Poemas neste tema

Solidão

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pobres de nós que perdemos quanto

Pobres de nós que perdemos quanto
Sereno e forte nos dava a vida
        O único modo
O único humano de a ter...
        Pobres de nós
Crianças orfãs que mal se lembram
        De pai e mãe
E andam sozinhas na vida cega
        Sem ter carinhos
        Nem saber nada
De aonde vamos pela floresta,
Nem donde viemos pla estrada fora…
E somos tristes, e somos velhos,
        E fracos sempre…
        Sem que nos sirva…
978
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Por cima da saia azul

Por cima da saia azul
Há uma blusa encarnada,
E por cima disso os olhos
Que nunca me dizem nada.
1 400
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Sedução Mortal

Olho as coisas com um desprendimento
com uma ternura angelical.
Olho-me já de longe, etéreo,
um centímetro acima do instinto vital.
A morte me seduz
e a ela me consagro
com um desprendimento fatal.
1 184
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Hopper

Hopper
e a solidão dos objetos na vitrina
Hopper
e a solidão dos corpos na varanda
na janela
na campina
Hopper
e a solidão silente.
Hopper.
Hope.
Hopeless.
1 110
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Casa

A casa em si pousa e esquecendo doura
as vertentes da sombra e o seu sono move-se
entre ramagens antigas e o mundo arredonda-se
tão funda em si de ser só paciência obscura
de um astro que singra na solidão azul.

Quanto pensar de suaves arvoredos,
quanto timbre de ser o quanto vemos
e, crescendo a atenção, subir ao cimo
onde não há ninguém na alta e limpa
nudez de tudo ver na madurez violeta.

Estamos perto do fogo e na vigília
em que vem acima o que não é ainda
e imóvel cresce para dentro no silêncio
como um desejo que em si mesmo se completa
na virgindade acesa de uma casa tranquila.
1 080
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Desperta a Nudez

Desperta a nudez espalha-se o silêncio
e a nostalgia acende-se como uma sombra clara.
Tudo o que vemos é longe entre margens de sono.
Arde e repousa a casa numa frescura imensa.
Inclinam-se os campos à memória mais antiga.

É a ausência que sabe em transparência líquida
a ternura mais funda das águas esquecidas.
Que júbilo de lâmpadas, de ervas e de rodas
brancas nos caminhos, que frescura tão limpa!
A solidão levanta os ombros e carrega

os volumes vazios da agonia. Toda a substância
se aligeira e desnuda na espessura.
Ver é quase nascer e ver ondear o vento.
Há uma presença branca de uma nuvem esquecida.
Alto, uma linha de silêncio se ilumina.
1 076
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Rotina

Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu - um outro dia - e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 27 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 504
Alphonsus de Guimaraens Filho

Alphonsus de Guimaraens Filho

Canção da Estrela Polar

Na estrada do Acaba-Mundo,
somente a estrela polar.
Vi a morte: fui ao fundo.
Na estrada do Acaba-Mundo,
nenhum mar.

Nenhum mar? Nenhum deserto.
Nenhum sopro, nem luar.
Longe, os anjos. Muito perto
o mundo, a meus pés aberto.
Nenhum mar.

Volta e meia a estrela ria.
De mim? De ti? Do luar?
O luar não existia.
Eu morrera. E a noite fria...
Somente a estrela polar.


Publicado no livro Poesias (1946).

In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 80. Poema integrante da série Nostalgia dos Anjos, 1939/1944
1 404
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Corpo Lúcido

No sítio onde se desenha o sono e a solidão
se perfaz o reino. Somos altura e atenção de antena
no corpo lúcido que se compenetra
no ardor de estar abrindo-se a um poder imenso
e circular que o liga à clareira incandescente.

Conhecemos o inviolável nos seus anéis e lâmpadas
e frutos. Estremecemos na passagem imóvel
em uníssono com as recém-nascidas vozes
que ténues sobem de um planeta verde.
Cada onda se eleva lenta e arredonda

e reúne o ouro e a tristeza num profuso
círculo. Aqui a atenção se esquece e ilumina
as sombras mais distantes, e o vento insufla
a embriaguez de estar sendo apenas uma folha
que estremece ao alto, acesa e frágil.
986
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Sombra

Perto do corpo, perto da alegria. Nasceu uma sombra
e abriu-se. E habitei-a bebendo a água limpa.
Era uma corola de sombra e um bosque de silêncio.
Quem cantava? Era o silêncio ou era um eco?
Dormi na água da sombra, numa clara solidão.

Nada me separava da terra, era uma lâmpada oculta
e iluminada pela sombra. Estendi-me na casa
e fluí abandonado nas suas veias verdes.
Entrava na água, entrava nos lábios da sombra
e o corpo abriu-se à frescura do olvido

num campo completo. Era o cristal da noite
e uma tristeza alta e transparente. Era um arco
de espuma entre as ervas e as pedras.
Quem cantava? Era uma semente no escuro,
era talvez o ser aberto oculto na sua sombra.
1 173
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de Orfeu a Eurídice - 7

Iludia-me. A morte, que é o fim
do amor, corria à solta nos temporais
da alma. Eu podia ter uma consciência
da sua presença nalguns intervalos bruscos,
quando os teus passos me faltavam, e
só uma nova respiração, atrás de mim, me
restituía o ânimo da ascensão. Tu,
liberta dessa morte que te prendia os lábios,
dizias-me: não me deixes! Como se fosse
preciso dizê-lo! E não fosses tu a única
razão dessa viagem a que dei o nome
vida, sabendo que a sua única verdade é esse
amor. Porém, os nossos lábios não se
encontravam na certeza do tempo.
O futuro instalou a sua distância naquilo
que é o presente, com a sua duração inscrita
no destino dos que conheceram uma
coincidência de um e outro, o olhar uníssono
dos amantes, o brusco repouso de uma
ânsia de espaço. Aqui, a distância é o que não
separa; o medo da mudança dissipa-se;
e a recordação é o que está depois do que foi
vivido, como se fosse a memória a construir
o dia de amanhã.

Quis arrancar-te, assim, ao destino ― e
libertar-me, eu próprio, da sua sujeição. Quantos
rostos se fixaram no teu, para que em ti
eu visse cada uma das imagens por onde passei,
restituindo-lhes uma respiração humana. Procurei-te
enquanto imaginei que me procuravas ― e
cada passo que dava, na minha descida, afastava
tudo o que eu perdia enquanto descia. Nesse outro
mundo, em que nos reduzimos a nós, afastando
do que somos tudo o que nos opunha,
não dei por que um cansaço de ser me obrigava
ao regresso. Tê-lo-ei feito cedo demais? Por
que me voltei, então, como se soubesse que
as sombras não pedem que as olhemos,
e deixei que te prendessem com a sua
inquietação de fumo?

No entanto, um eco responde-me: estou
aqui. E por trás dele outros ecos se sucedem,
multiplicando os lugares, até ao fim
do caminho. No teu quarto, prendendo o cabelo,
esperas que um incêndio de poço entreabra
a noite, e rompa os muros que o silêncio
ergueu à tua volta. Mas o canto envolve-te: e
despe-te, com a solidão dos seus dedos, até
à nudez do caule.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 58 e 59 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 191
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

CORPOS

O meu corpo é o abismo entre eu e eu.

Se tudo é um sonho sob o sonho aberto
Do céu irreal, sonhar-te é possuir-te,
E possuir-te é sonhar-te de mais perto

As almas sempre separadas,
Os corpos são o sonho de uma ponte
Sobre um abismo que nem margens tem

Eu porque me conheço, me separo
De mim, e penso, e o pensamento é avaro

A hora passa. Mas meu sonho é meu.
2 160
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Desperto de sonhar-te

Desperto de sonhar-te
Quando inda a noite é funda,
E um céu estelar faz parte
Do silêncio que inunda.
Perdi poder amar-te
E a treva me circunda.

Talvez que relembrasse,
Sonhando-te, outro ser,
E aquilo que sonhasse
Fosse tornar a ter.
Mas despertei, e faz-se
Claro em meu quarto a ver.

Insónia de perder-te!
Quem foste já não sei.
Pela janela verte
Cada astro a sua lei.
Como, sem sonhar ter-te?...
Porque não dormirei?
1 373
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de Orfeu a Eurídice - 1

Assim os vivos também se tornam fantasmas: Bato-lhes à porta da alma, vagueio num descampado de sentimentos, chamo-os - e vejo-os partir. Construo a solidão com os pedaços das imagens que me deixaram. Ergo edifícios a partir de memórias, de palavras, de gestos que ficaram das nossas conversas, quando o tempo se reduzia ao instante que vivíamos, e nenhum futuro nos impunha a sua sombra. Agora, porém, a que estação te irei buscar? Em que banco de jardim te irei surpreender, olhando essa manhã que marca a separação dos amantes? Limito-me a esperar que esta porta se abra, uma vez mais, e a Primavera entre para este quarto onde a noite se instalou.

No entanto, és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram. Sei que um pressentimento de Outono fez cair todas as folhas, deixando à vista o horizonte seco como esse espelho onde nada se reflecte, com o seu descanso mais negro. Será isso aquilo a que se chama amor? Ouve: os murmúrios que nascem de uma entrega de corpos, por entre os silêncios da casa, ou então sobrepondo-se a um vago ruído de chuva, nos vidros, enquanto o desejo corre pelos teus lábios como a nuvem mais frágil do destino. E ainda: a música quem impões a plenitude de uma recompensa, como se ela pudesse durar mais do que o tempo que nos é imposto? Dizes-me: um dom doloroso. Mas o que é o amor senão esse trabalho de renúncia e entrega, a lenta bebida que nos impregna com o seu veneno, e nos concede a única vida possível?

Então, regressa da tua ausência; ou dá-me ao menos a tua sombra, para que ela me cubra com esse manto de obstinação que só os tristes arrastam.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 49 e 50 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 215
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de Orfeu a Eurídice - 2

Aqui é o centro. Onde a solidão me impregna com o seu sudário de lodo, e a humidade dos fundos desce pelos vidros da noite, apagando as imagens amadas. No entanto, parto esses vidros para ver o que ficou para trás: que a alquimia de sensações corre ainda por esses campos onde avanças, com a falsa convicção do amor, levando-me atrás de ti até ao limite de onde não há regresso? Que abraço de corpos sobrevive no chão seco de palavras, enquanto te levantas da memória, e o teu rosto se iliumina por entre brilhos da manhã?

Parece-me que é tarde para acertar as coisas que deviam ter sido feitas: ajustar as peças do presente nessa mesa onde se acumulavam copos e papéis; separar as questões que os dedos escondiam das respostas que entravam pela boca do desejo, até um êxtase de mãos e de olhos. Contei as queixas, transformei-as na mais doce das celebrações, arrastei o instante atè à berma da eternidade: e trouxe de volta a mais dolorosa das ilusões. De cada vez, porém, era único esse tempo nascido de uma partilha de lugares; e não dei pelo vento que soprava de dentro da vida, levando em direcções diferentes os passos que nos juntavam.

O futuro pertence aos cegos da imaginação; as suas paisagens estendem-se por esses caminhos que não voltaremos a seguir, até aos arbustos do horizonte. Não ouço nenhuma voz nos pórticos que se abriam para a mais efémera das alegrias - a que se confunde com um rosto incessante no interior da alma, a pura inscrição do amor. Guardo-te aí flor matinal, esperando que a água da vida te refloresça, e uma nova vibração te devolva à ilusão do presente. O centro é este: o lugar do encontro, onde os deuses nos roubam ao acessório, e um todo se fixa no que é aparente, e passa.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 50 e 51 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 044
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A quem a Natureza não fez belo

A quem a Natureza não fez belo
Com seu corpo lhe disse: Tu não ames!
A fealdade é o destinado selo
Com que uma alma é votada à solidão.
1 413
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tivesse eu mil parentes ou cercado

Tivesse eu mil parentes ou cercado
Fosse de amigos, camaradas mil,
Eu estaria tão só como hoje estou.
1 447
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Cimo da Diagonal

No cimo da diagonal
em que se levanta a torre oblíqua
sobre um jardim
de claridades verdes
a realidade é o espaço
em que o abandono fulgura como um centro.
1 010
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Horror! Não sei ser inconsciente

Horror! Não sei ser inconsciente
E tenho para tudo, do que é bom
À inconsciência, o pensamento aberto,
Tornando-o impossível.

O amor causa-me horror é abandono,
Intimidade, mostrar       (...)       do ser

E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar n'alguém. Horror eu sinto
A que prescrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.
Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber de tudo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito doutros homens;
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo (
Confrange-me: acostumei-me cedo
Aos despimentos do meu ser,
A fixar olhos púdicos, conscientes
Demais. Pensar em dizer «amo-te»
E «amo-te» só — só isto me angustia...
Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja)
Exponho uma íntima parte de mim,
Para poder amar eu precisava
Esquecer que sou Fausto o pensador.
Eu queria era dormir, dormi, dormir,
Longo dormir, meio sentindo em sono,
E dormir sempre, sem consciência ter
Do tempo, só do sono sonolento
E da vacuidade do meu ser;
Dormir sem vir a morte, nem sonhar
Mas dormir só dormir, sempre dormir.
Que hoje já de dormir desaprendi.
Cansado de pensar, a pensar fico,
E as noites longas, longas, longas, longas,
E o pálido raiar de inda doutro dia...
Inda outro dia que trará ainda
Uma outra noite e essa mais dias, mais...
Insone sentir isto, e o deslizar
Suave e horroroso do tempo.
Cai então sobre mim todo o horror claro
E nítido e visível do mistério,
E eu tal fico em abalo e em comoção
Que durmo — sim que durmo de pesar-me
Tudo de mais p'ra mais poder sentir.
Então durmo... e antes eu não dormisse
Porque desordenadas incoerências
Mas não visões, só abstracções terríveis
(...)
1 409
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Muito

peguei o táxi para Newport e estudei as pregas no
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada 
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
1 063
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

INSOMNIA

Last night I had not the blessing
Of a deep or a quiet slumber,
For thoughts most wild and distressing
Every woe and fear expressing
        My drowsy sense did encumber.

        And the clock, with its curst possession
                Of night with its monotone,
        Is a madman mad with a word-obsession,
                Sorrowfully lone.

A thousand times a reeling
Of reason around my world,
And around reason feeling
The very darkness wheeling
In a blacker darkness hurled.

        And the clock! Ah, its curst possession
                Of night with its monotone!
        How it treasured well its word-obsession
                Dolorously lone!

If I slept awhile, without number
Came the dreams, and I had not the grace
Of the shade of a shadow of slumber.
I fell in descent from reason steep,
In consciousness pale disgrace;
There was a fall half-senseless and deep
And I woke with a start from sleep
        For I struck the bottom of space.

        And I woke to the clocks's possession
                Of night with its monotone,
        Chuckling a meaning past its obsession,
                Maniacally lone.
1 839
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Os Cisnes Passeiam por Meu Cérebro em Abril Chove

você quer que eu descasque uma laranja e
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.

não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.

nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.

não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.

eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!

a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.

eu sigo...
512
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há entre mim e a humanidade um golfo,

Há entre mim e a humanidade um golfo,
E esse golfo está dentro do meu ser.

Quer solitário, quer com outros, eu
Estou sempre só, nem a mim mesmo faço
A companhia de sentir. Navego,
Desabitada nau no mar da vida,
Mais só que a solidão. Sou um estranho
Ao que em mim pensa. Sou de qualquer modo
Dois, para que, quando passageira
Alegria do esforço de pensar (
A única alegria que me resta (
Me (...), eu tenha a consciência dela
Como vazia, como o prazer todo.
1 303
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SOUL-SYMBOLS

My soul ‑ what is my soul? But symbols mute
Its horror and confusion can give out:
A desert out of space where absolute
Reigns expectation full of horrid doubt.

It gives the sense that giveth, strange and dark,
Some unknown river weird, hauntingly lone,
In some old picture storiless, sole work
Of some great painter horribly unknown.

It is an island out of human track,
Mysterious, old within the sea and full
Of caves and grottoes unexplored and black,
Pregnant with many horrors possible.

It is an olden inn with corridors
Woven in a labyrinth and scarce of light,
Where through the night the sound of shutting doors,
Vague in its cause and place, fills us with fright.

It is a mountain region wild and free,
Precipiced, hid and silent, never seen,
Where we dare not think of what might have been
Nor wish idea of what things may be.

If ever mystery, romance and fear
Have shown their heart on canvas and on scroll,
It must assuredly to men appear
As to mine inner sense appears my soul.

It is a vision-desert full of rocks
Where all than reason is both more and less,
'Tis a lone coast where the sea's endless shocks
Fill with an empty sound its lifelessness.

Something of lost, forgotten, vague and dead,
Yet waking, as a slumberer mystical
Seems to perceive, for who looks knows with dread
That something he doth see to make appal.

All this my soul is in its weak despair,
Full of sense unto pain, of thought to tears,
Having for meed of reason a mute care,
For company to feeling - woes and fears.

So to my glance, as if with opium wide,
My very self is grown a mystery;
In inexstatic fear Life doth abide
And madness like my breath is within me.
1 387