Poemas neste tema

Sol, amanhecer e pôr do sol

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Manchas

Uma palavra aberta
uma palavra torre
de espaço
uma veia sonora
germinação clara

espiral para o sol

Uma teia que vive
sobre a água sem medo
uma estrela na rua
tão rápida
sobre o muro incendiado

Disseminada sede
rede na terra verde
larga vela
violenta e alta
sobe
passa uma sombra azul

Passos na terra
marcas de lábios
poças de tempo minúsculo
para um insecto lento

Terra que desce às mãos
sono de poço branco
flexível lentidão
de uma árvore que caminha
998
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Ouvindo o pássaro

Às vezes, um pássaro parece cantar
para si próprio. Está na árvore, quando
o dia nasce, e a luz encontra-o
no meio da sombra. «Que manhã é esta,
pensa, em que o sol vem ter comigo
como se não houvesse mais ninguém
para o receber?» E saúda-o
com o seu canto, sem saber que
alguém o ouve, por trás dos arbustos,
e recolhe o que ele diz
para o dizer ao mundo.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 92 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 055
Adélia Prado

Adélia Prado

Tabaréu

Vira e mexe eu penso é numa toada só.
Fiz curso de filosofia pra escovar o pensamento,
não valeu. O mais universal a que chego
é a recepção de Nossa Senhora de Fátima
em Santo Antônio do Monte.
Duas mil pessoas com velas louvando Maria
num oco de escuro, pedindo bom parto,
moço de bom gênio pra casar,
boa hora pra nascer e morrer.
O cheiro do povo espiritado,
isso eu entendo sem desatino.
Porque, mercê de Deus, o poder que eu tenho
é de fazer poesia, quando ela insiste feito
água no fundo da mina, levantando morrinho de areia.
É quando clareia e refresca, abre sol, chove,
conforme necessidades.
Às vezes dá até de escurecer de repente
com trovoada e raio. Não desaponta nunca.
É feito sol.
Feito amor divino.
1 291
Domingos Pellegrini

Domingos Pellegrini

Manhã

Os galos disputando a alvorada
o retorno dos pés para as sandálias
o espelho que me olha e sempre cala
a pia minha mais gentil criada

Fogão com seu milagre que não falha
armário com modéstia tão calada
perto da geladeira dedicada
a resmungar tanto quanto trabalha

O céu a me espiar pelas janelas
novidades florindo no jardim
formigas a cuidar da vida delas

Sangrando sol varrendo as amarguras
sem pesadelos nem sonhos enfim
cada manhã me pare e inaugura
651
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Aderência

A manhã molhada como uma moeda.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.

Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.

O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.

A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
1 154
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Poeta Na Madrugada

Quando o poeta chegou à cidade
A aurora vinha clareando o céu distante
E as primeiras mulheres passavam levando cântaros cheios.
Os olhos do poeta tinham as claridades da aurora
E ele cantou a beleza da nova madrugada.
As mulheres beijaram a fronte do poeta
E rogaram o seu amor.
O poeta sorriu.
Mostrou-lhes no céu claro o pássaro que voava
E disse que a visão da beleza era da poesia
O poeta tem a alegria que vive na luz
E tem a mocidade que nasce da luz.
As mulheres seguiram o poeta
Oferecendo a tristeza do seu amor e a alegria da sua carne
O poeta amou a carne das mulheres
Mas não envelheceu no amor que elas lhe davam.
O poeta quando ama
É como a flor que murcha sem seiva
Porque o amor do poeta
É a seiva do mundo
E se o poeta amasse
Ele não viveria eternamente jovem, brilhando na luz.

Quando a nova madrugada raiou no céu distante
O poeta já tinha partido
E seguindo o poeta as mulheres de peitos fartos e de cântaros cheios
Falavam de ardentes promessas de amor.
1 151
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Configurações

A mão limpa na pedra
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.

O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.

A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.

O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.

O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.

A luz como uma árvore sem bordos.
1 010
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

fim de verão - XIV

A noite total tarda a chegar:
aproveite-se a luz que há.

É um lume sensato, difuso,
que não dissipa o lusco-fusco

porém o disfarça e matiza,
atenuando o tom de cinza

com laivos quase sinceros
de azul, vermelho e amarelo,

proporcionando às retinas
já habituadas à rotina

de emprestar às sombras de agora
tons subtraídos da memória

uma oportunidade tardia
de gozar um quase dia.

Quase, sim: melhor do que nada,
melhor que o nada.
531
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Imagens

O fogo que aparece
por cima do horizonte

A vela deslizando sobre a terra

papéis que estalam brancos

um punhado de sol no ar
1 031
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Bom Pastor

Amo andar pelas tardes sem som, brandas, maravilhosas
Com riscos de andorinhas pelo céu.
Amo ir solitário pelos caminhos
Olhando a tarde parada no tempo
Parada no céu como um pássaro em voo
E que vem de asas largas se abatendo.
Amo desvendar a vaga penumbra que desce
Amo sentir o ar sem movimento, a luz sem vida
Tudo interiorizado, tudo paralisado na oração calma...

Amo andar nessas tardes...
Sinto-me penetrando o sereno vazio de tudo
Como um raio de luz.
Cresço, projeto-me ao infinito, agigantado
Para consolar as árvores angustiadas
E acalmar os pinheiros moribundos.
Desço aos vales como uma sombra de montanha
Buscando poesia nos rios parados.
Sou como o bom-pastor da natureza
Que recolhe a alma do seu rebanho
No agasalho da sua alma...

E amo voltar
Quando tudo não é mais que uma saudade
Do momento suspenso que foi...
Amo voltar quando a noite palpita
Nas primeiras estrelas claras...
Amo vir com a aragem que começa a descer das montanhas
Trazendo cheiros agrestes de selva...

E pelos caminhos já percorridos, voltando com a noite
Amo sonhar...
1 194
Éric Ponty

Éric Ponty

Narcissus

O que somos afinal sobre o sol que a pino,
encerra o silêncio de nossas esperanças,
que encantados com o brilho lunar nos refaz.

O que somos afinal sobre a lua que cheia,
floresce nossos ensejos, e frutifica nossos mitos,
que desiludidos com o solar ofuscamento nos reluz.

Lúgrebe como é lúgrebe o canto que nasce
que jorra límpida nas outras fontes d’água,
silêncios que encerram nossa imagem
de um refletido mito surdo.

Irrigada voz que descanta o pássaro,
que com asas de brancas nuvens
se interroga sobre a matéria tempo,
fúnebre como o paladar do sino a obrar.

Olhos de prata, murmúrios de ouro,
interrogações que se abrumaram,
rudes questionamentos que não se esvam,.
acumulados e dissimulados
na consciência incerta.

Sol e Lua dentro da noite adentro do dia,
dúbia conversa entre astros que não ponderam
se circunferenciam numa rota imutável,
rotineira como o tempo irrefutável.

Despir, rubro significado altivo,
máscara que não tateia simulacro inteira,
Lívia pele, tenra mentira fluida n’água,
paixão que se encadeia, mas não queima,
límpido abismo simulado de realidade.

Entrecortadas vozes que se dissecam,
o vento, o que diz o vento ao vento
que ventila a própria sentença
de outros apagados tempos invernais?

Sim, a paixão é rubra lavra de vulcão,
espessa e fluida e sufocada nuvem,
que dilui a consciência e o logos.

Resistir na verde margem relva,
com o retrato entrecortado n’água,
tingido pelas toscas luzes do prisma,
para que o branco não seja preto,
para que o preto não seja branco,
simulada visão do natural tempo,
arquitetado.

O que somos, àquilo que nós fomos,
dentro de poucos instantes, iremos,
a questão inquestionável que aglutina,
súplice e suplicado que ateia,
ruge o instante dentro de um infinito.

Driblar uma consciência outra, gesto possível,
e a si mesmo, improvável ato que desfigura,
como a cera de uma face resplandecente,
que desfalece na contra luz do tempo.

Um eclipse é uma imagem de pena,
rápido encontro, infindável espera,
que se perde como amantes por acaso,
que desfalecem após o orgasmo.

Admira-se trágica cena de um enamorado,
que enluarado pela límpida água refletida,
soltos suspiros como se outra natureza,
sua máscara fosse esculpida e terminada.

Rogado por tal imagem quer ser altivo,
buscar dentro de si próprio outros gemidos,
que a faça entreter de seus alaridos,
dissimulado como está de si na margem.

Perdido, quer encontrar um pedido, só suspiro,
melodiar, uma canção suave, só grunhido,
entreter ao outro, e a si mesmo, só que entretido.

Desfazer-se de sua própria figura espectral,
sem tal companheira, voar altivo no azul céu,
pintando o que lhe resta da augusta miséria.

O suplicante exaurido de sua ébria consciência,
vê os reflexos na margem cobertos de rubro véu,
os raios de circunferência prata, ledo engano,
são frios como a noite invernal, que o vento retrata,
é tão só esta paixão que exaure e assusta
quem se observa refletido, a si mesmo perdido.

As brancas mãos, os braços abraçados que aguardam
a possibilidade de ali ainda haver um ninho doirado,
que agassa-lhe o pássaro de sua frígida tempestade,
antes que se finde numa escura nuvem do nada.

Altiva é sua boca, carnudos lábios marmóreos,
suspiros e gemidos é feito o martírio que dali, .
parte e retorna num outro segundo de infinita perda,
na paisagem onde um branco mancebo se retraí.

O corpo é branca estátua que não se move mais,
inerte como a mais dura esfinge indecifrável,
corrói o interior sobre o sol angustiante e a pino,
cabelos doirados que não mais doiram a enseada,
só a brisa lhe sussurra, o que antes lhe encantava,
triste é a sua matéria, ledo seu simulacro invólucro.

O que somos sobre uma margem de uma relva,
que nos desperta com a limpida água que flui,
é a ébria forma de uma bruma suplicada,
que se perfez, e se desfaz n’água de um lago.

984
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Vale do Paraíso

Quando vier de novo o céu de maio largando estrelas
Eu irei, lá onde os pinheiros recendem nas manhãs úmidas
Lá onde a aragem não desdenha a pequenina flor das encostas
Será como sempre, na estrada vermelha a grande pedra recolherá sol
E os pequenos insetos irão e virão, e longe um cão ladrará
E nos tufos dos arbustos haverá enredados de orvalho nas teias de aranha.
As montanhas, vejo-as iluminadas, ardendo no grande sol amarelo
As vertentes algodoadas de neblina, lembro-as suspendendo árvores nas
nuvens
As matas, sinto-as ainda vibrando na comunhão das sensações
Como uma epiderme verde, porejada.
Na eminência a casa estará rindo no lampejar dos vidros das suas mil
janelas
A sineta tocará matinas e a presença de Deus não permitirá a Ave-Maria
Apenas a poesia estará nas ramadas que entram pela porta
E a água estará fria e todos correrão pela grama
E o pão estará fresco e os olhos estarão satisfeitos.
Eu irei, será como sempre, nunca o silêncio sem remédio das insônias
O vento cantará nas frinchas e os grilos trilarão folhas secas
E haverá coaxos distantes a cada instante
Depois as grandes chuvas encharcando o barro e esmagando a erva
E batendo nas latas vagas monotonias de cidade.

Eu me recolherei um minuto e escreverei: — “Onde estará a volúpia?...”
E as borboletas se fecundando não me responderão.

Será como sempre, será a altura, será a proximidade da suprema
inexistência
Lá onde à noite o frio imobiliza a luz cadente das estrelas
Lá onde eu irei.
1 168
Epitácio Mendes Silva

Epitácio Mendes Silva

Nós e natureza

Cores de todas as manhãs,
manhãs de todas as cores.
Dia de todas as luzes,
luzes de todos os dias.
Noite de todas as luzes,
luzes de todas as noites.
Gotas de orvalho das flores
e flores com gotas de orvalho.
Pássaros que os dias festejam
e dias que festejam os pássaros.
Céu de todos os azuis
e azuis de todos os céus.
Cristalinas águas das fontes
e fontes de águas cristalinas.
Mundo de todos os sons
e sons de todos os mundos.
Dizei-me oh, coisas divinais:
por que em tudo isso me reflito
e tudo me faz pensar em ti ?...

1 027
Adélia Prado

Adélia Prado

Sensorial

Obturação, é da amarela que eu ponho.
Pimenta e cravo,
mastigo à boca nua e me regalo.
Amor, tem que falar meu bem,
me dar caixa de música de presente,
conhecer vários tons pra uma palavra só.
Espírito, se for de Deus, eu adoro,
se for de homem, eu testo
com meus seis instrumentos.
Fico gostando ou perdoo.
Procuro sol, porque sou bicho de corpo.
Sombra terei depois, a mais fria.
2 060
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

VILEGIATURA

Munidos de maçãs, lápis e fósforos,
conquistaremos Nínive amanhã,
se não der praia e a noite for de sono.
Porque afinal os dias são dourados
e tudo é matinal nessa estação
de água fresca, madrigais e cópulas.

São tantas mãos e bocas, tantas cópulas,
tantas razões de se riscar um fósforo,
é tão horizontal essa estação,
que é puro engodo a idéia do amanhã.
E por que não beber o sol dourado
enquanto não nos sobrevém o sono?

Idéias sussurradas pelo sono,
pela sofreguidão de muitas cópulas.
Enquanto isso, Nínive dourada
aguarda a combustão de nossos fósforos
ao primeiro suspiro da manhã.
Rechacemos o torpor da estação

(e como é modorrenta essa estação,
tempo de bandolins, maçãs e sono!)
e vamos nus, na bruma da manhã,
buscar a glória, traduzida em cópulas,
claustros, tributos, castiçais e fósforos,
caixas de música e ídolos dourados.

Tomaremos a cidade dourada
na hora derradeira da estação,
quando já não restar nem mais um fósforo,
uma gota de sol, de céu, de sono.
A entrada triunfal será uma cópula
na imensidão da última manhã.

Quando acordarmos, já será amanhã,
os olhos turvos de sonhos dourados,
as peles mornas recendendo a cópulas,
bagagens esquecidas na estação,
jornais, explicações, ressaca e sono,
um alvoroço de café e fósforos.

Os fósforos primeiros da manhã
riscam o sono e o sonho do Eldorado.
Dessa estação só vão restar as cópulas.
740
Emílio Moura

Emílio Moura

Mundo Imaginário

Sob o olhar desta tarde,
quantas horas revivem
e morrem
de uma nova agonia? Velhas feridas se abrem,
de novo somos julgados, o que era tudo some-se
e num mundo fechado outras vigílias doem.

A noite se organiza e, no entanto, ainda restam
certas luzes ao longe. Ah, como encher com elas
este ser já não-ser que se dissolve e deixa
vagos traços na tarde?

1 120
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Pelo Souto de Crexente

Pelo souto de Crexente
ũa pastor vi andar,
muit'alongada da gente,
alçando voz a cantar,
apertando-se na saia,
quando saía la raia
do sol, nas ribas do Sar.

E as aves que voavam,
quando saía l'alvor,
todas d'amores cantavam
pelos ramos d'arredor;
mais nom sei tal qu'i 'stevesse,
que em al cuidar podesse
senom todo em amor.

Ali 'stivi eu mui quedo,
quis falar e nom ousei,
empero dix'a gram medo:
- Mia senhor, falar-vos-ei
um pouco, se mi ascuitardes,
e ir-m'hei quando mandardes,
mais aqui nom [e]starei.

- Senhor, por Santa Maria,
nom estedes mais aqui,
mais ide-vos vossa via,
faredes mesura i;
ca os que aqui chegarem,
pois que vos aqui acharem,
bem dirám que mais houv'i.
327
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Para Sair da Pedra

Para sair da pedra
e desse frio instante jamais ultrapassado
oh que rosa de pedra
que aranha dura
extrema
final em cada pico
ó mole horror desse sorriso

Para sair da terra
morta na base
a haste
a raiz arranhando a parede ratada
a flácida nostalgia da timidez curvada
para sair no fim de cada indecisão
do adiado princípio
uma garra de fumo cobardia ante o ódio
ó praia sufocada ó impossível praia
nitidamente desenhada como um adeus-princípio

Um começar de água
a iluminar os dedos
em cada sulco árido
no ouvido da mão a rebentar o sol
a abandonada menina achada num sonho
é o sol do navio
o rouxinol na espuma
e o sabugo da rosa
o rebentar da pedra
e a andorinha
dizia o menino

O escuro rumor da casa
o miúdo calar de cada coisa
o claro romper das palavras
verticalmente duras

É preciso roer séculos para ajudar o verde
1 186
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Pecado

Nas aldeias antigas, as mulheres do campo
esperavam o princípio da tarde para correrem
no meio das searas, em busca de uma clareira
onde se pudessem despir, para que o sol,
descendo à terra, as pudesse possuir. O fogo
que nascia dos seus lábios pegava-se à erva,
e durante um instante toda a seara ardia,
sem fogo nem fumo, apenas com o desejo
que se soltava da sua boca, e ia apagar o sol,
nas tardes em que a noite caía mais cedo.

Espreitei essas mulheres quando voltavam
das searas, e nos seus olhos traziam um cansaço
de amor. Acompanhei-as às suas casas, e vi-as
deitarem-se contra a parede, olhando os seus
rostos no espelho que as velhas seguravam.
Tinham no rosto um princípio de melancolia;
mas diziam-me que a noite resolveria tudo,
quando a sua cabeça se enchesse de sonhos.
«Que queres daqui?» perguntavam-me. E eu
pedia-lhes que me guardassem a imagem
do espelho, em que a eternidade se dissipa,
como o seu sorriso no rescaldo do prazer.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 114 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 254
Herberto Helder

Herberto Helder

O Mistério de Ameigen

(Irlanda)
Eu sou o vento que sopra à flor do mar,
sou vaga do mar,
o bramido do mar.
Sou o boi das sete lutas,
ave de rapina sobrevoando as falésias,
e dardo solar.
Eu sou o que navega, o inteligente.
Javali sangrento.
Lago na planície violenta.
Sou palavra de ciência.
Espada viva abrindo a noz das armaduras.
Eu sou o deus que implanta o fogo na cabeça,
e espalha a luz pelas montanhas,
e que anuncia as idades lunares,
e ensina ao sol onde morrer.
1 088
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Lâminas

Um fogo frio sob as pedras
tela seca
a madeira no lugar dos ossos
o cheiro do ferro
a calma violência do sangue alimentado
punho acerado
porta de ar
lâmina entre os lábios

Manhã sem caminho
pedra alta e seca
e mão pousada ouvindo
cratera de cal
meio-dia sem relógio
um dedo na ranhura soletra
a boca da terra

Chão de seda
a flor ágil que respira
move-se
um tronco de água dura
o odor de ferro
a terra cheia até aos bordos
997
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Linhas Matinais

As linhas matinais estão disponíveis
frescas resolutas segui-las
cheiram a pão da terra
perseguir até ao fim achar o mar
uma árvore em frente verde
caminhar
as lâminas sob os pés
as páginas trepidantes lisas
para trás ainda o sol para cima para a frente
as mulheres fortes na manhã

As linhas para o mar
sem demora olhar atravessar
alegres como os passos
caminhar no sol     nas rectas
boa distribuição da luz coada entre as árvores
alta figura
rasgada e juvenil à distância do braço
os olhos e a língua devoram-na sobre os passos
é uma cabeça um tronco para o sol
um olhar instantâneo ignorado
o mar deserto e vasto
afoga todas as linhas
a árvore verde
1 078
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nova Estação

Toda a gente passou a cumprimentar-nos.
O sol é novo através da chuva.
Abrem-se as janelas com cuidado.
Uma frescura sobe ao compasso da terra.
Fomos crianças. As árvores tilintam.

É tempo de trabalhar
inquietamente.
Tempo de caminhar com presteza
pelas calçadas húmidas.
Tempo de ser vergastado pelo vento.
Tempo de lutar contra o vento.
Tempo sério.

A cidade é grande, cinzenta, verde.
Paremos.
Os troncos negros brilham.

Há um fervor no ar.
Mil centelhas pululam.
As fachadas são largas, lisas.
Respiremos.
Vamos continuar o dia.

O sol tão disseminado,
vibrante além nas pedras.
E sombra deste lado e quase azul.
Um animal lentamente passa
entre caminhantes apressados.
No tumulto dos metais entre os brilhos,
nós, sossegados, vemos.
1 026
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

À Luz Crua

Sob as palavras
a calma da estátua
ao sol na praça
levantada ofusca

unha de silêncio

pedra morte e sol.

De pó (esquecidos)
anos apagados,
flores sepultas,
rostos desabados,

rastos, tudo palmas
de cal, de muro
surdamente cabem
numa rota solar
— roda de pólen?

Força é de levantar
peso mortal
e rede embaraçada,
névoa sem peso

e ver claro e nu
a descalça e só
sede de beijar
lisa pedra da rua

virgem de tantos pés,
comum, total, já única,
povoada desliza.
567