Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Alexandre S. Santos
Hora Tardia
Não falta a cadência dos sentidos ignotos
perscrutando as incontáveis horas mortas
sobre o véu insondável do tempo esquecido.
Não resta a peripécia da mente excitada
gozando a possível resposta à esfinge famigerada.
Não importam os piscares vítreos dissimulando
os afagos, dando corda às batidas no peito.
Não há traços da saliva que silenciara
os poemas, mortos antes do parto.
Não mais o sentido dos corpos,
a ilusão do desejo incontido,
das mortes pequenas.
Não!
Findou a vida e transpus
o portal da morte, perguntando:
por que não aprendi a amar?
perscrutando as incontáveis horas mortas
sobre o véu insondável do tempo esquecido.
Não resta a peripécia da mente excitada
gozando a possível resposta à esfinge famigerada.
Não importam os piscares vítreos dissimulando
os afagos, dando corda às batidas no peito.
Não há traços da saliva que silenciara
os poemas, mortos antes do parto.
Não mais o sentido dos corpos,
a ilusão do desejo incontido,
das mortes pequenas.
Não!
Findou a vida e transpus
o portal da morte, perguntando:
por que não aprendi a amar?
977
Vasko Popa
Caracol estrelado
Deslizaste depois da chuva
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
860
Carlos Drummond de Andrade
Notícias de Janeiro
Janeiro:
preparo lento e longo combimed
o coração batendo comcitec
nervos elétricos comsart
na geografia
que o Rio transformou em Cesgranrio.
Janeiro, estoura o grito
de euforia em frente ao gabarito
ou o morder de lábios do malogro
que o computador tritura em números.
(Computador: cara moderna do destino.)
Janeiro, o ano inteiro
a repetir os jogos malabares
da arte de decifrar em amarelo
rosa verde azul e cor de angústia
a quíntupla verônica da esfinge?
Janeiro, me levaste
(ah, não foi justo este começo de ano)
o mais jovem poeta brasileiro,
aquele que ia sempre mariscando
dentro do verso um outro verso
não verso, exato signo
no campo visual onde o poema
envolve em sua luz a linha livre.
Caríssimo Cassiano
Ricardo em Lourdes completado,
sutil denunciador
de nossa condição sobrevivente
à espera de nascer,
como nasce a caviúna
de sua própria raiz,
solene anunciador
da infância futura.
Requintaste, janeiro, em desfalcar-nos,
e já nos levas outro: Nilo Aparecida,
poeta-concha, quase silencioso
conversador da Rua São José
(ou sua concha era o castelo do soneto
despojado de enxúndias parnasianas,
objeto sereno e cristalino?).
Outras faltas prometes, e já vejo
um ano despojado de matérias-
-primas, ano de tanga
ou sem ela. Faltará também amor,
essa matéria-prima entre as mais primas,
que resume em rondó todas as rimas?
Faltará ao encontro a namorada
como à vista faltou o Kohoutek?
Juízo faltará… ou já faltava,
e a gente nem sequer desconfiava?
Não me faltem ao menos os crepúsculos
no salso belvedere do Arpoador,
mesmo que eu lá não vá; quero saber
do ir e vir de gaivotas, e da tarde
pousando sobre a espuma em leque de íris.
Quero, 74, ter a graça
de ver uma rolinha visitar
a janela e, chegando entre meus livros
e o rosto de Baudelaire por Manet
gravado (que é presente de uma amiga),
sair sem censurar que perdi tempo,
meu tempo consumindo entre aparências
de sombras, palpitantes nessas páginas.
O que te peço? Umas pequenas coisas,
independentes de poder ou guerra,
umas coloridas, outras brancas,
todas leves, levíssimas, no vento…
Ora, atende-me, pois; vê se te mancas.
19/01/1974
preparo lento e longo combimed
o coração batendo comcitec
nervos elétricos comsart
na geografia
que o Rio transformou em Cesgranrio.
Janeiro, estoura o grito
de euforia em frente ao gabarito
ou o morder de lábios do malogro
que o computador tritura em números.
(Computador: cara moderna do destino.)
Janeiro, o ano inteiro
a repetir os jogos malabares
da arte de decifrar em amarelo
rosa verde azul e cor de angústia
a quíntupla verônica da esfinge?
Janeiro, me levaste
(ah, não foi justo este começo de ano)
o mais jovem poeta brasileiro,
aquele que ia sempre mariscando
dentro do verso um outro verso
não verso, exato signo
no campo visual onde o poema
envolve em sua luz a linha livre.
Caríssimo Cassiano
Ricardo em Lourdes completado,
sutil denunciador
de nossa condição sobrevivente
à espera de nascer,
como nasce a caviúna
de sua própria raiz,
solene anunciador
da infância futura.
Requintaste, janeiro, em desfalcar-nos,
e já nos levas outro: Nilo Aparecida,
poeta-concha, quase silencioso
conversador da Rua São José
(ou sua concha era o castelo do soneto
despojado de enxúndias parnasianas,
objeto sereno e cristalino?).
Outras faltas prometes, e já vejo
um ano despojado de matérias-
-primas, ano de tanga
ou sem ela. Faltará também amor,
essa matéria-prima entre as mais primas,
que resume em rondó todas as rimas?
Faltará ao encontro a namorada
como à vista faltou o Kohoutek?
Juízo faltará… ou já faltava,
e a gente nem sequer desconfiava?
Não me faltem ao menos os crepúsculos
no salso belvedere do Arpoador,
mesmo que eu lá não vá; quero saber
do ir e vir de gaivotas, e da tarde
pousando sobre a espuma em leque de íris.
Quero, 74, ter a graça
de ver uma rolinha visitar
a janela e, chegando entre meus livros
e o rosto de Baudelaire por Manet
gravado (que é presente de uma amiga),
sair sem censurar que perdi tempo,
meu tempo consumindo entre aparências
de sombras, palpitantes nessas páginas.
O que te peço? Umas pequenas coisas,
independentes de poder ou guerra,
umas coloridas, outras brancas,
todas leves, levíssimas, no vento…
Ora, atende-me, pois; vê se te mancas.
19/01/1974
615
Jorge Luis Borges
Todos los ayeres, un sueño
Naderías. El nombre de Muraña,
una mano templando una guitarra,
una voz, hoy pretérita que narra
para la tarde una perdida hazaña
de burdel o de atrio, una porfía,
dos hierros, hoy herrumbre, que chocaron
y alguien quedó tendido, me bastaron
para erigir una mitología.
Una mitología ensangentada
que ahora es el ayer. la sabia historia
de las aulas no es menos ilusoria
que esa mitología de la nada.
El pasado es arcilla que el presente
labra a su antojo. Interminablemente.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 624 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
una mano templando una guitarra,
una voz, hoy pretérita que narra
para la tarde una perdida hazaña
de burdel o de atrio, una porfía,
dos hierros, hoy herrumbre, que chocaron
y alguien quedó tendido, me bastaron
para erigir una mitología.
Una mitología ensangentada
que ahora es el ayer. la sabia historia
de las aulas no es menos ilusoria
que esa mitología de la nada.
El pasado es arcilla que el presente
labra a su antojo. Interminablemente.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 624 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
2 024
Carlos Eduardo Bandeira de Mello Gomes
O Silêncio
O silêncio
morre na boca azul da lua
"temos todo o tempo do mundo"
só não tenho tempo de viver
mas vivo, claro verbo profundo
"parece cocaína mas é só tristeza"
o silêncio
nasce no ventre branco do lírio
passa o colírio
e uma gota de orvalho do teu incêndio
morre na boca azul da lua
"temos todo o tempo do mundo"
só não tenho tempo de viver
mas vivo, claro verbo profundo
"parece cocaína mas é só tristeza"
o silêncio
nasce no ventre branco do lírio
passa o colírio
e uma gota de orvalho do teu incêndio
842
Fernando Pessoa
Cada momento que a um prazer não voto
Cada momento que a um prazer não voto
Perco, nem curo se o prazer me é dado;
Porque o sonho de um gozo
No gozo não é sonho.
Perco, nem curo se o prazer me é dado;
Porque o sonho de um gozo
No gozo não é sonho.
1 432
Fernando Pessoa
Tenho ainda na lembrança
Tenho ainda na lembrança
Como uma coisa que vejo,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!
Como uma coisa que vejo,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!
1 716
Fernando Pessoa
Amo o que vejo porque deixarei
Amo o que vejo porque deixarei
Qualquer dia de o ver.
Amo-o também porque é.
No plácido intervalo em que me sinto,
Do amar, mais que ser,
Amo o haver tudo e a mim.
Melhor me não dariam, se voltassem,
Os primitivos deuses,
Que também, nada sabem.
Qualquer dia de o ver.
Amo-o também porque é.
No plácido intervalo em que me sinto,
Do amar, mais que ser,
Amo o haver tudo e a mim.
Melhor me não dariam, se voltassem,
Os primitivos deuses,
Que também, nada sabem.
1 744
Jorge Luis Borges
Piedras y Chile
Por aquí habré pasado tantas veces.
No puedo recordarlas. Más lejana
que el Ganges me parece la mañana
o la tarde en que fueron. Los reveses
de la suerte ya no cuentan. Ya son parte
de esa dócil arcilla, mi pasado,
que borra el tiempo o que maneja el arte
y que ningún augur ha descifrado.
Tal vez en la tiniebla hubo una espada,
acaso hubo una rosa. Entretejidas
sombras las guardan hoy en sus guaridas.
Sólo me queda la ceniza. Nada.
Absuelto de las máscaras que he sido,
seré en la muerte mi total olvido.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 625 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
No puedo recordarlas. Más lejana
que el Ganges me parece la mañana
o la tarde en que fueron. Los reveses
de la suerte ya no cuentan. Ya son parte
de esa dócil arcilla, mi pasado,
que borra el tiempo o que maneja el arte
y que ningún augur ha descifrado.
Tal vez en la tiniebla hubo una espada,
acaso hubo una rosa. Entretejidas
sombras las guardan hoy en sus guaridas.
Sólo me queda la ceniza. Nada.
Absuelto de las máscaras que he sido,
seré en la muerte mi total olvido.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 625 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 514
Jorge Luis Borges
1982
Un cúmulo de polvo se ha formado en el fondo del anaquel, detrás de la fila de libros. Mis ojos no lo ven. Es una telaraña para mi tacto.
Es una parte ínfima de la trama que llamamos la historia universal o el proceso cósmico. Es parte de la trama que abarca estrellas, agonías, migraciones, navegaciones, lunas, luciérnagas, vigilias, naipes, yunques, Cartago y Shakespeare.
También son parte de la trama esta página, que no acaba de ser un poema, y el sueño que soñaste en el alba y que ya has olvidado.
¿Hay un fin en la trama? Schopenhauer la creía tan insensata como las caras o los leones que vemos en la configuración de una nube. ¿Hay un fin de la trama? Ese fin no puede ser ético, ya que la ética es una ilusión de los hombres, no de las inescrutables divinidades.
Tal vez el cúmulo de polvo no sea menos útil para la trama que las naves que cargan un imperio o que la fragancia del nardo.
"Los conjurados" (1985)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 630 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Es una parte ínfima de la trama que llamamos la historia universal o el proceso cósmico. Es parte de la trama que abarca estrellas, agonías, migraciones, navegaciones, lunas, luciérnagas, vigilias, naipes, yunques, Cartago y Shakespeare.
También son parte de la trama esta página, que no acaba de ser un poema, y el sueño que soñaste en el alba y que ya has olvidado.
¿Hay un fin en la trama? Schopenhauer la creía tan insensata como las caras o los leones que vemos en la configuración de una nube. ¿Hay un fin de la trama? Ese fin no puede ser ético, ya que la ética es una ilusión de los hombres, no de las inescrutables divinidades.
Tal vez el cúmulo de polvo no sea menos útil para la trama que las naves que cargan un imperio o que la fragancia del nardo.
"Los conjurados" (1985)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 630 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 218
Fernando Pessoa
Como este infante que alourado dorme
Como este infante que alourado dorme
Fui. Hoje sei que há morte.
Lídia, há largas taças por encher
Nosso amor que nos tarda.
Qualquer que seja o amor ou as taças, breve
Ajamos. Teme e desfruta.
Fui. Hoje sei que há morte.
Lídia, há largas taças por encher
Nosso amor que nos tarda.
Qualquer que seja o amor ou as taças, breve
Ajamos. Teme e desfruta.
1 269
Assis Garrido
Trovas
Tic-tac... E a mocidade
vai-se, e aparece a velhice...
Tic-tac... Ai, que saudade
dos tempos da meninice!...
O amor, que em sonhos espreito,
eu teu coração não medra:
Será por acaso feito
o teu coração de pedra?
Eu era um só. Tu surgiste —
e assim ficamos os dois:
Depois, eu vi que mentiste,
e um só me tornei, depois!
Foge-me a tua conquista,
vou-me embora, — por que não? —
Quanto mais longe da vista,
mais longe do coração...
Minha filha, pobre rosa,
vê quanto sofro, querida,
ao pressentir ver trevosa
a estrada de tua vida!
vai-se, e aparece a velhice...
Tic-tac... Ai, que saudade
dos tempos da meninice!...
O amor, que em sonhos espreito,
eu teu coração não medra:
Será por acaso feito
o teu coração de pedra?
Eu era um só. Tu surgiste —
e assim ficamos os dois:
Depois, eu vi que mentiste,
e um só me tornei, depois!
Foge-me a tua conquista,
vou-me embora, — por que não? —
Quanto mais longe da vista,
mais longe do coração...
Minha filha, pobre rosa,
vê quanto sofro, querida,
ao pressentir ver trevosa
a estrada de tua vida!
1 146
Jorge Luis Borges
Sueño soñado en Edimburgo
Antes del alba soñé un sueño que me dejó abrumado y que trataré de ordenar.
Tus mayores te engendran. En la otra frontera de los desiertos hay unas aulas polvorientas o, si se quiere, unos depósitos polvorientos, y en esas aulas o depósitos hay filas paralelas de pizarrones cuya longitud se mide por leguas o por leguas de leguas y en los que alguien ha trazado con tiza letras y números. Se ignora cuántos pizarrones hay en conjunto pero se entiende que son muchos y que algunos están abarrotados y otros casi vacíos. Las puertas de los muros son corredizas, a la manera del Japón, y están hechas de un metal oxidado. El edificio entero es circular, pero es tan enorme que desde afuera no se advierte la menor curvatura y lo que se ve es una recta. Los apretados pizarrones son más altos que un hombre y alcanzan hasta el cielo raso de yeso, que es blanquecino o gris. En el costado izquierdo del pizarrón hay primero palabras y después números. Las palabras se ordenan verticalmente, como en un diccionario. La primera es Aar, el río de Berna. La siguen los guarismos arábigos, cuya cifra es indefinida pero seguramente no infinita. Indican el número preciso de veces que verás aquel río, el número preciso de veces que lo descubrirás en el mapa, el número preciso de veces que soñarás con él. La última palabra es acaso Zwingli y queda muy lejos. En otro desmedido pizarrón está inscrita neverness y al lado de esa extraña palabra hay ahora una cifra. Todo el decurso de tu vida está en esos signos.
No hay un segundo que no esté royendo una serie.
Agotarás la cifra que corresponde al sabor del jengibre y seguirás viviendo. Agotarás la cifra que corresponde a la lisura del cristal y seguirás viviendo unos días. Agotarás la cifra de los latidos que te han sido fijados y entonces habrás muerto.
"Los conjurados" (1985)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 613 e 614 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Tus mayores te engendran. En la otra frontera de los desiertos hay unas aulas polvorientas o, si se quiere, unos depósitos polvorientos, y en esas aulas o depósitos hay filas paralelas de pizarrones cuya longitud se mide por leguas o por leguas de leguas y en los que alguien ha trazado con tiza letras y números. Se ignora cuántos pizarrones hay en conjunto pero se entiende que son muchos y que algunos están abarrotados y otros casi vacíos. Las puertas de los muros son corredizas, a la manera del Japón, y están hechas de un metal oxidado. El edificio entero es circular, pero es tan enorme que desde afuera no se advierte la menor curvatura y lo que se ve es una recta. Los apretados pizarrones son más altos que un hombre y alcanzan hasta el cielo raso de yeso, que es blanquecino o gris. En el costado izquierdo del pizarrón hay primero palabras y después números. Las palabras se ordenan verticalmente, como en un diccionario. La primera es Aar, el río de Berna. La siguen los guarismos arábigos, cuya cifra es indefinida pero seguramente no infinita. Indican el número preciso de veces que verás aquel río, el número preciso de veces que lo descubrirás en el mapa, el número preciso de veces que soñarás con él. La última palabra es acaso Zwingli y queda muy lejos. En otro desmedido pizarrón está inscrita neverness y al lado de esa extraña palabra hay ahora una cifra. Todo el decurso de tu vida está en esos signos.
No hay un segundo que no esté royendo una serie.
Agotarás la cifra que corresponde al sabor del jengibre y seguirás viviendo. Agotarás la cifra que corresponde a la lisura del cristal y seguirás viviendo unos días. Agotarás la cifra de los latidos que te han sido fijados y entonces habrás muerto.
"Los conjurados" (1985)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 613 e 614 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
2 356
Carlos Drummond de Andrade
Procura
Procurar sem notícia, nos lugares
onde nunca passou;
inquirir, gente não, porém textura,
chamar à fala muros de nascença,
os que não são nem sabem, elementos
de uma composição estrangulada.
Não renunciar, entre possíveis,
feitos de cimento do impossível,
e ao sol-menino opor a antiga busca,
e de tal modo revolver a morte
que ela caia em fragmentos, devolvendo
seus intactos reféns — e aquele volte.
Venha igual a si mesmo, e ao tão-mudado,
que o interroga, insinue
a sigla de um armário cristalino,
além do qual, pascendo beatitudes,
os seres-bois, completos, se transitem,
ou mugidoramente se abençoem.
Depois, colóquios instantâneos
liguem Amor, Conhecimento,
como fora de espaço e tempo hão de ligar-se,
e breves despedidas
sem lenços e sem mãos
restaurem — para outros — na esplanada
o império do real, que não existe.
onde nunca passou;
inquirir, gente não, porém textura,
chamar à fala muros de nascença,
os que não são nem sabem, elementos
de uma composição estrangulada.
Não renunciar, entre possíveis,
feitos de cimento do impossível,
e ao sol-menino opor a antiga busca,
e de tal modo revolver a morte
que ela caia em fragmentos, devolvendo
seus intactos reféns — e aquele volte.
Venha igual a si mesmo, e ao tão-mudado,
que o interroga, insinue
a sigla de um armário cristalino,
além do qual, pascendo beatitudes,
os seres-bois, completos, se transitem,
ou mugidoramente se abençoem.
Depois, colóquios instantâneos
liguem Amor, Conhecimento,
como fora de espaço e tempo hão de ligar-se,
e breves despedidas
sem lenços e sem mãos
restaurem — para outros — na esplanada
o império do real, que não existe.
671
Fernando Pessoa
A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora
A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora
Passa segundo nossa estéril, tímida maneira.
Ah não haver terraços sobre o impossível.
Passa segundo nossa estéril, tímida maneira.
Ah não haver terraços sobre o impossível.
837
Fernando Pessoa
Nem relógio parado, nem a falta
Nem relógio parado, nem a falta
Da água em clepsidra, ou na ampulheta a areia
Tiram o tempo ao tempo.
Da água em clepsidra, ou na ampulheta a areia
Tiram o tempo ao tempo.
1 587
Jorge Luis Borges
Los ecos
Ultrajada la carne por la espada
de Hamlet muere un rey en Dinamarca
y el olvido entretejen una fábula
de otro rey muerto y de su sombra. Saxo
Gramático recoge esa ceniza
en su Gesta Danorum. Unos siglos
y el rey vuelve a morir en Dinamarca
y al mismo tiempo, por curiosa magia,
en un tinglado de los arrabales
de Londres. Lo ha soñado William Shakespeare.
Eterna como el acto de la carne
o como los cristales de la aurora
o como las figuras de la luna
es la muerte del rey. La soñó Shakespeare
y seguirán soñándola los hombres
y es uno de los hábitos del tiempo
y un rito que ejecutan en la hora
predestinada unas eternas formas.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 459 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
de Hamlet muere un rey en Dinamarca
y el olvido entretejen una fábula
de otro rey muerto y de su sombra. Saxo
Gramático recoge esa ceniza
en su Gesta Danorum. Unos siglos
y el rey vuelve a morir en Dinamarca
y al mismo tiempo, por curiosa magia,
en un tinglado de los arrabales
de Londres. Lo ha soñado William Shakespeare.
Eterna como el acto de la carne
o como los cristales de la aurora
o como las figuras de la luna
es la muerte del rey. La soñó Shakespeare
y seguirán soñándola los hombres
y es uno de los hábitos del tiempo
y un rito que ejecutan en la hora
predestinada unas eternas formas.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 459 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 308
Charles Bukowski
O Que Estou Fazendo?
preciso parar de enfrentar esses corredores enlouquecidos na autoestrada enquanto
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?
nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto
sabendo que
ego demais não é
suficiente.
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?
nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto
sabendo que
ego demais não é
suficiente.
1 011
Fernando Pessoa
Pequeno é o espaço que de nós separa
Pequeno é o espaço que de nós separa
O que havemos de ser quando morrermos.
Não conhecemos quem será o morto
De hoje que então acaba.
Só o passado, comum a nós e a ele,
Será indício de que a nossa alma
Persiste e como antiga ama, conta
Histórias esquecidas…
Se pudéssemos pôr o pensamento
Com esta visão adentro de ideia
Que havemos de ter naquela hora,
Estranhos olharíamos
O que somos, cuidando ver um outro
E o espaço temporal que hoje habitamos
Luz onde nossa alma nasceu
Alheia antes de a termos.
O que havemos de ser quando morrermos.
Não conhecemos quem será o morto
De hoje que então acaba.
Só o passado, comum a nós e a ele,
Será indício de que a nossa alma
Persiste e como antiga ama, conta
Histórias esquecidas…
Se pudéssemos pôr o pensamento
Com esta visão adentro de ideia
Que havemos de ter naquela hora,
Estranhos olharíamos
O que somos, cuidando ver um outro
E o espaço temporal que hoje habitamos
Luz onde nossa alma nasceu
Alheia antes de a termos.
1 561
Carlos Drummond de Andrade
Ciência
Começo a ver no escuro
um novo tom
de escuro.
Começo a ver o visto
e me incluo
no muro.
Começo a distinguir
um sonilho, se tanto,
de ruga.
E a esmerilhar a graça
da vida, em sua
fuga.
um novo tom
de escuro.
Começo a ver o visto
e me incluo
no muro.
Começo a distinguir
um sonilho, se tanto,
de ruga.
E a esmerilhar a graça
da vida, em sua
fuga.
1 347
Fernando Pessoa
Pequena vida consciente, sempre
Pequena vida consciente, sempre
Da repetida imagem perseguida
Do fim inevitável, a cada hora
Sentindo-se mudada,
E, como Orfeu volvendo à vinda esposa
O olhar algoz, para o passado erguendo
A memória pra em mágoas o apagar
No baratro da mente.
Da repetida imagem perseguida
Do fim inevitável, a cada hora
Sentindo-se mudada,
E, como Orfeu volvendo à vinda esposa
O olhar algoz, para o passado erguendo
A memória pra em mágoas o apagar
No baratro da mente.
1 367
Jorge Luis Borges
Elegía de un parque
Se perdió el laberinto. Se perdieron
todos los eucaliptos ordenados,
los toldos del verano y la vigilia
del incesante espejo, repitiendo
cada expresión de cada rostro humano,
cada fugacidad. El detenido
reloj, la entretejida madreselva,
la glorieta, las frívolas estatuas,
el otro lado de la tarde, el trino,
el mirador y el ocio de la fuente
son cosas del pasado. ¿Del pasado?
Si no hubo un principio ni habrá un término,
si nos aguarda una infinita suma
de blancos días y de negras noches,
ya somos el pasado que seremos.
Somos el tiempo, el río indivisible,
somos Uxmal, Cartago y la borrada
muralla del romano y el perdido
parque que conmemoran estos versos.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 598 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
todos los eucaliptos ordenados,
los toldos del verano y la vigilia
del incesante espejo, repitiendo
cada expresión de cada rostro humano,
cada fugacidad. El detenido
reloj, la entretejida madreselva,
la glorieta, las frívolas estatuas,
el otro lado de la tarde, el trino,
el mirador y el ocio de la fuente
son cosas del pasado. ¿Del pasado?
Si no hubo un principio ni habrá un término,
si nos aguarda una infinita suma
de blancos días y de negras noches,
ya somos el pasado que seremos.
Somos el tiempo, el río indivisible,
somos Uxmal, Cartago y la borrada
muralla del romano y el perdido
parque que conmemoran estos versos.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 598 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Charles Bukowski
Escala
Fazendo amor sob o sol, sob o sol matinal
num quarto de hotel
acima do beco
onde homens pobres catam garrafas;
fazendo amor sob o sol
fazendo amor junto a um tapete mais vermelho que nosso sangue,
fazendo amor enquanto meninos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazendo amor junto a uma foto de Paris
e um maço aberto de Chesterfields,
fazendo amor enquanto outros homens – pobres
coitados –
trabalham.
Daquele momento – a este...
podem ser anos do jeito como são medidos,
mas é só uma frase atrás na minha mente –
são inúmeros os dias
nos quais a vida para e estaciona e fica
e espera como um trem nos trilhos.
Eu passo pelo hotel às 8
e às 5; vejo gatos nos becos
e garrafas e vagabundos,
e olho a janela no alto e penso:
não sei mais onde você está,
e sigo caminhando e me pergunto para onde
a vida vai
quando para.
num quarto de hotel
acima do beco
onde homens pobres catam garrafas;
fazendo amor sob o sol
fazendo amor junto a um tapete mais vermelho que nosso sangue,
fazendo amor enquanto meninos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazendo amor junto a uma foto de Paris
e um maço aberto de Chesterfields,
fazendo amor enquanto outros homens – pobres
coitados –
trabalham.
Daquele momento – a este...
podem ser anos do jeito como são medidos,
mas é só uma frase atrás na minha mente –
são inúmeros os dias
nos quais a vida para e estaciona e fica
e espera como um trem nos trilhos.
Eu passo pelo hotel às 8
e às 5; vejo gatos nos becos
e garrafas e vagabundos,
e olho a janela no alto e penso:
não sei mais onde você está,
e sigo caminhando e me pergunto para onde
a vida vai
quando para.
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Fernando Pessoa
De uma só vez recolhe
De uma só vez recolhe
Quantas flores puderes.
Não dura mais que até à morte o dia.
Colhe de que recordes.
A vida é pouco e cerca-a
A sombra e o sem remédio.
Não temos regras que compreendamos,
Súbditos sem governo.
Goza este dia como
Se a Vida fosse nele.
Homens nem deuses fadam, nem destinam
Senão o que ignoramos.
Quantas flores puderes.
Não dura mais que até à morte o dia.
Colhe de que recordes.
A vida é pouco e cerca-a
A sombra e o sem remédio.
Não temos regras que compreendamos,
Súbditos sem governo.
Goza este dia como
Se a Vida fosse nele.
Homens nem deuses fadam, nem destinam
Senão o que ignoramos.
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