Poemas neste tema
Solidão
Fernando Pessoa
«Ribeirinho, ribeirinho,/Que vais a correr ao léu
«Ribeirinho, ribeirinho,
Que vais a correr ao léu
Tu vais a correr sozinho,
Ribeirinho, como eu.»
Que vais a correr ao léu
Tu vais a correr sozinho,
Ribeirinho, como eu.»
1 642
Fernando Pessoa
Passava eu na estrada pensando impreciso,
Passava eu na estrada pensando impreciso,
Triste à minha moda.
Cruzou um garoto, olhou-me, e um sorriso
Agradou-lhe a cara toda.
Bem sei, bem sei, sorrirá assim
A um outro qualquer.
Mas então sorriu assim para mim...
Que mais posso eu querer?
Não sou nesta vida nem eu nem ninguém,
Vou sem ser nem prazo...
Que ao menos na estrada me sorria alguém
Ainda que por acaso.
22/04/1928
Triste à minha moda.
Cruzou um garoto, olhou-me, e um sorriso
Agradou-lhe a cara toda.
Bem sei, bem sei, sorrirá assim
A um outro qualquer.
Mas então sorriu assim para mim...
Que mais posso eu querer?
Não sou nesta vida nem eu nem ninguém,
Vou sem ser nem prazo...
Que ao menos na estrada me sorria alguém
Ainda que por acaso.
22/04/1928
4 182
António Ramos Rosa
Uma Sombra
Perto do corpo, perto da alegria. Nasceu uma sombra
e abriu-se. E habitei-a bebendo a água limpa.
Era uma corola de sombra e um bosque de silêncio.
Quem cantava? Era o silêncio ou era um eco?
Dormi na água da sombra, numa clara solidão.
Nada me separava da terra, era uma lâmpada oculta
e iluminada pela sombra. Estendi-me na casa
e fluí abandonado nas suas veias verdes.
Entrava na água, entrava nos lábios da sombra
e o corpo abriu-se à frescura do olvido
num campo completo. Era o cristal da noite
e uma tristeza alta e transparente. Era um arco
de espuma entre as ervas e as pedras.
Quem cantava? Era uma semente no escuro,
era talvez o ser aberto oculto na sua sombra.
e abriu-se. E habitei-a bebendo a água limpa.
Era uma corola de sombra e um bosque de silêncio.
Quem cantava? Era o silêncio ou era um eco?
Dormi na água da sombra, numa clara solidão.
Nada me separava da terra, era uma lâmpada oculta
e iluminada pela sombra. Estendi-me na casa
e fluí abandonado nas suas veias verdes.
Entrava na água, entrava nos lábios da sombra
e o corpo abriu-se à frescura do olvido
num campo completo. Era o cristal da noite
e uma tristeza alta e transparente. Era um arco
de espuma entre as ervas e as pedras.
Quem cantava? Era uma semente no escuro,
era talvez o ser aberto oculto na sua sombra.
1 173
Fernando Pessoa
No mal-estar em que vivo
No mal-estar em que vivo,
No mal pensar em que sinto,
Sou de mim mesmo cativo,
A mim mesmo minto.
Se fosse outro fora outro.
Se em mim houvesse certeza,
Não seria o fluido e neutro
Que ama a beleza.
Sim, que ama a beleza e a nega
Nesta vida sem bordão
Que contra si mesma alega
Que tudo é vão.
02/10/1933
No mal pensar em que sinto,
Sou de mim mesmo cativo,
A mim mesmo minto.
Se fosse outro fora outro.
Se em mim houvesse certeza,
Não seria o fluido e neutro
Que ama a beleza.
Sim, que ama a beleza e a nega
Nesta vida sem bordão
Que contra si mesma alega
Que tudo é vão.
02/10/1933
3 996
Paulo Leminski
ALÉM ALMA (UMA GRAMA DEPOIS)
Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?
2 165
Fernando Pessoa
Em torno ao candeeiro desolado
Em torno ao candeeiro desolado
Cujo petróleo me alumia a vida,
Paira uma borboleta, por mandado
Da sua inconsistência indefinida.
01/09/1928
Cujo petróleo me alumia a vida,
Paira uma borboleta, por mandado
Da sua inconsistência indefinida.
01/09/1928
4 771
Fernando Pessoa
«Vesti-me toda de novo
«Vesti-me toda de novo
E calcei sapato baixo
Para passar entre o povo
E procurar quem não acho.»
E calcei sapato baixo
Para passar entre o povo
E procurar quem não acho.»
1 336
Fernando Pessoa
O sonho que se opôs a que eu vivesse
O sonho que se opôs a que eu vivesse
A esperança que não quis que eu acordasse,
O amor fictício que nunca era esse,
A glória eterna que velava a face.
Por onde eu, louco sem loucura, passe
Esse conjunto absurdo a teia tece...
E, por mais que o Destino me ajudasse,
Quero crer que o Deus dele me esquecesse.
Por isso sou o deportado, e a ilha
Com que, de natural e vegetável
A imaginação se maravilha...
Nem frutos tem nem água que é potável...
Do barco naufragado vê-se a quilha...
(...)
26/04/1928
A esperança que não quis que eu acordasse,
O amor fictício que nunca era esse,
A glória eterna que velava a face.
Por onde eu, louco sem loucura, passe
Esse conjunto absurdo a teia tece...
E, por mais que o Destino me ajudasse,
Quero crer que o Deus dele me esquecesse.
Por isso sou o deportado, e a ilha
Com que, de natural e vegetável
A imaginação se maravilha...
Nem frutos tem nem água que é potável...
Do barco naufragado vê-se a quilha...
(...)
26/04/1928
3 938
Fernando Pessoa
E, ó vento vago
E, ó vento vago
Das solidões,
Minha alma é um lago
De indecisões.
Ergue-a em ondas
De iras ou de ais,
Vento que rondas
Os pinheirais!
1928
Das solidões,
Minha alma é um lago
De indecisões.
Ergue-a em ondas
De iras ou de ais,
Vento que rondas
Os pinheirais!
1928
4 582
Fernando Pessoa
O LOUCO
O LOUCO
E fala aos constelados céus
De trás das mágoas e das grades
Talvez com sonhos como os meus...
Talvez, meu Deus!, com que verdades!
As grades de uma cela estreita
Separam-no de céu e terra...
Às grades mãos humanas deita
E com voz não humana berra...
30/10/1928
E fala aos constelados céus
De trás das mágoas e das grades
Talvez com sonhos como os meus...
Talvez, meu Deus!, com que verdades!
As grades de uma cela estreita
Separam-no de céu e terra...
Às grades mãos humanas deita
E com voz não humana berra...
30/10/1928
5 357
Fernando Pessoa
Caminho a teu lado mudo
Caminho a teu lado mudo
Sentes-me, vês-me alheado...
Perguntas, sim ou não, não sei...
Tenho saudades de tudo...
Até, porque está passado,
Do próprio mal que passei.
Sim, hoje é um dia feliz.
Será, não sei, incerto
Num princípio não sei quê
Há um sentido que me diz
Que isto – o céu largo e aberto –
É só a sombra do que é...
E lembro em meia-amargura
Do passado, do distante,
E tudo me é solidão...
Que fui nessa noite escura?
Quem sou nesta morte instante?
Não perguntes... Tudo é vão.
04/11/1928
Sentes-me, vês-me alheado...
Perguntas, sim ou não, não sei...
Tenho saudades de tudo...
Até, porque está passado,
Do próprio mal que passei.
Sim, hoje é um dia feliz.
Será, não sei, incerto
Num princípio não sei quê
Há um sentido que me diz
Que isto – o céu largo e aberto –
É só a sombra do que é...
E lembro em meia-amargura
Do passado, do distante,
E tudo me é solidão...
Que fui nessa noite escura?
Quem sou nesta morte instante?
Não perguntes... Tudo é vão.
04/11/1928
4 237
Fernando Pessoa
Há uma música do povo,
Há uma música do povo,
Nem sei dizer se é um fado –
Que ouvindo-a há um chiste novo
No ser que tenho guardado...
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser...
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver...
E ouço-a embalado e sozinho...
É essa mesma que eu quis...
Perdi a fé e o caminho...
Quem não fui é que é feliz.
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção...
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração...
Se uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido...
Canto de qualquer maneira
E acaba com um sentido!
09/11/1928
Nem sei dizer se é um fado –
Que ouvindo-a há um chiste novo
No ser que tenho guardado...
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser...
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver...
E ouço-a embalado e sozinho...
É essa mesma que eu quis...
Perdi a fé e o caminho...
Quem não fui é que é feliz.
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção...
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração...
Se uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido...
Canto de qualquer maneira
E acaba com um sentido!
09/11/1928
5 767
Fernando Pessoa
AMIEL
AMIEL
Não, nem no sonho a perfeição sonhada
Existe, pois que é sonho. Ó Natureza,
Tão monotonamente renovada,
Que cura dás a esta tristeza?
O esquecimento temporário, a estrada
Por engano tomada,
O meditar na ponte e na incerteza...
Inúteis dias que consumo lentos
No esforço de pensar na acção,
Sozinho com meus frios pensamentos
Nem com uma esperança mão em mão.
É talvez nobre ao coração
Este vazio ser que anseia o mundo,
Este prolixo ser que anseia em vão,
Exânime e profundo.
Tanta grandeza que em si mesma é morta!
Tanta nobreza inútil de ânsia e dor!
Nem se ergue a mão para a fechada porta,
Nem o submisso olhar para o amor!
20/08/1925
Não, nem no sonho a perfeição sonhada
Existe, pois que é sonho. Ó Natureza,
Tão monotonamente renovada,
Que cura dás a esta tristeza?
O esquecimento temporário, a estrada
Por engano tomada,
O meditar na ponte e na incerteza...
Inúteis dias que consumo lentos
No esforço de pensar na acção,
Sozinho com meus frios pensamentos
Nem com uma esperança mão em mão.
É talvez nobre ao coração
Este vazio ser que anseia o mundo,
Este prolixo ser que anseia em vão,
Exânime e profundo.
Tanta grandeza que em si mesma é morta!
Tanta nobreza inútil de ânsia e dor!
Nem se ergue a mão para a fechada porta,
Nem o submisso olhar para o amor!
20/08/1925
4 308
Pablo Neruda
Sinos
Gostei desde antes de nascer de escutar os sinos,
tocar o orvalho no bronze dos campanários,
e depois crescendo selvagem entre paliçadas com barbas de musgo
afundei meus sapatos em barro e barbeito atravessando a chuva
voou a pomba-torcaz que como um braseiro de penas
ardia em sua furta-cor linhagem de colo e de cauda
e assim me criei solitário cantando para quem? Para ninguém:
talvez para aquelas regiões de troncos apodrecidos e lianas,
talvez para a úmida terra que afundava meus pés em um tenro sarcófago de folhas caídas,
mas eu não cresci para ouvidos humanos e quando caiu uma medalha
em meu peito, outorgada por merecimentos de canto,
olhei ao redor, com os olhos busquei para quem era o Prêmio
e baixei a cabeça, confuso, porque descobri que era meu
e que minha alma de alguma maneira se encontrou com os povos calados
e cantou publicando a pena ou a flor da gente que não conhecia.
tocar o orvalho no bronze dos campanários,
e depois crescendo selvagem entre paliçadas com barbas de musgo
afundei meus sapatos em barro e barbeito atravessando a chuva
voou a pomba-torcaz que como um braseiro de penas
ardia em sua furta-cor linhagem de colo e de cauda
e assim me criei solitário cantando para quem? Para ninguém:
talvez para aquelas regiões de troncos apodrecidos e lianas,
talvez para a úmida terra que afundava meus pés em um tenro sarcófago de folhas caídas,
mas eu não cresci para ouvidos humanos e quando caiu uma medalha
em meu peito, outorgada por merecimentos de canto,
olhei ao redor, com os olhos busquei para quem era o Prêmio
e baixei a cabeça, confuso, porque descobri que era meu
e que minha alma de alguma maneira se encontrou com os povos calados
e cantou publicando a pena ou a flor da gente que não conhecia.
1 108
Fernando Pessoa
O CONTRA-SÍMBOLO
O CONTRA-SÍMBOLO
Uma só luz sombreia o cais
Há um som de barco que vai indo.
Horror! Não nos vemos mais!
A maresia vem subindo.
E o cheiro prateado a mar morto
Cerra a atmosfera de pensar
Até tomar-se este como porto
E este cais a bruxulear
Um apeadeiro universal
Onde cada um espera isolado
Ao ruído – mar ou pinheiral? –
O expresso inútil atrasado.
E no desdobre da memória
O viajante indefinido
Ouve contar-se só a história
Do cais morto do barco ido.
30/01/1926
Uma só luz sombreia o cais
Há um som de barco que vai indo.
Horror! Não nos vemos mais!
A maresia vem subindo.
E o cheiro prateado a mar morto
Cerra a atmosfera de pensar
Até tomar-se este como porto
E este cais a bruxulear
Um apeadeiro universal
Onde cada um espera isolado
Ao ruído – mar ou pinheiral? –
O expresso inútil atrasado.
E no desdobre da memória
O viajante indefinido
Ouve contar-se só a história
Do cais morto do barco ido.
30/01/1926
4 625
Pablo Neruda
Hoje Quantas Horas
Hoje quantas horas vão caindo
no poço, na rede, no tempo,
são lentas mas não tiveram descanso,
seguem caindo, unindo-se
primeiro como peixes,
depois como pedradas ou garrafas.
Lá embaixo entendem-se
as horas com os dias,
com os meses,
com lembranças confusas,
noites desabitadas,
roupas, mulheres, trens e províncias,
o tempo se acumula
a cada hora
se dissolve em silêncio,
se esfarela e cai
ao ácido de todos os vestígios,
à água negra
do avesso da noite.
no poço, na rede, no tempo,
são lentas mas não tiveram descanso,
seguem caindo, unindo-se
primeiro como peixes,
depois como pedradas ou garrafas.
Lá embaixo entendem-se
as horas com os dias,
com os meses,
com lembranças confusas,
noites desabitadas,
roupas, mulheres, trens e províncias,
o tempo se acumula
a cada hora
se dissolve em silêncio,
se esfarela e cai
ao ácido de todos os vestígios,
à água negra
do avesso da noite.
1 048
Luís António Cajazeira Ramos
Porto inseguro
A liberdade bate à minha porta,
tão carente de mim, pedindo abrigo.
Quero ampará-la e penso que consigo
detê-la, mas seria tê-la morta.
Livre para pairar num céu sem peias,
na solidão de um vôo sem destino,
por que perder, nos olhos de águia, o tino,
vindo a quem se agrilhoa sem cadeias?
Deusa das asas! Seu vagar escapa
a meus sentidos, seu desejo alcança
tudo que a mim se esconde atrás da capa.
Vá embora daqui! Siga seu rumo!
Sou prisioneiro, um órfão da esperança
e arrasto um vôo cego em chão sem prumo.
tão carente de mim, pedindo abrigo.
Quero ampará-la e penso que consigo
detê-la, mas seria tê-la morta.
Livre para pairar num céu sem peias,
na solidão de um vôo sem destino,
por que perder, nos olhos de águia, o tino,
vindo a quem se agrilhoa sem cadeias?
Deusa das asas! Seu vagar escapa
a meus sentidos, seu desejo alcança
tudo que a mim se esconde atrás da capa.
Vá embora daqui! Siga seu rumo!
Sou prisioneiro, um órfão da esperança
e arrasto um vôo cego em chão sem prumo.
998
Fernando Pessoa
Qualquer coisa de obscuro permanece
Qualquer coisa de obscuro permanece
No centro do meu ser. Se me conheço,
É até onde, por fim mal, tropeço
No que de mim em mim de si se esquece.
Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio e em mim mesmo a externa treva desce.
Mas, vinda dos vestígios da distância
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia.
Remiu-se o pecador impenitente
À sombra e cisma. Teve a eterna infância,
Em que comigo forma um mesmo ente.
No centro do meu ser. Se me conheço,
É até onde, por fim mal, tropeço
No que de mim em mim de si se esquece.
Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio e em mim mesmo a externa treva desce.
Mas, vinda dos vestígios da distância
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia.
Remiu-se o pecador impenitente
À sombra e cisma. Teve a eterna infância,
Em que comigo forma um mesmo ente.
4 483
Fernando Pessoa
Pelo plaino sem caminho
Pelo plaino sem caminho
O cavaleiro vem.
Caminha quieto e de mansinho,
Com medo de Ninguém.
07/05/1927
O cavaleiro vem.
Caminha quieto e de mansinho,
Com medo de Ninguém.
07/05/1927
4 370
Fernando Pessoa
Velo, na noite em mim,
Velo, na noite em mim,
Meu próprio corpo morto.
Velo, inútil absorto.
Ele tem o seu fim
Inutilmente, enfim.
1927
Meu próprio corpo morto.
Velo, inútil absorto.
Ele tem o seu fim
Inutilmente, enfim.
1927
4 321
Natércia Freire
Canção do Verdadeiro Abandono
Podem todos rir de mim,
podem correr-me à pedrada,
podem espreitar-me à janela
e ter a porta fechada.
Com palavras de ilusão
não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
não tem vislumbres de além.
Não sou irmã das estrelas,
nem das pombas nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
de bicho que sofre as pedras
e se desloca de rastos.
podem correr-me à pedrada,
podem espreitar-me à janela
e ter a porta fechada.
Com palavras de ilusão
não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
não tem vislumbres de além.
Não sou irmã das estrelas,
nem das pombas nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
de bicho que sofre as pedras
e se desloca de rastos.
1 435
Fernando Pessoa
Lá fora a vida estua e tem dinheiro.
Lá fora a vida estua e tem dinheiro.
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar já sou rico.
Não sou ninguém, o meu trabalho é nada
Neste enorme rolar da vida cheia,
Vivo uma vida que nem é regrada
Nem é destrambelhada e alheia.
E um século depois terá esquecido
Tudo quanto estuou e foi ruído
Nesta hora em que vivo. E os bisnetos
Dos opressores de hoje, desta louca luta
Saberão, mas vagamente, a data
– E claramente os meus sonetos.
02/09/1922
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar já sou rico.
Não sou ninguém, o meu trabalho é nada
Neste enorme rolar da vida cheia,
Vivo uma vida que nem é regrada
Nem é destrambelhada e alheia.
E um século depois terá esquecido
Tudo quanto estuou e foi ruído
Nesta hora em que vivo. E os bisnetos
Dos opressores de hoje, desta louca luta
Saberão, mas vagamente, a data
– E claramente os meus sonetos.
02/09/1922
3 761
Fernando Pessoa
Oiço passar o vento na noite.
Oiço passar o vento na noite.
Sente-se no ar, alto, o açoite
De não sei que ser em não sei quando.
Tudo se ouve, nada se vê.
Ah, tudo é igualdade e analogia.
O vento que passa, esta noite fria.
São outra coisa que a noite e o vento –
Sombras de Ser e de Pensamento.
Tudo nos marca o que nos diz.
Não sei que drama a pensar desfiz
Que a noite e o vento passados são.
Ouvi. Pensando-o, ouvi-o em vão.
Tudo é uníssono e semelhante.
O vento cessa e, noite adiante,
Começa o dia e ignorado existo.
Mas o que foi não é nada disto.
24/09/1923
Sente-se no ar, alto, o açoite
De não sei que ser em não sei quando.
Tudo se ouve, nada se vê.
Ah, tudo é igualdade e analogia.
O vento que passa, esta noite fria.
São outra coisa que a noite e o vento –
Sombras de Ser e de Pensamento.
Tudo nos marca o que nos diz.
Não sei que drama a pensar desfiz
Que a noite e o vento passados são.
Ouvi. Pensando-o, ouvi-o em vão.
Tudo é uníssono e semelhante.
O vento cessa e, noite adiante,
Começa o dia e ignorado existo.
Mas o que foi não é nada disto.
24/09/1923
4 153
Fernando Pessoa
Hoje, neste ócio incerto
Hoje, neste ócio incerto
Sem prazer nem razão,
Como a um túmulo aberto
Fecho meu coração.
Na inútil consciência
De ser inútil tudo,
Fecho-o, contra a violência
Do mundo duro e rudo.
Mas que mal sofre um morto?
Contra que defendê-lo?
Fecho-o, em fechá-lo absorto,
E sem querer sabê-lo.
09/02/1923
Sem prazer nem razão,
Como a um túmulo aberto
Fecho meu coração.
Na inútil consciência
De ser inútil tudo,
Fecho-o, contra a violência
Do mundo duro e rudo.
Mas que mal sofre um morto?
Contra que defendê-lo?
Fecho-o, em fechá-lo absorto,
E sem querer sabê-lo.
09/02/1923
3 784