Poemas neste tema

Sonhos e Imaginação

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.

Ó meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas

por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.
5 249
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

PERFECTION

Perfection comes to me in fevered dreams,
Beauty divine by earthly senses bound,
And lulls mine ear with slow, forgetful sound,
Her full heart's voice, burst forth in mindful gleams,

Such as I ne'er can grasp. Her soft hair streams
On to her lustless breast, wherein confound
The real and the ideal interwound,
And aught of earthly joy that heaven beseems.

Then day invades, and all is gone away;
I to myself return, and feel such woe
As when a ship‑wrecked sailor waked from sleep

From the bright dreams of a sweet village day
Lifts up his throbbing head, to hear below
The weighty, sunken rumble of the deer.
1 640
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Azul, ou verde, ou roxo, quando o sol

Azul, ou verde, ou roxo, quando o sol
O doura falsamente de vermelho,
O mar é áspero [?], casual [?] ou mo(le),
É uma vez abismo e outra espelho.
Evoco porque sinto velho
O que em mim quereria mais que o mar
Já que nada ali há por desvendar.

Os grandes capitães e os marinheiros
Com que fizeram a navegação,
Jazem longínquos, lúgubres parceiros
Do nosso esquecimento e ingratidão.
Só o mar, às vezes, quando são
Grandes as ondas e é deveras mar
Parece incertamente recordar.

Mas sonho... O mar é água, é agua nua,
Serva do obscuro ímpeto distante
Que, como a poesia, vem da lua
Que uma vez o abate outra o levanta.
Mas, por mais que descante
Sobre a ignorância natural do mar,
Pressinto-o, vazante, a murmurar.

Quem sabe o que é a alma? Quem conhece
Que alma há nas coisas que parecem mortas.
Quanto em terra ou em nada nunca esquece.
Quem sabe se no espaço vácuo há portas?
Ó sonho que me exortas
A meditar assim a voz do mar,
Ensina-me a saber-te meditar.

Capitães, contramestres — todos nautas
Da descoberta infiel de cada dia ó
Acaso vos chamou de ignotas flautas
A vaga e impossível melodia.
Acaso o vosso ouvido ouvia
Qualquer coisa do mar sem ser o mar
Sereias só de ouvir e não de achar?

Quem atrás de intérminos oceanos
Vos chamou à distância como [?] quem
Sabe que há nos corações humanos
Não só uma ânsia natural de bem
Mas, mais vaga, mais subtil também,
Uma coisa que quer o som do mar
E o estar longe de tudo e não parar.

Se assim é, e se vós e o mar imenso
Sois qualquer coisa, vós por o sentir
E o mar por o ser, disto que penso;
Se no fundo ignorado do existir
Há mais alma que a que pode vir
À tona vã de nós, como à do mar,
Fazei‑me livre, enfim, de o ignorar.

Dai-me uma alma transposta de argonauta,
Fazei que eu tenha, como o capitão
Ou o contramestre, ouvidos para a flauta
Que chama ao longe o nosso coração,
Fazei-me ouvir, como a um perdão,
Numa reminiscência de ensinar,
O antigo português que fala o mar!
1 281
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ser

O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.

Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apoia em meu ombro
seu ombro nenhum.

Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?

Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te

como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.

O filho que não fiz
faz-se por si mesmo.
2 486
Asta Vonzodas

Asta Vonzodas

Florência

É só Florência.
Menina Inocência.
Nem tanto, já que na esquina
na casa amarela conhecida, faz
o seu canto.

Florência que nas tardes singelas,
nos cabelos uma rosa amarela,
através do decote do vestido de alças, vermelho,
deixa entrever os bicos dos seios..

E os olhos cobiçosos,
por debaixo da janela a passar,
gulosos ficam ali a pousar.

Abrindo a porta,
a puta se deita na cama,
se desfaz do vestido e se deixa olhar.

Abrindo as pernas longas e bem feitas,
deixa entrever a mata macia de pêlos
por onde a gruta sedenta se oferece para
a sede dos homens saciar...

Desfilando pela tarde
a noite adentrando, um a um
vão os fregueses deixando
na cama, ao lado,
o vintém que pela manhã,
o pão irá comprar.

E abre-se a moça, de seios
fartos e perfeitos, bicos duros
para o teto apontando, oferecendo-se
a todos que queiram ali mamar.

Entre as pernas o calor e o cheiro
da fêmea possuída, da puta perdida
que bem sabe como cavalgar.

E quando a noite vai a meio,
despede-se do último romeiro.
Com um sorriso nos lábios,
após seu banho de cheiro,
posta-se novamente à janela
ficando a lua a espiar...

Já não é Florência...
Agora é Inocência, cantando
baixinho uma suave canção.
Pedindo a lua que ilumine o
caminho, pra que rápido chegue
o moço bonito. Seu príncipe encantado.
Que a leve na garupa do fogoso alazão.

Florência, Inocência...
Donzela virgem em seu coração...

895
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No fim do mundo de tudo

No fim do mundo de tudo
Há grandes montes que têm
Ainda além para além —
Um grande além mago e mudo.

São paisagens escondidas
Que são o que a alma quer.
Ali ser, ali viver
Vale por vidas e vidas.

Todos nós, que aqui cansamos
A alma com a negar,
Nesse momento de sonhar
Ali somos, ali estamos.

Mas, depois, volvidos onde
Há só a vida que há
Vemos que ante nós está
Só o que vela e que esconde.

Só dormindo os horizontes
Se alargam e há a visão
Dos montes que ao fundo estão
E o saber do além dos montes [...]
1 400
Anibal Beça

Anibal Beça

Canto II

Tudo era descoberta
no abrir dessas palavras.

E a viagem seguia
construindo-se andaime
de leve arquitetura
nas ogivas das bocas
dos dois que se encantavam
nesse jogo onomástico.

E a mulher que era voz
ainda adormecida
balbuciou nomeando
esse homem fricativo:
– amado meu amado.

Então ele se soube
de pedra amolecida
mas senhor da tarefa.

E olhou-a como nunca
olhara em sua volta:
a íris revelando
o seu contentamento
no semblante de calma
na viva descoberta
do fogo prometido.

Havia agora como
repartir as centelhas
dos olhos revirados.

Apenas construir
um solo de pegadas
no sopro de ocarina
de música tão breve,
que o passo é de nuvens.

Saber-se passageiro
ao lado da parceira
no destino de andar
de ver para fincar
as flechas andarilhas
as palavras certeiras
no chão do transitório.

Então para alargar
o chão dessa morada
e para contentar
os impulsos dos pés
a vontade liberta
de ter aonde ir
no vão dos sonhos soltos
espanando a rotina
dessas favas do tédio
só havia a distância
desse mar dos mistérios
O mar das descobertas:

Ó Thálassa, ó Thálassa!

O mar da poesia
Esse mar do impossível.

944
Janete, Rosa dos Ventos

Janete, Rosa dos Ventos

Erótica, é ótica!

Duas da madrugada,
as palavras ficaram ressoando,
erótica, erótica...
Deve haver um erro,
sem ar,
quente, abafado,
derreteu-se algo em mim,
e ficou: é... ótica!

É isso.
Visão.
Noite quente,
calor, fornalha,
corpo quente,
fogo...

Acendo a luz,
fecho a porta,
lembro do fado:
"de quem eu gosto,
nem às paredes confesso";
o anúncio da TV, chama a atenção:
- me liga, vai... Liga!
Erótica...
Sim, visão...

Começo a me despir
lentamente,
solto os cabelos,
eles se espalham
e cobrem as protuberâncias
de minhas curvas...

Acaricio lentamente meu corpo,
descendo suavemente as mãos,
a carne é firme,
sinto as pernas trêmulas,
olho no espelho,
gosto do que vejo,
sou uma mulher bonita,
sensual,
firme, gostosa, macia,
lembro outra vez:
"liga, vai... Liga"

O telefone está perto,
companheiro único,
preto,
frio,
mudo,
estático...

Ainda espero.
Continuo descendo as mãos
com suavidade,
sinto falta de carinhos,
olho a imagem,
é... ótica...

As pessoas não se olham,
não conhecem seu corpo,
não olham a si mesmas,
não se amam,
não se desejam,
não se tocam...

"Eu me amo... Eu me amo
"Tinha uma música assim,
seriam loucos?
Coisa de jovens?
Rock?
Não.
Amar a si mesmo
é o ponto de partida,
se não nos amarmos,
não amaremos a mais ninguém!

Eu amo a muitos...
Em cada um, eu amo alguma coisa;
a voz,
o gosto,
o cheiro,
o pensamento,
o olhar,
as idéias,
o desafio,
o perigo,
o desejo,
o sexo...

Mas estou só,
absolutamente só,
eu, comigo!

Erótica?
Talvez nos pensamentos,
nas rimas,
na inspiração,
só na ponta dos dedos,
digitando freneticamente,
nada mais...
Na verdade, só é.. ótica!

Visão de uma realidade virtual
visão de um sonho
que embalo no seio
como um filho que suga
meu leite,
aquela deliciosa sensação
de ser sugada,
amada,
comida, esmagada!

Lembranças...
Gostos, cheiros, fatos,
o passado...

Hoje já é o passado de amanhã,
então, só tem eu aqui;
preciso me amar!
Se não me amar,
se não houver um tico de narcisismo,
chegará a depressão,
mulher mal amada,
mulher vencida!

Penso...
Que desperdício!
O tempo vai correndo,
eu grito,
meu grito não tem eco,
os ventos espalham as pétalas da Rosa,
e o tempo continua veloz,
implacável!

Preciso,
sinto que preciso,
dividir, somar,
esse corpo com alguém,
preciso sentir outras mãos
que não as minhas,
tocando minha pele macia,
buscando meus caminhos,
palavras quase inaudíveis
arrancando meus gemidos,
sugando meu sangue...

Jogo os cabelos para trás,
acabei de escová-los,
coloquei a roupa de dormir,
deixo minha imagem
reflexa no espelho,
sou capaz de ver o brilho
das estrelas cintilando nos meus olhos,
na minha pele,
desnudo meu pescoço
mas nenhum vampiro
entra pelas vidraças...

Silêncio total,
só a brisa da noite
e os raios da lua
banham meu corpo quase nu,
chega um misto de prazer e sono...

Começo a dormir e
viajo dentro de mim mesma...

O que encontro?
Minha sombra vagando
pelos espaços vazios dos caminhos,
solidão...

É... ótica.
Nada mais.
Não existe nada,
além da imaginação!

O devaneio adormece
em meus braços,
viajo nos sonhos
e encontro meu príncipe,
ele vem da floresta encantada,
cavalga em minha direção,
me joga meio sem jeito
no dorso do seu garanhão,
o galope é forte,
e, no embalo da ilusão,
adormeço, só,
completamente só!

Quando os raios de sol
entram e me aquecem pela manhã
a cada aurora,
volto à rotina...
Ali adormeceu a poesia
e, agora, acordou a realidade...

Um dia como outro qualquer,
a rotina,
a vida,
a esperança,
a solidão,
a mesma ótica... Erótica!

1 500
Eugénia Tabosa

Eugénia Tabosa

Sonhei comigo

Sonhei comigo
esta noite
Vi-me ao comprido
Deitada
Tinha estrelas
nos cabelos
em meus olhos
madrugadas
Sonhei comigo
esta noite
como queria
ser sonhada
Senti o calor da mão
percorrendo uma guitarra
De loge vinha um gemido
uma voz desabalada
Havia um campo
de trigo
um sol forte
me abrasava.
E acordei
meio sonhando
procurando
me encontrar
Quando me vi
ao espelho
era teu
o meu olhar.

1 187
Anibal Beça

Anibal Beça

Canto IV

Meus olhos vão seguindo incendiados
a chama da leveza nesta dança,
que mostra velho sonho acalentado
de ver a bailarina que me alcança

os sentidos em febre, inebriados,
cativos do delírio e dessa trança.
É sonho, eu sei. E chega enevoado
na mantilha macia da lembrança:

o palco antigo, as luzes da ribalta,
renascença da graça do seu corpo,
balé de sedução, mar que me falta

para o mergulho calmo de amante,
que se sabe maduro de esperar
essa viva paixão e seu levante.

1 064
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Vi - Eu Te Construí Cantando

Eu te acreditei, te inventei na Itália.
Estava só.
O mar entre as gredas
desatava violento
sua seminal espuma.
Assim se preparava
a abrupta primavera.
Os germes adormecidos entreabriam
seus caules molhados,
secreta sede e sangue
feriam minha cabeça.
Eu de mar e de terra
te reconstruí cantando.
Necessitei de tua boca, do arco puro
de teu pequeno pé, de tua cabeleira
de cereal queimado.
Eu te chamei e vieste da noite,
e na luz entreaberta da aurora
descobri que existias
e que de mim como do mar a espuma
nasceste, pequena deusa minha.
Foste primeiro um germe deitado
que esperava
sob a terra escura
o crescimento da primavera,
e adormecido então
senti que me tocavas
debaixo da terra,
porque ias nascer, e eu te havia
semeado
dentro de minha existência. Depois o tempo
e o esquecimento vieram
e eu esqueci que estavas comigo
crescendo solitária
dentro de mim, e de repente
descobri que tua boca
se havia levantado da terra
como uma flor gigante.
Eras tu que existias.
Eu te havia criado.
Meu coração então
tremeu reconhecendo-te
e quis afastar-te.
Porém já não pudemos.
A terra estava cheia
de cachos sagrados.
Mar e terra em tuas mãos
rebentavam
com os dons maduros.
E assim foi tua doçura derramando-se
em minha respiração e nos sentidos
porque por mim foste criada
para que me ajudasses
a viver a alegria.
E assim, a terra,
a flor e o fruto, foste,
assim do mar vinhas
submersa esperando
e te estendeste junto a mim no sonho
do que não despertamos.
1 281
Alonso Alvarez

Alonso Alvarez

Cheiro

ontem à noite
sonhei de corpo inteiro
– acordei com teu cheiro

1 153
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Terra Imponderável

Uma toalha de água e de ar,
imponderável terra
de um longo instante suave.
Região de luz que toca as franjas
doces do ser: sem distância, distante.

Estou (estava) numa nuvem clara
sem linguagem nem corpo.
Um prolongado sim de todo o sangue calmo.
Imóvel barco ou suspensão que inunda.
Abrigo sem abrigo, morada do espaço.

Para além da mãe nocturna, da súplica e do abraço,
para além do pai funéreo, da cal e cinza pétrea,
o infindável átrio, a água libertada.

As palavras dizem os arcos do ar,
as mãos salvas conhecem-se, sem gestos.
Cheguei à fronte deste instante — à minha fronte,
os sonhos que tive desfizeram-se,
percorro agora a terra onde eles nascem,
os lábios livres cegos vêem e caminham.

Ouso ser simples como o pão e a água.
1 156
Asta Vonzodas

Asta Vonzodas

Desejo

Vem...
Que te espero... nua...
Não mais ha lugar para o pudor...

Vem...que te quero, nu...
Fecha-me os olhos com teus beijos,
faz-me sonhar com teus desejos...
Faça-me mulher com teu ardor...

Vem...
Que quero agora
acariciar teu corpo levemente,
beijar-te os lábios, sofregamente...
Sugar tua seiva com minha
boca quente...

Deixar-me penetrar por teu furor...
Vem...
que sou mulher,
te quero homem,
vem...
deixa-me viver esta fantasia
de amor...

1 464
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Primeiro: D. SEBASTIÃO

Esperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
3 962
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

I - PLENILÚNIO

FICÇÕES DO INTERLÚDIO

                I

PLENILÚNIO

As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,

Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada

Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar —

A expirar mas nunca expira
Uma flauta que delira,

Que é mais a ideia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila

Pelo ar a ondear e a ir...

Silêncio a tremeluzir...
1 930
Julián Roas

Julián Roas

Deseos

Desearía que el cielo
fuera de color amarillo
y azul la tierra y de color
naranja el extenso mar.
Que la sangre fuera verde
y muy blanca la noche,
que fuese negra la leche
y rosas las aceitunas.

Quisiera que tus ojos
estuvieran frente a los míos
y tus labios en mi boca
como un ave en su nido.
Que tu cuerpo me roce
y me abrace en el frío,
que me digas "te amo"
con los dedos del destino.

Ojalá pudiera
acariciarte la cara,
morder tus orejas
y lavarte el alma.
Saborear tu cuello,
alzar tus pechos,
asirme a tus piernas
y comerte el corazón.

Desearía tenerte
a mi lado en silencio
y hablarte sin palabras
como en un beso eterno.
Que tu sonrisa
me eleve al piso de arriba
y tus manos me agarren
y me acerquen tu vida.
Quisiera que el mar
fuese duro y de piedra,
las olas de papel,
las nubes de plata.
Que el aire fuera como el agua,
la tierra gaseosa,
de cristal las palmeras
y de oro las gaviotas.

Ojalá pudiera
abrazarte la espalda,
perderme en tus dedos,
besarte el espíritu.
Mecerme en tu pelo,
navegar en tus ojos,
anidar en tu cintura
y morirme en tus dientes.

Ojalá pudiera
acariciarte la cara...

605
Adélia Prado

Adélia Prado

A Treva

Me escolhem os claros do sono
engastados na madrugada,
a hora do Getsêmani.
São cruas claras visões,
às vezes pacificadas,
às vezes o terror puro
sem o suporte dos ossos
que o dia pleno me dá.
A alma desce aos infernos,
a morte tem seu festim.
Até que todos despertem
e eu mesma possa dormir,
o demônio come a seu gosto,
o que não é Deus pasta em mim.
1 018
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Errante

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando,
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta
Vai procurar o Paço da Ventura...

Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...

Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!...
1 896
Ademir Assunção

Ademir Assunção

O Anjo do Ácido Elétrico

o anjo sujo, esfarrapado
              remela nos olhos
cabeça feita
             bate as asas sob o céu lilás
:
luas se dissolvem
             (comprimidos de sonrisal
na fornalha da noite)
             música que não cessa
minha mão dentro da sua
             veias são nervuras
golfinho saltando
              na pele das costas
vênus vestindo
             um manto de água
a ninfa chapada
             de olhos elétricos
cores girando
             no abismo sem fundo
dança de estrelas
             no teto da sala
dois sóis em cada ontem
             três vozes
na voz de quem cala
762
Ylia Kazama

Ylia Kazama

Tesitura

1

Hoy tengo un deseo que me hace nueva...
Mi intención "hombre de agua" es:
obsesionarte con mi beso;
amarte con fascinación,
con adoración ferviente.
Haremos el amor... delicadamente.

2

Cuando tu boca apenas me roza
me convierte en una parcela llena de humedad.
Me seduces a la liviandad.

3

Mi liviandad tu la provocas, con tu mirada de beso
con tu beso de ... quiero!.

4

Tu cuerpo cálido es una invitación abierta al amor.
No sólo a la demostración física...
Hablo del sentimiento vasto e infinito.
De la pasión que no decrece con la presencia,
de la que se intensifica con la ausencia.
Hablo de lo que me inspira
tu esencia y contexto.
Lleno de defectos, que bien claro miro
y no me asusta; que asumo como algo tuyo.
Hablo de algo muy sencillo:
del amor que por ti siento.

5

Me encanta como suenas,
tu sabor, olor
y textura.
Me fascina como piensas,
tu manera de mirar
y locura.

6

A qué sabrá tu boca en la mañana?
A membrillo?, a durazno?... a limón!.
Cómo se oirá tu corazón en la mañana?
Cómo un tambor?... cómo trombón?... cómo canción!.
Cómo despertaras después de "eso", en la mañana?
Humanamente?... amantemente?... Amadamente!.

7

La noche es un milagro.
Transitar por ella me hace vasta.
La obscuridad es vulnerabilidad
en espacio impenetrable.
Vulnerabilidad es la obscuridad.
Vasta me hace transitar por ella.
Es un milagro la noche

8

Mientras despierta sueño,
que soy tu sueño.
Que sueñas
que te sueño
y así... no duermo.

9

Pienso que estoy en tu pensamiento
que piensas que te pienso
y así.... me duerme.

10

La noche ya llego... estoy dispuesta al amor.
Dispuesta a tu amor... amanezco.

11

Acontece que amanece cuando el amor llega.

12

Vengo a descubrir que la inspiración
algo te la da.
Sólo falta un beso... te besan y ya!.

13

No sé sí estoy inspirada o sólo enamorada.

14

Entre el amor, la noche, el sueño,
la realidad, el deseo;
la pasión y la ternura
está la tesitura.

1 048
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Cegueira Bendita

Ando perdida nestes Sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tactear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!

Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
’Stendendo as asas brancas cor do sono...

Ter dentro d’alma a luz de todo o mundo
E não ver nada neste mar sem fundo,
Poetas meus Irmãos, que triste sorte!...

E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados
A sofrer pelos outros ’té à morte!
2 052
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Solidão Renovada

Com os dentes.
Sem música,
sem água.

Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
1 140
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Se Há Cães de Sono…

Se há cães de sono que meus pulsos rasgam
cães de dentes em lava,
se há algas nos teus olhos,
se escrevo no papel a baba dos teus beijos
nenhum vagar de sombra
nenhum campo natural do vivo olhar.

Se nos teus olhos vejo um vale,
se posso dizer casa, vento, nu,
nenhuma terra pousa sobre a terra,
sobre a mão que escreve
nem a sombra cai.
Que escrevo então, nudez sem corpo,
janela sobre um mar sem mar,
mão sem mão,
porque persigo um rastro sem faro, opaco e frio?
Que face ou região, círculo aberto,
página que no silêncio não ascende,
sopro que não sobe à boca, lua morta?

Se não te quero, imagem fútil,
luva de nada,
porque insisto no pálido círculo deste campo?

Se não há sol nem mãos que o arrebatem,
se árvores não vejo, nem destroços restam,
um tudo há-de nascer, ou já nasce de nada,
de cães de raiva insone, cães insones?
Oh, dormir sem nada mais, dormir apenas,
dormir para acordar
como se houvera um acordar de vez.
1 052