Poemas neste tema

Sol, amanhecer e pôr do sol

Dália Ravikovitz

Dália Ravikovitz

Terra longínqua

Esta noite voltei em um barco à vela
Das ilhas do sol e dos arbustos de corais.
Donzelas ornadas com pentes de ouro
Continuaram na praia das ilhas do sol.

Durante quatro anos de mel e de leite
Passeei pelas ilhas do sol.
Os cabazes achavam-se cheios de frutos.
As cerejas resplandeciam ao sol.

Marinheiros e marujos de setenta países
Navegavam para as ilhas do sol.
E durante quatro anos, sob o sol ardente,
Eu contei as naves de ouro.

Durante quatro anos redondos de maçãs
Eu uni fieiras de corais.
Mercadores e bufarinheiros das ilhas do sol
Estendiam tecidos escarlates.

O mar era profundo no fundo das profundezas
Quando voltei das ilhas do sol.
Gotas de luz pesadas feito o mel
Rolavam sobre a ilha à hora do poente

1 034
Zila Mamede

Zila Mamede

Banho (rural)

De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando

um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio

com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio

onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba

e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava

por longo capinzal, cantarolando:
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes

velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.

Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio dágua era carícia antiga.

Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.

Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.

Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.

2 032
Carlos Nejar

Carlos Nejar

Canto Oitavo: Libertação do Cavaleiro

IV

O vento com seu cavalo
rompe a epiderme do susto,
retesando os duros músculos
avança com o sol ao meio.

Rasga o relincho no valo
e vai seguindo o roteiro,
maduro de campos claros
e horizontes escuros.

A tarde segue o cavalo
e o casco do sol percute,
bigorna de rubro talo
com seu ferreiro de rumos.

Bate as esporas no malho,
as crinas e as asas duplas,
acesas e resolutas,
desdobram sombra e cavalo.

Qual o vento e o cavaleiro?
Rio de oliveiras se fende,
penetrando o desamparo
das andorinhas no pêlo.

Qual o vento e o cavaleiro?
Batem esporas na tarde
e a tarde maçã suspensa,
fica tremendo na haste.

Sobe a garupa da ponte,
o vento e seu cavaleiro,
rangem esporas no ventre
e o sol irrompe no centro.


Publicado no livro O campeador e o vento (1966).

In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.182-183. (Poiesis)

NOTA: Poema composto de 5 parte
1 178
Antônio Nunes de Siqueira

Antônio Nunes de Siqueira

Soneto Acróstico

Voe da fama, ao sempre merecido
Aplauso, que vos deve eternamente,
Sonora tuba com trinado ardente,
Clamor perpétuo de eco enobrecido;
O vosso nome aclame, (que esculpido
Firme de bronze lâmina eminente
Expende) eternizando felizmente
Raro assombro, e jamais nunca excedido
Zenit: Diga que sois o mais glorioso
César, prodígio insigne da eloqüência,
Exemplo singular do valeroso:
Sol, que com predigníssima excelência,
Ainda no Ocidente, luminoso
Repartis, sempre igual, vossa influência.

522
Luís Canelo de Noronha

Luís Canelo de Noronha

Décimas

Nascer o Sol no Ocidente,
quem jamais tal coisa viu,
se na oposição caiu
ser Sol posto, e Sol oriente?
Mas bem caiu, que um luzente
e mais gigante farol,
mostrando novo arrebol
quando aquele Sol caía,
Sol mais claro então se erguia
para ser o Sol do Sol.

Pôr o Oriente no Ocaso,
fazer do morrer nascer,
inui maior poder,
e faz assombroso o caso;
faz divina e não acaso
esta empresa, pois que assombra,
que se um Sol ao Sol assombra,
e o Sol uma Sombra fica,
em que seja sombra rica
é do Sol o Sol a Sombra.

981
Raul de Leoni

Raul de Leoni

Crepuscular

Poente no meu jardim... O olhar profundo
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias.

Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção em que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.

Sugerem... Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.

Ninhos, onde vencida de fadiga,
A alma ingênua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe...

1 425
Afonso Duarte

Afonso Duarte

Ex-voto da Paisagem

de Coimbra ao Pôr-do-Sol

Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.

Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.

Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,

E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.

E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.

Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.

"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!

Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!

Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.

1 127
Lenilde Freitas

Lenilde Freitas

A Alfonsina Storni

O bulício do amanhecer
destranca as portas da sabedoria.

É o mesmo e não é o mesmo
o destino dos homens.
Com a chuva vigorosa,
as enredadeiras se desvencilham
dos muros os ventos recuam e
poucas cigarras sobrevivem.

Assim, agora.

A mulher
– passante -
se desveste da cor cambiante do sonho.

896
Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Vislumbres

1
A pedra está ausente
Mas fixa
Meu eterno pensamento.

2
O jacarandá floresce
Roxas
O vento leva --- as flores.

3
Abro os olhos
Na noite
É lua cheia --- sonho.

4
No canto a aranha
Tece
Uma cadeia de silêncio.

5
A palavra lançada
No silêncio
O eco responde: Nada.

6
Ainda existe o sol
Outono
O frio espreita na colina.

7
No centro da mata
Pássaros voam
Nuvens por entre as folhas.

8
Flor --- contínua ternura
Dói
Ela murchar no vaso.

9
O pássaro de asas molhadas
Na noite
Espera a alvorada.

10
Chove miúdo e calmo
No distante
A noite floresce.

11
Rápido na estrada
O lagarto
Torna verde o caminho.

12
Deitadas sob a terra
Raízes
Sonham folhas e flores.

13
É lua cheia
Em teu corpo
Meu pássaro pousa para sempre.

14
O vôo do pássaro
Silencia
A dor da despedida.

15
Ponha asas
Em teu corpo
A montanha é no longe.

16
Faz sol sobre o campo
A chuva
Molhou meus cabelos.

17
Viro mais uma folha
Do livro
E o segredo continua.

18
Falei contigo tantas palavras
E mais
Palavras. Que restou?

19
Caminha --- tua sina
Andar
Até curvar e silenciar.

20
Não vôo mais
É tarde
O repouso é necessário.

21
Sem dor --- é a despedida
Adeus
Flores roxas e amarelas.

22
Este é o abraço
Final
O único que importa.

23
Jogo a pedra pro alto
Silêncio
Círculos se formam no lago.

24
Veloz a garça
Se esgarça
Escuro seu tempo.

25
Solto o lápis da mão
No chão
Palavras caladas.

26
Brancos cabelos
Outono
Antiga primavera na cabeça.

27
O selo não veda
O livro
Dentro -- o Infinito.

28
Há arco - íris
No céu
O resto é silêncio.

29
O touro pára
A capa
É vermelha e a espada.

30
Não penso nada
Na brisa
Um aroma de passado.

828
Lago Burnett

Lago Burnett

O copo dágua

O copo dágua. Insípido
entre o pássaro e a lâmpada.
Lúcido e líquido.

Listras de sol passeiam-lhe a superfície
sem excessos matinais de azul-desperto.
Luz flutuante, o mundo transparente,
o copo dágua resiste.

Sólida contextura, as
firmes paredes de vidro unânimes, eternas,
equilibram o milagre.

O copo dágua. insípido
na antenoite sonora. Simples,
lúcido e líquido.

(Os Elementos do Mito / l953)

1 151
Arlete Nogueira da Cruz

Arlete Nogueira da Cruz

Rua dos Afogados

Rua de verdade e de sobrado
onde um sol lhe cai em vertical
onde um herói quer-se afogado
libertando sua ilha natural.
Rua que recolhe o moribundo
sacrifício de quem por ser mortal
mergulha e eleva-se num mundo
de mariscos, de algas e de sal,
Rua que sobre rumo ao porto
desta ilha que se quer liberta
rua que transformava o morto
silêncio da cidade — ó rua
de indormidas noites e aberta
para o poeta descer a sua lua.

1 375
Angela Santos

Angela Santos

Âmago

Estendo
os meus braços para ti
e de olhos cravados nos teus
sussurro-te:
vem, vem comigo ao centro
do que em nós é fundo e mais além

Vê, desce a tardinha sobre as nossas vidas
o sol é morno e doura este caminho…
ainda é tempo de olharmos os campos
sentir a terra e o vento no rosto

Vem
plantar uma flor e abrir os olhos da alma
ao desconhecido
adorar deus no alto de uma montanha
e doar-nos o amor nascido assim
um quase nada que se fez tudo
que nos ata à vida e à firme certeza
de o querer viver até ao fim.

Vem meu amor é hora de regressarmos
ao lugar que sente a nossa ausência
ao tempo de sermos nós
ao âmago da nossa essência
e sermos em cada uma esse pedaço de alma
que um dia se ausentou
e anseia regressar.

1 318
António Osório

António Osório

Haicai

Corte

Crepitou o fogo
E rubro cortou o vôo
da Fidalga palmeira.

Viagem

Pássaro a voar
Na manhã recém-nascida
Rumo à canção.

1 311
Angela Santos

Angela Santos

Flor de Lótus

Vejo-te
ao raiar do dia
como espiga que seguro e desfolho

Vejo-te acordar, espreguiçar
como a flor de lótus
sacudindo finíssimas gostas de orvalho
que sobraram da noite de amor.

Vejo-te abrir um sorriso manso
traçado na tua boca sensual…

beijo-te, sorris
e ao beijar-te sinto
que me atravessa a claridade
que em teus olhos brilha
e encho-me de luz.

693
António Manuel Couto Viana

António Manuel Couto Viana

Barcarola

Deseja a noite, primeiro,
Malfazeja, tortuosa.
Este é um canto marinheiro:
Faz do meu pranto um veleiro
E do veleiro uma rosa.

Pela barra de Viana
Foge ao Penedo Ladrão
Uma escuna americana.
A noite, com forma humana,
Traz ondas que nunca vão.

Areia do Cabedelo:
Naufraga a escuna na duna!
Maré cheia em teu cabelo!
É um pássaro amarelo
Cada vela que se enfuna.

Dissolve a noite no mar:
A lua é toda molhada.
Abre-te, voz, devagar...
A escuna é espuma, é luar...
Madrugada! Madrugada!

1 404
Gláucia Lemos

Gláucia Lemos

Predestinos

No dia em que tuas águas forem tantas
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.

No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.

E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,

ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.

07.07.96

1 000
Angela Santos

Angela Santos

Serenidade

Sobre
areias finas
a deusa adormecida
lembra uma esfinge viva
serenamente abandonada
em seu sono

Indiferente
às tempestades de luz
que o seu sonho assaltam
a deusa toda se ilumina
com as odes de sol que
da alma emanam

E deitada
sobre areias brancas
serena, despertará
iluminada

1 316
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Barcelona

Luz e sol e pintura
Sobre o telhado à noite a lua cresce
Abro os olhos como um barco pelas ruas
No entanto outonece
2 793
Susana Thénon

Susana Thénon

Oração

Quando deixará a lua
de preferir a esses poucos
que tanto à meia-noite
como ao amanhecer
gritam seu ardor sem freio.
Quando será definitivo
o direito a sonhar
sem verificar números
papéis rasgados, sexos,
velocidade sem pressa do sangue.
Quando morrerá o céu
- seus castigos -
e o raio será um menino
entre as folhas.
Quando arderão os ventos
sepultados.
732
Jaumir Valença da Silveira

Jaumir Valença da Silveira

O papagaio

Não queres mais que me alisar as penas,
sabendo que de nada vale as ter.
Porquanto que em meu corpo são mais belas
e só o suave tacto é o que te espera.
De sensações esparsas me ofereço.

Do mundo que aprendi a olhar de lado
levanto as asas plenas da preguiça,
multicolor no abraço inconseqüente.
E oculto sério, na aridez do bico,
a força que o momento se consente.

Quem sabe, se tiveres muita sorte,
ou a perseverança de quem ama,
ou a vaidade que não tem remédio,
ouvirás de mim, após muito esforço,
um "meu amor" com um olhar que em si se perde.

Pois tudo é indiferente. O que me apraz
é a chuva que me chama e que me molha,
é o sol que me consola quando eu tremo,
e os frágeis girassóis bajuladores
que trazem, a cada dia, meu sustento.

838
Jaumir Valença da Silveira

Jaumir Valença da Silveira

Matinal

Madrugada dada
ao firmamento.
O sol
vem trazido ao vento,
rosando o céu
e o roseiral.

Um tom maior
se eleva.
E leva, no colo,
o sonho dormido.
Manhã de novo,
o dia vem vindo.

Passa
o passaredo.
E o meu enredo
é passar
o passado
entre os dedos.

Dura a aurora
duradoura.
Doura
meu olhar.
Lacrimeja
o que a alma almeja.

Pois seja
o que Deus
desejar,
se é verdade
que Deus
deseja.

E apesar
de pesar
tanto a vida,
o meu canto
hoje eu vim
pra cantar.

1 058
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Cidades

Estavam no poente luzidias,
Acesas e magnéticas chamando
Sob o infinito céu das tardes frias.
1 960
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Receita para fazer o azul

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compare-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão bem Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.



Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
1 794
Valéry Larbaud

Valéry Larbaud

Motociclistas

Felizes,
sentamo-nos e pedimos ovos.
Pendia um sol vermelho
do rosto do garçom.
Aproveitando a graça esplêndida do crepúsculo,
pedimos também livros, mulheres, vinhos,
Músicas, Júbilos,
Ah! Essências, Éteres, Qüididades,
VIDA ETERNA!!!

De manhãzinha,
acompanhamos com os dedos erguidos
os últimos cometas que se despediam.
- Tchau... Tchau...

901