Poemas neste tema

Animais e Natureza

Pedro Xisto

Pedro Xisto

abro após as sombras

abro após as sombras
de par em par as vidraças:
alçam vôo as pombas
838
Pedro Xisto

Pedro Xisto

ao lado da lua

ao lado da lua
neste pinheiro vetusto
uma ave noturna
888
Marina Colasanti

Marina Colasanti

DÚVIDA POSTA À MESA

Li em algum lugar
que no Tour d'Argent
em Paris
a servir coxa de galinha
só à esquerda.
Com a direita a galinha esgravata
em busca de alimento
tornando-a musculosa
enquanto a esquerda
apoio inoperante
se conserva macia.
Desde então
toda vez que uma coxa de galinha
vem terminar sua vida
no meu prato
pergunto-me se
esquerda
se direita
ou se a galinha não seria canhota.
1 087
Mutimati

Mutimati

O Ferro

Como se faz o ferro perguntou agora esta criança pequena
Que é um pastor de cabritos e há de ser homem
E há de ser um homem melhor que sabe do ferro
Com coragem de ferro e um coração generoso.

Expliquei-lhe mal porque só sei o que vi
E ninguém me falou nunca mais completo.

Menino: Há uma pedra de ferro que vem da Terra
Há outra pedra carvão que vem da Terra
Faz um forno de Terra como uma cabeça redonda
E no lugar dos cabelos põe canudos de Terra
Com dentro pedra de ferro bem apertada
E enche aquela cabeça de boca pequena
Com pedras carvão da Terra, bem apertadas.

Casa toda esta Terra de sorrisos diferentes
Com o Fogo macho acendido na manhã baixa
Com o Padrinho Ar de Fole sempre a dizer piadas
E a Madrinha Água Pouca esperando
Para dizer a sua sentença importante.

O ferro é o que fica da boda dos quatro elementos
Por isso o ferreiro é um Homem sábio
Faz a enxada, faz a machada, faz faca.

Com a semente de ferro que semeou
Planta e colhe nesta especial Agricultura
Come um pão de ferro que faz o coração generoso
O Ferreiro, este camponês especial
Menino.

Quanto tempo vai ficar esta criança pequena
Sem uma resposta melhor mais completa?

2 015
Manuel Sobrinho

Manuel Sobrinho

Meu Sabiá

Subindo os alcantis, galgando o azul, varria
O áureo clarão da aurora as sombras no Nascente.
Sustenidos, bemóis, pelo festivo ambiente
Vibrava o passaredo, hinos entoando ao dia.

Vencendo pouco a pouco a tristeza e a apatia
Em que a envolvera a treva, inexoravelmente,
A natureza enfim livre e resplandecente,
Com régia majestade e intrepidez se erguia.

Tudo acordava e ria um rio amável, tudo!
Só na estreita gaiola, impassível e mudo,
Dir-se-ia meu sabiá num pensamento absorto...

É que — maldade humana! — o pobre passarinho,
De saudades, talvez, do profanado ninho,
Perdera a voz, que eu tanto ouvira... — Estava morto!

648
Inge Müller

Inge Müller

Sob escombros III

Ao buscar água caiu sobre mim uma casa
Em nossas costas a casa foi carregada
Nos ombros meus e do cachorro
Não me perguntem como
Isso para mim é passado
Perguntem como ao cachorro
:
Unterm Schutt III
Als ich Wasser holte fiel ein Haus auf mich
Wir haben das Haus getragen
Der vergessene Hund und ich
Fragt mich nicht wie
Ich erinnere mich nicht
Fragt den Hund wie.
669
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Sílvia Maria

Muitas vezes, de repente,
Sílvia Maria, você
Parece um bichinho que é
Mais bonito do que gente.
1 062
Moreira Campos

Moreira Campos

Natureza

Sento-me no silêncio
e apalpo a natureza.
A cantilena eterna da água,
que tem raízes límpidas
e misteriosas.
Nasce não sei onde,
vem de entranhas
antigas como o tempo
e desce em cachos de espuma.
Vem branda a brisa
e fresca como um bálsamo.
Mil cigarras que explodem
em concerto único.
O canto longínquo do pássaro não identificado
(mas um pássaro).
O baque surdo da fruta
na legitimidade do seu amadurecimento.
Todos os ruídos
estão milenarmente impregnados no homem
como uma memória platônica.
Sons honestos.
Uma herança,
uma identificação,
ou sinfonia.
Nada resulta do petróleo
ou é conquista do plástico.
Não há insultos,
não há agressões à natureza.
Sobretudo ninguém
que me perturbe esse recolhimento.
Somente o silêncio.

1 294
Marina Colasanti

Marina Colasanti

PORQUINHOS-DA-INDIA

O porquinho-da-india
foi a primeira namorada
do poeta

No Equador
as indias octavaleñas
criam porquinhos-da-india
na cozinha
para tê-los mais perto
da panela.
1 082
Marina Colasanti

Marina Colasanti

FAZENDA Á BEIRA SAL

Vacas soltas no pasto
à beira-mar
fulvas como leões ao sol poente.
Cabeça baixa
e entrando pelas ventas
um perfume de sal e mato quente.
Sob a canga do vento
inclinam-se as ramagens e os arbustos
o mar é uma planície que se encrespa.
Só as vacas não se dobram.
Sólidas
sobre delgadas patas
mastigam ervas
e ruminam ondas.
1 031
Sousândrade

Sousândrade

Canto Segundo [I

Opalescem os céus — clarões de prata —
Beatífica luz pelo ar mimoso
Dos nimbos d'alva exala-se, tão grata
Acariciando o coração gostoso!

Oh! doce enlevo! oh! bem-aventurança!
Paradíseas manhãs! riso dos céus!
Inocência do amor e da esperança
Da natureza estremecida em Deus!

Visão celeste! angélica encarnada
Co'a nitente umidez d'ombros de leite,
Onde encontra amor brando, almo deleite,
E da infância do tempo a hora foi nada!

A claridade aumenta, a onda desliza,
Cintila co'o mais puro luzimento;
De púrpura, de ouro, a c'roa se matiza
Do tropical formoso firmamento!

Qual um vaso de fina porcelana
Que de através o sol alumiasse,
Qual os relevos da pintura indiana
É o oriente do dia quando nasce.

Uma por uma todas se apagaram
As estrelas, tamanhas e tão vivas,
Qual os olhos que lânguidas cativas,
Mal nutridas de amores, abaixaram.

Aclaram-se as encostas viridantes,
A espreguiçar-se a palma soberana;
Remonta a Deus a vida, à origem d'antes,
Amiga e matinal, donde dimana.

Acorda a terra; as flores da alegria
Abrem, fazem do leito de seus ramos
Sua glória infantil; alcion em clamos
Passa cantando sobre o cedro ao dia

Lindas loas boiantes; o selvagem
Cala-se, evoca doutro tempo um sonho,
E curva a fronte... Deus, como é tristonho
Seu vulto sem porvir em pé na margem!

Talvez a amante, a filha haja descido,
Qual esse tronco, para sempre o rio —
Ele abana a cabeça co'o sombrio
Riso do íris da noite entristecido.

(...)


Publicado no livro Impressos (1868/1869). Poema integrante da série Guesa Errante.

In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888

NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
2 601
Sousândrade

Sousândrade

Harpa XXIV - O Inverno

(...)

Salve! felicidade melancólica,
Doce estação da sombra e dos amores-
Eu amo o inverno do equador brilhante!
A terra me parece mais sensível.
Aqui as virgens não se despem negras
À voz do outono desdenhoso e déspota,
Ai delas fossem irmãs, filhas dos homens!
Aqui dos montes não nos foge o trono
Dessas aves perdidas, nem do prado
Desaparece a flor. A cobra mansa,
Cor d'azougue, tardia, umbrosa e dúctil,
No marfim do caminho endurecido
Serpenteia, como onda de cabelos

Da formosura no ombro. À noite a lua,
Qual minha amante d'inocente riso,
Co'a face branca assenta-se nas palmas
Da montanha estendendo os seus candores,
Mãe da poesia, solitária, errante:
O sol nem queima o céu como os desertos,
Simpáticas manhãs é sempre o dia.

Geme às canções d'aldeia apaixonadas
Mui saudoso violão: as vozes cantam
Com náutico e celeste modulado.
Chama às tácitas asas o silêncio
Ao repouso, aos amores: as torrentes
Prolongam uma saudade que medita:
Vaga contemplação descora um pouco
O adolescente e o velho: doce e triste
Eu vejo o meu sentir a natureza
Respirar do equador, selvagem bela
De olhos alados de viver, à sombra
Adormecendo d'árvore espaçosa.

(...)


Poema integrante da série Estâncias.

In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
3 589
Sousândrade

Sousândrade

Harpa XXXV - Visões

..........................................
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!

(...)

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Poema integrante da série Noites.

In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
2 580
Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

Caiporismo

Um dia um caipora, baixinho, gordo e nu,
montou num caititu e foi pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.

E logo todos os bichos se amoitaram e só
saíram aos cochichos, aproveitando o pó
da noite que tecia seu manto de jaó.

Mas um velho goiano (seis mortes, por aí)
arrumou seu jirau sobre um pé de pequi
e ficou escuitano jaó e juriti.

Esperava veado e só então deu fé
naquilo que a seu lado parecia de pé
e tinha o corpo todo seco que nem sapé.

Quem não teme o diabo e arreliado está
sabe bem que no cabo de sua faca só há
sangue de coisa ruim, cheiro de coisa má.

Com três golpes no umbigo matou o caipora.
Mas quando ia embora viu-se baixinho e nu
montando um caititu e indo pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 72. Poema integrante da série Sombras da Terra
1 893
Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

Estórias

1.

— Casião eu viajava distraído
na boquinha da noite.
O cavalo era aquele pedrês
que foi do compadre Quelemente,
que os ciganos roubaram.

Graças a Deus, nunca viajei armado.
Só o canivete solingen
de picar fumo.

Foi então que a canguçu apareceu
e logo desapareceu,
uivando fino,
já sem rabo entre as pernas.

2.

— Era no tempo da quaresma
e os cachorros latiam a noite inteira.
O homem cada dia ficava amarelo.
Não senhor, não era de medo, não.
Dizia-se que era de maleita.

Um dia a mulher encontrou ele
dormindo entre os porcos.
Era para curar a maleita,
o homem explicou.

Na sexta-feira-santa,
nem no chiqueiro estava mais.
Ainda de resguardo, a mulher foi dormir
na casa da mãe.

No caminho, surgiu um porco muito grande,
que andava em pé, feito um homem.

A mulher subiu num pé-de-pau, assustada.
O porco tentou alcançá-la com a boca,
mas só conseguiu mastigar as pontas
da flanela do menino.

No outro dia o marido voltou cedo:
tinha os dentes cheios de fiapos
de flanela vermelha.

(...)


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 74-75. Poema integrante da série Sombras da Terra.

NOTA: Poema composto de 4 parte
1 492
Marina Colasanti

Marina Colasanti

DEPOIS DA CHUVA E ANTES DA NOITE

Que doce é essa montanha
após a chuva.
Pingos ainda escorrem folha a folha
mínimas águas
transbordando copas.
Na garganta do vale
pálida serpente
a neblina desponta
coleando espirais entre as encostas
e em algum ponto
um som de cachoeira se enovela.
A mata toda estala
de tantas leves patas
tantas asas
e o lento acomodar de terra e tocas.
Na moita de bambus
mais um broto se lança
agudo prumo procurando o alto.
A tarde deita em pregas as suas sombras.
E na distância
cães esparsos latem
escorraçando o escuro que se expande.
1 005
Marina Colasanti

Marina Colasanti

SOBRE A ESTRADA

Pasta de pomba
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.
1 139
Bronisława Wajs

Bronisława Wajs

Historinha cigana

Ela molda uma andorinha
sob minha janela o ninho,
andorinha negra
como a Ciganinha.
Ela nos apontou bons caminhos.
Ela viveu em estábulos e casas.
Ela morreu num pântano.
747
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Era uma vez Manuel Mourão

Era uma vez Manuel Mourão
e a forja do equinócio forjara
os seus braços de ferro
Manuel de Ferros era chamado e uma noite
ao luar do alpendre sobre a rede fresca
foi o uivo da fula suçuarana:
desafiado o chumbo miúdo
veio em cima da fumaça:
sobre a mandíbula quadrada dos Mourões
os olhos negros dos Mourões
e a mandíbula fulva e os olhos fulvos
da suçuarana e a insolência
de Manuel de Ferros:
e o convite ao bote e o bólide
rabeia as fauces
e as presas e os caninos
e músculos e garras e a garganta
se chofra na cilada da forquilha
e à Parnaíba iluminada à lua
as juguleiras jorram e um instante
do ar, da lâmina embebida, dos tendões de ferro
de Manuel de Ferros
e de seu sorriso e do sorriso
dos Mourões de dentes largos e mandíbula quadrada
é o baque da fera.
E as feras e as coisas e as pessoas
tanto me atendem à cítara
como à ponta do punhal

e do novelo de fogo da linha do Equador
são as cordas desta citara e o fio do labirinto:
no hubo príncipe en Sevilla
que comparársele pueda
ni espada como su espada

ni corazón tan de veras
como un rio de leónes
ergue a cabeça morena
donde su risa era un nardo:
morreu na praça em Sevilla
teu último noivo — Ignácio:
que gran torero en la plaza!
que gran serrano en la sierra!
que blando con las espigas!
que duro con las espuelas!
que tierno con el rocio!
que deslumbrante en la féria!
que bom no rifle e na faca
que macho em qualquer função
que Mourão entre os Mourões!

847
Marina Colasanti

Marina Colasanti

QUASE UM ÂMBAR

O meu canino esquerdo
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram 
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas 
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
982
Bronisława Wajs

Bronisława Wajs

Água, que corre

Já há muito passou o tempo
dos ciganos, que vagavam.
E eu os vi:
são ágeis como a água,
forte, clara,
quando flui.
E adivinho que talvez
ela deseje falar.
Pobre, não sabe nenhuma língua,
para ela falar, para cantar.
A cada vez apenas goteja a prata,
sussurra como o coração
a fala da água.
Apenas o cavalo que pasta na grama
permanece próximo
a escuta e entende os murmúrios.
Mas ela não olha para ele,
foge, nada para mais longe,
pois os olhos não podiam ver
o rio, que corre.
946
Marina Colasanti

Marina Colasanti

NO PARQUE HELLBRUNN AO ANOITECER

Para Gigi Reisner

Altos altos pinheiros
verdes falésias
e ao fundo
este caminho que escorre como água.
Um cisne ajeita penas sobre o gelo do lago
única mancha clara na neblina que vem
trazendo a noite.
Trancados na rija silhueta dos capotes
escuros troncos de perdidas folhas
apressamos o passo em busca de um portão
que já se fecha.
Ninguém passa por nós.
Longe
no teatro de pedra em meio ao bosque
uma coruja chama
sem resposta.

Salzburg 1995
886
Marina Colasanti

Marina Colasanti

COM A DOÇURA DE BOTTICELLI

Um tronco ao lado
de outro tronco
negras colunas
floresta
e o cavalo branco
e a branca mulher
nua
correndo à frente
e o cavalo branco
e a clara carne
em desespero
e o cavalo branco
e o lago ao longe
além dos troncos
do cavalo branco
e no branco dorso montado
o cavaleiro de espada em riste
espada a afundar
no meio das costas
das costas pálidas
das delicadas costas
da mulher em fuga
cujos despojos
caberão aos cães.
1 074
Raimundo Correia

Raimundo Correia

Tristeza de Momo

Pela primeira vez, ímpias risadas
Susta em prantos o deus da zombaria;
Chora, e vingam-se dele, nesse dia,
Os silvanos e as ninfas ultrajadas;

Trovejam bocas mil escancaradas,
Rindo; arrombam-se os diques da alegria,
E estoira descomposta vozeria
Por toda a selva, e apupos e pedradas.

Fauno o indigita; a Náiade o caçoa;
Sátiros vis, da mais indigna laia,
Zombam. Não há quem dele se condoa!

E Eco propaga a formidável vaia,
Que além, por fundos boqueirões reboa,
E, como um largo mar, rola e se espraia...


In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.8
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