Poemas neste tema

Silêncio

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

35. a Ilha de Um Viver Numa Ilha de Silêncio

35
A ilha de um viver numa ilha de silêncio
a ilha dentro da ilha a água dentro da ilha
a ilha do nome: ilha da ilha e a ilha ilha.

Toda a arbitrária fome do fogo alto
a simplicidade animal na direcção escrita
isto é: a folha de ser se o ser fosse na folha.

Tudo isto é a matéria sonora a capital
do imprevisto lume na opacidade
o fogo alto da substância azul.
1 135
Levi Bucalem Ferrari

Levi Bucalem Ferrari

Afeto

Como demonstrar afeto no espaço contido?
É preciso muita sutileza
Olhares vagos
Palavras tímidas
Gestos quase gestos

E no entanto
Há um intenso
Por enquanto tenso
Olhar imenso
Infelizmente imerso
No universo
Do contido

O grito litro de sangue do afeto perdido
O leite derramado no leito solitário

A pele atrai a pele
Como o olhar o olhar
Enquanto desce o decote
Lentamente
Discretamente
Infelizmente

A vida é mente
A vida mente
Avidamente
E a morte vence

No espaço do contido
Obviamente

825
João dos Sonhos

João dos Sonhos

Ave breve dos seios

Ave breve dos seios em vôo
florindo nos galhos
que esta voz velou

Ave breve do pasmo pousado
neste sentir-te irmã terrena
beijo-te a carne como quem esquece o vôo

Ave breve do canto sorvido
neste calar-te serena
sinto-te a carne pela carne que sou

Ave breve da espessura
que um vento rasteiro
revolve e afaga.
De mim ascendem raízes
como um ramo derradeiro
num silêncio sem destroços

Ave breve que o instante esmaga
neste pregar-te de músculo e ossos.

980
Jaci Bezerra

Jaci Bezerra

E não pode esperar o coração

Toda a lua e claridade
assim te quero, assim te vejo
e se te vejo o amor invade
meu corpo inteiro e o deixa aceso
e se te vejo o amor em mim
é um cheiro morno de jardim
A tua dor doendo em mim
é um rio latejando aceso
sou um cantareiro no jardim
do sonho em que te quero e vejo
primaveras de claridade
na primavera que me invade
Toda nua és um rio aceso
de primavera e claridade
mas quero mais do que o que vejo
sentindo a angústia que me invade
esse amor que doendo em mim
arde em silêncio no jardim
Extinta a angústia que me invade
te sinto perto e junto a mim
mais do que amar a claridade
amo teu cheiro de jardim
por isso à noite durmo aceso
no dia em que te sinto e vejo.
Teu coração é um jardim
tremulando na claridade
mesmo quando doendo em mim
também é a angústia que me invade
porque no dia em que te vejo
teu corpo dorme em mim aceso
No fundo dos teus olhos vejo
longe da angústia que me invade
como o amor doendo aceso
é uma trança de claridade
o coração dentro de mim
dorme abrasado em teu jardim.

1 500
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

37. Instituição da Árvore No Poema

37
Instituição da árvore no poema
da terra e já sem terra a terra ainda
louvor do pássaro sobre as partes negras
de um inseguro trajecto incendiado.

Aqui, isto é, silêncio, não-poema
do poema aqui silêncio e arco
e isto o fragmento a face negra
destruída pelos insectos do incêndio.

Soberba impura face da figura
retendo a mão no vidro
a cruel ignorância encerrando a palavra
e a boca negra fechando o horizonte.
495
Diogo Brandão

Diogo Brandão

Os que logo decrararam

Os que logo decrararam
suas dores, em querendo,
muitas vezes s'estimaram;
mas muito mais obrigaram
aqueles que, padecendo,
nam falando, mas morrendo,
          confessaram.

Bem podem dizer fingidos
seus amores os primeiros;
masaquestes, já vencidos,
pola morte conhecidos,
sam seus males verdadeiros.
Já se muitos confortaram
em suas penas dizendo,
e disso se contentaram;
portanto mais obrigaram
aqueles que, padecendo,
nom falando, mas morrendo,
confessaram.
547
Fernando J. B. Martinho

Fernando J. B. Martinho

Fronteira Azul

Esta manhã vai subir
como um lírio estrangulado
lentamente na garganta.

Esta manhã vai ter nas mimosas
e no ar a alta vibração
de um caminho para a Morte
decidido firme e incorrupto.

Vai passar o silêncio
a fronteira azul onde os gerânios estremecem
a mais pura gota de água
a que nega o gosto a gravidade
a que cai no céu e o embacia.

Dizer do vento a primeira sílaba
a primeira semente
quando a terra ainda
se não tinha desprendido
do caos
referir da lembrança
o que mais dói
nos seus recessos
como custa suportar
a luz crua
das salinas
que eleva nas margens
do nosso desespero.

Quando a morte
se não podia ainda
olhar de frente
e os morcegos nos feriam
com o latejar de um sangue
mais fulminante que qualquer luz
acontecia na terra
o que nunca mais ousou repetir-se
um lírio dava cor e dava forma
à simplicidade
bravia
entre o silêncio
e o que prometia ser a noite derradeira.

Uma montanha
ao alcance das veias
um dia
deu mais força aos membros
mais volume
à voz
e quando já no rio
toda uma vontade
de nela ser um cardo
crescia
se me recusou
abruptamente.

Onde foi
que um dia
a limpidez
teve o sangue do ultraje
no rosto
e não houve ninguém
um lenço sequer
para lho limpar?

(in Antologia de Poetas Alentejanos)

479
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

43. Definição do Dia Pela Palavra do Corpo

43
Definição do dia pela palavra do corpo
aceso: cintilação das imagens sob
a escrita não límpida e escrita impura
da negra verdura do não saber exacto.

A aranha verde da folhagem verde
tece as linhas de linguagem e sombra
ardente e esquece o que tece esquece a arma
o corpo do desejo armas discretas.

Quem saberá do silêncio das folhas
e da perspectiva incendiada sob
a não verdade a confusão o medo.
1 060
Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Sala

Ouço passos vindos
do alpendre
para dentro da sala.
Será o vento que fala
coisas da cabala?
Ou será o morto
de regresso à senzala?
O vento se cala
e um rumor de sedas
resvala
no ladrilho da sala.
No alto da cumeeira
a coruja gargalha.
De novo o mistério
se instala
em cada movimento
da sala.

1 001
Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Aranha

Medusa
tecelã dos fios
da morte.

Seus olhos de Górgona
dilaceram
o corpo do vento.

Transformam
em rochas de sal
os filhos do nosso invento.

II

Num raio de sol
os fios da teia.
Arquitetura de vidro
com vigas de areia.

O fulgor da trama
que o vento incendeia.
Numa gota de orvalho
os olhos da teia.

Medusa acordada
a aranha passeia
nas ruas de seda
do seu devaneio.

III

Arquiteta
dos minutos
fiandeira
do tempo circular
semeadora
das messes do vazio
ceifadora
de asas e de vôos
contemporânea
dos anjos e da morte.

1 542
Frederico Barbosa

Frederico Barbosa

Rarefato

Outra trilogia do tédio

I

Nenhuma voz humana aqui se pronunciachove um fantasma anárquico, demolidor

amplo nada no vazio deste desertoanuncia-se como ausência, carne em unha

odor silencioso no vento escarpacorte de um espectro pousando na água

tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa

II

Sentia o término correndo nas veias.Há pressa: via.Houve um momento grave.(O filme era ruim. O cinema, lotado.Na luz neblina, escondido, um cigarro.)Impossível escapar ao pânico,prever o vazio provável.De repente: o estalo.Terminal,a consciência do zero rondando.Estado, condição, estado.Abre:

III

Dominado pela pedra, insone,descolorido, o crime principianas altas horas de noite vaziaganha corpo no decorrer do dia.

Ganha corpo no decorrer do dia,dominado pela pedra insonedor de náusea delicada e infame,das altas horas da noite vazia.

Dor de náusea delicada, infame,nas altas horas na noite vaziaganha corpo no decorrer, no diadominada pela pedra, insone.

Ganha corpo no decorrer do dia,dor de naúsea delicada e infamedescolorido, o crime principiaalia-se ao tédio impune e some.

Poema em espanhol
1 466
Felipe d’Oliveira

Felipe d’Oliveira

O Epitáfio que Não Foi Gravado

Todos sentiram quando a morte entrou
com um frêmito apressado de retardatária.

A que tinha de morrer, — a que a esperava, —
fechou os olhos
fatigados de assistirem ao mal-entendido da vida.

Os que a choravam sabiam-na sem pecado,
consoladora dos aflitos,
boca de perdão e de indulgência,
corpo sem desejo,
voz sem amargor.

A que tinha de morrer fechou os olhos fatigados,
mas tranqüilos...
Porque os que a choravam nunca saberiam
o rancor sem perdão de sua boca,
o desejo saciado de seu corpo,
o amargor de sua voz,
a sua angústia de arrastar até o fim a alma postiça que lhe fizeram,
o seu cansaço imenso de abafar, secretos, na carne ansiosa,
a perfeição e o orgulho de pecar.

A que tinha de morrer fechou os olhos para sempre
e os que a choravam
nunca souberam de alguém que foi de todos junto ao leito à hora do exausto coração parar
o mais distante,
o mais imóvel,
o que não soluçou
o que não pôde erguer as pálpebras pesadas,
o que sentiu clamar no sangue o desespero de sobreviver,
o que estrangulou na garganta o grito dilacerado do solitário,
o que depôs, sobre a serenidade da morte purificadora,
a redenção do silêncio,
como uma pedra votiva de sepulcro.

1 487
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

57. a Tentação do Não Dito Na Folha Branca

57
A tentação do não dito na folha branca
no intervalo de
pequena boca de pedra ao rés da terra
pulso impermanente obstinadamente.

Poderia ser: és: esta
pequena forma de não saber
murmúrio não essencial
que pode ser a árvore pedra a mão da pedra.

E tentação da terra (sempre)
com o pulso indelicado duro
na sua recente pressão sobre o papel.
1 028
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

elegia II

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.

Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
658
Yoji Fujiyama

Yoji Fujiyama

A Garcia Lorca

A branca madrugada não sabia
que encontraria o teu corpo, frio
como o orvalho que caíra
de noite, manso, sobre os olhos.

Estavas já no outro plano
imenso e leve, e breve habitarias
todos os lugares que só tu
e os anjos conhecem intimamente.

O súbito estremecer de uma folhagem
ao toque ingênuo de uma lebre,
e uma asa que deslizava lenta

sobre os teus lábios, eram tudo
que em teu redor inda se movia.
O resto, sem aviso, emudecera longamente...

970
Yoji Fujiyama

Yoji Fujiyama

Opus Zero

A Élcio Xavier
Transmutas tua face, ó Morte, em grave
silêncio. E a comunhão das árvores
humildes é completa pelo toque solene
da fonte. Efêmera e resignada fonte
onde bebias com a indiferença de um vencedor.

Morte, Morte sem símbolo. Inútil espanto
das aves inocentes. Inútil oferta
de um sacrifício. Que representaria o altar
se nele vivesse o perene e não o ocasional?
Que representaria o perpetuar-se
de um canto se a certeza do eterno
bafejasse os seus passos? Oh incerto,
trivial alimento de uma casta de condenados!

838
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

70. Incide a Água Onde Ainda É Água

70
Incide a água onde ainda é água
e o princípio é um não-saber
e a ilha poderia ser iluminada
pela outra ilha do horizonte incerto.

Assim as palavras mudam na carne ausente
que é a tua carne e o silêncio dessa carne
para um país real de excesso e maravilha
para a festa animal onde a montanha vibra.

As palavras mudas animam-se no dia
da sua festa incerta maravilha
é a parte que cabe à luz da vida.
1 109
Flávio Villa-Lobos

Flávio Villa-Lobos

Delírio

Na penumbra,
uma indefinível alegoria
salta na trêmula paisagem
e principia uma estranha
dança noturna.

Passos silenciosos
movem-se elásticos
em meio à névoa úmida
- vôos espetaculares
sem música.

Gestos grandiosos,
o corpo envolto em mímica
revela o deslumbramento
solitário e, ao mesmo tempo,
mágico e absoluto.

Instante único,
encontro de almas gêmeas,
o toque ímpar no extraordinário...
Fuga da realidade
em pleno sol da meia-noite.

888
Gustavo Alberto Corrêa Pinto

Gustavo Alberto Corrêa Pinto

Haicai

Vulto de homem
contra o horizonte...
Solidão azul.

Noite fria.
Mundo em silêncio.
Tosse ao longe...

1 092
Flávio Villa-Lobos

Flávio Villa-Lobos

Relume

Pedra, sólida rocha
escondida sob
a terra
rodeada
pelo silêncio dos séculos
sozinha, quieta,
imóvel.

Formação natural
lava vulcânica
cristal de rocha
sedimentada,
preciosa
pedra,
mineral.

Tempo que tece a textura das cores
forja o reluzente reflexo
- diamante bruto,
instantâneo.
Sonho que salta
ofuscante, belo
- lavra de garimpeiro.

Mundo - negra mina
exaurida,
põe à nú vasta
desolação.
.............................
Uma réstia
de tua grande luz
permanece comigo
e vence
toda a escuridão.

863
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Que domingo solene, ocioso e lasso

Que domingo solene, ocioso e lasso!
Tão triste; o sol inunda a tarde toda,
Festivo como um guizo numa boda
Onde a noiva morreu, desfeita em espaço...

Medeia a eternidade, em cada passo
Que, sem intuito, dá quem passa; à roda
Parece dormir tudo; e incomoda,
Ponderável, no ar, um embaraço...

Toda a tristeza do domingo à tarde.
Sobe dos homens para o céu, que arde,
O apego à vida dum olhar que morre.

Sombras sugerem aflições incertas...
E das janelas sôfregas, abertas,
Morno, o silêncio como num pranto escorre...

1 908
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Progridem Os Silêncios

Progridem os silêncios

— tudo é oco ou opaco?

a pressão do tempo cai sobre a nuca negra

o mundo da língua é o murmúrio de um barco

e um ritmo subsiste     um perfume de pedra

uma laranja     um copo     um fragmento        a folha

a gravidade cálida nos elementos livres

o negro

transmite

o branco     a intensidade silenciosa
1 051
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Palavras Brancas do Ar

As palavras brancas do ar

aqui

no cimo plano
1 028
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Parede Escura E Verde

A parede escura e verde

e os sinais

entre as sombras

entre os ombros

da casa

que não tombam

entre as sombras
1 160