Poemas neste tema

Tempo e Passagem

João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Nom Que[I]Ra Deus Em Conto Receber

Nom que[i]ra Deus em conto receber
os dias que vivo sem mia senhor,
porque os vivo mui sem meu sabor;
mailos dias que m'Ele fez[er] viver
u a veja e lhi possa falar
esses Lhi quer'eu em conto filhar,
ca nom é vida viver sem prazer.

E se m'Ele fez[er] algũa sazom
viver com ela quanto mi aprouguer,
esses dias mi cont'El, se quiser,
que eu com ela viver, e mais nom;
de mia vida mais nom vos contarei,
dos dias que a meu pesar passei,
ca nom foi vida, mais foi perdiçom.

Ca nom é vida viver hom'assi
com'hoj'eu vivo u mia senhor nom é,
ca par de morte m'é, per boa fé;
e se mi Deus contar quanto vevi,
nom cont'os dias que nom passei bem,
mais El, que os dias em poder tem,
dê-mi outros tantos por quanto[s] perdi.

Ca [a] El dias nunca minguará[m]
e eu serei bem andant', e serám
cobrado'los meus dias que perdi.
538
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

NENHUM MISTÉRIO - VII

Chega um momento em que as mãos
já não querem cumprir ordens.
Não pegam mais, não apertam,
e sim mordem.

Os olhos se cansam da luz,
os pés desprezam os pisos,
a mente rejeita todo e
qualquer juízo.

E o rosto — este velho disfarce
velhaco, por trás do qual
não há outra coisa senão
uma máscara igual,

o rosto nem mesmo se esforça
pra parecer que não é outro.
(Já, já não será mais preciso
fingir-se de morto.)
761
Adélia Prado

Adélia Prado

Chorinho Doce

Eu já tive e perdi
uma casa,
um jardim,
uma soleira,
uma porta,
um caixão de janela com um perfil.
Eu sabia uma modinha e não sei mais.
Quando a vida dá folga, pego a querer
a soleira,
o portal,
o jardim mais a casa,
o caixão de janela e aquele rosto de banda.
Tudo impossível,
tudo de outro dono,
tudo de tempo e vento.
Então me dá choro, horas e horas,
o coração amolecido como um figo na calda.
2 029
Adélia Prado

Adélia Prado

Dona Doida

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso,
com trovoada e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.
2 048
Emílio Moura

Emílio Moura

Noturno de Ouro Preto

Que alada figura aquela
transformada em algo lívido?
Que pedia? Que falava
de sua órbita aérea,
com suas múltiplas vozes?
Ah, noite, há muito submersa
em labirintos de sono!
Quem chamava? Quem sofria?
Quem jogava com o segredo
de tantas áreas ignotas?
Que espectro, a vagar, tecia
o próprio avesso do sonho?
E aquele morrer de novo
a cada inútil aurora?
O ardor, o ritmo brusco
da vida jogada fora,
com tantas, tantas raízes
perdidas, esmigalhadas?
Que era tudo? Que era
aquele fluir do tempo
como invisível cortejo
como vento no caminho?

898
Emílio Moura

Emílio Moura

Mundo Imaginário

Sob o olhar desta tarde,
quantas horas revivem
e morrem
de uma nova agonia? Velhas feridas se abrem,
de novo somos julgados, o que era tudo some-se
e num mundo fechado outras vigílias doem.

A noite se organiza e, no entanto, ainda restam
certas luzes ao longe. Ah, como encher com elas
este ser já não-ser que se dissolve e deixa
vagos traços na tarde?

1 122
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Tôdalas Cousas Eu Vejo Partir

Tôdalas cousas eu vejo partir
do mund', em como soíam seer,
e vej'as gentes partir de fazer
bem que soíam, tal tempo nos vem!
Mais nom se pod'o coraçom partir
       do meu amigo de mi querer bem.

Pero que home part'o coraçom
das cousas que ama, per bõa fé,
e parte-s'home da terra ond'é,
e parte-s'home d'u gran[de] prol tem,
nom se pode parti'lo coraçom
       do meu amigo de mi querer bem.

Tôdalas cousas eu vejo mudar,
mudam-s'os tempos e muda-s'o al,
muda-s'a gente em fazer bem ou mal,
mudam-s'os ventos e tod'outra rem,
mais nom se pod'o coraçom mudar
       do meu amigo de mi querer bem.
736
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Deixas Passar os Barcos e as Nuvens

Je laisse passer les bateaux les nuages.
P.E.

Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas

Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes

O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada

O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera

O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
885
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

PÓS

Antes era mais fácil — sim, porque era
mais difícil, havia mais em jogo,
e o tempo todo se jogava à vera.
Precisamente: mais difícil, logo

mais fácil. Porque sempre se sabia
de que lado se estava — havia lados,
então. E a certeza de que algum dia
tudo teria um significado.

E nós seríamos os responsáveis
por dar nomes aos bois. Havia bois
a nomear, então. Coisas palpáveis.
Tudo teria solução depois.

Chegou o tempo de depois? Digamos
que sim. E no entanto os nomes dados
não foram, nem um só, os que sonhamos.
Talvez porque sonhássemos errado,

talvez porque, enquanto alguns se davam
ao luxo de sonhar, outros, insones,
imunes, implacáveis, se entregavam
à tarefa prosaica de dar nomes

sem antes os sonhar. E, dia feito,
agora tudo é fácil. E por isso
difícil. Não, a coisa não tem jeito.
Nem nunca teve, aliás. Desde o início.
645
Herberto Helder

Herberto Helder

Poesia Mexicana do Ciclo Nauatle - Canto de Itzpapalotl

Ireis à região das piteiras selvagens,
para colher os cactos e as piteiras selvagens,
para erguer uma casa de piteiras selvagens.

Ireis à região onde é a raiz da luz,
para atirar os dardos:
águia amarela, tigre amarelo, serpente amarela,
coelho amarelo, veado amarelo.

Ireis à região onde é a raiz da morte,
para atirar os dardos:
águia azul, tigre azul,
serpente azul, coelho azul, veado azul.

Ireis à região das sementes húmidas,
para atirar os dardos sobre a terra florida:
águia branca, tigre branco, serpente branca,
coelho branco, veado branco.

Ireis à região dos espinheiros bravos,
para atirar os dardos sobre a terra violenta:
águia vermelha, tigre vermelho, serpente vermelha,
coelho vermelho, veado vermelho.

E depois de atirar os dardos e atingir os deuses,
o amarelo, o azul, o branco, o vermelho,
águia, tigre, serpente, coelho, veado —
colocai sob a sua protecção
os veladores do deus antigo — o deus do tempo.
1 041
Ruy Belo

Ruy Belo

Variações sobre O Jogador do Pião (III)

Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta

Joga tudo no gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
riscada entre parede e tronco - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida

O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? nada

Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada
e que esta pobre vida para sempre seja
- Vê lá! - tão bem coberta que nem Deus a veja



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 119 | Editorial Presença Lda., 1984
933
Herberto Helder

Herberto Helder

Poesia Mexicana do Ciclo Nauatle - Nascemos Para o Sono

Nascemos para o sono,
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.
1 221
Ruy Belo

Ruy Belo

Variações sobre O Jogador do Pião (VII)

Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta

Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida

O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada

Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
Passa o proprietário e já não reconhece
talvez o operário inútil sob a messe



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 121 | Editorial Presença Lda., 1984
1 112
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Agora estou entre Sombras e Sombras

Agora estou entre sombras e sombras
deitado sobre a minha sombra fresca
Já não recordo o abandonado
Durmo no centro vazio do mundo
na estéril matriz

Da entranha da terra saí
e como pálida evidência vivi
Desertei da biografia e dos relógios
Há uma sombra fresca há um olhar que me vê
um olhar que procura na sombra centrar-se nos meus olhos

Eu sou o fugitivo incerto desse olhar
sobre a linha do mar
sobre o cimo das ondas
sobre a alta distância das estrelas

Porque ando e ando esperando em quê
com indecisões de um lado e com pedras do outro
com os involuntários gestos que nada significam
com esperas e encontros que atraiçoei no mais íntimo
com um coração soterrado há muito
sob mil Primaveras?

Quem ouviu tal silêncio
quem viu tal deserto
quem dormiu nesta cama
só poderá desejar
o súbito milagre
do mundo

muito para além dos olhos sujos dos homens
1 091
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de Orfeu a Eurídice (5)

Como se o sol não trouxesse com ele a hostilidade
do dia! E o seu esplendor não comprometesse a recordação
que me enche, e o desejo com que a mão procura a mão
que lhe falta! As estações prosseguem o seu ciclo; a um inverno
sucede a primavera; e as árvores respiram o primeiro vento
com uma ânsia diferente, anunciando a próxima floração. Eu,
preso às palavras, perco-me no seu labirinto. Ouço-te,
porém: e é sempre no caminho que fica sem saída,
de onde há muito caiu a cal, deixando
as feridas de gesso de onde os meus olhos bebem
o que sobra da tua imagem, que a tua voz me traz a música todos os dias
que não voltarão a nascer.

Talvez não fosse por aí que eu devesse ter
ido; mas que outra saída tem um labirinto senão a que parece
abrir-se num descampado florido, para depois se fechar
em becos, no reino sem futuro das sombras? Diz-me:
adivinhavas o que iria suceder? Ou não ouviste
o que te disse, quando falámos, em frente
desses cafés que arrefeciam, de tudo e nada: o nada
das coisas da vida, as que nos prendem ao instante que passa,
a súbita solidão de um fim de tarde, ou o ruído das crianças,
vindo da rua, que atravessa o espírito até se perder numa obscura
memória de infância; e tudo o resto - esse castelo antigo para que me empurra
um impulso do coração, agora que a taça se esvazia à minha frente
e nenhuma curva de caminho me desvia para o teu rosto.

Então, apago uma a uma as lâmpadas do ocaso? Como
o sacristão louco que avançou pela cripta, derrubando as estátuas
do culto? Não é isso o amor - essa outra religião a que devotamos o mais secreto do ser; a hesitação de uma bailarina
sem saber o lugar que lhe pertence num cenário de conversas; ou
o céu a que aspiramos, nesta terra que nos rouba cada pedaço
de tempo, para o devorar num banquete de astros finais. Podia
explicar-te o que é fictício, o que se perde do outro lado
do que pensamos que seja - a própria vida. Mas ela é
outra coisa: o que se constrói por dentro de nós,
nos intervalos da sensação, e se ergue de todas as horas
solitárias; e o que nos indica, na flor, o que não perece,
para além do seu centro de efémera beleza.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 54 a 56 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 631
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Última Oportunidade É Sempre

A última oportunidade é sempre
esta
corre
só um pouco mais e o sol e o sangue
invadirá a árvore
a seiva empapará tua língua

eia! um homem
sem nada para a morte
980
Charles Bukowski

Charles Bukowski

29 Uvas Geladas

o processo de aprender é tortuoso

todos esses moinhos de vento

toda essa transição sangrenta

pias tampadas

mentes de papel higiênico

a mentira do amor, aquela puta pelada

cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh

homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa

o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem

o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.

o processo de aprender é tortuoso

todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
637
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Tempo Concreto

O tempo duro
com estas unhas de pedra
este hálito pobre
de órgãos esfomeados
estas quatro paredes de cinza e álcool
este rio negro correndo nas noites como um esgoto

O tempo magro
em que minhas mãos divididas
nitidamente separadas e caídas
ao longo dum corpo de cansaço
pedem o precipício a hecatombe clara
o acontecimento decisivo

O tempo fecundo
dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres
repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias
das ruas agrestes e pequenas da mágoa
familiar e precisa como uma esmola certa

O tempo escuro
da peste consentida do vício proclamado
da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos
da fome concreta dum sonho proibido
e do sabor amargo não sei de que remorso

O tempo ausente
dos olhos dum desejo de claras cidades
em que acenamos perdidos às soluções erguidas
com vozes bem distintas de cadáveres opressores
com gritos sufocados de problemas supostos

O tempo presente
das circunstâncias ferozes que erguem muros reais
dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos
das anedotas contadas num outro mundo de cafés
e das vidas dos outros sempre fracassadas

O tempo dos sonhos
sem coragem para poder vivê-los
com muralhas de mortos que não querem morrer
com razões demais para poder viver
com uma força tão grande que temos de abafar
no fragor dos versos disfarçados

O tempo implacável
onde jurámos de pé viver até ao fim
maiores do que nós ser todo o grito nu
pureza conquistada no seio da vida impura
um raio de sol de sangue na face devastada

O tempo das palavras
numa circulação sombria como um poço
de ecos incontrolados
de timbres inesperados
como moedas de sangue cunhadas numa noite
demasiado curta e com luar demais

O tempo impessoal
em que fingimos ter um destino qualquer
para que nos conheçam os amigos forçados
para que nós próprios nos sintamos humanos
e este fardo de trevas esta dor sem limites
a possamos levar numa mala portátil

O tempo do silêncio
em que o riso postiço dos fregueses da vida
finge ignorá-lo enquanto soluçamos
de raiva de razão reprimida revolta
e os senhores de bom senso passeiam divertidos

O tempo da razão
em que os versos são soldados comprimidos
que guardam as armas dentro do coração
que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue
a tinta de escrever duma nova canção
750
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Os Malditos

(A aparição do poeta)

Quantos somos, não sei... Somos um, talvez dois, três, talvez, quatro; cinco,
talvez nada
Talvez a multiplicação de cinco em cinco mil e cujos restos encheriam doze
terras
Quantos, não sei... Só sei que somos muitos — o desespero da dízima
infinita
E que somos belos deuses mas somos trágicos.

Viemos de longe... Quem sabe no sono de Deus tenhamos aparecido como
espectros
Da boca ardente dos vulcões ou da órbita cega dos lagos desaparecidos
Quem sabe tenhamos germinado misteriosamente do solo cauterizado das
batalhas
Ou do ventre das baleias quem sabe tenhamos surgido?

Viemos de longe — trazemos em nós o orgulho do anjo rebelado
Do que criou e fez nascer o fogo da ilimitada e altíssima misericórdia
Trazemos em nós o orgulho de sermos úlceras no eterno corpo de Jó
E não púrpura e ouro no corpo efêmero de Faraó.

Nascemos da fonte e viemos puros porque herdeiros do sangue
E também disformes porque — ai dos escravos! — não há beleza nas
origens
V oávamos — Deus dera a asa do bem e a asa do mal às nossas formas
impalpáveis
Recolhendo a alma das coisas para o castigo e para a perfeição na vida
eterna.

Nascemos da fonte e dentro das eras vagamos como sementes invisíveis o
coração dos mundos e dos homens
Deixando atrás de nós o espaço como a memória latente da nossa vida
anterior
Porque o espaço é o tempo morto — e o espaço é a memória do poeta
Como o tempo vivo é a memória do homem sobre a terra.

Foi muito antes dos pássaros — apenas rolavam na esfera os cantos de Deus
E apenas a sua sombra imensa cruzava o ar como um farol alucinado...
Existíamos já... No caos de Deus girávamos como o pó prisioneiro da
vertigem
Mas de onde viéramos nós e por que privilégio recebido?

E enquanto o eterno tirava da música vazia a harmonia criadora
E da harmonia criadora a ordem dos seres e da ordem dos seres o amor
E do amor a morte e da morte o tempo e do tempo o sofrimento
E do sofrimento a contemplação e da contemplação a serenidade
imperecível.

Nós percorríamos como estranhas larvas a forma patética dos astros
A tudo assistindo e tudo ouvindo e tudo guardando eternamente
Como, não sei... Éramos a primeira manifestação da divindade
Éramos o primeiro ovo se fecundando à cálida centelha.

Vivemos o inconsciente das idades nos braços palpitantes dos ciclones
E as germinações da carne no dorso descarnado dos luares
Assistimos ao mistério da revelação dos Trópicos e dos Signos
E a espantosa encantação dos eclipses e das esfinges.

Descemos longamente o espelho contemplativo das águas dos rios do Éden
E vimos, entre os animais, o homem possuir doidamente a fêmea sobre a
relva
Seguimos... E quando o decurião feriu o peito de Deus crucificado
Como borboletas de sangue brotamos da carne aberta e para o amor
celestial voamos.

Quantos somos, não sei... somos um, talvez dois, três, talvez quatro; cinco,
talvez, nada
Talvez a multiplicação de cinco em cinco mil e cujos restos encheriam doze
terras
Quantos, não sei... Somos a constelação perdida que caminha largando
estrelas
Somos a estrela perdida que caminha desfeita em luz.
1 200
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Ariana, a Mulher

Quando, aquela noite, na sala deserta daquela casa cheia da montanha em
torno
O tempo convergiu para a morte e houve uma cessação estranha seguida de
um debruçar do instante para o outro instante
Ante o meu olhar absorto o relógio avançou e foi como se eu tivesse me
identificado a ele e estivesse batendo soturnamente a Meia-Noite
E na ordem de horror que o silêncio fazia pulsar como um coração dentro
do ar despojado
Senti que a Natureza tinha entrado invisivelmente através das paredes e se
plantara aos meus olhos em toda a sua fixidez noturna
E que eu estava no meio dela e à minha volta havia árvores dormindo e
flores desacordadas pela treva.

Como que a solidão traz a presença invisível de um cadáver — e para
mimera como se a Natureza estivesse morta
Eu aspirava a sua respiração ácida e pressentia a sua deglutição monstruosa
mas para mim era como se ela estivesse morta
Paralisada e fria, imensamente erguida em sua sombra imóvel para o céu
alto e sem lua
E nenhum grito, nenhum sussurro de água nos rios correndo, nenhum eco
nas quebradas ermas
Nenhum desespero nas lianas pendidas, nenhuma fome no muco aflorado
das plantas carnívoras
Nenhuma voz, nenhum apelo da terra, nenhuma lamentação de folhas, nada.

Em vão eu atirava os braços para as orquídeas insensíveis junto aos lírios
inermes como velhos falos
Inutilmente corria cego por entre os troncos cujas parasitas eram como a
miséria da vaidade senil dos homens
Nada se movia como se o medo tivesse matado em mim a mocidade e gelado o sangue capaz de acordá-los
E já o suor corria do meu corpo e as lágrimas dos meus olhos ao contato
dos cactos esbarrados na alucinação da fuga
E a loucura dos pés parecia galgar lentamente os membros em busca do
pensamento
Quando caí no ventre quente de uma campina de vegetação úmida e sobre a
qual afundei minha carne.

Foi então que compreendi que só em mim havia morte e que tudo estava
profundamente vivo
Só então vi as folhas caindo, os rios correndo, os troncos pulsando, as flores
se erguendo
E ouvi os gemidos dos galhos tremendo, dos gineceus se abrindo, das
borboletas noivas se finando
E tão grande foi a minha dor que angustiosamente abracei a terra como se
quisesse fecundá-la
Mas ela me lançou fora como se não houvesse força em mim e como se ela
não me desejasse
E eu me vi só, nu e só, e era como se a traição tivesse me envelhecido eras.

Tristemente me brotou da alma o branco nome da Amada e eu murmurei —
Ariana!
E sem pensar caminhei trôpego como a visão do Tempo e murmurava —
Ariana!
E tudo em mim buscava Ariana e não havia Ariana em nenhuma parte
Mas se Ariana era a floresta, por que não havia de ser Ariana a terra?
Se Ariana era a morte, por que não havia de ser Ariana a vida?
Por que — se tudo era Ariana e só Ariana havia e nada fora de Ariana?

Baixei à terra de joelhos e a boca colada ao seu seio disse muito docemente
— Sou eu, Ariana...
Mas eis que um grande pássaro azul desce e canta aos meus ouvidos — Eu
sou Ariana!
E em todo o céu ficou vibrando como um hino o muito amado nome de
Ariana.
Desesperado me ergui e bradei: Quem és que te devo procurar em toda a parte e estás em cada uma?
Espírito, carne, vida, sofrimento, serenidade, morte, por que não serias
uma?
Por que me persegues e me foges e por que me cegas se me dás uma luz e
restas longe?

Mas nada me respondeu e eu prossegui na minha peregrinação através da
campina
E dizia: Sei que tudo é infinito! — e o pio das aves me trazia o grito dos
sertões desaparecidos
E as pedras do caminho me traziam os abismos e a terra seca a sede nas
fontes.
No entanto, era como se eu fosse a alimária de um anjo que me chicoteava
— Ariana!
E eu caminhava cheio de castigo e em busca do martírio de Ariana
A branca Amada salva das águas e a quem fora prometido o trono do
mundo.

Eis que galgando um monte surgiram luzes e após janelas iluminadas e após
cabanas iluminadas
E após ruas iluminadas e após lugarejos iluminados como fogos no mato
noturno
E grandes redes de pescar secavam às portas e se ouvia o bater das forjas.
E perguntei: Pescadores, onde está Ariana? — e eles me mostravam o peixe
Ferreiros, onde está Ariana? — e eles me mostravam o fogo
Mulheres, onde está Ariana? — e elas me mostravam o sexo.

Mas logo se ouviam gritos e danças, e gaitas tocavam e guizos batiam
Eu caminhava, e aos poucos o ruído ia se alongando à medida que eu
penetrava na savana
No entanto era como se o canto que me chegava entoasse — Ariana!
E pensei: Talvez eu encontre Ariana na Cidade de Ouro — por que não
seria Ariana a mulher perdida? Por que não seria Ariana a moeda em que o obreiro gravou a efígie de César?
Por que não seria Ariana a mercadoria do Templo ou a púrpura bordada do altar do Templo?
E mergulhei nos subterrâneos e nas torres da Cidade de Ouro mas não encontrei Ariana
Às vezes indagava — e um poderoso fariseu me disse irado: — Cão de Deus, tu és Ariana!
E talvez porque eu fosse realmente o Cão de Deus, não compreendi a palavra do homem rico
Mas Ariana não era a mulher, nem a moeda, nem a mercadoria, nem a púrpura
E eu disse comigo: Em todo lugar menos que aqui estará Ariana
E compreendi que só onde cabia Deus cabia Ariana.
Então cantei: Ariana, chicote de Deus castigando Ariana! e disse muitas palavras inexistentes
E imitei a voz dos pássaros e espezinhei sobre a urtiga mas não espezinhei sobre a cicuta santa
Era como se um raio tivesse me ferido e corresse desatinado dentro de minhas entranhas
As mãos em concha, no alto dos morros ou nos vales eu gritava — Ariana!
E muitas vezes o eco ajuntava: Ariana... ana...
E os trovões desdobravam no céu a palavra — Ariana.
E como a uma ordem estranha, as serpentes saíam das tocas e comiam os ratos
Os porcos endemoninhados se devoravam, os cisnes tombavam cantando nos lagos
E os corvos e abutres caíam feridos por legiões de águias precipitadas
E misteriosamente o joio se separava do trigo nos campos desertos
E os milharais descendo os braços trituravam as formigas no solo
E envenenadas pela terra descomposta as figueiras se tornavam profundamente secas.
Dentro em pouco todos corriam a mim, homens varões e mulheres desposadas
Umas me diziam: Meu senhor, meu filho morre! e outras eram cegas e paralíticas
E os homens me apontavam as plantações estorricadas e as vacas magras. E eu dizia: Eu sou o enviado do Mal! e imediatamente as crianças morriam
E os cegos se tornavam paralíticos e os paralíticos cegos
E as plantações se tornavam pó que o vento carregava e que sufocava as vacas magras.
Mas como quisessem me correr eu falava olhando a dor e a maceração dos corpos
Não temas, povo escravo! A mim me morreu a alma mais do que o filho e me assaltou a indiferença mais do que a lepra
A mim se fez pó e carne mais do que o trigo e se sufocou a poesia mais do que a vaca magra
Mas é preciso! Para que surja a Exaltada, a branca e sereníssima Ariana
A que é a lepra e a saúde, o pó e o trigo, a poesia e a vaca magra
Ariana, a mulher — a mãe, a filha, a esposa, a noiva, a bem-amada!
E à medida que o nome de Ariana ressoava como um grito de clarim nas faces paradas
As crianças se erguiam, os cegos olhavam, os paralíticos andavam medrosamente
E nos campos dourados ondulando ao vento, as vacas mugiam para o céu claro
E um só clamor saía de todos os peitos e vibrava em todos lábios — Ariana!
E uma só música se estendia sobre as terras e sobre os rios — Ariana!
E um só entendimento iluminava o pensamento dos poetas — Ariana!
Assim, coberto de bênçãos, cheguei a uma floresta e me sentei às suas bordas — os regatos cantavam límpidos
Tive o desejo súbito da sombra, da humildade dos galhos e do repouso das folhas secas
E me aprofundei na espessura funda cheia de ruídos e onde o mistério passava sonhando
E foi como se eu tivesse procurado e sido atendido — vi orquídeas que eram camas doces para a fadiga
Vi rosas selvagens cheias de orvalho, de perfume eterno e boas para matar a sede
E vi palmas gigantescas que eram leques para afastar o calor da carne.
Descansei — por um momento senti vertiginosamente o húmus fecundo da terra
A pureza e a ternura da vida nos lírios altivos como falos
A liberdade das lianas prisioneiras, a serenidade das quedas se despenhando.
E mais do que nunca o nome da Amada me veio e eu murmurei o apelo —
Eu te amo, Ariana!
E o sono da Amada me desceu aos olhos e eles cerraram a visão de Ariana
E meu coração pôs-se a bater pausadamente doze vezes o sinal cabalístico de Ariana...
..........................................................................................................................................................
Depois um gigantesco relógio se precisou na fixidez do sonho, tomou forma e se situou na minha frente, parado sobre a Meia-Noite
Vi que estava só e que era eu mesmo e reconheci velhos objetos amigos.
Mas passando sobre o rosto a mão gelada senti que chorava as puríssimas lágrimas de Ariana
E que o meu espírito e o meu coração eram para sempre da branca e sereníssima Ariana
No silêncio profundo daquela casa cheia da Montanha em torno.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

À Luz Crua

Sob as palavras
a calma da estátua
ao sol na praça
levantada ofusca

unha de silêncio

pedra morte e sol.

De pó (esquecidos)
anos apagados,
flores sepultas,
rostos desabados,

rastos, tudo palmas
de cal, de muro
surdamente cabem
numa rota solar
— roda de pólen?

Força é de levantar
peso mortal
e rede embaraçada,
névoa sem peso

e ver claro e nu
a descalça e só
sede de beijar
lisa pedra da rua

virgem de tantos pés,
comum, total, já única,
povoada desliza.
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Ruy Belo

Ruy Belo

No tumulo de sardanapalo

Umas dezenas de anos boa idade
para se reformar da vida um homem
e à terra devolver a responsável cara
com que os outros por fora o viam dia a dia
e onde a espaços reviam as próprias mas passadas alegrias
Cara levantada ou caída coitada condoída
excessivamente olhada e tão difícil de esconder
por brilhos e por sombras alternadamente percorrida
cara em que o sonho chegou talvez alguma vez a ter
a insubsistente forma de mulher
cara dos olhos finalmente firmes feitos terra
e plenamente disponíveis para olhar
quando enfim decisivamente olhar valer a pena
e os olhos estiverem em qualquer lugar

Vem uma vaga música da vida
problemátique mer des alentours
viemos tarde e a poesia é velha
Audaciosas serras entre nós projectam grandes sombras
e multiplica o mar múltiplas ondas
Orientam-se os olhos para antigos portos
e bate o coração em direcção à mais remota pátria dos agudos ventos
mas crescem-nos uns pés pesados sobre a terra,
ao nascimento e morte da redonda aurora mais sujeitos
do que todos aqueles a quem a desolada deusa se afeiçoa
Alexandre venceu Dario e depois todos os reis da terra e o mundo emudeceu
que tinha de morrer
“Como terá usado o morto as meias?”
“Viandante, come e bebe e goza a vida”
“Julgámos que era eterno mas morreu”
E nós comprámos o jornal já nem o lemos
porque grande só era a mínima notícia que da morte nos viera
Expusemos vagamente entre paredes
Faibles projects d’un coeur trop plein de ce qu’il aime
e ninguém chora agora na empresa de o lembrar
Num negócio de morte recrutados
nem nos seria lícito pousar
na palavra inventada a cabeça cansada
Há um choro para a morte e um choro para a vida
quem julga estar de pé olhe não caia
Algum país ruiu algum país
ou folha ou casa ou alegria havia

Se não amas o Deus que tu não vês
como hás-de – pois o vês – amar o homem teu irmão?
Factores verbi simus non auditores tantum
Nunca ceder à incisiva operação dos membros
não mastigar jamais o junco original
na cor azul de pássaros do céu
voltar a contemplar as coisas como novas
delimitar perfeitamente o riso oposto ao tempo
ou isolar a face unicamente imperecível
repudiar a fácil metáfora mulher
(não convém ao poeta menos solidão)
ir e voltar na mão que nos prolonga
o próprio olhar deixar desaguar no olhar alheio como um veio de água
entrar no tempo como quem é devorado
vestir todo o temor que pode haver num homem
comprometer na morte a mais erecta posição
e olhá-la de frente sem voltar a coisa alguma as costas
lá nas terras pequenas onde o homem morre mais
- eis alguns ou nenhuns dos gestos que anunciam
a presença entre nós do servo inútil
Somos de longe e temos de voltar,
Levine, antes de a noite vir
A única circuncisão é a do coração
Oh! como é inatingível a brancura da toalha
e quantas vezes nela não limpámos já algumas mãos
das muitas que tivemos na primeira comunhão
e na mera administração dos dias demorámos
Não há tempo ou lugar onde habitar  

Os que com a tormenta se perderam, quanto a esses não mais foram
nem vistos nem achados entre nós de pé
Também o verão passou por Dom Afonso Henriques
e em suas mãos os dias e os cuidados conviveram
E alguém disse: “É deste sol que sou aqui é que nasci
eu sou da terra e falo-vos da terra
quando a noite vier sabereis que morri”
É à chuva e ao sol que se tomam é fácil achar quem
renegue Deus ainda nas segundas gerações
A nova primavera traz-nos no regaço a ave mas
Verborum vetus interit aetas
e a  palavra, essa, não voltará mais
Não nos morreu ninguém e ficamos mais sós
e a gora é impossível regressar
Todos os males contigo nos vieram, poesia,
Afasta-te de nós até melhores dias
E deixa ver o que por trás da poesia está
Ó manhãs de domingo estradas para a vida aragem nos cabelos
garagem que se abre alguém na rua
A vida estava toda nesse olhar
capaz de orientar os hesitantes passos dos melhores do nosso povo
agora que o perdeste aonde irás?
ó clandestino seguidor de Deus?
Por amor deste século cantar
Não há mais folha ou casa ou alegria onde habitar
 

Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 113 a 115 | Círculo de Leitores, Dez 2000
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Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

E rir à solta e não morrer

Poder morrer
Ainda no ventre

da mulher
que me pariu.

E não ter
morrido lá.

Poder morrer
de algum veneno

que alguém
insuflou num fruto

que eu menino
colheria enquanto

brincava sozinho.
E não morrer.

Poder morrer
Adolescente sob

as patas distraídas
de uma esquina

de domingo.
E rir à solta e

não morrer.
Poder morrer

num dia quente,
tudo já seco

por dentro, e a
cidade e o mundo

alheios. Não morri
num dia assim.

Poder morrer
de tantas formas

e não ter morrido
nunca nenhum

desses tantos anos
que eu vivo

aqui entre
os humanos.
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Ruy Belo

Ruy Belo

Tempora nubila

Chove há muito no mundo sobre o homem
Empurram-no as ondas como horas para a praia da manhã
lá onde a ponta mais ocidental dos dedos já percorre
as mais agrestes árvores do sonho
O homem nada sabe sem queimar os pés no fogo
As luzes brilham cedo certos anos o Natal não vem
e é opinião comum de todos os doutores
que a culpa pode ser secreta e primitiva
pois a ninguém cabe servir a dois
muito menos a mais e mesmo muito mais que dois senhores
Morremos todos da maneira mais mortal possível
mas todas as crianças se conhecem e reconhecem
na praia que talvez – quem sabe? – alguma outra praia encubra
Essa é na verdade a mais pequena de todas as sementes

Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha,
ó tecelão de outonos nos cabelos

Em teus intensos braços onde em certos dias
o puro cheiro do lilás ascende
e os toldados lírios outra vez almejam
e abrem no bosque sempre outras estradas
e rompem as raízes das mais brancas flores,
nesses teus braços desmedidamente abertos
na mesa onde se cruza a vária luz das horas
e sõ tão económicas as nossas ambições
que não vão muito além das mil evoluções das moscas,
nesses braços os únicos capazes
de nos fazer sair da nossa pobre situação
deponho finalmente o que o que dos dias me viera
Ó homem verdadeiramente unânime, ó incapaz de astúcia,
perdoa eu não ser mais do que um homem
e cruzo o guarda-chuva atrás das costas
Pela variedade de todas estas faces obrigado
Por ti há tantos séculos morremos
és para perseguir sem encontrar
para exaltar onde caíste mais
Às flores imóveis vou no vento irrequieto
e regresso a um rosto onde nunca estou
mas passou entretanto tanto tempo
que quando à minha mesa volto não sou já quem dela se ausentou
Deixa-me cultivar o dia apenas o meu dia
doméstico modesto ameaçado ajardinado
e só depois então depois morrer
com toda a atenção que o gosto principal requer
Havia árvores talvez ciprestes nos teus sonhos
prometeste-me o rio solidão submersa
a quem – se me não queres – irei?
Eu peço o teu passado para a minha história
e ergo contra ti todo o meu rosto
o verde é meu mas é teu o vermelho
e escondes-te no côncavo da pedra
Mas o mais doloroso é ser eu eu próprio
e tudo me ocorrer precisamente a mim
A ninguém nesta vida propriamente chamei pai
todo eu fui calcado como o feno
e esqueci-me mesmo de comer o pão
Decerto é impossível o antigo adro e mesmo o mais recente cedro
e a alma é como as águas vastamente entregues a si próprias
que inocentes se agitam que crescem e que matam
e alheias a si mesmas tudo cobrem
e multiplicam lisas mãos na já serena superfície
Ainda distingo vagamente os anos mas
a onda molha já os meus primeiros pés
Chegou o tempo de chorar Sião
non amplius memoretur nomen eius
São imensos os olhos que no mundo cansam
o vento restitui-me  a ida para a escola
há uma grande morte só a Deus devida
E o sol o grande ausente dos meus dedos

Por vezes é inverno ou canta em nós
a esteira de perfume o cargo oficial a madrugada
aberta para o mundo. Noutro oásis (ou montanha)
levanta já a tenda o viandante
(não seriam de mais mesmo três tendas)

E o assunto é de morte é de morte que eu falo
Extremamente discretos são os mortos
que já nenhuma chuva ousa molhar
Que fácil para eles é ter vivido
Por exemplo morreu
mais um vizinho meu
casado e até feliz
um novo nome inútil na lista telefónica
E nada mais já pode acontecer
àquele a quem a morte veio
os vários e domésticos problemas resolver
Ele tinha
o caminho contado
como as crianças
Vestia camisola pisou terra mas morreu
sem conseguir nadar correctamente o crawl
sem tempo de dizer sequer a frase célebre
tão insignificante o viram ingressar na morte
Ah, eu não sei
a posição agora desse homem
que morreu mais aqui que noutro lado
sei apenas que nos olhos com que via nunca houve
imagem que os enchesse e os bebesse tanto como agora
Morreu e habita hoje entre o seu povo
Mas aonde se nunca mais é visto
contra este mesmo persistente céu que nos esmaga a fronte?
Ele morreu começo a acreditar na morte nessa morte
que tão perto de mim e tão mortal se deu

Também tu hás-de ser a secretária abandonada
mãos inertes tarefa interrompida
Então virão lá das origens visitar-te serão três serão três mil
Tu tens porém ainda de comprar a grande jóia
precisas ter na mão um pau (de giz)
precisas de servir as plantas pagar alguma quota
e seres – como passou? – muito feliz
É preciso consolar a actriz
é preciso morrer
oxalá não te vás esquecer
de tudo isto que tens que fazer
Licenciado conceituado benemérito
excelência reverência senhoria
pai de filhos ou marido e mulher
entre esta terra estes homens estas árvores
já despes vestes que envergaste um dia
 

Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 115 a 118 | Círculo de Leitores, Dez 2000
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