Poemas neste tema
Silêncio
Renato Rezende
Mudo
A linguagem é tudo
para o homem, não há mundo
fora dela, a linguagem
me recobre, e quando forço
a passagem, quando forço
o que em mim diz “não posso
mais”/ caio
fundo
poço
de silêncio murro:
MUDO
para o homem, não há mundo
fora dela, a linguagem
me recobre, e quando forço
a passagem, quando forço
o que em mim diz “não posso
mais”/ caio
fundo
poço
de silêncio murro:
MUDO
1 095
Birão Santana
Desembotar
Aciono sentidos
e capto sons
num borbulhar de emoções.
São grilos, cigarras, pássaros.
Insetos da noite,
farfalhar de vento em coqueiro,
bananeira, canavial.
Absoluta ausência
de sons, ruídos,
dos homens
e suas máquinas.
Todo ouvidos,
insiro em meu sub-consciente
a cristalina sinfonia.
Incorporo-a, indelével,
e saio,
misturando-me aos homens
e suas máquinas,
sem ouvi-los
e a ouvir
num borbulhar de emoções
grilos, cigarras, pássaros,
insetos, farfalhar de coqueiro,
bananeira, canavial.
e capto sons
num borbulhar de emoções.
São grilos, cigarras, pássaros.
Insetos da noite,
farfalhar de vento em coqueiro,
bananeira, canavial.
Absoluta ausência
de sons, ruídos,
dos homens
e suas máquinas.
Todo ouvidos,
insiro em meu sub-consciente
a cristalina sinfonia.
Incorporo-a, indelével,
e saio,
misturando-me aos homens
e suas máquinas,
sem ouvi-los
e a ouvir
num borbulhar de emoções
grilos, cigarras, pássaros,
insetos, farfalhar de coqueiro,
bananeira, canavial.
1 114
Renato Rezende
Dejetos
O homem pensa, fala, e se é algo
é pela palavra.
Mas o SOLTO é mudo.
Todo esse esforço de linguagem:
mais próximo da página
do que supúnhamos.
Salto
da linguagem:
não-falo.
Como o fogo deixa cinzas,
deixo esses versos.
A poesia: dejetos.
é pela palavra.
Mas o SOLTO é mudo.
Todo esse esforço de linguagem:
mais próximo da página
do que supúnhamos.
Salto
da linguagem:
não-falo.
Como o fogo deixa cinzas,
deixo esses versos.
A poesia: dejetos.
950
Batista de Lima
Só
O que faz mais dura a solidão
é tirar de mim o que me falta
O que faz doer a solidão
é sua sede
é ter que arrancar
destas entranhas
um oceano de pedridade
de quem freqüentou a escola das facas
onde o que corta não é o gume
mas a falta da lâmina
O que fere não é a dor
é sua ausência assassina
pendurada nos cabides da alma
O que dói na solidão
é ter que amar
e amar é perder uma banda
é extrair um bonde de um homem
é extrair um bosque de uma mulher
O que mais fere na solidão
é sua inscrição cravada em brasa
no braço inútil do verso
uma família em torno da mesa
comendo pratos de silêncio
O que mais dói na solidão
é perder de mim
os outros que carrego
o segundo contra o primeiro
o terceiro que instiga
o quarto que dorme
o quinto que inicia
uma infinidade de outros
O que dói na solidão
é essa batalha que não acaba mais
entre guerreiros invisíveis
enquanto um boi passeia nas nuvens
e uma bicicleta muge
já que os verdes anos foram nulos
para quem nasceu maduro
para quem perdeu o ciso
na primeira dentição
e o cordão umbilical
nos bicos de um galo cego
Ia prás bandas da Cipaúba
Quanto dói
ver a velha mangueira se desfazendo
velha velha mangueira
por quanto tempo roerei
teus nós
por quanto tempo aguardarei
a manga que os passarinhos
bicam
no último dos galhos
O que dói na solidão
é o vira-lata sozinho
revirando o deserto
da cidade esquecida nas ruas
é ter um pai com muitas capas
todas com seus mistérios
se desfazendo em barro
por um caminho que mespera
O que mais dói na solidão
é ter na mão uma chave
que nada abre
que nada abre
O que mais dói na solidão
é não se poderem conter
os fantasmas que teimam
em saltar das sombras
de cada canto
São essas cobras
passeando em nossa cabeça
serpentário infindável
Difícil conviver
com a inesgotável solidão
mais difícil mesmo
é compor o verso
sem a vaca no divã
triste luna
rodonoite
áspera/mente
Só mesmo a roda grande
sescondendo em menor roda
Só mesmo a bicicleta
pendurada no trem noturno
Só mesmo a melancia
no rio em cheia
boiando
E os carneiros na mesa grande boiando
os teus olhos boiando na bandeja
os teus seios boiando no cuscus
os teus sais boiando nas iguarias
os teus ais boiando na
rememóría
O que mais dói
não é tua ausência
mas tua presença
estando longe
Lembra-te pois do açude
onde as águas ainda nos guardam
e os peixes nos carpem
em lágrimas de cumplicidade
Lembra-te da porta marcada
pelos mistérios de estar fechada
da casa retendo a mesa onde
saboreávamos os silêncios familiares
e escrevíamos a história da solidão
no livro branco do cotidiádo
A solidão mora lá e é manca
e usa bengala preta
e óculos no nariz
e se veste de uma veste que nunca muda
e tem na mão fechada a chave da
nossa libertação
Solidão solidão
meu coração é uma cidade
entre muralhas
esperando tuas chaves
Solidão solidão
certa vez em Mombaça
pedia esmolas pra São Sebastião
e desenhei teu corpo num surrão de mangas
e em bandas de coité de brejo
Desenhei teu corpo
num portão de vidro
éramos dois
que não eram dois
Éramos dois e só um sol
a claridade e seu dorso
a clara idade e sua dor
Solidão solidão
estamos em pleno mar e não
há mar nenhum
Estamos em pleno sono
e não há qualquer sonho
só minha mão como um rosto
cortando em muitos
o luar de agosto
O que dói na solidão é ter
Ter é estar preso
pesar pesadamente fixo
Não ter
é poder voar
Leve
levo-me às alturas
lavo-me candura
com o vôo esculpido
no azul azul
o azul está no prato
servido e sorvido
seres vivos
estamos nele
e ele em nós
pasto de pasto
repasto
solitariamente circular
rodando em torno da roda
A solidão eixa e deseixa
em roda
quanto mais vemos
menos vivemos
coração coração
Tenho ossos e mais ossos
a rodear
Que tenho feito senão rodear
nunca quebrei o fêmur do que está posto
nem a tíbia das situações sem jeito
Rodear é fugir
Solidade
quando chegamos ao trem
não havia trilho
No açude não havia água
só a dor do pesca/dor
dois meninos
engolindo uma duna
e uma duna engolindo um astro
uma foto de uma foto partida
onde o instante enterrou-se
A solidão é uma foto em que
se retorce
um inconformado instante
Solidão é desencontrar-se nos própios passos
nos próprios ossos
perder o azul do firmamento
deixar de extrair gerânios
das pedras e de suas raízes
deixar de pentear os raios do sol
desarredondar a lua em luares
atravessados
Uma casa é uma caixa
de apenas portas
e abertas todas
uma casa é um avesso
um delírio espesso
vasto berro de barro
vagido e gozo
vôo espargido
de sonho e suspiro
Minha solidão é nódoa grudada
no ombro esquerdo do corpo
onde jaz a mala
das minhas desventuras
Minha mãe é a terra
e cumpro seu estatuto
em retomar ao seu ventre
meus filhos todos me seguirão
vastíssimos sonhos
de/verão
Tarde tarde
a solidão me salga as horas
a mulher que retém o homem
suas asas e águas
rio seco
areia de leito
íngua cortada
ferida tratada a urina
caborge
no meu pescoço levo teu pescoço
teus passos laçados
teu poder de vôo
teu grito guardado
Solidão é Laura de costas
Laura láurea loura
minha querida Laura
chorarei lágrimas douradas
quando tua nudez
se esculpir no relâmpago
Querida Laura
recupera aquele instante
em que nossos dedos se
tocaram
e nos perdemos
Recupera o instante anterior ao toque
quando a correnteza era mais forte em mim
o despencar mais vertical
retendo aqui esse abismo
que me engole
Recupera teu pai
e a cuia
que enchamos de esperanças
antes do leite
Recupera tua mãe
e a chuva fina
no telhado
Recupera as águas
que nos levaram
e lavaram
nossos sais
o céu azul
o curto mundo
onde só o coração era vasto
Recupera as curvas
dos caminhos
Recupera o fogo de
monturo em nós
Se não me queimo
não posso iluminar
se não te firo
não extraio de ti o coração
"rosa vermelha
do meu bem querer"
Na noite tarde
o que resta é meu corpo lá
e eu daqui
olhando sua/minha posição fetal
e essa augústia de perdê-lo de vista
Não sei quando perderei
essa dor
de perder a casca
a casa do ser não importa tanto
se tantas se erguem
Só o ser é uno
solitariamente nu
e eu molusco
a vida inteira tenho construído essa casca
que me expele e me retém
escravo da construção
construir é viver
terminar a casa é terminar-me
é expulsar-me da casca construída
é tirar de mim o que me falta
O que faz doer a solidão
é sua sede
é ter que arrancar
destas entranhas
um oceano de pedridade
de quem freqüentou a escola das facas
onde o que corta não é o gume
mas a falta da lâmina
O que fere não é a dor
é sua ausência assassina
pendurada nos cabides da alma
O que dói na solidão
é ter que amar
e amar é perder uma banda
é extrair um bonde de um homem
é extrair um bosque de uma mulher
O que mais fere na solidão
é sua inscrição cravada em brasa
no braço inútil do verso
uma família em torno da mesa
comendo pratos de silêncio
O que mais dói na solidão
é perder de mim
os outros que carrego
o segundo contra o primeiro
o terceiro que instiga
o quarto que dorme
o quinto que inicia
uma infinidade de outros
O que dói na solidão
é essa batalha que não acaba mais
entre guerreiros invisíveis
enquanto um boi passeia nas nuvens
e uma bicicleta muge
já que os verdes anos foram nulos
para quem nasceu maduro
para quem perdeu o ciso
na primeira dentição
e o cordão umbilical
nos bicos de um galo cego
Ia prás bandas da Cipaúba
Quanto dói
ver a velha mangueira se desfazendo
velha velha mangueira
por quanto tempo roerei
teus nós
por quanto tempo aguardarei
a manga que os passarinhos
bicam
no último dos galhos
O que dói na solidão
é o vira-lata sozinho
revirando o deserto
da cidade esquecida nas ruas
é ter um pai com muitas capas
todas com seus mistérios
se desfazendo em barro
por um caminho que mespera
O que mais dói na solidão
é ter na mão uma chave
que nada abre
que nada abre
O que mais dói na solidão
é não se poderem conter
os fantasmas que teimam
em saltar das sombras
de cada canto
São essas cobras
passeando em nossa cabeça
serpentário infindável
Difícil conviver
com a inesgotável solidão
mais difícil mesmo
é compor o verso
sem a vaca no divã
triste luna
rodonoite
áspera/mente
Só mesmo a roda grande
sescondendo em menor roda
Só mesmo a bicicleta
pendurada no trem noturno
Só mesmo a melancia
no rio em cheia
boiando
E os carneiros na mesa grande boiando
os teus olhos boiando na bandeja
os teus seios boiando no cuscus
os teus sais boiando nas iguarias
os teus ais boiando na
rememóría
O que mais dói
não é tua ausência
mas tua presença
estando longe
Lembra-te pois do açude
onde as águas ainda nos guardam
e os peixes nos carpem
em lágrimas de cumplicidade
Lembra-te da porta marcada
pelos mistérios de estar fechada
da casa retendo a mesa onde
saboreávamos os silêncios familiares
e escrevíamos a história da solidão
no livro branco do cotidiádo
A solidão mora lá e é manca
e usa bengala preta
e óculos no nariz
e se veste de uma veste que nunca muda
e tem na mão fechada a chave da
nossa libertação
Solidão solidão
meu coração é uma cidade
entre muralhas
esperando tuas chaves
Solidão solidão
certa vez em Mombaça
pedia esmolas pra São Sebastião
e desenhei teu corpo num surrão de mangas
e em bandas de coité de brejo
Desenhei teu corpo
num portão de vidro
éramos dois
que não eram dois
Éramos dois e só um sol
a claridade e seu dorso
a clara idade e sua dor
Solidão solidão
estamos em pleno mar e não
há mar nenhum
Estamos em pleno sono
e não há qualquer sonho
só minha mão como um rosto
cortando em muitos
o luar de agosto
O que dói na solidão é ter
Ter é estar preso
pesar pesadamente fixo
Não ter
é poder voar
Leve
levo-me às alturas
lavo-me candura
com o vôo esculpido
no azul azul
o azul está no prato
servido e sorvido
seres vivos
estamos nele
e ele em nós
pasto de pasto
repasto
solitariamente circular
rodando em torno da roda
A solidão eixa e deseixa
em roda
quanto mais vemos
menos vivemos
coração coração
Tenho ossos e mais ossos
a rodear
Que tenho feito senão rodear
nunca quebrei o fêmur do que está posto
nem a tíbia das situações sem jeito
Rodear é fugir
Solidade
quando chegamos ao trem
não havia trilho
No açude não havia água
só a dor do pesca/dor
dois meninos
engolindo uma duna
e uma duna engolindo um astro
uma foto de uma foto partida
onde o instante enterrou-se
A solidão é uma foto em que
se retorce
um inconformado instante
Solidão é desencontrar-se nos própios passos
nos próprios ossos
perder o azul do firmamento
deixar de extrair gerânios
das pedras e de suas raízes
deixar de pentear os raios do sol
desarredondar a lua em luares
atravessados
Uma casa é uma caixa
de apenas portas
e abertas todas
uma casa é um avesso
um delírio espesso
vasto berro de barro
vagido e gozo
vôo espargido
de sonho e suspiro
Minha solidão é nódoa grudada
no ombro esquerdo do corpo
onde jaz a mala
das minhas desventuras
Minha mãe é a terra
e cumpro seu estatuto
em retomar ao seu ventre
meus filhos todos me seguirão
vastíssimos sonhos
de/verão
Tarde tarde
a solidão me salga as horas
a mulher que retém o homem
suas asas e águas
rio seco
areia de leito
íngua cortada
ferida tratada a urina
caborge
no meu pescoço levo teu pescoço
teus passos laçados
teu poder de vôo
teu grito guardado
Solidão é Laura de costas
Laura láurea loura
minha querida Laura
chorarei lágrimas douradas
quando tua nudez
se esculpir no relâmpago
Querida Laura
recupera aquele instante
em que nossos dedos se
tocaram
e nos perdemos
Recupera o instante anterior ao toque
quando a correnteza era mais forte em mim
o despencar mais vertical
retendo aqui esse abismo
que me engole
Recupera teu pai
e a cuia
que enchamos de esperanças
antes do leite
Recupera tua mãe
e a chuva fina
no telhado
Recupera as águas
que nos levaram
e lavaram
nossos sais
o céu azul
o curto mundo
onde só o coração era vasto
Recupera as curvas
dos caminhos
Recupera o fogo de
monturo em nós
Se não me queimo
não posso iluminar
se não te firo
não extraio de ti o coração
"rosa vermelha
do meu bem querer"
Na noite tarde
o que resta é meu corpo lá
e eu daqui
olhando sua/minha posição fetal
e essa augústia de perdê-lo de vista
Não sei quando perderei
essa dor
de perder a casca
a casa do ser não importa tanto
se tantas se erguem
Só o ser é uno
solitariamente nu
e eu molusco
a vida inteira tenho construído essa casca
que me expele e me retém
escravo da construção
construir é viver
terminar a casa é terminar-me
é expulsar-me da casca construída
1 029
Renato Rezende
[Troll]
Da importância de não se ter amigos
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
1 046
Sebastião Alba
Gosto dos amigos
Gosto dos amigos
Que modelam a vida
Sem interferir muito;
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E apõem, de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta.
Que modelam a vida
Sem interferir muito;
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E apõem, de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta.
1 254
Armindo Trevisan
Se Fosse Dia Amor
Se fosse dia Amor e o espinho rebentasse
da terra dos claros olhos da terra
e fosse espinho em silêncio no meio
das palavras e as palavras doessem
no lugar dos dedos onde a lisura da pele
estoura em rocio sob o casco dos cavalos
ah se fosse silêncio entre a carne
e o espírito e a flama cobrisse os lábios
e os nervos atrelassem ao sol as coisas
e elas ardessem na língua do mundo
eu te apertaria Amor contra uma nebulosa
e te extrairia da boca de Deus
quando Ele te soprou para a morte
em meus braços em meus braços cobertos
do musgo de mil outros braços.
da terra dos claros olhos da terra
e fosse espinho em silêncio no meio
das palavras e as palavras doessem
no lugar dos dedos onde a lisura da pele
estoura em rocio sob o casco dos cavalos
ah se fosse silêncio entre a carne
e o espírito e a flama cobrisse os lábios
e os nervos atrelassem ao sol as coisas
e elas ardessem na língua do mundo
eu te apertaria Amor contra uma nebulosa
e te extrairia da boca de Deus
quando Ele te soprou para a morte
em meus braços em meus braços cobertos
do musgo de mil outros braços.
943
António José Forte
Memorial
As tuas mãos que a tua mãe cortou
para exemplo duma cidade inteira
o teu nome que os teus irmãos gastaram
dia a dia e que por fim morreu
atravessado na tua própria garganta
as tuas pernas os teus cabelos percorridos
rato após rato tantos anos
durante tanta alegria que não era tua
os teus olhos mortos eles também
na primeira ocasião do teu amante
assim como as palavras ainda fumegando docemente
sob as pedras de silêncio que lhes atiraram para cima
o teu sexo os teus ombros
tudo finalmente soterrado
para descanso de todos
- mesmo dos que estavam ausentes
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
para exemplo duma cidade inteira
o teu nome que os teus irmãos gastaram
dia a dia e que por fim morreu
atravessado na tua própria garganta
as tuas pernas os teus cabelos percorridos
rato após rato tantos anos
durante tanta alegria que não era tua
os teus olhos mortos eles também
na primeira ocasião do teu amante
assim como as palavras ainda fumegando docemente
sob as pedras de silêncio que lhes atiraram para cima
o teu sexo os teus ombros
tudo finalmente soterrado
para descanso de todos
- mesmo dos que estavam ausentes
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
1 424
Artur Eduardo Benevides
Dos Mortos e de seus Veleiros Invisíveis
I
Os que vão morrer
não sabem o que é a morte.
Só os mortos são grandes. E fortes.
Artifícios não têm. Ou sarabandas.
E imóveis estão, em finíssimas varandas,
atrás dos vitrais de sua solidão.
O seu ficar-em-si
é como um espelho entrando num espelho
ou os reflexos da tarde num rubi.
Ninguém os turbará. Eles já são
iguais a velas, à noite, nos conventos,
ou a imóveis e puros pensamentos
ao brilho estelar das estações.
De seu sono nos vêm. Na realidade
são semáforos quase evanescentes
da verdade.
E todos estão
bem mais em nossa dor do que no chão.
II
Livres de mágoas ou de precisões,
ou do incessante ulular das multidões,
os mortos são iguais aos talismãs
ou aos ventos gemendo nas manhãs
sem saber que gemem.
Mesmo assim se cumprem. E vão
pelos entardeceres da canção
pondo o seu olhar que tudo diz
ao pé de um invisível chafariz.
E alguns são belos
como um vago cantar que não cantamos.
E se os lembramos,
há uma chuva lá fora, mesmo que não chova,
e tudo, semelhando alguém que nos socorra,
busca levar-nos aos seus mediterrâneos.
III
Os mortos nada pedem, mas pesam no silêncio
de sua ausência e pura transcendência.
Em seu vasto doer e solidão,
são versos exaustos da canção de velha serenata.
Em sua face inexata
tudo é exílio qual coche a se afastar
ao final de delírios,
tentando retornar.
Mas, para quê? Para onde?
O que lhes pertencia já em nós se esconde.
E em todas as salas do nosso infortúnio
crescem plenilúnios.
IV
Os mortos preservam-se. E prosseguem
com a força do frio em largos icebergs.
Seus gestos já desaconteceram,
mas alguns, de tão jovens, reamanheceram
como romãs nas árvores de Deus.
Outros, viraram camafeus
que senhoras carregam pregados as vestidos.
Muitos, contudo, permanecem esquecidos.
E a morte é noturna. É uma invisível urna
de cristal.
Ou um solo de órgão
em catedral.
E os mortos escutam sem medo
as chaconas que cobrem os dobres e segredos.
Alguns, às vezes, passam, em perdição,
e numa asa de canção
sorriem.
V
Ai, na morte
surpresas não há: só grandeza.
Acima do tempo ou das navegações,
ela alimenta a noite
em nossa dimensão.
É igual às crianças que jamais nasceram
ou não chegaram nunca com seu riso.
E num vôo, na tarde, se perderam
e só retomarão no Grande Juízo.
Virão tristes, alegres, ou caladas?
Ou ficarão para sempre encantadas?
Mas, alguns saem da paz dos ataúdes
seguindo os sons de estranhos alaúdes
que procuram endormir profundamente
as almas já cansadas.
VI
Eles não necessitam de relógios,
ou dos ruídos das solenidades.
São simples e belos, iguais à irrealidade
de seu silêncio sempre tão real.
Mesmo alados, estão paralisados
ante córregos imóveis a olhar
o Mar do mar.
E por eles choraram assírios e hebreus,
macedônios, caldeus e babilônios,
as mulheres de Esparta e os lutadores jônios,
ou as violas sensuais de Andaluzia
no final do dia.
Ou as cornamusas nas noites de Sião.
E tudo é solidão. Tudo são fráguas.
E o cadáver de Ofélia sobre as águas?
Os escravos de Jó? Ou os que em Jericó
feriram as cabeças junto aos muros
em momentos terríveis ou escuros?
E enquanto atravessamos lonjuras e fronteiras,
as chamas se apagam, lentas, nas fogueiras.
VII
Os mortos, nas camarinhas de sua hospedaria,
sustêm a ponte pênsil de longa travessia,
amarrando-a em réquiens e em gestos piedosos
daqueles que, au delà, esperam todo dia
seu nunca regressar.
E a verdade da morte, tão única e púnica?
Às vezes, é mais terrível do que um grito nas muralhas,
ao trágico esplendor de chamas e batalhas.
E tudo em silêncio e abandono cai,
nas tardes de Avignon, nas ruas de Xangai,
em terras de Espanha e areias de Portugal,
na Serra da Aratanha e no Canal
da Mancha. Ou em Bruxelas.
E o vento, soturno, bate nas janelas
enquanto a morte, sempre insaciada,
sorve o néctar que molha
os ramos, em alvoradas.
Oh, os mortos, nas arcas da história,
ou na obscura nudez de sua vã memória!
Quantos sonetos e epitáfios
gravados a seus pés!
De seu grande convés eles nos olham
a barlavento e a sotavento, além.
E continuam a olhar, às vezes com desdém,
e com tal força de convencimento,
que amadurecem qual grave pensamento
ante a visão do mar.
Tudo neles é um túnel
circular. Ou uma árvore
sem água e sem ar.
À luz de suas lanternas
a eternidade hiberna.
E é nossa missão cantar seu cantochão.
Ou mastigar, em nossa consciência,
as amêndoas amargas ou o sal
de sua inexistência.
VIII
Os mortos
(os únicos seres que não envelhecem)
chorados não sejam, mas amados.
Cada dia devemos imaginar
que eles de repente podem retornar.
E são iguais a borboletas no chifre de um bisão
ou a esquilos a saltar, nas sombras, sobre a vida,
enquanto os santos e os monges rezam
e o inverno aproxima-se fatal
como em despedida.
IX
Praticamos lágrimas.
Somos hóspedes
do fluir de vãs recordações.
E solitudes sentam-se em nós
e alteram nossa voz
como o vento da terra se altera nos verões.
Mas tudo, afinal, é um infindo
morrer. Um quefazer
sem fim. Ou um trampolim
de nada.
Não há sol entre os mortos.
Só lampadas de azeite
entre as brumas e os ócios
de seus vagos portos.
E as cores são baças. Ou lânguidas. E há
entre portões cinzentos uma indizível
paz.
Muito mais do que nós eles estão
completamente sós.
E não há notícias de novas madrugadas.
As portas estão entrecerradas.
E pelas frestas percebe-se lá fora
a triste beleza de sua imóvel aurora.
Os que vão morrer
não sabem o que é a morte.
Só os mortos são grandes. E fortes.
Artifícios não têm. Ou sarabandas.
E imóveis estão, em finíssimas varandas,
atrás dos vitrais de sua solidão.
O seu ficar-em-si
é como um espelho entrando num espelho
ou os reflexos da tarde num rubi.
Ninguém os turbará. Eles já são
iguais a velas, à noite, nos conventos,
ou a imóveis e puros pensamentos
ao brilho estelar das estações.
De seu sono nos vêm. Na realidade
são semáforos quase evanescentes
da verdade.
E todos estão
bem mais em nossa dor do que no chão.
II
Livres de mágoas ou de precisões,
ou do incessante ulular das multidões,
os mortos são iguais aos talismãs
ou aos ventos gemendo nas manhãs
sem saber que gemem.
Mesmo assim se cumprem. E vão
pelos entardeceres da canção
pondo o seu olhar que tudo diz
ao pé de um invisível chafariz.
E alguns são belos
como um vago cantar que não cantamos.
E se os lembramos,
há uma chuva lá fora, mesmo que não chova,
e tudo, semelhando alguém que nos socorra,
busca levar-nos aos seus mediterrâneos.
III
Os mortos nada pedem, mas pesam no silêncio
de sua ausência e pura transcendência.
Em seu vasto doer e solidão,
são versos exaustos da canção de velha serenata.
Em sua face inexata
tudo é exílio qual coche a se afastar
ao final de delírios,
tentando retornar.
Mas, para quê? Para onde?
O que lhes pertencia já em nós se esconde.
E em todas as salas do nosso infortúnio
crescem plenilúnios.
IV
Os mortos preservam-se. E prosseguem
com a força do frio em largos icebergs.
Seus gestos já desaconteceram,
mas alguns, de tão jovens, reamanheceram
como romãs nas árvores de Deus.
Outros, viraram camafeus
que senhoras carregam pregados as vestidos.
Muitos, contudo, permanecem esquecidos.
E a morte é noturna. É uma invisível urna
de cristal.
Ou um solo de órgão
em catedral.
E os mortos escutam sem medo
as chaconas que cobrem os dobres e segredos.
Alguns, às vezes, passam, em perdição,
e numa asa de canção
sorriem.
V
Ai, na morte
surpresas não há: só grandeza.
Acima do tempo ou das navegações,
ela alimenta a noite
em nossa dimensão.
É igual às crianças que jamais nasceram
ou não chegaram nunca com seu riso.
E num vôo, na tarde, se perderam
e só retomarão no Grande Juízo.
Virão tristes, alegres, ou caladas?
Ou ficarão para sempre encantadas?
Mas, alguns saem da paz dos ataúdes
seguindo os sons de estranhos alaúdes
que procuram endormir profundamente
as almas já cansadas.
VI
Eles não necessitam de relógios,
ou dos ruídos das solenidades.
São simples e belos, iguais à irrealidade
de seu silêncio sempre tão real.
Mesmo alados, estão paralisados
ante córregos imóveis a olhar
o Mar do mar.
E por eles choraram assírios e hebreus,
macedônios, caldeus e babilônios,
as mulheres de Esparta e os lutadores jônios,
ou as violas sensuais de Andaluzia
no final do dia.
Ou as cornamusas nas noites de Sião.
E tudo é solidão. Tudo são fráguas.
E o cadáver de Ofélia sobre as águas?
Os escravos de Jó? Ou os que em Jericó
feriram as cabeças junto aos muros
em momentos terríveis ou escuros?
E enquanto atravessamos lonjuras e fronteiras,
as chamas se apagam, lentas, nas fogueiras.
VII
Os mortos, nas camarinhas de sua hospedaria,
sustêm a ponte pênsil de longa travessia,
amarrando-a em réquiens e em gestos piedosos
daqueles que, au delà, esperam todo dia
seu nunca regressar.
E a verdade da morte, tão única e púnica?
Às vezes, é mais terrível do que um grito nas muralhas,
ao trágico esplendor de chamas e batalhas.
E tudo em silêncio e abandono cai,
nas tardes de Avignon, nas ruas de Xangai,
em terras de Espanha e areias de Portugal,
na Serra da Aratanha e no Canal
da Mancha. Ou em Bruxelas.
E o vento, soturno, bate nas janelas
enquanto a morte, sempre insaciada,
sorve o néctar que molha
os ramos, em alvoradas.
Oh, os mortos, nas arcas da história,
ou na obscura nudez de sua vã memória!
Quantos sonetos e epitáfios
gravados a seus pés!
De seu grande convés eles nos olham
a barlavento e a sotavento, além.
E continuam a olhar, às vezes com desdém,
e com tal força de convencimento,
que amadurecem qual grave pensamento
ante a visão do mar.
Tudo neles é um túnel
circular. Ou uma árvore
sem água e sem ar.
À luz de suas lanternas
a eternidade hiberna.
E é nossa missão cantar seu cantochão.
Ou mastigar, em nossa consciência,
as amêndoas amargas ou o sal
de sua inexistência.
VIII
Os mortos
(os únicos seres que não envelhecem)
chorados não sejam, mas amados.
Cada dia devemos imaginar
que eles de repente podem retornar.
E são iguais a borboletas no chifre de um bisão
ou a esquilos a saltar, nas sombras, sobre a vida,
enquanto os santos e os monges rezam
e o inverno aproxima-se fatal
como em despedida.
IX
Praticamos lágrimas.
Somos hóspedes
do fluir de vãs recordações.
E solitudes sentam-se em nós
e alteram nossa voz
como o vento da terra se altera nos verões.
Mas tudo, afinal, é um infindo
morrer. Um quefazer
sem fim. Ou um trampolim
de nada.
Não há sol entre os mortos.
Só lampadas de azeite
entre as brumas e os ócios
de seus vagos portos.
E as cores são baças. Ou lânguidas. E há
entre portões cinzentos uma indizível
paz.
Muito mais do que nós eles estão
completamente sós.
E não há notícias de novas madrugadas.
As portas estão entrecerradas.
E pelas frestas percebe-se lá fora
a triste beleza de sua imóvel aurora.
1 364
Renato Rezende
[Abgrund]
Tudo vale a pena
Tout enfant, j’ai senti dans mon coeur deux sentiments
contradictoires: l’horreur de la vie et l’extase de la vie.
Abyssus infinitudinis
Imagino usar sempre um hábito azul.
Caitanya Atman
Tudo é consciência
Caitanya Caitanya
A poesia em chamas
incapaz de explicar sua própria estranheza
[Poesia]
Arrombar a roda da linguagem.
UM DIA EU SILENCIO
Eu confundo vida e morte?
A morte não é.
Volta: um salto para a terra.
A linguagem são todas as máscaras.
O silêncio profundo é essa balbúrdia.
Poesia:
Eu me enlaço com o mundo pelo amor.
O prazer aos porcos, eu quero o amor.
Tudo o que está acontecendo não está acontecendo comigo.
(escrevo no escuro, olhos atentos, sem enxergar nada
no leito do papel
sombras)
Abyssus infinitudinis
A sensação de que todo o meu dia—toda a minha vida—está sendo mastigada, na boca, e depois regurgitada: enfim apta para ser vivida.
como se purificada, humanizada, feita ouro
Em casa, uma coleção de bocas
dentes
pernas
olhos
(a coisa mais linda
são olhos de gente)
ninguém de fato existe—fragmentos
coletados
colados por algum tempo, só aparência
o conteúdo é sempre o mesmo
cacos de espelho
o mundo inteiro meu espelho
eu não sou inteligente.
A inteligência é que pousa em mim, pensando.
O pensamento é que se pensa.
Sou todas as Consciências.
Doidivanas
Indivíduo imprudente, estouvado; adoidado, doidelo, girolas.
E agora?
Cala a boca e trabalha.
[Cala a boca e ama]
Tout enfant, j’ai senti dans mon coeur deux sentiments
contradictoires: l’horreur de la vie et l’extase de la vie.
Abyssus infinitudinis
Imagino usar sempre um hábito azul.
Caitanya Atman
Tudo é consciência
Caitanya Caitanya
A poesia em chamas
incapaz de explicar sua própria estranheza
[Poesia]
Arrombar a roda da linguagem.
UM DIA EU SILENCIO
Eu confundo vida e morte?
A morte não é.
Volta: um salto para a terra.
A linguagem são todas as máscaras.
O silêncio profundo é essa balbúrdia.
Poesia:
Eu me enlaço com o mundo pelo amor.
O prazer aos porcos, eu quero o amor.
Tudo o que está acontecendo não está acontecendo comigo.
(escrevo no escuro, olhos atentos, sem enxergar nada
no leito do papel
sombras)
Abyssus infinitudinis
A sensação de que todo o meu dia—toda a minha vida—está sendo mastigada, na boca, e depois regurgitada: enfim apta para ser vivida.
como se purificada, humanizada, feita ouro
Em casa, uma coleção de bocas
dentes
pernas
olhos
(a coisa mais linda
são olhos de gente)
ninguém de fato existe—fragmentos
coletados
colados por algum tempo, só aparência
o conteúdo é sempre o mesmo
cacos de espelho
o mundo inteiro meu espelho
eu não sou inteligente.
A inteligência é que pousa em mim, pensando.
O pensamento é que se pensa.
Sou todas as Consciências.
Doidivanas
Indivíduo imprudente, estouvado; adoidado, doidelo, girolas.
E agora?
Cala a boca e trabalha.
[Cala a boca e ama]
698
Xavier Villaurrutia
Noturno em que nada se ouve
Em meio a um silêncio deserto como a rua antes do crime
sem sequer respirar para que nada turve minha morte
nesta solidão sem paredes
no momento em que fugiram os ângulos
na tumba do leito deixo minha estátua sem sangue
para sair em um instante tão lento
em uma descida interminável
sem braços para estender
sem dedos para alcançar a escala que cai de um piano invisível
sem nada mais que um olhar e uma voz
que não se lembram de ter saído de olhos e lábios
o que são lábios? que são olhares que são lábios?
E minha voz já não é minha
dentro da água que não molha
dentro do ar de vidro
dentro do fogo pálido que corta como o grito
E no jogo angustiante de um espelho perante outro
cai minha voz
e minha voz que madura
e minha voz queimadura
e minha foz que matura
e minha voz queima dura
como o gelo de vidro
como o grito de gelo
aqui no caracol da orelha
no latido de um mar no qual não sei nada
no qual não se nada
porque deixei pés e braços na areia
sinto cair fora de mim a rede dos meus nervos
mas tudo foge como o peixe que se dá conta
até cem no pulso das minhas têmporas
telegrafia muda à qual ninguém responde
porque o sonho e a morte já nada têm a se dizerem
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Nocturno en que nada se oye
Xavier Villaurrutia
En medio de un silencio desierto como la calle antes del crimen
sin respirar siquiera para que nada turbe mi muerte
en esta soledad sin paredes
al tiempo que huyeron los ángulos
en la tumba del lecho dejo mi estatua sin sangre
para salir en un momento tan lento
en un interminable descenso
sin brazos que tender
sin dedos para alcanzar la escala que cae de un piano invisible
sin más que una mirada y una voz
que no recuerdan haber salido de ojos y labios
¿qué son labios? ¿qué son miradas que son labios?
Y mi voz ya no es mía
dentro del agua que no moja
dentro del aire de vidrio
dentro del fuego lívido que corta como el grito
Y en el juego angustioso de un espejo frente a otro
cae mi voz
y mi voz que madura
y mi voz quemadura
y mi bosque madura
y mi voz quema dura
como el hielo de vidrio
como el grito de hielo
aquí en el caracol de la oreja
el latido de un mar en el que no sé nada
en el que no se nada
porque he dejado pies y brazos en la orilla
siento caer fuera de mí la red de mis nervios
mas huye todo como el pez que se da cuenta
hasta ciento en el pulso de mis sienes
muda telegrafía a la que nadie responde
porque el sueño y la muerte nada tienen ya que decirse.
.
.
.
sem sequer respirar para que nada turve minha morte
nesta solidão sem paredes
no momento em que fugiram os ângulos
na tumba do leito deixo minha estátua sem sangue
para sair em um instante tão lento
em uma descida interminável
sem braços para estender
sem dedos para alcançar a escala que cai de um piano invisível
sem nada mais que um olhar e uma voz
que não se lembram de ter saído de olhos e lábios
o que são lábios? que são olhares que são lábios?
E minha voz já não é minha
dentro da água que não molha
dentro do ar de vidro
dentro do fogo pálido que corta como o grito
E no jogo angustiante de um espelho perante outro
cai minha voz
e minha voz que madura
e minha voz queimadura
e minha foz que matura
e minha voz queima dura
como o gelo de vidro
como o grito de gelo
aqui no caracol da orelha
no latido de um mar no qual não sei nada
no qual não se nada
porque deixei pés e braços na areia
sinto cair fora de mim a rede dos meus nervos
mas tudo foge como o peixe que se dá conta
até cem no pulso das minhas têmporas
telegrafia muda à qual ninguém responde
porque o sonho e a morte já nada têm a se dizerem
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Nocturno en que nada se oye
Xavier Villaurrutia
En medio de un silencio desierto como la calle antes del crimen
sin respirar siquiera para que nada turbe mi muerte
en esta soledad sin paredes
al tiempo que huyeron los ángulos
en la tumba del lecho dejo mi estatua sin sangre
para salir en un momento tan lento
en un interminable descenso
sin brazos que tender
sin dedos para alcanzar la escala que cae de un piano invisible
sin más que una mirada y una voz
que no recuerdan haber salido de ojos y labios
¿qué son labios? ¿qué son miradas que son labios?
Y mi voz ya no es mía
dentro del agua que no moja
dentro del aire de vidrio
dentro del fuego lívido que corta como el grito
Y en el juego angustioso de un espejo frente a otro
cae mi voz
y mi voz que madura
y mi voz quemadura
y mi bosque madura
y mi voz quema dura
como el hielo de vidrio
como el grito de hielo
aquí en el caracol de la oreja
el latido de un mar en el que no sé nada
en el que no se nada
porque he dejado pies y brazos en la orilla
siento caer fuera de mí la red de mis nervios
mas huye todo como el pez que se da cuenta
hasta ciento en el pulso de mis sienes
muda telegrafía a la que nadie responde
porque el sueño y la muerte nada tienen ya que decirse.
.
.
.
967
Lois Pereiro
Somentes
Somentes
intentaba conseguir
deixar na terra
algo de min que me sobrevivise
sabendo que deberia ter sabido
impedirme a min mesmo
descubrir que só fun un interludio
atroz entre dous muros de silencio
só puiden evitar vivindo á sombra
inocularlle para sempre a quen amaba
doses letais do amor que envelenaba
a súa alma cunha dor eterna
sustituíndo o desexo polo exilio
iniciei a viaxe sen retorno
deixándome levar sen resistencia
ó fondo dunha interna
aniquilación chea de nostalxia.
intentaba conseguir
deixar na terra
algo de min que me sobrevivise
sabendo que deberia ter sabido
impedirme a min mesmo
descubrir que só fun un interludio
atroz entre dous muros de silencio
só puiden evitar vivindo á sombra
inocularlle para sempre a quen amaba
doses letais do amor que envelenaba
a súa alma cunha dor eterna
sustituíndo o desexo polo exilio
iniciei a viaxe sen retorno
deixándome levar sen resistencia
ó fondo dunha interna
aniquilación chea de nostalxia.
1 208
Maria Ângela Alvim
enquanto a vida
Só, — enquanto a vida
mais distante esmaecia
e prosseguir — tão só — era oriente
(o caminho é sem retorno, se não existe
nenhum instinto além que o reconheça,
e o passo gratuito pronto ignora
o outro passo)
só, eu prosseguia.
Num fim remoto, silêncio ensurdecera
— quem sabe a paz, memória resignada
que tantos sentidos deslembraram?
Quem sabe o adeus de um deus que se prepara?
E, sem saber,
num espaço meu
ou de loucura,
— só, estranha em mim,
eu regressava.
.
.
.
mais distante esmaecia
e prosseguir — tão só — era oriente
(o caminho é sem retorno, se não existe
nenhum instinto além que o reconheça,
e o passo gratuito pronto ignora
o outro passo)
só, eu prosseguia.
Num fim remoto, silêncio ensurdecera
— quem sabe a paz, memória resignada
que tantos sentidos deslembraram?
Quem sabe o adeus de um deus que se prepara?
E, sem saber,
num espaço meu
ou de loucura,
— só, estranha em mim,
eu regressava.
.
.
.
733
Daniel Faria
Procuro o trânsito
Procuro o trânsito de um homem que repousa em ti
Como se desvia um homem do seu coração para seguir viagem
Como deixa ficar tudo e acrescenta à sua herança
Procuro conhecer os símbolos, os marcos miliares
Diurnos, como se lêem
Sinais de fumo e o ângulo dos pombos – e todas as coisas
Que nos chegam da distância
Procuro saber como se fecham os pés dentro dos teus
Percursos
Como se põe descalço um homem que necessita
De atravessar-se
E desejo outra vez desdobrada a tua palavra cheia
De estrelas
Para que as recorte, para que as ponha no silêncio
Vivas
Na minha boca e nas minhas mãos
Em chamas
Como se desvia um homem do seu coração para seguir viagem
Como deixa ficar tudo e acrescenta à sua herança
Procuro conhecer os símbolos, os marcos miliares
Diurnos, como se lêem
Sinais de fumo e o ângulo dos pombos – e todas as coisas
Que nos chegam da distância
Procuro saber como se fecham os pés dentro dos teus
Percursos
Como se põe descalço um homem que necessita
De atravessar-se
E desejo outra vez desdobrada a tua palavra cheia
De estrelas
Para que as recorte, para que as ponha no silêncio
Vivas
Na minha boca e nas minhas mãos
Em chamas
1 227
Francesca Angiolillo
Parêntesis
(um beijo roubado em uma
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)
Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)
Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
572
János Pilinszky
Paixão de Ravensbrück
Sai das fileiras e detém-
-se no silêncio carregado.
Vibram, como no écran, seu crânio
raspado e as roupas de forçado.
Está medonhamente só.
Podem-se ver seus poros. Tudo
de seu parece tão imenso.
Tudo de seu – tão diminuto.
Apenas isto. Quanto ao resto,
o resto, nada singular,
foi, antes de cair por terra,
ter se esquecido de gritar.
(tradução de Nelson Ascher)
:
Ravensbrücki passió
Kilép a többiek közul,
megáll a kockacsendben,
mint vetitett kép hunyorog
rabruha és fegyencfej.
Félelmetesen maga van,
a pórusait látni,
mindene olyan óriás,
mindene oly parányi.
És nincs tovább. A többi már,
a többi annyi volt csak,
elfelejtett kiáltani
mielott földre roskadt.
387
Angela Santos
Os Nomes das Coisas
Inventamos
nomes que se colam às coisas
e para tudo coisa é nome,
palavras que são coisas,
as coisas nas palavras
Rasgamos o ser imprimindo sentido
àquilo que é,
como quem espalha
sinais pelos caminhos
para não se perder
Sons são as palavras
sentido e busca também
e coisificamos para tornar palpável
aquilo vemos, isso que sentimos
e o que somos até
Mas é no silêncio
no ficar atento , perscrutando o que vem,
que de manso chega a elemental voz
eterno exercício desnudando as coisas
de vestes e adornos
para ficar diante da total nudez.
Se o silêncio chega
o que nele buscamos é, quem sabe, ainda
o sentido fundado no inexpressivo
ao reinventar o nome das coisas
que nos desafiam a descer
ao âmago de tudo o que é.
Será na fundura ou na superfície
que desocultamos a razão de ser ?
nomes que se colam às coisas
e para tudo coisa é nome,
palavras que são coisas,
as coisas nas palavras
Rasgamos o ser imprimindo sentido
àquilo que é,
como quem espalha
sinais pelos caminhos
para não se perder
Sons são as palavras
sentido e busca também
e coisificamos para tornar palpável
aquilo vemos, isso que sentimos
e o que somos até
Mas é no silêncio
no ficar atento , perscrutando o que vem,
que de manso chega a elemental voz
eterno exercício desnudando as coisas
de vestes e adornos
para ficar diante da total nudez.
Se o silêncio chega
o que nele buscamos é, quem sabe, ainda
o sentido fundado no inexpressivo
ao reinventar o nome das coisas
que nos desafiam a descer
ao âmago de tudo o que é.
Será na fundura ou na superfície
que desocultamos a razão de ser ?
994
John Berryman
55
Peter não é amigável. Dá-me olhares de soslaio.
A arquitetura está longe de reconfortar.
Sinto-me inquieto.
É pena,-- a entrevista começou tão bem:
mencionei coisas vilanescas, ele mandou-as embora
e malpreparou um martini
estranhamente precisado. Tratamos de assuntos indiferentes --
a saúde de Deus, o vago inferno do Congo,
a energia de John,
questões de anti-matéria. Senti-me bem.
Mas veio uma mudança trás para frente. Caiu um frio.
A conversa ralentou,
morreu, e ele começou com os olhares de soslaio.
'Cristo', pensei, 'e agora?' e bem teria pedido mais um
mas não ousei.
Senti que minha petição fracassava. Está escurecendo,
um outro som se sobrepondo. Suas últimas palavras foram:
'Nós traímos a mim'.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 55
John Berryman
Peter's not friendly. He gives me sideways looks.
The architecture is far from reassuring.
I feel uneasy.
A pity, -- the interview began so well:
I mentioned fiendish things, he waved them away
and sloshed out a martini
strangely needed. We spoke of indifferent matters --
God's health, the vague hell of the Congo,
John's energy,
anti-matter matter. I felt fine.
Then a change came backward. A chill fell.
Talk slackened,
died, and he began giving me sideways looks.
'Christ', I thought, 'what now?” and would have askt for another
but didn't dare.
I feel my application failing. It's growing dark,
some other sound is overcoming. His last words are:
'We betrayed me'.
A arquitetura está longe de reconfortar.
Sinto-me inquieto.
É pena,-- a entrevista começou tão bem:
mencionei coisas vilanescas, ele mandou-as embora
e malpreparou um martini
estranhamente precisado. Tratamos de assuntos indiferentes --
a saúde de Deus, o vago inferno do Congo,
a energia de John,
questões de anti-matéria. Senti-me bem.
Mas veio uma mudança trás para frente. Caiu um frio.
A conversa ralentou,
morreu, e ele começou com os olhares de soslaio.
'Cristo', pensei, 'e agora?' e bem teria pedido mais um
mas não ousei.
Senti que minha petição fracassava. Está escurecendo,
um outro som se sobrepondo. Suas últimas palavras foram:
'Nós traímos a mim'.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 55
John Berryman
Peter's not friendly. He gives me sideways looks.
The architecture is far from reassuring.
I feel uneasy.
A pity, -- the interview began so well:
I mentioned fiendish things, he waved them away
and sloshed out a martini
strangely needed. We spoke of indifferent matters --
God's health, the vague hell of the Congo,
John's energy,
anti-matter matter. I felt fine.
Then a change came backward. A chill fell.
Talk slackened,
died, and he began giving me sideways looks.
'Christ', I thought, 'what now?” and would have askt for another
but didn't dare.
I feel my application failing. It's growing dark,
some other sound is overcoming. His last words are:
'We betrayed me'.
736
Angela Santos
Gestação
De
silêncio
também se faz o canto
gestação da palavra nunca dita
que à obscuridade a luz traz
e o esquecimento transfigura
em que lugar
o prenhe ventre gera
o milagre da palavra?
silêncio
também se faz o canto
gestação da palavra nunca dita
que à obscuridade a luz traz
e o esquecimento transfigura
em que lugar
o prenhe ventre gera
o milagre da palavra?
1 079
Carlos Nogueira Fino
mesmo que o silêncio
mesmo que o silêncio seja este zumbido
que suporta o ruído das páginas
já muito antes no coração as folhas
tombavam na corrente sem dizerem nada
e sobre a sua morte aconteciam as árvores
futuras
vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas
que suporta o ruído das páginas
já muito antes no coração as folhas
tombavam na corrente sem dizerem nada
e sobre a sua morte aconteciam as árvores
futuras
vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas
828
Carlos Nogueira Fino
indicação do lugar
chegamos a uma página em branco atravessada por
um súbito silêncio uníssono
o rio é uma dobra do olhar onde sempre estivemos em surdina
é o exacto lugar
indiciador dos músculos
quem ousa escancarar as portas à cidade
um súbito silêncio uníssono
o rio é uma dobra do olhar onde sempre estivemos em surdina
é o exacto lugar
indiciador dos músculos
quem ousa escancarar as portas à cidade
973
Álvaro Moreyra
Elegia da Bruma
Réquiem do Pôr-do-Sol... A Tarde ajoelha e canta,
num mistério augural de cinza e de ouro vivo...
E o hospital, sob a Tarde, entre Árvores, levanta
o seu vulto de pedra, estranho e pensativo...
Ao incenso do Ocaso, a Paisagem parece
movimentar-se, orando, em gestos musicais...
É o silêncio que entoa harmonias de Prece
com a ignota orquestração dos mudos Vegetais...
Passos batem a estrada... E pela estrada, agora,
seguem ranchos buscando o sossego das casas...
Desaparecem... Vão... E ao misticismo da hora,
no ar silente, em quietude, andam saudades de Asas...
A escuridão aumenta... E há vozes... algazarras...
Das águas-verdes cresce um rouco cantochão...
Trilam grilos... E ao alto, as primeiras cigarras
despertam, respondendo... Aumenta a escuridão...
Súbito, em derredor, tudo se cala... E adiante,
ermo, queda o hospital como quem está ouvindo...
O Plenilúnio surge, em êxtase, distante,
branco, a Terra a abençoar... Vai subindo... subindo...
E à alva bênção da Luz, os contornos avultam
na precisão da Linha — hartos, a destacar...
Começa a Noite... E o Sono... E os Sonhos que sepultam
a Tristeza-da-Vida aos que podem sonhar...
E quando a claridade, em chapa, de repente,
cai sobre a frontaria, e a asperge, e a envolve, ondeando,
geme um órgão lá dentro, enevoado, dolente,
como se fora o Luar que estivesse tocando...
A Alma da Terra fala à vibração da Terra...
Espasmos de sofrer!... A Dor a sete tons!...
E ascende... e afunda... e ecoa... e pelos longes erra
um ritmo nebuloso, onde há sombras de sons...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: ZILBERMAN, Regina. Álvaro Moreyra. 2.ed. Porto Alegre: IEL, 1990. p.22-23. (Letras rio-grandenses
num mistério augural de cinza e de ouro vivo...
E o hospital, sob a Tarde, entre Árvores, levanta
o seu vulto de pedra, estranho e pensativo...
Ao incenso do Ocaso, a Paisagem parece
movimentar-se, orando, em gestos musicais...
É o silêncio que entoa harmonias de Prece
com a ignota orquestração dos mudos Vegetais...
Passos batem a estrada... E pela estrada, agora,
seguem ranchos buscando o sossego das casas...
Desaparecem... Vão... E ao misticismo da hora,
no ar silente, em quietude, andam saudades de Asas...
A escuridão aumenta... E há vozes... algazarras...
Das águas-verdes cresce um rouco cantochão...
Trilam grilos... E ao alto, as primeiras cigarras
despertam, respondendo... Aumenta a escuridão...
Súbito, em derredor, tudo se cala... E adiante,
ermo, queda o hospital como quem está ouvindo...
O Plenilúnio surge, em êxtase, distante,
branco, a Terra a abençoar... Vai subindo... subindo...
E à alva bênção da Luz, os contornos avultam
na precisão da Linha — hartos, a destacar...
Começa a Noite... E o Sono... E os Sonhos que sepultam
a Tristeza-da-Vida aos que podem sonhar...
E quando a claridade, em chapa, de repente,
cai sobre a frontaria, e a asperge, e a envolve, ondeando,
geme um órgão lá dentro, enevoado, dolente,
como se fora o Luar que estivesse tocando...
A Alma da Terra fala à vibração da Terra...
Espasmos de sofrer!... A Dor a sete tons!...
E ascende... e afunda... e ecoa... e pelos longes erra
um ritmo nebuloso, onde há sombras de sons...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: ZILBERMAN, Regina. Álvaro Moreyra. 2.ed. Porto Alegre: IEL, 1990. p.22-23. (Letras rio-grandenses
2 006
Menotti del Picchia
Germinal - 1
Nuvens voam pelo ar como bandos de garças.
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro apruma-se a bandeira
de S. João desfraldando o seu alvo losango.
Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.
Vem na tarde que expira e na voz de um curiango
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.
No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e num magote escuro a manada se abisma
na treva.
Anoiteceu.
Juca Mulato cisma.
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.17. (Prestígio
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro apruma-se a bandeira
de S. João desfraldando o seu alvo losango.
Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.
Vem na tarde que expira e na voz de um curiango
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.
No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e num magote escuro a manada se abisma
na treva.
Anoiteceu.
Juca Mulato cisma.
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.17. (Prestígio
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Antônio Brasileiro
Estudo 30
1.
Uma cidade não é feita de sonhos,
mas de remorsos. E doem.
Não contarei pois um tempo onde
cavalos marinhos, tramas da noite.
Nosso tempo é assim: seco e compulsório.
2.
A morte dos dias nos
rastros que os olhos cultivam
as lições do acrílico.
O acrílico:
brando golpe de morte
colorido.
3.
Os homens não falam: blablam.
(a boca livre de qualquer minério
ou pedra traumatória —
não há mais bridas, houve. Agora:
hábito)
Nenhuma palavra esquerza: elas ardem.
(não, agora não ardem mais —
a boca livre: o hábito
adocicado)
Uma cidade não é feita de sonhos,
mas de remorsos. E doem.
Não contarei pois um tempo onde
cavalos marinhos, tramas da noite.
Nosso tempo é assim: seco e compulsório.
2.
A morte dos dias nos
rastros que os olhos cultivam
as lições do acrílico.
O acrílico:
brando golpe de morte
colorido.
3.
Os homens não falam: blablam.
(a boca livre de qualquer minério
ou pedra traumatória —
não há mais bridas, houve. Agora:
hábito)
Nenhuma palavra esquerza: elas ardem.
(não, agora não ardem mais —
a boca livre: o hábito
adocicado)
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