda num vai e vem
de comadre sirigaita. Vem
lança um boato e parte. Vem
toda manhã
deixa a mensagem
no jornal do espelho
inscrevendo
no meu rosto
sua antiobra de arte.
1 273
João Marcio Furtado Costa
Num Segundo, O Milênio
Num Segundo, O Milênio
(05/93)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
De mil passarás e a dois mil não chegarás!
Um por todos e todos por um.
De dois mil passarás e a três mil, quem saberá?
Chegaremos a lugar algum?
O tempo avança: Segundo, hora, milênio...
O mundo cansa: Urânio, ouro, oxigênio...
Elemento ou tempo? Tempo ou elemento?
O que mais importa no momento?
O que poderá nos salvar?
(05/93)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
De mil passarás e a dois mil não chegarás!
Um por todos e todos por um.
De dois mil passarás e a três mil, quem saberá?
Chegaremos a lugar algum?
O tempo avança: Segundo, hora, milênio...
O mundo cansa: Urânio, ouro, oxigênio...
Elemento ou tempo? Tempo ou elemento?
O que mais importa no momento?
O que poderá nos salvar?
743
Ruy Belo
Imaginatio locorum
Era uma vez talvez algum país de sinos
de sons entreouvidos no passado
constantemente renovado de quem morre cada dia
e forra de manhãs o interior dos olhos
pastor de escolhos vários entre os limos e os nimbos
Talvez ainda agora haja crianças
ou venha no inverno saudar-nos o verão
Talvez primeiros passos olhos limpos
escolas jogos coisas novamente novas haja ainda
Sob as pontes do Tibre a mesma água correrá talvez
Talvez na minha tarde tudo caiba ainda
chuva no olhar ou ave núbil sobre a rubra Babilónia
e suba no entulho a derrocada casa cedo percorrida
ou nasçam nas regueiras pela primavera outra vez as rãs
- ah! poder eu molhar os meus actuais pés pela primeira vez
Caíram as maçãs onde nupcial algum rosto ondulava
havia muita gente a proteger-me
e não tinha talvez chovido ainda
Talvez possa chorar à periferia a beira-mar da minha vida
talvez seja cantar o último recurso
Talvez eu espere o mês possível entre abril e maio
o calmo manto sobre a agitação dos homens
a ilha - ó cisne, ó ilha branca de bondade -
a hora-pérola o rosto inabordável mas familiar
frequentes braços sobre penas e cansaços
a voz não conhecida e afinal a prometida
contida numa pedra branca e sempre nova apesar de sem cessar a mesma
Talvez além dos montes haja a única cidade
a do inverno dos pinhais do vento
dos novelos de vida além das evidentes oliveiras
do fim definitivo de semana
de cada um dos dias esmagados contra a mais aguda esquina
das lágrimas das névoas ou do mar
(afinal pouco mais neste país eu quis cantar:
talvez nem mesmo o mar nem uns olhos ocasionais
- todos aqueles por onde tu não vais
nem jamais podes ir)
Talvez nos reste uma janela sobre a madrugada
cingindo o rosto aos mais distantes gestos
Acerquemo-nos mais: talvez possamos ser apenas um
num corpo só uma infância comum
Pela janela o sol e o comboio o sino e mesmo o cão
- nenhuma outra voz que não
a sua entre nós e a proibida aldeia
e os áditos de Deus e o coração da suspirada tarde
e o anónimo assobio perdido na azinhaga
com cheiros e com vozes e com passos de crianças
naquela inquietude que em si mesma se compraz
Como saber de mim? Eu - que diabo! -
apesar de estrangeiro atrás da face pelo tempo atribuída
e de enxertado em oliveira e zambujeiro
talvez ainda tenha algumas tias
Talvez eu reconquiste ainda a minha tão perdida aldeia
e vá colhendo espargos ao longo do muro
senhor de mim como quem sabe as horas certas e notando ingenuamente
como por ser domingo as coisas que se vêem são diferentes
É talvez esse o dia em que recolho os olhos
e molho de maresia a mais vazia dor da minha ausência
Como encontrar-me? É ver-me nesse ou noutro dia
debaixo do olhar da mais jovem mulher
que como um manto branco pelos dias se desdobra
em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela
setenta vezes vista blasfemada e admirada
sempre deserta e sempre povoada
aonde vale a pena o pôr-do-sol
e a palavra é mais que nunca provisória
Não temos o direito à alegria nem talvez
ao próximo rumor do mar ditante
Nas margens do Halis talvez habite ainda
a esperança de que os deuses encham tudo
o cheiro do jornal a tragédia da música na rua
o coração fechado à primeira manhã
as tardes de novembro a dor de folha em folha
Talvez o persistente trigo esconda um pouco da verdade
Talvez seja de Deus o nosso tempo
E a alegria é uma casa demolida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 77 a 79 | Editorial Presença Lda., 1984
de sons entreouvidos no passado
constantemente renovado de quem morre cada dia
e forra de manhãs o interior dos olhos
pastor de escolhos vários entre os limos e os nimbos
Talvez ainda agora haja crianças
ou venha no inverno saudar-nos o verão
Talvez primeiros passos olhos limpos
escolas jogos coisas novamente novas haja ainda
Sob as pontes do Tibre a mesma água correrá talvez
Talvez na minha tarde tudo caiba ainda
chuva no olhar ou ave núbil sobre a rubra Babilónia
e suba no entulho a derrocada casa cedo percorrida
ou nasçam nas regueiras pela primavera outra vez as rãs
- ah! poder eu molhar os meus actuais pés pela primeira vez
Caíram as maçãs onde nupcial algum rosto ondulava
havia muita gente a proteger-me
e não tinha talvez chovido ainda
Talvez possa chorar à periferia a beira-mar da minha vida
talvez seja cantar o último recurso
Talvez eu espere o mês possível entre abril e maio
o calmo manto sobre a agitação dos homens
a ilha - ó cisne, ó ilha branca de bondade -
a hora-pérola o rosto inabordável mas familiar
frequentes braços sobre penas e cansaços
a voz não conhecida e afinal a prometida
contida numa pedra branca e sempre nova apesar de sem cessar a mesma
Talvez além dos montes haja a única cidade
a do inverno dos pinhais do vento
dos novelos de vida além das evidentes oliveiras
do fim definitivo de semana
de cada um dos dias esmagados contra a mais aguda esquina
das lágrimas das névoas ou do mar
(afinal pouco mais neste país eu quis cantar:
talvez nem mesmo o mar nem uns olhos ocasionais
- todos aqueles por onde tu não vais
nem jamais podes ir)
Talvez nos reste uma janela sobre a madrugada
cingindo o rosto aos mais distantes gestos
Acerquemo-nos mais: talvez possamos ser apenas um
num corpo só uma infância comum
Pela janela o sol e o comboio o sino e mesmo o cão
- nenhuma outra voz que não
a sua entre nós e a proibida aldeia
e os áditos de Deus e o coração da suspirada tarde
e o anónimo assobio perdido na azinhaga
com cheiros e com vozes e com passos de crianças
naquela inquietude que em si mesma se compraz
Como saber de mim? Eu - que diabo! -
apesar de estrangeiro atrás da face pelo tempo atribuída
e de enxertado em oliveira e zambujeiro
talvez ainda tenha algumas tias
Talvez eu reconquiste ainda a minha tão perdida aldeia
e vá colhendo espargos ao longo do muro
senhor de mim como quem sabe as horas certas e notando ingenuamente
como por ser domingo as coisas que se vêem são diferentes
É talvez esse o dia em que recolho os olhos
e molho de maresia a mais vazia dor da minha ausência
Como encontrar-me? É ver-me nesse ou noutro dia
debaixo do olhar da mais jovem mulher
que como um manto branco pelos dias se desdobra
em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela
setenta vezes vista blasfemada e admirada
sempre deserta e sempre povoada
aonde vale a pena o pôr-do-sol
e a palavra é mais que nunca provisória
Não temos o direito à alegria nem talvez
ao próximo rumor do mar ditante
Nas margens do Halis talvez habite ainda
a esperança de que os deuses encham tudo
o cheiro do jornal a tragédia da música na rua
o coração fechado à primeira manhã
as tardes de novembro a dor de folha em folha
Talvez o persistente trigo esconda um pouco da verdade
Talvez seja de Deus o nosso tempo
E a alegria é uma casa demolida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 77 a 79 | Editorial Presença Lda., 1984
1 234
António Ramos Rosa
A Mulher
Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
1 231
Nuno Júdice
Faço um castelo na areia
Faço um castelo na areia do futuro. Torres
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe as linhas do infinito,
derrubando os muros da manhã.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 28 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe as linhas do infinito,
derrubando os muros da manhã.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 28 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 858
Ruy Belo
As duas mortes
A noite desce ainda somos jovens
Morrer é deixar isto a este lado
De nada serve já
o diálogo com vozes silêncios
na praia a nosso lado
Amanhã molharemos
o corpo noutro dia e beberemos
na bica costumada
onde poderá subitamente correr
uma canção conhecida
Cada dia mais morte que morte
haverá para nós no fim dos dias?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 46 | Editorial Presença Lda., 1984
Morrer é deixar isto a este lado
De nada serve já
o diálogo com vozes silêncios
na praia a nosso lado
Amanhã molharemos
o corpo noutro dia e beberemos
na bica costumada
onde poderá subitamente correr
uma canção conhecida
Cada dia mais morte que morte
haverá para nós no fim dos dias?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 46 | Editorial Presença Lda., 1984
1 207
Affonso Romano de Sant'Anna
Canibalismo Repensado
Às vezes tenho a impressão
que, apressado, vivo deglutindo a vida
pensando em comer-comer
com a voracidade do gourmand
sem a sutileza do gourmet.
Às vezes, penso que estou, na pressa
perdendo o sabor, o refino do tempero
o bouquet dos sentimentos
e que os fatos e pessoas
é que finalmente me devoram.
Estou cansado disto.
Paro. Penso. E, então, escrevo:
Oh! vida, que generosa tens sido!
Adeus canibalismo apressado
começo a saborear minúcias
quero mais delicadezas
na minha cama, na minha mesa.
que, apressado, vivo deglutindo a vida
pensando em comer-comer
com a voracidade do gourmand
sem a sutileza do gourmet.
Às vezes, penso que estou, na pressa
perdendo o sabor, o refino do tempero
o bouquet dos sentimentos
e que os fatos e pessoas
é que finalmente me devoram.
Estou cansado disto.
Paro. Penso. E, então, escrevo:
Oh! vida, que generosa tens sido!
Adeus canibalismo apressado
começo a saborear minúcias
quero mais delicadezas
na minha cama, na minha mesa.
1 129
Ruy Belo
Vita Mutatur
Nunca até hoje eu morrera tanto em alguém
Caíste mais na minha orla
do que a nespereira do quintal
Não secou para mim assim o paul de malmequeres
onde os ralos iam repetir as noites
e os abibes vinham de estações no bico
O mesmo céu que tu me desdobraste sobre a infância
acaba de depor na tua fronte
o excessivo peso de uma estrela
Com a tua partida a minha história começa
a escrever-se para além da curva
onde à tarde rompia a camioneta das cinco:
nenhum outro veículo vinha
tão cheio de longe e de tempo
A natureza entrava pela noite dentro precedida
no pátio pelos véus da sombra
Agora as tuas pálpebras desceram
Não mais o teu olhar te defende
Tu és um ser exposto a todos os olhares
esgotado resumido e sem mistério
Deixaste abertas todas as gavetas
desordenada a secretária
Já a tua presença não reúne
as linhas divididas desse rosto
que essas humildes coisas tinham
para ti nem a tua sombra cobre
domésticos e ínfimos segredos
Tens finalmente aquele metro e oitenta
a que te circunscreviam civilmente
é essa até a tua última
dimensão conhecida
Levarei mais longe a tua vida e cobrirei
da tua morte um pouco mais de terra
Haja sempre novos olhos
abertos no muro do tempo
e braços que transmitam o sol
à volta da terra para lá do mar
Já as primeiras chuvas perseguem
os passos que cumpriste na praia
Tudo nessa posição te dispõe
para o dia da grande aceitação
Estende-se sobre ti na sua superfície de mar
o grande olhar de deus
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 42 e 43 | Editorial Presença Lda., 1984
Caíste mais na minha orla
do que a nespereira do quintal
Não secou para mim assim o paul de malmequeres
onde os ralos iam repetir as noites
e os abibes vinham de estações no bico
O mesmo céu que tu me desdobraste sobre a infância
acaba de depor na tua fronte
o excessivo peso de uma estrela
Com a tua partida a minha história começa
a escrever-se para além da curva
onde à tarde rompia a camioneta das cinco:
nenhum outro veículo vinha
tão cheio de longe e de tempo
A natureza entrava pela noite dentro precedida
no pátio pelos véus da sombra
Agora as tuas pálpebras desceram
Não mais o teu olhar te defende
Tu és um ser exposto a todos os olhares
esgotado resumido e sem mistério
Deixaste abertas todas as gavetas
desordenada a secretária
Já a tua presença não reúne
as linhas divididas desse rosto
que essas humildes coisas tinham
para ti nem a tua sombra cobre
domésticos e ínfimos segredos
Tens finalmente aquele metro e oitenta
a que te circunscreviam civilmente
é essa até a tua última
dimensão conhecida
Levarei mais longe a tua vida e cobrirei
da tua morte um pouco mais de terra
Haja sempre novos olhos
abertos no muro do tempo
e braços que transmitam o sol
à volta da terra para lá do mar
Já as primeiras chuvas perseguem
os passos que cumpriste na praia
Tudo nessa posição te dispõe
para o dia da grande aceitação
Estende-se sobre ti na sua superfície de mar
o grande olhar de deus
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 42 e 43 | Editorial Presença Lda., 1984
1 182
Affonso Romano de Sant'Anna
Vou Ficar de Vez Na Porta Deste Cemitério
Vou ficar de vez na porta deste cemitério.
Assim, já não serei surpreendido
quando outro corpo dobrar a esquina.
Vou ficar de vez na porta deste cemitério.
Farei aqui minha tenda como os antigos
que ali montavam feiras e quermesses
como tranquilos inquilinos.
Aguardarei aqui a morte
que há algum tempo começou a chegar. A morte
que há muito tempo começou a cavar. A morte
repentina, que diariamente abre sua oficina. A morte
matinal e vespertina. A minha morte
que há muito tempo
nasceu em mim, em Minas.
Assim, já não serei surpreendido
quando outro corpo dobrar a esquina.
Vou ficar de vez na porta deste cemitério.
Farei aqui minha tenda como os antigos
que ali montavam feiras e quermesses
como tranquilos inquilinos.
Aguardarei aqui a morte
que há algum tempo começou a chegar. A morte
que há muito tempo começou a cavar. A morte
repentina, que diariamente abre sua oficina. A morte
matinal e vespertina. A minha morte
que há muito tempo
nasceu em mim, em Minas.
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