Poemas neste tema

Sonhos e Imaginação

Zulmira Ribeiro Tavares

Zulmira Ribeiro Tavares

Vida: objeto de desejo

Nós desejamos pinguins.
Não os de geladeira
com seu peso fixo de massa pintada
sua estatuária de cozinha
sem nenhum sopro de da Vinci.

Nós desejamos pinguins.
Não os das geleiras
que nos esfriam os dedos
ao toque de suas penas firmes.
Frios são os caminhos que a morte nos envia.

Desejamos os pinguins de nosso assombro
fechados dentro de nós no desejo
como pérolas nas ostras.
Ostras não sabem das pérolas
que engendram e trazem consigo.
E nós que os formamos do escuro,
deles só temos o rastro, pinguins,
com seu brilho
de nácar.
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Distância

Entro no teu quarto como se
entrasse no mar. Um temporal de perguntas
enrola os teus cabelos. Lanças-te
contra as ondas de um sonho antigo,
e abres a porta da varanda
para te sentares à cadeira
do oriente, apanhando o vento
da tarde. "Não te levantes, digo,
e deixe que os teus olhos se libertem
de sombra, depois de uma noite
de amor, para me abrigarem
da luz estéril da madrugada". Mudas
de posição, como se me tivesses
ouvido; e o teu corpo enche-se
de palavras, como se fosses
a taça da estrofe.



Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 99 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Os Três Mal-Amados

JOÃO: Olho Teresa. Vejo-a sentada aqui a meu lado, a poucos centímetros de mim. A poucos centímetros, muitos quilômetros. Por que essa impressão de que precisaria de quilômetros para medir a distância, o afastamento em que a vejo neste momento?

RAIMUNDO: Maria era a praia que eu frequentava certas manhãs. Meus gestos indispensáveis que se cumpriam a um ar tão absolutamente livre que ele mesmo determina seus limites, meus gestos simplificados diante de extensões de que uma luz geral aboliu todos os segredos.

JOAQUIM: O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

JOÃO: Olho Teresa como se olhasse o retrato de uma antepassada que tivesse vivido em outro século. Ou como se olhasse um vulto em outro continente, através de um telescópio. Vejo-a como se a cobrisse a poeira tenuíssima ou o ar quase azul que envolvem as pessoas afastadas de nós muitos anos ou muitas léguas.

RAIMUNDO: Maria era sempre uma praia, lugar onde me sinto exato e nítido como uma pedra – meu particular, minha fuga, meu excesso imediatamente evaporados. Maria era o mar dessa praia, sem mistério e sem profundeza. Elementar, como as coisas que podem ser mudadas em vapor ou poeira.

JOAQUIM: O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

JOÃO: Posso dizer dessa moça a meu lado que é a mesma Tereza que durante todo o dia de hoje, por efeito do gás do sonho, senti pegada a mim?

RAIMUNDO: Maria era também uma fonte. O líquido que começaria a jorrar num momento que eu previa, num ponto que eu poderia examinar, em circunstâncias que eu poderia controlar. Eu aspirava acompanhar com os olhos o crescimento de um arbusto, o surgimento de um jorro de água.

JOAQUIM: O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

JOÃO: Esta é a mesma Teresa que na noite passada conheci em toda intimidade? Posso dizer que a vi, falei-lhe, posso dizer que a tive em toda a intimidade? Que intimidade existe maior que a do sonho? a desse sonho que ainda trago em mim como um objeto que me pesasse no bolso?

RAIMUNDO: Maria não era um corpo vago, impreciso. Eu estava ciente de todos os detalhes do seu corpo, que poderia reconstituir à minha vontade. Sua boca, seu riso irregular. Todos esses detalhes não me seria difícil arrumá-los, recompondo-a, como num jogo de armar ou uma prancha anatômica.

JOAQUIM: O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

JOÃO: Ainda me parece sentir o mar do sonho que inundou meu quarto. Ainda sinto a onda chegando à minha cama. Ainda me volta o espanto de despertar entre móveis e paredes que eu não compreendia pudessem estar enxutos. E sem nenhum sinal dessa água que o sol secou mas de cujo contacto ainda me sinto friorento e meio úmido (penso agora que seria mais justo, do mar do sonho, dizer que o sol o afugentou, porque os sonhos são como as aves não apenas porque crescem e vivem no ar).

RAIMUNDO: Maria era também, em certas tardes, o campo cimentado que eu atravessava para chegar em algum lugar. Sozinho sobre a terra e sob um sol que me poderia evaporar de toda nuvem.

JOAQUIM: Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unha, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

JOÃO: Teresa aqui está, ao alcance de minha mão, de minha conversa. Por que, entretanto, me sinto sem direitos fora daquele mar? Ignorante dos gestos, das palavras?

RAIMUNDO: Maria era também uma árvore. Um desses organismos sólidos e práticos, presos à terra com raízes que a exploram e devassam seus segredos. E ao mesmo tempo lançados para o céu, com quem permutam seus gases, seus pássaros, seus movimentos.

JOAQUIM: O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

JOÃO: O sonho volta, me envolve novamente. A onda torna a bater em minha cadeira, ameaça chegar até a mesa. Penso que, no meio de toda esta gente da terra, gente que parece ter criado raízes, como um lavrador ou uma colina, sou o único a escutar esse mar. Talvez Teresa…

RAIMUNDO: Maria era também a garrafa de aguardente. Aproximo o ouvido dessa forma correta e explorável e percebo o rumor e os movimentos de sonhos possíveis, ainda em sua matéria líquida, sonhos de que disporei, que submeterei a meu tempo e minha vontade, que alcançarei com a mão.

JOAQUIM: O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

JOÃO: Talvez Teresa… Sim, quem me dirá que esse oceano não nos é comum?

RAIMUNDO: Maria era também o jornal. O mundo ainda quente, em sua última edição e mais recente.

JOAQUIM: O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

JOÃO: Posso esperar que esse oceano nos seja comum? Um sonho é uma criação minha, nascida de meu tempo adormecido, ou existe nele uma participação de fora, de todo o universo, de sua geografia, sua história, sua poesia?

RAIMUNDO: Maria era também um livro susto de que estamos certos, susto que praticar, com que fazer os exercícios que nos permitirão entender a voz de uma cadeira, de uma cômoda; susto cuidadosamente oculto, como qualquer animal venenoso entre folhas claras e organizadas dessa floresta numerada que leva dísticos explicativos: poesia, poemas, versos.

JOAQUIM: O amor comeu meu estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava não saber falar delas em verso.

JOÃO: O arbusto ou a pedra aparecida em qualquer sonho pode ficar indiferente à vida de que está participando? Pode ignorar o mundo que está ajudando a povoar? É possível que sintam essa participação, esses fantasmas, essa Teresa, por exemplo, agora distraída e distante? Há algum sinal que a faça compreender termos sido, juntos, peixes de um mesmo mar?

RAIMUNDO: Maria era também a folha em branco, barreira oposta ao rio impreciso que corre em regiões de alguma parte de nós mesmos. Nessa folha eu construirei um objeto sólido que depois imitarei, o qual depois me definirá. Penso para escolher: um poema, um desenho, um cimento armado – presenças precisas e inalteráveis, opostas a minha fuga.

JOAQUIM: O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão me asseguram. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

JOÃO: Donde me veio a ideia de que Teresa talvez participe de um universo privado, fechado em minha lembrança? Desse mundo que, através de minha fraqueza, compreendi ser o único onde me será possível cumprir os atos mais simples, como por exemplo, caminhar, beber um copo de água, escrever meu nome? Nada, nem mesmo Teresa.

RAIMUNDO: Maria era também o sistema estabelecido de antemão, o fim aonde chegar. Era a lucidez, que, ela só, nos pode dar um modo novo e completo de ver uma flor, de ler um verso.

JOAQUIM: O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
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Vítor Silva Tavares

Vítor Silva Tavares

Como se alguém teimosamente mudo

Como se alguém teimosamente mudo
ante o esplendor que não se vê de dia
tivesse ignorado os livros de estudo
e saído porta fora da aula de poesia

Como se alguém falhasse a pontaria
frente às imagens raiadas de sonhos
e só tivesse olhos para aquela alegria
que mora dentro de espelhos medonhos

Como se alguém arrancasse a cabeça
e a escondesse no bolso das calças
de forma a que a luz esquecesse depressa
ter entrado sempre por janelas falsas

Como se alguém sem o saber dissesse
adeus muito antes da hora da verdade
e ficasse à esquina de tudo o que acontece
e a peste estourasse na cidade
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Herberto Helder

Herberto Helder

I D

Se é uma criança, diz: eu cá sou cor-de-laranja.
Crianças de pensamento.
Sou amarela.
E pela sua força apenas se concentram as frutas
por todos os lados iluminadas
a vento, a oxigénio.
As crianças entram no sono que as aguardava como uma sala.
Eu cá sou caldeada na minha labareda.
O sono fecha-lhes os ombros à sua própria volta.
E quem tem tanta memória que a massa de átomos,
quando passe,
encrespe, acorde, alumie a última criança?
O mistério é só este: primeiro são cor de pólen,
transfundem-se depois em palavras siderais, botânicas.
As frutas adoçam-se.
Sacode-se a árvore do ar: eu cá sou de plutónio, chamejo, caio.
Os dias separam-se das suas trevas internas.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 4

Contou que caminhava pela praia, nu, correndo.
A areia, o sol, o mar e a profundidade extenuante do céu embriagavam-no.
Tinha extrema consciência da sua nudez, e isso também o embriagava.
Ia com um projecto, ou uma missão, estava carregado disso, mas tratava-se de uma coisa inominável.
Na praia havia gente, gente — parece — com aquela disponibilidade sem expectativa de gente na praia.
Estavam em fato de banho, ociosos e alheios, e quando ele passou pelo meio dessa gente, a nudez que tinha ainda o embriagou mais.
Depois encontrou três degraus de pedra, e subiu-os.
Continuou a correr, mas — segundo contou — o céu, a água e a areia, agora perdidos, haviam deixado nele um espaço vazio onde a ideia de missão se pôs a crescer, de modo que ele se encontrava como que louco da pressa e densidade da missão.
Corria por um labirinto de pedra negra, e nos corredores estreitos havia casas baixas, também de pedra, sem telhado e sem portas e janelas.
Eram cubos negros abertos em cima e com buracos rectangulares a diversos níveis.
Correndo pelos labirintos, cheio da sua pressa e com a espessa ansiedade daquela mensagem tão obscura, viu de súbito que tinha dois longos pénis brancos, delgados e longos como duas serpentes, e que se contorciam e enroscavam um no outro.
Não sentiu medo, sequer espanto, pois imaginava que isso também fazia parte da missão.
Mas quando avistou uma mulher que vinha em sentido contrário ao dele, procurou tapar com as mãos aqueles pénis-serpentes nascidos da mesma sombria raiz, quando corria pelos labirintos.
As serpentes, no entanto, escapavam-se por entre os dedos, desciam-lhe pelas pernas, subiam pelo ventre até ao peito, avançavam em todas as direcções, com as suas pequenas cabeças cruéis, sagazes e esfaimadas.
Cheio de terror, parou em frente de uma daquelas casas.
Quando entrou — contou ele — havia já perdido a sua força e leveza de mensageiro, e apenas sentia medo.
A casa estava vazia como todas as outras e, como elas, sem tecto e sem portas e janelas.
Naquele cubo negro e devassado, onde adivinhava excrementos e restos podres de comida, através de uma luz sinistra, pensou que viera de longe, percorrendo com a sua nudez os caminhos do dia e estes labirintos tenebrosos, apenas para se encontrar vazio, cercado pela podridão.
As duas serpentes brancas continuavam a fremir entre as suas pernas abertas.
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Renato Russo

Renato Russo

Sereníssima

Sou um animal sentimental
Me apego facilmente ao que desperta o meu desejo
Tente me obrigar a fazer o que não quero
E você vai logo ver o que acontece
Acho que entendo o que você quis me dizer
Mas existem outras coisas

Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade
Tudo está perdido mas existem possibilidades
Tínhamos a idéia, você mudou os planos
Tínhamos um plano, você mudou de idéia
Já passou, já passou - quem sabe outro dia

Antes eu sonhava, agora já não durmo
Quando foi que competimos pela primeira vez ?
O que ninguém percebe é o que todo mundo sabe
Não entendo terrorismo, falávamos de amizade

Não estou mais interessado no que sinto
Não acredito em nada além do que duvido
Você espera respostas que não tenho
Não vou brigar por causa disso
Até penso duas vezes se você quiser ficar

Minha laranjeira verde, porque está tão prateada ?
Foi da lua desta noite, do sereno da madrugada
Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço
Enquanto o caos segue em frente
Com toda a calma do mundo

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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Prólogos

Sou o Autor, diz o Autor, e aproxima-se das pessoas que estão simplesmente a assistir e lhe deixam, a ele, a solidão incólume.
Boa-noite.
E as pessoas que assistem são estátuas com cabelo, um sorriso talvez — com esse ar ambíguo das estátuas: branco, fatal, atónito.
As estátuas não têm amor nem adivinhação.
Estão cravadas nas poltronas e nada fazem por esse Autor repentinamente aparecido no meio de sombras e luzes.
Contudo, esperemos ao menos que não sejam os «juízes».
São majores, advogados, comerciantes, professores.
Estátuas sentadas.
Estava ali a pensar, há pouco, para que serve aparecer.
(Ele refere-se, evidentemente, a um momento teatral anterior, que pode desenhar-se desta maneira:
O pano sobe.
A cena encontra-se na obscuridade.
Três panejamentos negros cobrem o fundo e os lados do palco.
A um canto, ao fundo, de preferência à esquerda, está um homem sentado numa poltrona de couro.
Fuma.
Tem ao lado um cinzeiro de pé alto.
Nada mais existe no palco.
O homem expele o fumo com força, uma última vez, e atira o cigarro para o cinzeiro.
Ergue-se devagar.
As luzes aumentam de intensidade sem, no entanto, iluminarem francamente a cena.)
Não serve para nada, continua, a menos.
Levanta um dedo, e todo o corpo como que se precipita para o alto desse jacto de energia.
A menos que se execute um milagre.
E toda a sala permaneceria muda e à margem da (miraculosa) solidão, se o Demónio, que passava pelos corredores, não tivesse encontrado a porta entreaberta e, espreitando, não dissesse: um milagre?
Sim, responde o Autor, um pequeno milagre.
Aqui é o lugar da malícia do Demónio.
Pequeno?, pergunta.
Então o Autor diz que tentará explicar.
Massas de sombra e de luz esperam atrás dele.
O espaço onde se encontra hesita entre vários, inconcluídos pensamentos.
Nem a temperatura, a pressão, a humidade se fixaram.
Eu apareço como exemplificador — mostro o estilo, o exemplo.
Um operário em fato-macaco levanta um dos panos laterais e introduz em cena meio corpo.
Pergunta: começa-se?
Ainda não, responde o Autor, estou a explicar umas coisas.
Quando acabar, chame, diz o operário, e desaparece.
Senhores militares, estudantes, médicos — minhas senhoras — meus senhores — ides assistir a um acto simbólico.
É esse o milagre, o pequeno?, pergunta o Demónio no fundo da sala.
Sim, é esse — e é pequeno.
Bate palmas, e entram alguns operários.
Agora?, perguntam.
Os operários saem e voltam com uma carpete, cadeiras, pequenas mesas e o mais que possa interessar para que surja uma sala-de-estar segundo a convenção.
Um momento, interrompe o Autor.
E os operários conservam-se a um canto, pacientemente à espera de poderem arrumar os móveis e objectos.
Eu ia pedir-vos, senhoras, senhores, para aceitardes o direito de poder imaginar a acção um pouco como quisésseis.
O que aqui se passar poderia passar-se noutro sítio qualquer, com pessoas diferentes e de maneira diversa.
Mete pessoas?, pergunta o Demónio.
Não haverá sempre pessoas?, não estaremos por acaso — tu, eu — bloqueados, sufocados, esmagados por pessoas? — há sempre pessoas.
E as pessoas estão em baixo, sorrindo, olhando — talvez, talvez.
Enfim, procuro defender o meu símbolo, apesar de tudo.
Podeis começar, senhores operários.
E para vós, senhoras, senhores, que simplesmente assistis, vou fazer, enquanto eles dão a este espaço o aspecto concreto da realidade, um pequeno truque de prestidigitação.
Uma coisa poética, pela qual procurarei dar a impressão de que repito o acto iluminante do Génesis.
É o milagre?, perguntam impertinentemente do fundo da sala.
Um milagre que não é precisamente uma arbitrariedade.
Os poetas arrogam-se o direito de recomeçar o mundo.
Aqui principia o mundo, se é verdade que pode principiar em qualquer parte e tempo.
E então arregaça as mangas do casaco como um prestidigitador de circo.
Mostra as mãos, de um lado e de outro.
Nada na manga, diz o Demónio.
Com efeito, nada na manga.
Dirige-se para os panejamentos negros que puxa, e caem, deixando à vista as paredes com estantes de livros, quadros, retratos de família, etc.
Bonito, não é?
Fiat lux!
E a luz fez-se.
Olha subtilmente para as estátuas, enquanto ao fundo rebenta uma gargalhada.
Depressa, diz para os operários, esta gente espera a acção.
A acção, não é?
Pois claro.
Onde estão as portas?
Uma para comunicar com o resto da casa.
Isto é a sala-de-estar de uma família.
Ora é preciso que as pessoas entrem e saiam.
Que vivam por toda a parte, por causa da verosimilhança.
Gosto muito da verosimilhança.
E outra, outra porta para fora.
Porque podem chamar de fora, da noite, do vento, e a pessoa por quem chamam poderá querer sair.
Estavam mal as pessoas, se o Criador.
Com a licença de todos, o Criador aqui sou eu.
Se o Criador, dizia, lhes não desse uma porta.
É tudo?, pergunta o Demónio.
Tudo, sim.
E o milagre?
Bem, o milagre.
Nada há a acrescentar, senão talvez que as pessoas que simplesmente assistem nunca se movem, porventura jamais se moverão.
Talvez nem mesmo sorriam, ou olhem.
Estão sentadas, vamo-lo supor.
Sentadas e hirtas, e se calhar não chegam a compreender que é para elas tudo o que se faça.
A paixão forma-se, cresce, desloca-se à sua frente.
Alguém se esgota à sua frente — o caloroso prestidigitador, sob a ironia de um demónio devoluto, emprestado pelas fábulas.


Escreve-se.
Há as nuvens, as árvores, as cores, as temperaturas.
Há o espaço.
É preciso encontrar a nossa relação com o espaço.
Fazer escultura.
Escultura: objecto.
Objectos para a criação de espaço, espelhos para a criação de imagens, pessoas para a criação de silêncio.
Objectos para a criação de espelhos para a criação de pessoas para a criação de espaço para a criação de imagens para a criação de silêncio.
Objectos para a criação de silêncio.
Temos enfim o silêncio: é uma autobiografia.
É algo que se conquista à força de palavras.
Pode-se morrer, depois, quero dizer.
Um amigo: quando já sabemos como viver estamos prontos para a morte.
Estou descontente.
Há primavera, verão, outono e inverno — no espaço.
Começa assim o Ricardo III:
Now is the winter of our discontent
Made glorious summer by this sun of York;
And all the clouds that lourd’d upon our house
In the deep bosom of the Ocean buried.
Now are our brows with victorious wreaths;
Our bruised arms hung up for monuments;
Our stern alarums changed to merry meetings;
Our dreadful marches to delightful measures.
Gloucester não é feito para estes tempos de paz, os jogos voluptuosos, os delicados labirintos da beleza.
É monstruoso.
Why, I, in this weak piping time of peace,
Have no delight to pass away the time,
Unless to see my shadow in the sun
And descant on mine own deformity.
E ele realizará uma autobiografia activa, uma sufocante acumulação de crimes.
Uma soma de cadáveres.
Um cadáver ele mesmo, acto V, cena V.
É o silêncio dele.
Estou descontente.
Eis o inverno do meu descontentamento.
Autobiografia.
Denominação: dominação das coisas.
O amor e a palavra são belos crimes — e imperdoáveis.
E quem pode amar o crime senão o criminoso e, por vezes, devido a um ainda mais raro talento, a sua vítima?
O autobiógrafo é a vítima do seu crime.
Melhor verdade, porém, é que a única graça concedida ao criminoso é o seu próprio crime.
Estou só: escrevo.
A alegria de escrever.
A temperatura, a velocidade, a cor das palavras — a maneira.
Latejam e respiram.
Dormem e despertam — andam.
Olham para a nossa ciência e para a nossa inocência.
Amam-nos.
Descobrir o seu sistema de cristalização, ver como a luz se refracta através delas.
As montanhas deslocam-se, pela energia das palavras, aparecem pessoas, animais, girassóis, plantas negras, lugares negros — e o sol, pela energia das palavras, cria-se o silêncio, pela energia das palavras.
année par année sont des années sans années
pas par pas sont des pas sans pas
Uma notícia de jornal: uma estátua em granito, com mais de 2 metros de altura e pesando meia tonelada, desequilibrou-se e tombou sobre o escultor que a tinha feito, esmagando-o.
Porque não é assim: o homem pesa 60 toneladas, mede 22 metros de altura e 24 de largura, e ocupa uma superfície de 70 metros quadrados — é em aço inoxidável.
Escrever é perigoso.
(…)
Sim — no entanto, já me disseram isso: que eu devia ser paciente.
E os que mo disseram foram tão pacientes, pelo seu lado, que apodreceram.
Quanto a mim, tenho pressa.
Porque eu penso que vou morrer, e então como posso ser paciente?
Gostaria de escrever o livro de que tenho medo, mas os meus dias, afinal longos, são ameaçados pela esterilidade.
Nada disto é fácil.
Suporto mal a carga das experiências e inexperiências: um homem, bela fábula também para apodrecer, e (desta vez) depressa.
A minha convicção era esta: eu esgotara a cidade.
Então fiz a mala e dirigi-me para o norte.
O norte era um espaço organizado segundo outras regras, de certo modo opostas às da cidade esgotada.
A experiência que possa ou julgue ter apresenta-me o norte como um estilo ao mesmo tempo rigoroso e livre, onde as primeiras qualidades são talvez a verdade, a pureza e o esforço.
A minha vida na cidade orientava-se pelo princípio da dissipação.
O facto que eu fugia de admitir, isto é: que o livro me perseguia, o livro aterrador que eu aspirava escrever, para que fosse a minha purificação — seria colocado, o livro, o facto, seria colocado, no norte, numa nova perspectiva.
Sim.
Já me não equilibrava nas linhas do antigo estilo.
Havia peste na cidade.
Suponho que um perfeito desamor se estabelecera entre mim e os dias.
Repugnavam-me as casas brancas, a cal martelada pelo sol, e o rio — as grandes águas pesadamente luminosas.
Era a peste.
Mas a peste não é só esta face quente e branca que confunde o poder e a delicadeza dos pensamentos.
O sul comporta as noites aparentemente plácidas, de que os dias vazios são uma ambígua anunciação, onde um furor sensual empurra à embriaguez, à alegria dramática — exigência de atingir depressa os limites.
Eu vacilava então entre diversas pistas, convencido de que o ardor me guiaria ao melhor lugar, quero dizer: à exaltação mais alta.
Onde me conduzia o livro, o tema, aquela perseguição?
Que espécie de morte me vigiava — terrível e salvadora?
Em pequenos escritos de uma crueldade minuciosa mas lateral, eu fazia perguntas, e do outro lado aparecia o norte, com a fascinação da sua luz imóvel.
Era a sua fábula o que eu deveria aprender: descobrir o seu prestígio inocente.
E nessa fixa claridade desabrochariam os meus obscuros bestiários — o livro.
(…)
O livro, o livro.
Nos dias nevoentos fecho as janelas, acendo a luz forte, e deito-me no tapete.
Leio ou penso.
Ou então fumo, enquanto as camadas de silêncio se sobrepõem, e as mais pesadas descem e as mais leves se tornam pesadas, até ser impossível destruir o silêncio.
É fascinante, debaixo de uma luz que brilha tanto.
Lá fora, a terra — a terra das criaturas que se aproximam umas das outras, se tocam e falam.
O silêncio é sólido, iluminado por cima, aquecido pelos lados.
Durante seis meses fumo e leio, estendido no tapete.
Depois chega o verão, e subo à montanha, e vou para o mar.
Rebento de sol e água, do odor a terra quente e agulhas de pinheiro.
Estou tremendamente forte.
Bebo vinho.
Uma noite começo a escrever.
Tenho uma memória: nada foi esquecido.
Vem adequado agora a um vivo sentido de expressão.
Feliz, eu caminho para o esgotamento, nesses terríveis dias da fecundidade.
As pessoas perdem o nome, os acontecimentos libertam-se do seu movimento centrífugo: fica um núcleo cerrado de significações.
Inspiro-me na minha alegria, na morte acumulada.
Vivo sobre um doloroso e minucioso sentimento de masculinidade — como se isso fosse uma doença.
Poderei dizê-lo: inspiro-me no que é uma força e uma terrífica fragilidade, diante da lembrança e do esquecimento.
Depois: um ritmo, uma libertação.
Há dentro da gaveta uma rima de folhas escritas de ambos os lados.
Escrevi-as para os sombrios tempos do esgotamento.
Eu sou — e ali está a minha prova.
Dias, dias, noites inteiras — sobre o tapete, enquanto a chuva, o sol, o vento, o mundo.
Tempo consumido por uma tranquilidade imóvel.
Mas o bolbo fermenta.
Começo a andar em volta do quarto e a sair do quarto.
Sim, sim, digo eu, sim.
Ando de um quarto para outro, fechando portas, voltando atrás para abrir portas.
Depois paro e fumo diante das janelas.
Eu, diante da noite, com as mãos cobertas de sangue.
Eu, cheio de medo.
Irrisória medida pessoal: comida, urina, fezes, esperma, suor.
As unhas e os cabelos que crescem.
E a noite adiante, atrás, por cima.
Uma distância avassaladora e inóspita.
Desamor, crueldade, sensibilidade na criatura, na estranha criatura coroada com a sua comida e as suas fezes.
E sangue nas mãos, não há lágrimas — masculinidade, podridão fria.
Os papéis são um motor, trabalhando ininterruptamente; os papéis trabalham pelos dias dentro e no meio da noite.
Um tremendo motor.
Acordo de madrugada para ouvir a trepidação do motor.
Comunica-se à mesa, e da mesa ao soalho, às paredes, e a toda a casa.
É uma força espantosa.
Divago pela casa, bêbado de hesitação, dissipo-me em passos, mergulho em sonos brutais.
Uma manhã, caminho debaixo de árvores frias.
A terra trabalha à minha volta, interior e silenciosa, o mar vibra sob um céu extenuantemente liso.
Enfrento este calmo sonho do mundo, eu — o homem exaltado.
O meu poder é profundo e obscuro.
E então canto.
É uma canção essencial, ingénua — desalojada dos labirintos da ciência.
Empunho essa arma inocente, atravesso com ela meu ser dúbio, o vocabulário das contradições.
Sim, sim, penso eu, sim.
Talvez a alegria comece nesta terrível purificação.


Vieram ter comigo à noite, numa rua deserta, e disseram: porque fizeste isso?
Pareceu-me reconhecê-los, reconhecer-lhes os rostos implacáveis de ressuscitados, e a voz, aquela voz triste e violenta de quem irrompeu do tempo e violou a sua qualidade mortal.
Pensei: quem sou eu para que me ataquem as vozes?
E o sangue vacilou na minha carne, as mãos tremeram, e a minha boca estava gelada.
Porque eu sabia quem era — conhecia-me.
Que fiz eu?, perguntei, e eles olhavam-me com a sua terrível melancolia.
Vieram ter comigo numa rua de não sei que cidade, e quem sabe se eu era puro?
Tinham caras ferozes e dolorosas, e queriam conhecer a razão por que eu fizera aquilo.
Olhei em volta — e apenas uma noite sufocada pelo nevoeiro, o rumor apenas do vento arrastando papéis velhos pelas ruas.
Era uma vez um lugar — pensei — onde os pássaros apanhavam insectos e os cravavam nos espinhos dos cardos selvagens.
Era uma vez uns pássaros que cantavam, enquanto os insectos agonizavam enterrados em espinhos brancos e duros.
O seu canto era belo.
E então, voltando-me para aqueles rostos amargos e cruéis, perguntei: quereis cantar?
E eles sorriram, como quem sabe, e disseram: porque fizeste isso?
Serei um inocente? — isto, só isto o que me acudiu.
E pus-me a andar, enquanto eles me seguiam quase sem ruído pelo meio do nevoeiro.
De súbito, percebi que eu nada sabia, nada, que a minha ciência era inane, e me limpava de toda a culpa.
Estremeci de alegria e parei voltando-me para eles, e perguntei, radiante: que fiz eu?
Um deles avançou para mim e passou a mão direita pelo meu rosto, numa carícia leve e, ao mesmo tempo, investigadora.
Recordei todo o tempo inútil que vivera, e aquilo que opusera ao mundo, e pensei: como hei-de morrer, com que espécie de amor, de louvor, hei-de eu morrer?
Já sabia então toda a profundeza do meu crime, e como o meu espírito era frágil e cruel.
Terei cantado alguma vez? — perguntei, e aquele que avançara até mim recuou para o grupo, e todos me olhavam.
Ignoro em que cidade pode o nevoeiro correr assim pelas ruas, e deixar à volta dos rostos um espaço branco onde uma luz difusa trema longamente, como se não houvesse tempo e o peso incalculável das presenças fosse irremovível.
Vieram ter comigo nessa inexplicável cidade e, enquanto o nevoeiro passava, olhavam-me implacavelmente, conhecendo o meu medo, o ponto instável onde inocência e crime se equilibravam no meu coração, e disseram: porque fizeste isso?
Eu sorri.
Decerto, comecei a dizer.
E de novo reparei que os rostos escapavam ao nevoeiro, quase brilhando na massa escura e gelada da noite.
E o meu rosto, brilharia ele também, estaria como que suspenso na noite, seria um rosto implacável?
Como recusar que eu sempre me preparara para a morte do mesmo modo que se prepara uma vingança?
Decerto, disse sorrindo, decerto houve um erro qualquer, porque eu não posso ser procurado.
E recomecei imediatamente a andar.
Sim, isto é um lugar, isto é uma noite, mas há outros lugares e outros tempos.
Há uma libertação, algures, num tempo que não sei, mas que existe.
E eles seguiam-me, e tanto fazia que eu caminhasse depressa como devagar, porque se mantinham à mesma distância.
Ando à procura da minha velocidade, mas o que é isto, que é procurar a sua própria velocidade, se aparecem vozes com uma pergunta fora do tempo e dos lugares?
Há um erro, gritei, e enfrentei-os, há um erro, um erro.
E então um deles avançou para mim e passou a ponta dos dedos pela minha boca.
E não sei se eram os dedos que tremiam ou se era a minha boca, e não sei porque tremeriam os dedos ou tremeria a boca.
Ele afastou-se devagar, e eu perguntei: que fiz eu?
As ondas de nevoeiro abraçavam as figuras imóveis e o vento arrastava jornais velhos.
Os rostos continuavam a palpitar no ar frio.
Um dia chegará a luz.
Um dia correrão as águas, e as plantas sairão das trevas com a chama branca das suas flores, e alguém louvará o renascimento da vida.
Um dia o homem estará nu e inocente.
Então reconheci os seus rostos atrozes de ressuscitados, e aquela voz que irrompia do tempo e violava a sua qualidade mortal, para dizer: porque fizeste isso?
Quem sou eu para que as vozes me ataquem?
Porque fizeste isso? porque fizeste isso? porque fizeste isso?
Ah, um pouco de paz, um dia de paz, apenas um dia, para que saiba ao menos a qualidade da minha culpa.
E um deles avançou e deu-me um beijo no rosto, e depois recuou, e depois recomecei a minha caminhada sem propósito, e depois senti que a face me queimava no sítio do beijo, como uma chaga.
Era uma rua enorme, estreita e varrida pelo nevoeiro húmido.
Eles andavam atrás de mim, quase sem ruído.
Talvez a inocência seja mesmo a minha verdadeira vocação.
Que espécie de ciência terão eles, para fazerem tal pergunta?
Era uma vez um lugar onde pássaros terríveis cantavam inspirados pela agonia dos insectos.
O seu canto era de uma beleza inocente e parecia louvar a própria vida.
Há um erro, disse eu, e parei para olhar as caras brancas e amargas.
Quereis cantar?, perguntei, quereis alimentar-vos da minha inocência?
Então um deles destacou-se do grupo e veio para mim, cambaleando como um ferido, e depois tomou-me as duas mãos nas suas e levou-as lenta e apaixonadamente aos lábios, e comecei a chorar em silêncio, enquanto as minhas mãos ficavam entregues àquele beijo de um amor terrível.
Porque fizeste isso?, perguntaram os outros, dirigindo-se a mim.
E os seus rostos eram implacáveis.
O que estava junto de mim abandonou-me docemente as mãos e voltou para o grupo.
Disse: porque fizeste isso?
Um dia chegará a primavera, num lugar longe daqui, haverá homens e mulheres para louvar a vida, pensei eu.
E, virando-me para eles, perguntei: que fiz eu?
Ah, vieram ter comigo à noite, numa rua deserta, e pareceu-me reconhecê-los, reconhecer-lhes os rostos implacáveis de ressuscitados, e a voz, aquela voz triste e violenta de quem irrompeu do tempo e violou a sua qualidade mortal.
Porque fizeste isso?, perguntavam.
Mas nem eu avaliava bem a verdade da minha culpa ou da minha inocência, nem conhecia que espécie de sabedoria era a deles.
E caminhava pela cidade cheia de nevoeiro, e eles seguiam-me e às vezes beijavam-me apaixonadamente as mãos, e eu dizia: que fiz eu?
Se acaso eu pudesse pensar na morte, isso era como uma vingança, e parecia que eles sabiam tudo.
De nada servia que eu protestasse existir um erro.
Mostravam-me o seu amor demoníaco, e acusavam-me até eu sentir que tudo vacilava dentro de mim.
Talvez agonizássemos todos e todos nós esperássemos cantar, movidos pela agonia alheia, talvez estivéssemos ligados por insondáveis tramas de inocência e culpa, e as vozes fossem um obscuro esforço de libertação.
Eu parava e dizia: mas que fiz eu?
E um deles avançava para mim e encostava o seu rosto ao meu e afastava-se.
E depois eles perguntavam: porque fizeste isso?
Quem sabe?, talvez fosse muito rudimentar toda a nossa sabedoria de crime e inocência, e o amor e o medo enchessem o nosso coração, e assim caminhássemos pelas trevas com os rostos brilhando ao alto — dolorosos, implacáveis e doces, doces.
646
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 6

Eu ia nadar para as águas negras e geladas do porto, disse ele.
Mas havia uma voz antiga, um sopro por detrás da memória.
E disse: os tubarões.
Eram os devoradores de testículos.
E apareceu um navio monstruoso, disse ele, branco.
Monstruosamente alto e branco.
E a voz antiga disse, aquele sopro interior e cantante: cega-os.
Foi o que a voz disse: cega-os.
E então eu fiquei a olhar as águas frias e tenebrosas da baía, em frente da brancura vertical do barco, disse ele.
Eu procurava na praça desolada os meus testículos, disse ele.
Minha mãe, disse ele, a mãe regressada de uma juventude impossível.
A mãe estava lá, na enorme desolação da praça.
Procurávamos.
Havia um monte de roupa a um canto.
E ela voltou para mim o seu grande rosto que tremia de uma beleza incrível, e parecia perguntar severamente por que razão não encontrávamos, disse ele.
E depois afastou-se ao longo da praça, e criou-se um espaço terrível.
Eu remexia ainda na roupa, disse ele.
Eu estava à porta de um bar, disse ele.
Entre, disse o porteiro, escolha a mais bela mulher.
Mas eu tinha medo, disse ele.
Que seria aquilo?, uma armadilha?
Aquele lugar onde me era prometida a mais bela mulher, disse ele.
Mas entrei.
As mulheres estavam em volta dos copos, no meio do fumo, disse ele.
Eram monstruosas.
Não me interessam, disse eu ao porteiro, disse ele, e saí.
Agora sou uma criatura esfaimada, disse ele.
577
Louise Glück

Louise Glück

Mãe e filho

Somos todos sonhadores; não sabemos quem somos.

Alguma máquina nos criou; a máquina do mundo, a constritiva família.
Então, de volta ao mundo, polidos por suaves chicotes.

Sonhamos; não lembramos.

A máquina da família: pelagem negra,
florestas do corpo materno.
A máquina da mãe: a cidade branca
dentro dela.

E antes disso: terra e água.
Musgo entre as pedras, pedaços de folha e grama.

E antes, células numa imensa escuridão.
E antes disso, o mundo velado.

É por isto que você nasceu: para me calar.
Células de minha mãe e de que pai, é a sua vez
de ser fundamental, de se tornar uma obra-prima.

Eu improvisei; eu nunca me lembro de nada.
Agora é sua vez de se deixar guiar;
é você quem exige saber:

Por que eu sofro? Por que sou ignorante?
Células numa imensa escuridão. Alguma máquina nos criou;

é sua vez de se dirigir a ela, de ficar perguntando
qual é meu propósito? Qual é meu propósito?
884
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Durmo, remoto; sonho, diferente,

Durmo, remoto; sonho, diferente,
Meu coração, ansioso e pressuroso,
Foi entalado num comboio entre
Os dois vagões do meu destino ocioso.
1 087
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 16

Este lugar não existe, fica na Arábia Saudita, no deserto.
Gosto do deserto.
Levei tábuas e pregos.
Ferramentas, as belas ferramentas dos homens.
Levei água, víveres, sementes.
Não eram sementes de trigo ou aveia, nem de cravos — também não eram sementes de máquinas.
As belas máquinas dos homens.
Não me lembro se fui pelo ar.
Não me lembro da lenta e progressiva despedida, quando se anda pelas terras, o labirinto doloroso, a alegria, quando se vai pelas terras, e nos despedimos, primeiro de um corpo, depois de um sítio, depois de um odor, uma luz, uma voz, os arrabaldes, os sinais, as palavras, as temperaturas.
Não me lembro de quando se vai deixando.
Foi portanto pelo ar.
Levei tudo para experimentar o deserto.
Comprei tábuas, água, sementes, ferramentas — as belas ferramentas.
Tenho uma pequena ciência.
Aprendi.
Vamos lá ver esse lugar que não existe, na Arábia Saudita, no deserto.
Ficava no meio.
No meio é bom — há uma coisa que se chama à volta.
Serve para estar bem só.
Comprei tábuas, sementes e águas.
Não era trigo, nem cravos, nem sementes de cores, das cores que amamos com uma dor no corpo.
Eram sementes de cabeças de crianças.
Não serão nabos, ou rosas, ou sementes de algodão?, perguntei no ervanário.
Não serão sementes de sono, ou sementes de tabaco, ou daquelas sementes de paisagem verde ocidental?
Eram sementes de cabeças de crianças.
Tenho uma pequena ciência.
Fiz como nos livros.
Dividi-me em sete dias.
Com os meus dez dedos enchi os dias, e depois com os meus ouvidos e o meu coração sôfrego.
Da minha virgindade dos desertos tirei a minha ciência dos desertos.
Espalhei os dez dedos pelos dias e, primeiro, criei os céus e as areias daquele lugar que não havia.
Depois, os dois luzeiros: um para o dia e o outro para a noite do deserto.
No terceiro dia, fiz uma casa com um alpendre e uma cadeira no alpendre.
Foi então que senti o sangue bater na minha noite e soube do sinistro silêncio de toda a minha vida, e era o quarto dia.
No quinto, lancei às areias, a toda a volta da casa, até onde podia, todas aquelas sementes que não eram de cravos, nem de trigo, nem de algodão — as sementes — lancei à minha volta o futuro nascimento, e fiquei no meio do nascimento, cercado pelo futuro nascimento.
Depois pensei, como pode pensar um animal criador extenuado, porque eu tinha-me criado a mim mesmo, e era uma criatura quente e exausta, e estava cheio da dor e da alegria da minha obra — era então o sexto dia.
E no sétimo dia vi que tudo tinha um sentido, e sentei-me na minha casa, no meu alpendre, na minha cadeira.
Pela escrita tinha eu pois chegado ao sétimo dia, ligando tudo, ligando o que não é como que visível mas é como que audível, semelhante às correntes de água subterrânea que o nosso próprio corpo solitário sente deitado sobre a terra.
Estava sentado na cadeira criada no terceiro dia, rodeado pela sementeira do quinto dia.
Era uma sementeira de cabeças de crianças.
Não serão nabos ou rosas?, perguntei no ervanário.
Não eram.
Porque principiaram a sair da areia na tarde do sétimo dia, e floresceram, sombrias e doces cabeças de crianças — era terrível.
Seriam verdes-garrafa?
Cabeças de crianças do tamanho de cabeças de crianças — vivas, oscilantes, latejantes sobre o pedúnculo que irrompia do deserto, à volta da minha casa, do meu alpendre, da minha cadeira, do meu coração que nunca mais dormiria.
Começaram então a sussurrar — e eu pensei: a aragem do fim do sétimo dia passa sobre um campo de corolas verdes, como no mundo, e há o sussurro vegetal, o ondular verde-garrafa, em frente da casa de um proprietário como no mundo.
Mas eram cabeças de crianças.
E as minhas tábuas e pregos e víveres, a minha água e a cadeira, e o meu coração estavam cercados pelo sussurro das cabeças das crianças.
Eu nunca mais dormiria — era de noite, era agora a minha noite.
E então elas começaram a cantar — na minha noite.
Eu estava sentado na cadeira, no alpendre, na casa — e as vozes levantavam-se, eram altas, altas, inocentes e terríveis, cada vez mais belas, mais sufocantes.
No deserto.
O meu coração nunca mais dormiria.
Não serão cravos, ou nabos, ou máquinas?, perguntei no ervanário.
Eram cabeças de crianças.
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Herberto Helder

Herberto Helder

O Poema - Iii

Às vezes estou à mesa: e cômo ou sonho ou estou
somente imóvel entre a aérea
felicidade da noite. O sangue do mundo corre
e brilha. Porque a minha carne se distrai
entre as coisas altas da primavera nocturna.
Ocupo-me nos símbolos, e gostaria
que meu coração
entontecesse lentamente, que meu coração
caísse numa espécie de extática e sagrada loucura.

E enquanto estou só e o céu rodeado de lírios
amarelos, e animais de luz, e fabulosos
órgãos de silêncio, descansa
sobre os meus ombros
seu doce peso antigo — eu penso
que haveria uma palavra vingativa e pura,
uma esfera com espinhos de fogo que me ferisse
primeiro na voz ou na claridade
ou na tenebrosa
fantasia, e que depois me ferisse
na minha própria morte, sob a intensa
profusão celeste.

Penso que deve existir para cada um
uma só palavra que a inspiração dos povos deixasse
virgem de sentido e que,
vinda de um ponto fogoso da treva, batesse
como um raio
nos telhados de uma vida, e o céu
com águas e astros
caísse sobre esse rosto dormente, essa fechada
exaltação.

Que palavra seria, ignoro. O nome talvez
de um instrumento antigo, um nome ligado
à morte—veneno, punhal, rio
bárbaro onde
os afogados aparecem cegamente abraçados a enormes
luas impassíveis.
Um abstracto nome de mulher ou pássaro.
Quem sabe? — Espelho, Cotovia, ou a desconhecida
palavra Amor.

Sei que minha vida estremeceria, que
os braços sonâmbulos
iriam para o alto e queimariam a ligeira
noite de junho, ou que o meu
coração ficaria profundamente louco. E nessa
loucura
cada coisa tomaria seu próprio nome e espírito,
e cada nome seria iluminado
por todos os outros nomes da terra, e tudo
arderia num só fogo, entre o espaço violento
do mês de primavera e a terra
baixa e magnífica.

Com grandes dedos eu tocaria as trémulas
campânulas dos signos, e beijaria
as rodas excitadas do ar.
Ferveriam os pequenos vulcões dos frutos.
Dentro dos tanques tombaria a água
infantil da aurora. Comer ou sonhar ou estar à mesa
da fantasia nocturna
seria para um homem, sob a abóbada da cabeça, como
o espírito caído dentro da forma
e a forma incrustada, como uma lâmpada,
na inspiração da cabeça.

— Cada boca pousada sobre a terra
pousaria
sobre a voz universal de outra boca.
834
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 13

Atravessei depressa a juventude.
Tinha duas coisas — a alegria e o terror.
Percorri-os sem tomar fôlego.
Quando cheguei ao outro lado, encontrava-me em frente da maturidade — estupefacto.
Não conhecia os nomes nem as subtilezas.
Falando com certas pessoas, eu dizia: conheci a alegria e o terror.
Elas sorriam.
Parece que eram sábias.
Ou estúpidas.
Nada sei disso.
Encontrei um homem louco que tinha uma frota de quebra-gelos no sul da Itália.
Contou-me também que descobrira um processo novo de prever os terramotos.
Construíra uma casa no meio da planície — dizia ele — e criara veados a toda a volta.
Quando se aproximava um tremor de terra, os veados vinham para junto da casa, de cornos trémulos.
Era uma planície de cornos trémulos.
Encontro pessoas assim: loucas, sérias — gente total.
Falam-me destas coisas, ou de dinheiro, progresso, política e felicidade.
Vê-se como me encontro desorientado, com a minha idade e as coisas que são dela ou não são.
Fui aos psicanalistas e mandaram-me deitar num divã.
Tenho a alegria ou o terror — por onde devo começar?
Fale do que quiser — diziam.
Eu estava de olhos abertos, deitado, na obscuridade do gabinete.
Ainda assim, distinguia bem uma reprodução medíocre das Musas Inquietantes, de Chirico, na parede em frente.
Representa a Piazza Vecchia, em Florença, com o Palácio Palatino ao fundo, bastante vermelho.
O céu tem a cor das garrafas verdes.
Representa chaminés de fábricas.
A atmosfera é de ameaçadora suspensão.
No espaço essencial, representa as terríveis figuras inspiradoras.
São estátuas que o não imitam, possuem mantos pregueados.
Espalham-se em volta os frios objectos do seu jogo.
Um bastão cilíndrico, paralelepípedos de cor, um cubo azul onde se senta a mulher de pedra branca, com seu escudo rubro ao lado.
A cabeça de uma das estátuas tem a forma de grande pêra ou bola de rugby.
Outra não tem cabeça.
No pescoço decepado, que não sangra, floresce um rebento negro.
Poderia segurar nas mãos a sua própria cabeça de cautchou.
Disse que o céu é tremendamente verde.
Sim, há uma figura disfarçada na sombra.
Esta ameaça total ou suspeita, ou longamente elaborada pergunta, suspende-se sobre abismos trementes.
Julgo que se poderia enlouquecer, olhando essas linhas vivas e áridas durante vinte e quatro horas.
Eu disse: tive um sonho.
Dei-lhe um nome, dou um nome a todos os meus sonhos.
Este chama-se — Os Animais Domésticos.
Era uma sala de teatro.
Ao fundo, em vez das portas de entrada e saída, havia uma esplanada no passeio de uma rua larga, com árvores, movimento e um céu vibrante por cima.
A plateia estava cheia de pessoas que conversavam umas com as outras, levantavam-se, sentavam-se — trocavam de lugares.
Eu encontrava-me no palco, deitado, com a cabeça no colo de uma velha sentada no chão.
Uma telefonia monstruosa, ocupando quase todo o palco, emitia uma louca canção — violenta, insuportável.
Um jovem mexia nos botões da telefonia.
A mesma canção violenta — sempre, sempre.
Depois levantei-me e desci para a plateia, misturando-me às pessoas, falando com elas, indo de aqui para ali.
De repente, encontrei-me na esplanada, despedindo-me de uma mulher que ia para a Suíça.
Vou para a Suíça, adeus.
Levantei-me para dar-lhe um beijo de despedida, e disse-lhe: adeus, viaja, viaja, faz bem viajar — a Suíça.
Sim, sim, sim, disse ela, sim.
Eu estava de pé, com a mão dela entre as minhas, e dizia-lhe: viaja, viaja, é muito instrutivo.
Sim, sim, dizia ela, e afastava-se, sim, dizia afastando-se, sim, sim.
Sentei-me e ouvi ao longe o grito da mulher: sim, de avião, sim, sim.
Respondi: a Suíça.
Reparei de súbito que conservava nas minhas a mão da mulher.
Fiquei preocupado.
Como se arranjará ela na Suíça, sem a mão direita?
Então atirei a mão para o ar.
A mão voou rapidamente em direcção à Suíça.
Resolvi passear pela cidade.
Mas, antes, fui espreitar para dentro da sala.
Na voz grave de um homem, a rádio transmitia agora o boletim meteorológico.
Previsão para amanhã: tempestade de areia no deserto, tempestade de neve no pólo, maremoto no mar, terramoto na terra, muita luz, muita treva.
Eu andava à procura pelas ruas.
Era uma cidade confusa, de casas muito baixas, sem portas, com grandes janelas.
Junto de cada janela, no interior, uma cama desfeita.
Eu espreitava para dentro destas casas de um só piso.
Todas as camas estavam vazias, menos uma, onde se encontrava uma criança de colo, nua, uma menina.
Uma menina.
Uma menina alarmante.
Tinha um sexo de mulher, cheio de pêlos eriçados.
Tirei então a criança da cama, pela janela, e levando-a ao colo voltei para o teatro, através das ruas vazias.
Pensava: é horrível, horrível.
É uma espécie de glória negra.
É bela e horrível.
É bela, bela, bela.
É horrivelmente bela.
É uma espécie de negro, negro triunfo.
No teatro, a criança transformou-se num enorme ramo de cravos negros que estremeciam nos meus braços, tremiam, pareciam respirar, viver tremulamente, cheios de seiva negra.
Comecei a colocar um cravo na cabeça de cada pessoa da plateia, como se cada cabeça fosse a boca de uma jarra.
Estavam agora no palco duas pessoas vestidas de espelho, em frente uma da outra, de perfil para a plateia, fazendo uma com o lado esquerdo do corpo aquilo que a outra fazia com o direito, numa simultaneidade rigorosa.
A cabeça de uma das figuras era branca e a da outra era negra.
A telefonia transmitia uma canção vertiginosa, e os cravos negros que eu ainda tinha nas mãos transformaram-se em fumo.
As minhas mãos estavam cobertas de sangue.
Então a música parou abruptamente, e a mesma voz que lera o boletim meteorológico disse no meio de um silêncio total:
Nascido para o inferno.
1 049
Herberto Helder

Herberto Helder

Fonte - Iv

Mal se empina a cabra com as patas traseiras
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os ágeis
cascos de demónio.
E o sonâmbulo desejo do coração
absorve tudo ao alto numa vertigem
tenebrosa.

E quando o esplendor invade as bagas
venenosas, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias mudam a conjunção
suspensa
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela feroz queima a fronte de apoio.
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.

Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra fremente no flanco
com uma flecha viva.
Cantamos devagar o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o amor louco.
Porque a cabra
é uma coisa materna e antiga.
À noite o trigo irrompe da terra.

E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e ardente. Na penumbra das casas as mulheres
respiram —surdas, lentas, cegas
de beleza. E no sono as palavras
são mortalmente confusas.

— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma árdua e amarga da melancolia.
1 157
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

POEMA

eu sei
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como a ponte dos velhos manequins


o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através
dos teus cabelos

1 033
Herberto Helder

Herberto Helder

As Palavras 4

Durmo.
Durmo de pé atravessando quartos, as minhas mãos não dormem — talvez eu sorria estremecendo, estremecendo.
As minhas mãos saem do sono, para os lados, mexem, mexem, os pés estão acordados e levam com um sorriso o meu sono pelos espaços vivos e brancos, sem som — estou de pé estremecendo.
Depois tenho quatro patas como um perfume que partisse ou uma flor que partisse à procura do seu perfume.
Digo que tenho uma aflita quadrupedia, como um cão nu que fosse em busca da sua flor desaparecida em toda a parte, neste clima aberto à volta do clima.
As minhas patas saem do sono para saber como é o espaço exasperado do clima, andam pelos soalhos do clima — e ao alto do movimento há um sorriso em lume brando numa pessoa estremecendo.
Aprendi como é devagar — comer devagar, sorrir, dormir devagar, cagar e foder — aprendi devagar.
Entretanto, se me falarem de rosas não me falem de rosas — falem-me da espinhosa arte de ser rosa, da arte do devagar.
Mexes-te muito, digo eu, e penso: mexes-te muito pouco — é que eu sou o muito mais possível devagar, respondo, é que eu sou o sangue procurando, pelos tubos quentes, o pavor do coração.
Sou o sangue em busca de como há-de bater nas mãos e nos pés, através das galerias, como um ramo de ventania a bater no espaço da ventania.
Mexes-te pouco, é o sono que te leva, as mãos tremem, os pés apanham os passos um pouco atrás, o coração é terrível como um órgão oculto — mas a boca exposta é que é o órgão do amor.
Durmo, durmo, durmo em todas as direcções — abrem luzes como quem espanca neve, tornam claro como quem desdobra lençóis, tiram do sono como quem abre torneiras sobre as ervas espantadas.
Oh, deixa-me tu passar, digo-me eu, dá-me a superfície inteira desta noite irregular, a profundeza deste sono onde apenas se mexe uma incrível sabedoria à força de lentidão.
É isto que levo no corpo — a nudez, a nudez.
E a nudez põe o sono às costas, caminha, sabe, encontra, perde e caminha — toda exposta em seu espaço branco.
Não te importes com a água fria que atravessa a primeira imagem da tua ciência — tu abraças o amor como se abraçasses uma chaga ardente: a lepra, a loucura, a visão.

O dia começa a meter-se para dentro.
Leva consigo as casas de bruscas rosas acesas, os lençóis que tremem, as candeias com perfume.
A cor sobre as pedras, os lugares mais frios.
O pequeno espelho que o ar infiltrou de álcool, digo: o pássaro — o dia que começa a meter-se para dentro agarra-o pelas patas do voo, e leva-o consigo.
É preciso mais droga, ou amor, ou maior velocidade, para se ver que é o dia.
O movimento dos nomes, o espaço na beleza — e leva-os para dentro.
Já não sei como olhar as plumas que respiram entre as minhas duas mãos, o silêncio deitado, aberto, debaixo do meu de novo silêncio.
A luz pênsil como um girassol um pouco retirado.
A madeira latejante.
Agora não sei — o dia leva tudo para dentro.
Ouve-se então o interior mais escuro.
Aquele bater de águas giratórias.
Um eco de pancadas sonâmbulas, síncope, uma ardente digestão de coisas vivas.
Começa a meter-se para dentro — é uma paisagem tão móvel como a linha entre a maçã e o gosto.
O teu retrato parece uma colina de areia que caminha para os lados nocturnos, não é fixo e fascina — como um peixe dança pelas águas geladas.
Quando se dobra para trás, quente ainda o coração, pequena colina de areia sentada sobre si mesma como uma cabra, uma rosa — vem o dia que se mete para dentro, e leva-o consigo.
Tenho medo do teu rosto que desaparece um pouco loucamente, como se parasses para ver o outro lado do espelho.
Tremo olhando a convulsão de toda aquela seda.
Deita de fora as mãos e agarra o teu vestido de perfil, e tu olhas de lado como as pessoas lêem o sentido de um poema, e sorris a três quartos como as pessoas imaginam que são, e desapareces de costas como as pessoas apalpam a frescura das pêras — o dia agarra o teu vestido de pé, e leva-o para dentro.
O meu sono onde corre um ramo de sangue, como na europa um ramo de águas arquejantes.
O dia agarra pelos caules o ramo bem atado do meu sono que crepita — e a vigília põe-se a andar sobre as suas quatro patas, branca como um cão cheio de febre.
O dia como uma cadeira que se leva para dentro.
1 081
Herberto Helder

Herberto Helder

As Palavras 5

As flores que devoram mel ficam negras em frente dos espelhos.
Os animais que devoram estrelas em frente dos espelhos ficam brancos por detrás dos pêlos ou das plumas da idade.
As pedras por onde circula a água ficam vivas de tanto cantar e, quando se voltam, atingem a sua maior velocidade interior.
Se vêm às portas ver quem bate, os lençóis cobrem-se de imagens respiradoras — quando regressam ao sono, deixam as mãos abertas.
Se é uma estátua que bate, corre-lhe o sangue pela boca, e sobre os ombros torcem-se os cabelos, e as asas tremem em frente da porta.
Se é um retrato, sorri sufocado pela noite adiante.
Os espelhos são negros como os jacintos da loucura.
Os crimes que olham para o espelho têm uma vibração silenciosa.
Se é uma criança, diz: eu cá sou cor-de-laranja.
Porém às vezes é bom ser branco, é bom estar deitado.
O mel faz bem às pedras, atrai os olhos dos anjos.
Quem aplaina tábuas acumula uma obscura sabedoria.
Olha para os espelhos, tens um talento assimétrico de assassino.
Vê-se nos teus ramos frutos negros contra a paisagem móvel.
Se fosses um peixe, a porta estaria nas águas mais íntimas, frias, límpidas e caladas.
E não batias — cantavas a tua síncope terrível.
Nada se veria na vertente do espelho.
Serias como uma máquina cor de cal respirando.
Por isso te ofereço este ramo de lâminas e um fato de perfil — e andas nos labirintos.
Por isso te sento numa cadeira de ar.
Por isso somos os dois um quadrúpede de seda de uma beleza truculenta.
Temos toda a vigília para encher de silêncios.
Pensamos os dois o mesmo corpo inaugurado.
As flores que devoram mel tornam negros os espelhos.
As colinas vão olhando, e tremem na nossa carne as estampas de ouro extenuante.
Por isso, por isso, por isso — somos assim obscuros.
1 028
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Aquelas Garotas Que Seguimos No Caminho de Casa

na escola intermediária as duas garotas mais bonitas eram
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.

gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.

quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.

“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”

“você acha mesmo?”

“claro.”

agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
1 175
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VICENTE: Todos, oh mestre, têm horror à morte...

[VICENTE]:
Todos, oh mestre, têm horror à morte...
                FAUSTO:
Ah não me ofendas com palavras vãs
O horror do pensamento. Ninguém
Como eu teve esse horror, nem poderá
Nas veias e na alma e no sangue
Tê-lo tão íntimo, tão internado
Tão feito um comigo.
                                Ah,
São as primeiras, únicas palavras
Em que a outro mostrei parte do ser.
Tu não as compreendeste, nem podias,
Nem nunca poderás. Tenta esquecer...
Nunca mais me ouvirás falar assim...
Estava ainda só comigo n'alma
E falava comigo respondendo-te.
Mas dize-me a que vinhas.
                [VICENTE]:
                                        Vinha... eu...
Eu vinha... ah... eu vinha procurar-vos
Para falar... nada... Já me retiro.
Estais febril, mestre, sim, sim, vejo bem
E os vossos olhos brilham não sei como,
Que...
                FAUSTO:
Dize.
                [VICENTE]:
        Que...
                FAUSTO:
       O quê?
                [VICENTE]:
        Que me apavora.
                FAUSTO:
Escuta, aproxima-te, é a primeira
Vez que direi o que te digo. Tu
Não compreenderás talvez ainda,
Nem nunca... a essência do que digo
Nunca, ai nunca. Escuta-me Vicente,
São as últimas palavras que direi.
Não compreendes isto,
Não tomes susto. Escuta.
                                        O mundo
Encerra um sonho como realidade
E em cada seu fragmento — não me entendes (
Vive todo.
Interpenetração de (...)
E complexos mistérios desconhecidos.
As figuras de sonho não conhecem
O sonho (...) de quem são figuras,
Porque o mundo não só é (...) sonhado
Mas é dentro dum sonho um outro sonho
Em que sonhados são os sonhadores
Também. Tu compreendes?
                [VICENTE]:
                                        Vagamente.
                FAUSTO:
Possas tu sempre assim compreender
Como todos na terra que existiram
Menos um.
                [VICENTE]:
                Cristo?
                FAUSTO:
                           Cristo? Quem é Cristo?
Ah ri-te, ri-te desta distracção,
Desta pergunta minha, de alheado
Que ando do meu próprio ver e ouvir
Feito. Deixemos isto, pois Lembra-me
Uma cousa a que podes responder.
Diz-me que pensas
Do orgulho? De imperadores, reis
E príncipes da terra e seu orgulho?
Que pensas?
                [VICENTE]:
                        Eu? Do orgulho? Julgo-o vão.
                FAUSTO:
Todo o orgulho vão?
                [VICENTE]:
                                Todo o orgulho.
Assim mo ensinaram, assim creio
E assim razoável me parece.
                FAUSTO:
Mas o orgulho do génio, desse que sente
Retratar-se no espírito soturno
A ilusão de existir definida
Em mistérios e abismos e visões?
E o desse?
                [VICENTE]:
                O talento é dom de Deus.
Não sei que orgulho haverá em tê-lo
Como se fora cousa produzida
Pelo próprio. Por que quereis saber?
                FAUSTO:
Eu? Nada. O talento é dom de Deus.
E o orgulho não é dom de Deus?
                [VICENTE]:
Por, parecendo humano que é nascido
Da vã contemplação, como direi?
Da maravilha de si mesmo. Eu,
Se fosse talentoso — não o sou (
A Deus diariamente o agradecia.
Dar-me-ia prazer, mas não orgulho.
                FAUSTO:
Bem agradeço-te. Deixa-me agora.
Preciso de pensar Lembrou-me súbito
Uma cousa... Logo te verei.
Continuaremos.
                [VICENTE]:
                        Mestre, até então.
                FAUSTO: (só)
Em todo os raciocínios em que vivo
Aquele (...) nunca fizera.
Como aquelas palavras me feriram!
Sim, por que ter orgulho — para quê?
Mas — ah, quantos problemas e mistérios
Essas palavras dum inconsciente
Me abrem no pensamento. Que intenso
Atropelar de (...) e teorias
De raciocínios, conclusões d'espírito
Mal geradas dentro em mim,
Não poder apagar este tormento;
Não poder despegar-me deste ser;
Não poder esquecer-me desta vida...
825
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Mote e Glosas

Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria?
Como poderei viver
Sem a tua companhia?
(Toada de Diamantina)

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Estrela, por que me deixas
Sem a tua companhia?

Sonho contigo de noite,
Sonho contigo de dia:
Foi no que deu esta vida
Sem a tua companhia.

Água fria fica quente,
Água quente fica fria.
Mas eu fico sempre frio
Sem a tua companhia.

Nunca mais vou no meu bote
Pescar peixe na baía:
Não quero saber de pesca
Sem a tua companhia.
3 547
Virgílio Martinho

Virgílio Martinho

Ouro

O ouro é o amado, o longínquo,
Barco à vela esguio quase gaivota,
Desejo latente no meter do corpo,
Luz lateral na vaguidão das coisas.

Não falo do ouro metal, falo do ouro,
Falo da raiz, do fruto, falo do prado,
Da origem, da seiva, que o ouro é dança
Quando ao sonho vem o amor amado.

Que sonhar ouro é sonhar desejo,
Na vigília das noites compridas,
Quando as veias são pulsações vivas,
Quando os sonhos emanam das fendas.

Abismos que envolvem segredos vagos,
Distantes, enevoados, que no coração,
Castelo pulsante, trincheira de vida,
Existe a pepita, tu, madona paixão.

Saberia dizer-te ouro se fosse inocente,
Se tudo que sou começasse hoje, agora,
Se o sono, na insónia, no sonho contigo,
Houvesse o teu brilho, a tua aurora.

Fazer de ti o eu sonhado é a ideia,
O ouro de antiquíssimas histórias,
No laboratório da matéria, a fusão,
No borbulhar da retorta o sonho vão.
1 076
Virgílio Martinho

Virgílio Martinho

Viver Amarelo

Um dia descobri uma cidade amarela
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.

Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.

Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.

No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.

Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
939
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Saudades do Rio Antigo

Vou-me embora pra Pasárgada.
Lá o rei não será deposto
E lá sou amigo do rei.
Aqui eu não sou feliz
A vida está cada vez
Mais cara, e a menor besteira
Nos custa os olhos da cara.
O trânsito é uma miséria:
Sair a pé pelas ruas
Desta capital cidade
É quase temeridade.
E eu não tenho cadilac
Para em vez de atropelado,
Atropelar sem piedade
Meus pedestres semelhantes.
Oh! que saudade que eu tenho
Do Rio como era dantes!
O Rio que tinha apenas
Quinhentos mil habitantes.
O Rio que conheci
Quando vim prá cá menino:
Meu velho Rio gostoso,
Cujos dias revivi
Lendo deliciadamente
O livro de Coaraci.
Cidade onde, rico ou pobre
Dava gosto se viver.
Hoje ninguém está contente.
Hoje, meu Deus, todo mundo
Traz na boca a cinza amarga
Da frustração... Minha gente,
Vou-me embora pra Pasárgada.
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