Silêncio
Isabel Mendes Ferreira
emagrecer o movimento
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(em desfeito pano de sons e poeiras. pontos redondos na anca do sono. onde a natureza é cometa e declive.) e o contrário continua a ser
uma frase de entendimento. aberta à essência dos conflitos.
Isabel Mendes Ferreira
daqui não partem
amarrados a um destino de névoas e de lâminas. como fado
ou luminoso adeus adentro da música..
aqui só o silêncio indígeno que prende a alma ao corpo e este à sombra.
____________________embate de universos dentro de pequenos barcos. como estrelas ou antúrios.
__________________trânsito cego no mar amoroso que sangrante e febril é alegria e cartilagem de ave.
daqui não partem. aterram ossos.
ascendem anjos. mudos. falsos navios no olhar. narrativas de escarpas .
muros que não desvendo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Activista Cultural
O ouvido não ouve a flauta da penumbra
Nem reconhece o silêncio
O pensamento nada sabe dos labirintos do tempo
O olhar toma nota e não vê
Sophia de Mello Breyner Andresen
Goesa
E brisas subtis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada
Joaquim Cardozo
Território entre o Gesto e a Palavra
Marcas de mortas visões; tentativas, indecisões, regozijos,
Entre o gesto e a palavra. Território:
Um silêncio, um gemido, um esforço imaturo
Possibilidade de um grito, modulação de uma dor.
— Ritmos mais doces que os das águas,
— Ternuras mais íntimas que as do amor
Entre o gesto e a palavra. Território
Onde as idéias se ocultam e os pensamentos se perdem
Os conceitos se escondem, os problemas se dissolvem
Entre o gesto e a palavra. Território.
— Os problemas da escolha, os princípios;
Transcendências: transparências, mediante
Uma luz que não se acende, existem
No território contido entre o gesto e a palavra.
— Um axioma, um lema, um versículo, um fonema,
Uma ameaça, uma tolice, o som velar, o eco,
Talvez a estátua de uma atitude.
Estão no campo depois do gesto
E antes da palavra.
Também estás para mim, amiga, entre esses dois expressivos
Entre alguma coisa de mímico ou de sonoro
Alguma coisa que é aceno ou que é voz:
Entre o de mim e o de ti: Tu estou
Tu vivo
Tu falo
Tu choro
Estás, mesmo que entre nós dois não exista
Um aparato gramático — uma sentença verdadeira
— ou uma síntese poética
Ilusória expressão com que se conformam os ingênuos —
Mesmo que a palavra se reduza a simples gesto verbal
Entre o gesto e este gesto há um infinito real.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.207-208. Poema integrante da série Mundos Paralelos
Vinicius de Moraes
O Tempo Nos Parques
Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira
Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.
O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos
Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques
Oculta-se no torso muscular dos fícus, o tempo nos parques.
O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.
O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.
Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura
Nos parques; e a pequenina cutia surpreende
A imobilidade anterior desse tempo no mundo
Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
É o tempo nos parques.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Narciso
Outro Narciso em busca do retrato.
29 de Novembro de 1949
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noite
E encontramos um silêncio imenso,
Um silêncio perfeito que nos esperava desde sempre.
E uma solidão que era a nossa imagem,
E uma profunda esperança,
Como se a noite tremesse
De tocar a aurora.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tudo É Nu E As Estátuas Ressuscitam
Extinção das vozes que se cruzam
E se perdem na agonia como o vento.
Estátuas lisas, puras, cegas,
Estátuas de gestos imprevisíveis
No ar sem movimento.
Vinicius de Moraes
Balanço do Filho Morto
Sentado na cadeira de balanço
Na cadeira de balanço
De balanço
Balanço do filho morto.
Homem sentado na cadeira de balanço
Todo o teu corpo diz que sim
Teu corpo diz que sim
Diz que sim
Que sim, teu filho está morto.
Homem sentado na cadeira de balanço
Como um pêndulo, para lá e para cá
O pescoço fraco, a perna triste
Os olhos cheios de areia
Areia do filho morto.
Nada restituirá teu filho à vida
Homem sentado na cadeira de balanço
Tua meia caída, tua gravata
Sem nó, tua barba grande
São a morte
são a morte
A morte do filho morto.
Silêncio de uma sala: e flores murchas.
Além um pranto frágil de mulher
Um pranto... o olhar aberto sobre o vácuo
E no silêncio a sensação exata
Da voz, do riso, do reclamo débil.
Da órbita cega os olhos dolorosos
Fogem, moles, se arrastam como lesmas
Empós a doce, inexistente marca
Do vômito, da queda, da mijada.
Do braço foge a tresloucada mão
Para afagar a imponderável luz
De um cabelo sem som e sem perfume.
Fogem da boca lábios pressurosos
Para o beijo incolor na pele ausente.
Nascem ondas de amor que se desfazem
De encontro à mesa, à estante, à pedra mármore.
Outra coisa não há senão o silêncio
Onde com pés de gelo uma criança
Brinca, perfeitamente transparente
Sua carne de leite, rosa e talco.
Pobre pai, pobre, pobre, pobre, pobre
Sem memória, sem músculo, sem nada
Além de uma cadeira de balanço
No infinito vazio... o sofrimento
Amordaçou-te a boca de amargura
E esbofeteou-te palidez na cara.
Ergues nos braços uma imagem pura
E não teu filho; jogas para cima
Um bocado de espaço e não teu filho
Não são cachos que sopras, porém cinzas
A asfixiar o ar onde respiras.
Teu filho é morto; talvez fosse um dia
A pomba predileta, a glória, a messe
O teu porvir de pai; mas novo e tenro
Anjo, levou-o a morte com cuidado
De vê-lo tão pequeno e já exausto
De penar — e eis que agora tudo é morte
Em ti, não tens mais lágrimas, e amargo
É o cuspo do cigarro em tua boca.
Mas deixa que eu te diga, homem temente
Sentado na cadeira de balanço
Eu que moro no abismo, eu que conheço
O interior da entranha das mulheres
Eu que me deito à noite com os cadáveres
E liberto as auroras do meu peito:
Teu filho não morreu! a fé te salva
Para a contemplação da sua face
Hoje tornada a pequenina estrela
Da tarde, a jovem árvore que cresce
Em tua mão: teu filho não morreu!
Uma eterna criança está nascendo
Da esperança de um mundo em liberdade.
Serão teus filhos, todos, homem justo
Iguais ao filho teu; tira a gravata
Limpa a unha suja, ergue-te, faz a barba
Vai consolar tua mulher que chora...
E que a cadeira de balanço fique
Na sala, agora viva, balançando
O balanço final do filho morto.
Leonardo Aldrovandi
no andar de um homem perdido
um reflexo de luz sem pontas acena sob as névoas de nada
na cantoneira de couro suave, um novo minério da crise
projeta sua sombra virgem no silêncio leve de uma luneta
a gota de leite de vaca na lapela do ouriço bem comportado
inerte ao passo de uma ursa menor, gerente de hotelaria
a torcida freme e reluz diante do grande olaria
responde ao cansaço de tijolo que a redime e a acusa
na pia de gotas e cascas, o hormônio do frango empapuçado
num esfregaço de mel e cúrcuma, a conselho da doce fada
e no livro de faces morenas com outros botões de proveta
badejo-de-areia e garoupa em sobraço de um novo release
alguma sabedoria dos bálsamos renova o nosso expertise
a inteligência dos grunhidos e os abajures de ouvidoria
tapiocas alagoanas, joelhos sob o vento e a prancheta
a laje do salão de dança no balanço do chapéu medusa
entre véu, pombo e lençol, raspa, concepção imaculada
onde a colheita de Pentecostes repreende o atestado
os mesmos passos vazios que acompanham um caixão lacrado
retomam o salpicar dos pés na chegada à grande marquise
sem mais o vinco da calça branca ou qualquer bandeira alada
alguma matriz reformada que o sopro de Aelius alivia
no leme invisível do mangue que ora se usa e desusa
sargo de beiço aprumado com lábios largos cor violeta
sempre a doce imagem, do cancro ao lírio e à buceta
moletom mais lycra na água fluvial do abotoado
tanga de cinzas no céu blefado da vinha lusa
mais baunilha, menos tanino, à sombra do porta-valise
lampião da noitada vendendo joelhos em disritmia
e a nau feita em cuspe no museu atual da jangada
como esfiapar o pé-de-moleque, forma referendada
invadindo o rastro da festa em algum sacomã mais careta
embalando na forma adequada e sem qualquer covardia
as novas receitas mineiras com vinagre e pão recheado
será a tua confissão das letras apenas um seriado em reprise
nos pântanos menos circulados por vaca escovada e intrusa?
Num monte bem verde, o sonho de mais outra vida reclusa
recoberto de lordoses imaginadas da longa e triste remada
e na base do sinal de cão-bravo, pão, mel, gim, mazarize
Marcelo Montenegro
Joseph Mitchell
a torneira do chuveiro
como quem ausculta
o segredo de um cofre.
Como diria Herberto Helder,
do“nosso dardo atirado
ao bicho que atravessa o mundo”.
Falo de um músico
cuja maior virtude
está nas notas que não toca.
Dos filmes que não se privam
dos tempos mortos.
Sim: falo de entregar o ouro.
De alguma espécie
de alvenaria efêmera.
Das narrativas que iluminam
o que deixaram de fora.
António Ramos Rosa
Deixar Sem Caminho Até Ao Alcance
de não querer possuir
à deriva do silêncio
na súbita tranquilidade do vazio
em que a abertura nos abre e nos sustém.
Manuel António Pina
Palavras
Palavras perpetradas em silêncio
na cama, lugar de assassinos.
Escondo-me para morrer. Nenhuma lógica é mais mortal
que esta estúpida perversão, esta morte.
Estúpidos lençóis; escrita de
corpos grosseiros; crimes passionais.
Falta-me uma palavra essencial,
um som perverso para morrer; um sonho.
Contraem-se os músculos na vigília.
Preciso do sono e do movimento dos corpos
para dirigir devidamente o pequeno crime
da tua morte. Agora calo-me um pouco.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 27 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Se falo
Se falo falta-me um
silêncio rápido no papel: entre as pernas.
Oh, nesse lugar me comovo! Perverso percurso
do corpo, aqui é a cama, o congresso.
Venais movimentos do corpo na cama; o peso.
Eu falo de mais. Não tenho palavras para isto.
Breve morte que sobre o coração
páras tua mortal perversão, a tua morte,
falta-me subitamente com a tua
mão e que eu morra como um corpo
dentro do coração da luz do silêncio
que me cale que não viva nem esteja morto.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 28 | Assírio & Alvim, 2012
António Ramos Rosa
Vem Secretamente Aberta
para nascer no sedento repouso
de estar sentindo o sabor do ilimite
tão simplesmente côncava no rumor
que germina em palavras silenciosas.
Manuel António Pina
Passagem
Com que palavras ou que lábios
é possível estar assim tão perto do fogo,
e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,
tão sem peso por cima do pensamento?
Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,
e não só uma voz de ninguém.
Onde, porém? Em que lugares reais,
tão perto que as palvras são de mais?
Agora que os deuses partiram,
e estamos, se possível, ainda mais sós,
sem forma e vazios, inocentes de nós,
como diremos ainda margens e como diremos rios?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 378 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
Uma palidez de alma
em formação - e do centro se desprende ile-
gível luz. Com as mãos rasgo o limite, também
eu entro na oca circunferência onde a lira
doente tocou o ocaso.
O silêncio substitui a exuberante vegetação
das vozes. Amortalha o horizote um crepúsculo
de risos. Entre sombras, vagueia ainda o corpo
opaco do mudo mensageiro, cujo regresso saudei
da submarina folhagem.
Na lenta enumeração os meus olhos se fixam.
Do acaso a distante música os atinge; rodam
suspensos da cavidade do rosto. Um jorro
branco irrompe o som,
e da ferida aberta os lábios omitem o verso.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 20 | Na regra do jogo, 1982
António Ramos Rosa
Imobilidade
a água o horizonte imóvel
repousa o tempo a beleza luz e água
Muitas árvores estremecem num torvelinho suave
Cessaram os nomes ou petrificaram-se
Estamos onde estamos onde
a luz se despenha
entre gretas de pedra
Afluem coisas mínimas pelo espaço diáfano
Dizer o repouso do silêncio Atingir
a simplicidade das coisas no silêncio
Este contacto com o mundo é a aliança
Verdade e erro uma verdade apenas
que se desnuda e se abre e abre
Ar na total vacuidade livre
Em pleno dia somos noite e água
Este é o domínio da água e da folhagem
onde todo o segredo é abertura viva
António Ramos Rosa
No Centro do Mundo
presença suficiente do ínfimo e do amplo
No centro do tempo não há tempo
Tranquilidade para ir ao encontro de
Estou dentro estou aberto habito
um limpo rosto de desconhecida frescura
Ramagens dispersão de nuvens indícios ténues
Sou uma linguagem límpida com o vento
Bebo nas múltiplas nascentes
do espaço puro
Acendo-me e apago-me e é a claridade que muda
Tranquilidade da folhagem crepitação de brasas
Durmo silencioso e mais desperto do que nunca
Sou o ar que se dissipa no ar
Como me perdi quem sou as interrogações cessaram
Estou dentro e fora na densidade subtil
Não há aqui imagens extravagantes rumores estranhos
Tudo se desenrola na lúcida amplitude tranquila
As palavras sucedem-se como vagarosas nuvens
O dia é límpido e lê-se como um livro aberto
António Ramos Rosa
A Esfera Unificada
cordial suave a cor das árvores
todas as estruturas simplificadas ébrias
o silêncio mais denso e subtil
já sem fronteiras vasto rio tranquilo através de tudo
momento de permanência imponderável
avanço sobre praias de reminiscências subtílimas
sentidos radiantes
profundo despertar em calma limpidez
abertura tão longa e verde
as palavras dizem finalmente as legendas do longínquo
por toda a parte frémitos florescências
as superfícies serenas respondem
uma outra orientação mais ligeira mais livre
libertou-me da névoa habitual
os cimos emergem
vacuidade residência na vacuidade
em tudo a entrega à palpitação esquecida
quanta coisa eliminada elidida
pelo esplendor da esfera unificada
António Ramos Rosa
O Lugar
ímpeto redondo livremente circulando
aqui nas pedras e na língua e nos olhos
música do espaço terrível e feliz
perfeita confiança que se eleva em chamas
Tudo é liso tudo é vazio ou lúcido
Nenhuma agitação distrai a imóvel luz
O teu nome silencioso encanta-me os ouvidos
Vibram ao vento as surpresas simples
Estamos no lugar que não é uma miragem
O jardim junto à torre a claridade azul
A água treme no umbigo de uma pedra
Entramos na imobilidade de uma melodia nua.
António Ramos Rosa
Mediadora de Estar
a torrente da pedra abandonada.
Ressonância da luz, do bulício
longínquo do sangue. As armas nuas.
Áreas cintilantes das gramíneas
nocturnas. O veludo de um pássaro
na folhagem. O longo mutismo
das cores. Ritmo, repouso,
espaços limpos. Lucidez
de vidro. Densidade branca
do silêncio. Nomes, dedos,
clareira do sossego sem miragem.
Imóvel o poder que não cintila
no ar depurado: ócio, princípio puro,
murmúrios de arvoredos e águas vivas,
lúcida nudez de embriagada vida.
António Ramos Rosa
Uma Frase
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.