Poemas neste tema

Serenidade e Paz Interior

Juan Ramón Jiménez

Juan Ramón Jiménez

Álamo blanco

Arriba canta el pájaro
y abajo canta el agua.

(Arriba y abajo,
se me abre el alma).

¡Entre dos melodías,
la columna de plata!

Hoja, pájaro, estrella;
baja flor, raíz, agua.

¡Entre dos conmociones,
la columna de plata!

(¡Y tú, tronco ideal,
entre mi alma y mi alma!)

Mece a la estrella el trino,
la onda a la flor baja.

(Abajo y arriba,
me tiembla el alma).

 

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quero dos deuses só que me não lembrem.

Quero dos deuses só que me não lembrem.
Serei livre — sem dita nem desdita,
Como o vento que é a vida
Do ar que não é nada.
O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,
Cada um com seu modo, nos oprimem.
A quem deuses concedem
Nada, tem liberdade.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Hoje de manhã saí muito cedo,

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e assim quero que possa ser sempre –
Vou onde o vento me leva e não me sinto pensar.


13/06/1930
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aos deuses peço só que me concedam

Aos deuses peço só que me concedam
O nada lhes pedir. A dita é um jugo
E o ser feliz oprime
Porque é um certo estado.
Não quieto nem inquieto meu ser calmo
Quero erguer alto acima de onde os homens
Têm prazer ou dores.

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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Noitinha

A noite sobre nós se debruçou...
Minha alma ajoelha, põe as mãos e ora!
O luar, pelas colinas, nesta hora,
É água dum gomil que se entornou...

Não sei quem tanta pérola espalhou!
Murmura alguém pelas quebradas fora...
Flores do campo, humildes, mesmo agora,
A noite, os olhos brandos, lhes fechou...

Fumo beijando o colmo dos casais...
Serenidade idílica de fontes,
E a voz dos rouxinóis nos salgueirais...

Tranquilidade... calma... anoitecer...
Num êxtase, eu escuto pelos montes
O coração das pedras a bater...
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Fontes

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
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Cláudio Manuel da Costa

Cláudio Manuel da Costa

V (Sonetos) [Se sou pobre pastor, se não governo

Se sou pobre pastor, se não governo
Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes;
Se em frio, calma, e chuvas inclementes
Passo o verão, outono, estio, inverno;

Nem por isso trocara o abrigo terno
Desta choça, em que vivo, coas enchentes
Dessa grande fortuna: assaz presentes
Tenho as paixões desse tormento eterno,

Adorar as traições, amar o engano,
Ouvir dos lastimosos o gemido,
Passar aflito o dia, o mês, e o ano;

Seja embora prazer; que a meu ouvido
Soa melhor a voz do desengano,
Que da torpe lisonja o infame ruído.


Publicado no livro Obras (1768).

In: COSTA, Cláudio Manuel da. Obras. Introd. cronol. e bibliogr. Antônio Soares Amora. Lisboa: Bertrand, 1959. (Obras primas da língua portuguesa
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Hélio Pellegrino

Hélio Pellegrino

Mar Alto

Esta água é todas as águas,
sem porto, nome ou naufrágio.
Rendada de espuma ao vento,
sem dor nem contentamento.

Esta água — lugar nenhum —
é perdição sem loucura.
Nela se dissolvem mágoa,
memória, tempo, aventura.

Sem lei nem rei, sem fronteiras,
além de verbo e silêncio,
esta é a pátria procurada:
incêndio de tudo — nada.

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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Um sossego mais largo

Um sossego mais largo
Que o esquecimento dos homens
Me seja a morte
Como um veleiro abandonado
No silêncio do mar;
Como, antes do Tempo,
Como, depois do Tempo,
O não haver ninguém para o contar

Como não ter existido
Me seja a morte!
Mas não já

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Adélia Prado

Adélia Prado

Tão Bom Aqui

Me escondo no porão
para melhor aproveitar o dia
e seu plantel de cigarras.
Entrei aqui pra rezar,
agradecer a Deus este conforto gigante.
Meu corpo velho descansa regalado,
tenho sono e posso dormir,
tendo comido e bebido sem pagar.
O dia lá fora é quente,
a água na bilha é fresca,
acredito que sugestiono elétrons.
Eu só quero saber do microcosmo,
o de tanta realidade que nem há.
Na partícula visível de poeira
em onda invisível dança a luz.
Ao cheiro do café minhas narinas vibram,
alguém vai me chamar.
Responderei amorosa,
refeita de sono bom.
Fora que alguém me ama,
eu nada sei de mim.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mulher Andando Nua Pela Casa

Mulher andando nua pela casa
envolve a gente de tamanha paz.
Não é nudez datada, provocante.
É um andar vestida de nudez,
inocência de irmã e copo d’água.

O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.

Pelos que fascinavam não perturbam.
Seios, nádegas (tácito armistício)
repousam de guerra. Também eu repouso.
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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Acordes gastos

Acordes gastos
De velhos cantos
Doutras deidades,
Riem, nefastos
Das novidades.

Zombam?... Quem sabe
Qual o sentido,
Oculto ou expresso,
Que tem a Esfinge?
Ai quantas vezes
O riso rido
É dor que finge
Ter-se sorrido;
Ou azedume
De ser excedido.

Talvez apenas
Serenidade;
Olhos que fitem,
Desnecessários,
A eternidade.

Nós é que, toscos
De ter sentido
Sua atentatória
Supremacia,
Nos esquecemos
Que os Deuses mortos
Não têm memória
Nem simpatia.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ali, Então

Ali então em pleno mundo antigo
À sombra do cipreste e da videira
Olhando o longo tremular do mar
Num silêncio de luas e de trigo

(Como se a morte a dor o tempo e a sorte
Não nos tivessem nunca acontecido)

Em nossas mãos a pausa há-de poisar
Como o luar que poisa nas videiras
E em frente ao longo tremular do mar
Num perfume de vinho e de roseiras
A sombra da videira há-de poisar
Em nossas mãos e havemos de habitar
O silêncio das luas e do trigo
No instante ameaçado e prometido

E os poemas serão o próprio ar
— Canto do ser inteiro e reunido —
Tudo será tão próximo do mar
Como o primeiro dia conhecido
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dia

Mergulho no dia como em mar ou seda
Dia passado comigo e com a casa
Perpassa pelo ar um gesto de asa
Apesar de tanta dor e tanta perda
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João Marcio Furtado Costa

João Marcio Furtado Costa

Cromoterapia

Cromoterapia

(06/96)

Do vermelho, a mensagem: pare!
Puro paradoxo!
Me excita a boca sensual,
e sigo.

Do branco, as vestes da paz.
Pura coerência!
Mistura de todas as cores,
um dia...

Do rosa , fêz-se a Rosa.
Pura beleza!
Da cor, a flor. Minha irmã,
que adoro.

Do preto, diz-se ausência.
Puro preconceito!
Na noite se vive a vida,
marco presença.

Do verde, a essência: natureza.
Pura ecologia!
Matéria prima da preservação: o homem,
maduro.

Do amarelo, pinta-se o pálido.
Puro despeito!
Oriente, tua cabeça é guia,
e força.

Do azul, o céu, a glória.
Puro pleonasmo!
Teu nome reflete as estrelas,
Cruzeiro.

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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Llaneza

A Haydée Lange

Se abre la verja del jardín
con la docilidad de la página
que una frecuente devoción interroga
y adentro las miradas
no precisan fijarse en los objetos
que ya están cabalmente en la memoria.

Conozco las costumbres y las almas
y ese dialecto de alusiones
que toda agrupación humana va urdiendo.
No necesito hablar
ni mentir privilegios;
bien me conocen quienes aquí me rodean,
bien saben mis congojas y mi flaqueza.
Eso es alcanzar lo más alto,
lo que tal vez nos dará el Cielo:
no admiraciones ni victorias
sino sencillamente ser admitidos
como parte de una Realidad innegable,
como las piedras y los árboles.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 45 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Cláudio Manuel da Costa

Cláudio Manuel da Costa

LXIII (Sonetos) [Já me enfado de ouvir este alarido

Já me enfado de ouvir este alarido,
Com que se engana o mundo em seu cuidado;
Quero ver entre as peles, e o cajado,
Se melhora a fortuna de partido.

Canse embora a lisonja ao que ferido
Da enganosa esperança anda magoado;
Que eu tenho de acolher-me sempre ao lado
Do velho desengano apercebido.

Aquele adore as roupas de alto preço,
Um siga a ostentação, outro a vaidade;
Todos se enganam com igual excesso.

Eu não chamo a isto já felicidade:
Ao campo me recolho, e reconheço,
Que não há maior bem, que a soledade.


Publicado no livro Obras (1768).

In: COSTA, Cláudio Manuel da. Obras. Introd. cronol. e bibliogr. Antônio Soares Amora. Lisboa: Bertrand, 1959. (Obras primas da língua portuguesa
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Manhã

Na manhã recta e branca do terraço
Em vão busquei meu pranto e minha sombra
*

O perfume do orégão habita rente ao muro
Conivente da seda e da serpente
*

No meio-dia da praia o sol dá-me
Pupilas de água mãos de areia pura
*

A luz me liga ao mar como a meu rosto
Nem a linha das águas me divide
*

Mergulho até meu coração de gruta
Rouco de silêncio e roxa treva
*

O promontório sagra a claridade
A luz deserta e limpa me reúne
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Luar

Toma-me ó noite em teus jardins suspensos
Em teus pátios de luar e de silêncio
Em teus adros de vento e de vazio.

Noite
Bagdad debruçada no teu rio
País dos brilhos e do esquecimento
Com teu rumor de cedros e teu lento
Círculo azul do tempo.
2 938 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando está frio

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das coisas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno –
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar –
No facto subtilmente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da serra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência.
Nunca ao defeito de exigir do mundo
Que fosse qualquer coisa que não fosse o mundo.


24/10/1917
2 612 1
Ruy Cinatti

Ruy Cinatti

Vigília

Paralelamente sigo dois caminhos
Abstrato na visão de um céu profundo.
Nem um nem outro me serve, nem aquele
Destino que se insinua
Com voz semelhante à minha. O melhor mundo
Está por descobrir. Não seque a lua
Nem o perfil da proa. Vai direito
Ao vago, incerto, misterioso
Bater das velas sinalado de oculto.

Quero-me mais dentro de mim, mais desumano
Em comunhão suprema, surto e alado
Nas aragens noturnas que desdobram as vagas,
Chamam dorsos de peixe à tona de água
E precipitam asas na esteira de luz.
Da vida nada senão a melhoria
De um paraíso sonhado e procurado
Com ternura, coragem e espírito sereno.

Doçura luminosa de um olhar. Ameno
Brincar de almas verticais em pleno
Sol de alvorada que descerra as pálpebras.

2 478 1
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Evadir-Me, Esquecer-Me, Regressar

Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
2 157 1
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dia

Como um oásis branco era o meu dia
Nele secretamente eu navegava
Unicamente o vento me seguia.
2 053 1
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Instante

Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio
2 402 1